Negros na universidade em contexto de ações afirmativas: ressignificando memórias, construindo identidades

Andrea Bayerl Mongim, Luana Ribeiro da Trindade

Resumo


Neste estudo buscamos analisar resultados parciais de uma pesquisa etnográfica que vem sendo desenvolvida com estudantes que ingressaram na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mediante sistema de reserva de vagas e autoidentificados como pardos e pretos. Passamos a considerar, a partir deste ponto, pretos e pardos como negros, conforme nomenclatura que vem sendo adotada, como observa Gomes (2011), pelo Movimento Negro e por intelectuais que, ao analisarem a situação do negro brasileiro, agregam as categorias raciais “preto” e “pardo”, entendendo-as como expressão do conjunto da população negra no Brasil.

                             A investigação constitui-se em contexto no qual o processo de ampliação das oportunidades de acesso ao ensino superior, no Brasil, tem se constituído em problemática política, merecendo destaque a implementação de políticas de ação afirmativa. Vale ressaltar que, no Brasil, os recentes programas de ações afirmativas têm sido implantados como resultado de expressivas lutas sociais, cujos principais protagonistas são integrantes de diferentes núcleos do Movimento Negro. Ademais, conforme destacam autores como Oliveira (2012) e Gomes (2011), o direito à educação sempre atraiu a atenção de agentes afiliados ao Movimento Negro, tornando-se forte bandeira de luta ainda no século XX.

                         Apesar de ainda serem poucos os estudantes negros que conseguem ter acesso ao ensino superior, a implementação de políticas de ação afirmativa, expressas em programas de reserva de vagas em instituições de ensino superior (IES) públicas e de bolsas em IES privadas, tem promovido um gradual aumento de estudantes negros na universidade. Notícia do Portal Brasil, publicada em março/2016, mostra que 50.937 jovens negros ingressaram no ensino superior em 2013 e no ano de 2014, 60.731 vagas foram preenchidas. Produções acadêmicas relativas a esse contexto têm sido constituídas, em grande parte dos casos, por pesquisas de caráter quantitativo e bibliográfico, secundarizando análises que dizem mais diretamente respeito ao processo de ressignificação da memória e constituição da identidade do estudante negro.

                        Com base em tal constatação, neste estudo assumimos como proposta analisar o processo de (re)construção da identidade de estudantes universitários cotistas que se autoidentificam como negros, considerando as inter-relações sociais que se estabelecem a partir do ingresso na universidade.                                   

                         Partimos da concepção voltada para a memória social como lugar de grande importância na vida das pessoas, tendo em vista que é ela quem assegura a nossa identidade, faz com que o individuo dê sentido ao seu mundo e o situa nas suas indagações sobre quem ele é. Ao mesmo tempo o orienta em sua relação com os grupos dos quais deseja se aproximar e pertencer. O processo de ressignificação da memória é fundamental para a constituição da identidade étnico-racial. Do ponto de vista metodológico, a história de vida, apresentou-se como método mais apropriado para o estudo, a partir do qual buscamos compreender as trajetórias sociais de cinco estudantes universitários autoidentificados com negros.

 

GOMES, Nilma Lino. Diversidade étnico-racial, inclusão e equidade na educação brasileira: desafios, políticas e práticas. Revista Brasileira de Política e Administração da Educação, v. 27, n. 1, 2011.

 

HERINGER, R; FERREIRA, R. Análise das principais políticas de inclusão de estudantes negros no ensino superior no Brasil no período 2001-2008. In: PAULA, Marilene de; HERINGER, Rosana (Org.). Caminhos convergentes: estado e sociedade na superação das desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Heinrich Böll Stiftung, 2009. p. 137-196.

 

OLIVEIRA, L. F. História da África e dos africanos na escola: desafios políticos, epistemológicos e identitários para a formação dos professores de História. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2012.

 

PORTAL BRASIL. Em 3 anos, 150 mil negros ingressaram em universidades por meio de cotas. Cidadania e Justiça. Março/2016. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2016/03/em-3-anos-150-mil-negros-ingressaram-em-universidades-por-meio-de-cotas>. Acesso em: 25 jan. 2017. 


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