Formação profissional em serviço social e as discussões de gênero

Hayanne Alves de Lima, Ana Samilly Alexandre Moreira

Resumo


O debate acerca da categoria gênero se inicia no Serviço Social na década de 1990, paralelo à construção de um novo projeto profissional e vem sendo difundido até os dias atuais, já que assume papel central no desvelamento da realidade social. Neste estudo nos atentaremos ao debate de gênero e suas incidências na formação profissional em Serviço Social, pretendendo dessa forma refletir sobre as relações de dominação/exploração que permeiam a sociedade capitalista.

Nos propusemos a investigar de que forma as discussões de gênero fomentadas na formação profissional em Serviço Social no IFCE – Campus Iguatu incidem no cotidiano das mulheres estudantes, já que o curso mencionado é historicamente constituído em sua maioria por mulheres[1] e que estão inseridas em uma sociabilidade capitalista marcada pelo machismo e pelo patriarcado.

Tais elementos nos levam a compreender a constituição das relações sociais presentes no modo de produção capitalista, a constituição da profissão e o direcionamento dado à ela, sobretudo a partir dos últimos anos a partir do posicionamento ético-político hegemônico dado pela categoria que aponta para a defesa intransigente dos direitos da pessoa humana e pelo combate de toda forma de dominação, opressão e preconceito. Entendemos a importância desse debate já que a formação nos prepara para o exercício profissional, e neste, o assistente social lidará com as mais variadas expressões da “questão social”[2], sendo as problemáticas de gênero constitutivas desse processo.

Para além de ser uma profissão constituída de maneira predominante por mulheres, desde sua gênese aos dias atuais, o Serviço Social está inserido na divisão social e técnica do trabalho e ocupa lugar central na viabilização da garantia de direitos a partir das políticas sociais. Sobre estas, é sabido que em grande maioria possui como público usuário a população feminina. Em uma pesquisa realizada pela ONU em 2014 pode-se constatar que, as mulheres foram as principais beneficiárias das políticas sociais para a redução da pobreza no Brasil nos últimos anos.

Um elemento preponderante para nossa pesquisa é a realidade do IFCE Campus Iguatu, lócus da nossa investigação, onde o curso de Serviço Social é composto em sua maioria por mulheres. Segundo o Relatório do Departamento de Registro Acadêmico realizado no período letivo 2017.2, de um total de 183 alunos, 112 são do sexo feminino. No que diz respeito à formação, o debate de gênero se apresenta na maioria das disciplinas, porém de forma transversal, tomando centralidade na disciplina de Relações de Gênero, Classe e Raça/etnia, ministrada no sexto semestre. Outro dado expressivo se mostra ao analisarmos o quadro docente do curso em questão, onde, dos 8 professores efetivos todas são mulheres.

O procedimento metodológico que nos propusemos a utilizar para essa pesquisa será a pesquisa qualitativa, por compreendermos que ela nos proporcionará uma interlocução direta com as mulheres entrevistadas. Nesse sentido, tendo como objetivo geral para tal investigação analisar as contribuições do debate de gênero na formação em Serviço Social para as mulheres estudantes, nortearemos nosso percurso metodológico a partir do materialismo histórico-dialético, por entendermos que esse processo é parte de uma estrutura maior, uma realidade em constante transformação e que o conhecimento de um objeto perpassa por todas as suas determinações.

O debate de gênero associado a formação profissional, entretanto, ainda é uma temática pouco explorada, fazendo com que essa pesquisa possa contribuir para estudos posteriores, além de possíveis reflexões no campo da relação entre formação profissional, exercício e reprodução das relações sociais no âmbito de uma sociedade marcada pelo patriarcado.


[1] Essa predominância de mulheres no Serviço Social o acompanha desde a sua gênese até os dias atuais, em virtude da perspectiva conservadora que por muito tempo conduziu a profissão, onde, o perfil ideal de Assistentes Sociais requisitaria das mulheres suas habilidades tidas como “natas” de cuidado e ajuda.

 

[2] O termo “questão social” se refere ao conjunto de desigualdades sócias inerentes ao desenvolvimento capitalista, como aponta Netto (2000) o uso das aspas denota que o termo “questão social” no seu sentido semântico não é unívoca, possui várias compreensões.


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