Movimento estudantil: propostas alternativas de organização frente à política partidarizada

Carina Tavares Ribeiro Barbosa, Raissa Pimentel Costa

Resumo


O movimento estudantil vem expressando, desde a década de 1980, diferentes propostas de organização política pelo surgimento de novos atores que redefinem os sentidos da mobilização coletiva. Buscando compreende-los, intenta-se analisar as novas dinâmicas da “sociabilidade militante[1]”, que durante a investigação de caráter teórico-interpretativo das principais pesquisas acadêmicas realizadas na área, são referidas, por alguns autores, como causa de uma inflexão ou debilidade da capacidade mobilizadora massiva do movimento estudantil após os anos 60 e 70. Percebe-se, não obstante, uma tendência em descrever as mudanças pelas quais vem passando o movimento estudantil como determinantes da perda de protagonismo político deste movimento, ignorando o caráter dinâmico do fenômeno e negativando o potencial subversivo das disputas e tensões entre formas instituídas de participação que mitigam a autonomia do movimento e as possibilidades instituintes.

Em contexto de maior repressão e perseguição política acirrada pelo decreto do ato constitucional número 5, a interferência dos partidos políticos no movimento estudantil deu condições de possibilidade para a continuação das atividades políticas do movimento mesmo que de forma clandestina. Os partidos, por outro lado, também viram o movimento estudantil como forma de sobrevivência política, mediante o regime vigente, como elucida Cancian:

As tendências estudantis eram consideradas, mais propriamente, as “faces legais” dos grupos, organizações e partidos políticos de esquerda clandestinos. Para sobreviverem na conjuntura de repressão política, as tendências estudantis adotaram denominações distintas com a finalidade de evitar que transparecessem publicamente agremiações políticas clandestinas que as representavam (CANCIAN, 2014, p. 207).

 

A criação das tendências, como destaca Mesquita (2006) diversificou e impulsionou a criação de novas frentes no movimento estudantil, influindo nas estratégias de organização e ampliando o debate acerca dos sentidos das ações coletivas do movimento, pela influencia de diversas vertentes ideológicas sobre as quais os partidos políticos se posicionavam.

No entanto, logo as frentes estudantis passaram por um intenso processo de aparelhamento impetrado pelos partidos políticos que consolidaram um modo de fazer política, centralizado, priorizando a disputa de poder e espaço no interior do movimento e secundarizando as demandas estudantis. Tal política mitigou a autonomia dos estudantes e ceifou as possibilidades criativas de ação e organização. Sendo incompatível com o surgimento de novos atores sociais no final da década de 1980, desencadeando uma crise de representatividade e ocasionando uma desarticulação nociva ao potencial combativo do movimento.

Nesse sentido, a assertiva de que o movimento estudantil passou por uma desarticulação e perda de sua capacidade mobilizadora acontece devido o engessamento e insistência de perpetuação da política centralizada dos partidos e não pelo surgimento de novas pautas e vozes que vem disputando e ganhando espaços de enunciação, propondo formas de atuação mais condizentes com as necessidades estratégicas do movimento e questionando as dinâmicas de poder hegemônico institucionalizadas.


[1] Mesquita (2003).


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