A dinâmica da desigualdade: violência contra a classe oprimida nos semanários Maranhenses

Luís Flávio Coelho Gonçalves, Paula Roberta Coutinho Rodrigues

Resumo


As questões que dominam a atenção dos seres humanos se alteram na história em conformidade com as relações instituídas, geralmente em concorrência com as mudanças da sociedade, da cultura, da política e da economia. Nesse contexto, a violência ou a concepção de atos violentos, se faz bastante ampla. Não obstante, a violência é decorrente de um processo histórico que resultou em uma "pacificação" da sociedade. Esse processo ocorreu em grande parte pela segregação e, ao mesmo tempo, “autocontenção” dos indivíduos, dando ao Estado o controle do exercício da violência, por intermédio das polícias, da justiça e de outros aparelhos de repressão. 

Nesse artigo, o objetivo central é refletir sobre a violência “posta à venda” por jornais, subprodutos dos grandes semanários maranhenses, visando atingir um público “leitor-consumidor”, esse, vitimado por essa mesma violência. Identifica-se que a dinâmica de imposição das classes dominantes “esmaga” os mais pobres, uma vez que a política nesse país se faz pela via prussiana ou passiva (COUTINHO, 2006). Tendo em vista que o Estado não garante conciliação/pacificação.

Como o Estado nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de classes, do próprio conflito dessa classe resulta, em principio, que o Estado é sempre o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante que, também graças a ela, se torna a classe politicamente dominante e adquire, assim, novos meios de oprimir e explorar a classe dominada (LENIN, 2007, p. 32). 

 

No Brasil, a ideologia de um país alegre e democrático, de cor verde-amarela, forjou uma sociedade que apela para a ideia de comunidade (CHAUÍ, 2014), escondendo a contradição dos interesses particulares/individuais de suas elites. Todo esse processo leva à degradação da maioria submetida historicamente a uma vida em que não consegue suprir as suas necessidades básicas. O modo como se apreende as relações constitutivas da relação Estado/sistema do capital/violência reflete, na atualidade, o estado deletério pelo qual o homem se constituiu mercadoria, em um sistema de coisificação do ser social, conforme Santos (2015, p.56). Em síntese, isso se transformou numa perversidade sistêmica e, dessa forma, os mais pobres, consequentemente as "classes perigosas" (GUIMARÃES, 1981), tendem a atos criminosos de violência mais direta. E, nesse contexto, a espetacularização da violência banaliza e destrói a noção de Ser, pois o ato demonstrativo e explícito da violência, difundido por meio das mídias de massa, deixa a violência tão cotidiana e tão perto da pobreza que acabamos por nos "acostumar" com ela.

São Luís, no Maranhão, é apenas um exemplo da realidade mais ampla acerca da violência difundida como notícia cotidiana pela grande mídia. Por meio de seus “jornais populares”, voltados ao público leitor de baixa renda, a preços relativamente iguais à qualidade ou perversidade com que são expostas a tragédia da periferia urbana que vitima mulheres, negros, pobres e tantos outros excluídos. Esse mercado da violência se apresenta nos "jornais populares" de São Luís (Aqui MA e Itaqui Bacanga) configurando-se a explicita banalização e espetacularização da violência.

Pode-se dizer que a notícia forja a opinião, o que se pensa acerca do mundo, influencia o agir nele e vice-versa. Assim, os "jornais populares", aqui exemplificados, não fogem a essa regra, pois a violência nas periferias é vendida pelos jornais como oriundas do jovem, pobre, negro, morador de favela, da periferia, reafirmando que esses atributos definem o que é certo ou errado nesse processo de violência. 

Nesse sentido, pode-se afirmar que a grande mídia, especialmente nos dias atuais, representa um dos principais pilares de sustentação das classes hegemônicas, pois não existe o real comprometimento com a veracidade das notícias ou com os fatos relatados, uma vez que molda os fatos de acordo com seus interesses particulares de classe. O que se extrai daqueles "jornais populares" é um discurso banal do senso comum, a controlar toda informação “verídica” e importante para o mercado. A notícia é manipulada para vender "jornais", que mais se configuram como obituários. Assim, a violência retratada nos semanários de São Luís é apenas uma das faces da perversidade das relações constitutivas do sistema do capital.


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