O homem cordial: modernização do Brasil e homossociabilidade

Leandro Lechakoski, Míriam Adelman

Resumo


Resumo: O presente trabalho pretende discutir, através da obra “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda (1936), a relação entre o processo de modernização do Brasil e a produção da homossociabilidade. No pensamento social brasileiro, em geral, existe uma grande lacuna constituída pela escassez de estudos realizados por uma lente de gênero. Como tem apontado alguns estudos sobre a modernidade, os processos que instauram a modernidade - significada, a sua vez, através da noção de “grande ruptura com o passado” - adquirem um caráter generificado (masculino). Entretanto, no Brasil cabe uma dúvida particular sobre a questão da “ruptura”, pois prevalecem estruturas fortes de conservadorismo e tradicionalismo. O sistema patriarcalista se mantém, pois a velha organização rural dá espaço à nova organização capitalista industrial, que está intimamente ligada a esse sistema. Essa constituição patriarcalista reflete-se na nossa política, que conserva traços personalistas e muitas vezes aristocráticos. Nesse sentido, a sociedade brasileira parece resistir a certos padrões tidos como a quintessência do moderno, retendo um personalismo conservador, que de certa forma é reflexo do sistema patriarcalista. Acreditamos que a noção de homem cordial, proposta para entender especificidades da cultura e da sociabilidade brasileiras, pode ser útil, mas precisa ser re-pensada, no sentido de suporte de formas de desigualdade social encobertas e entre estas, da dominação masculina – na medida em que fomenta uma sociabilidade masculina pública que afirma e promove (talvez de maneira sub-reptícia) a exclusão das mulheres da cena pública. A metáfora da cordialidade, quando não examinada com maior cuidado, torna-se uma máscara que oculta às várias contradições que permeiam a cultura brasileira, e os mais reconhecidos trabalhos do pensamento social brasileiro (VIANNA, 1920; FREYRE, 1933; CARDOSO, 1962; IANNI, 1962; FERNANDES, 1964) tornam-se cúmplices disto, na medida em que negam a relação que mantém com a dominação masculina e com a construção de masculinidades de diversos tipos (hegemônicas, subordinadas) assim como com toda a história de gênero que também faz parte da “invenção da nação” brasileira.


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