Polifasia cognitiva nas representações sociais do alcoolismo

  • Luiz Gustavo Silva Souza Universidade Federal Fluminense
  • Maria Cristina Smith Menandro Universidade Federal do Espírito Santo
  • Paulo Rogério Meira Menandro Universidade Federal do Espírito Santo

Resumo

RESUMO: Diferentes racionalidades agem na construção de representações sociais, por meio do processo de polifasia cognitiva. Parte-se da hipótese de que profissionais de saúde não se restringem ao saber técnico-científico ao construir suas representações. Esta pesquisa teve o objetivo de compreender as representações sociais do alcoolismo construídas por profissionais de Saúde da Família, em especial a dimensão da polifasia cognitiva. Participaram 40 profissionais, recrutados igualmente quanto a gênero e profissão (médicos e não-médicos). Eles responderam a entrevistas semiestruturadas e os dados foram analisados com Classificação Hierárquica Descendente com auxílio do software ALCESTE. Os resultados mostram que o alcoolismo foi representado simultaneamente como 1) doença multifatorial a ser tratada de forma integral: as causas são conhecidas e a equipe de saúde deve adotar procedimentos técnicos multiprofissionais; e 2) como problema social, relacionado à pobreza das comunidades, a ser tratado com os (poucos) recursos disponíveis e com força de vontade: as causas são obscuras, o alcoolista não recebe cuidados, há motivações contraditórias entre usuários e profissionais, o tratamento depende da força de vontade e de recursos alheios. Discute-se a presença de crenças que associam o alcoolismo à pobreza. Os profissionais recorreram implicitamente aos universos reificado e consensual para a construção das representações sociais, caracterizando a incidência da polifasia cognitiva. São realizadas sugestões metodológicas para uso do ALCESTE: um quadro para interpretação das Classes de trechos de discurso geradas com auxílio do software e o uso dos conceitos de universo reificado e universo consensual para interpretação de seus gráficos (dendrogramas).

Palavras-chave: representação social; alcoolismo; atenção primária à saúde; polifasia cognitiva; ALCESTE.

ABSTRACT: Different rationalities participate in the construction of social representations through the process of cognitive polyphasia. We considered the hypothesis that health professionals do not use only technical-scientific knowledge to construct their representations. This research aimed at understanding the social representations of alcoholism constructed by Brazilian Family Health professionals, especially the dimension of cognitive polyphasia. Forty health professionals equally sampled by gender and profession (physicians and non-physicians) participated in this research. They answered to semi-structured interviews. We analyzed the data with the Top-down Hierarchical Classification implemented in the software ALCESTE. Results show that professionals simultaneously represented alcoholism as: 1) a multifactorial disease to be treated with a comprehensive approach, its causes are known, the health team must apply multi-professional procedures. 2) A social problem related to the poverty of communities, to be treated with the (few) available resources and with willpower. Its causes are obscure, the alcoholic patient does not receive health care, there are contradictory motivations between patients and professionals and treatment depends on willpower and non-available resources. We discuss the possible influence of cultural beliefs that associate alcoholism to poverty. Professionals implicitly considered the reified universe and the consensual universe to construct their social representations, what characterizes the influence of cognitive polyphasia. We make methodological suggestions regarding the use of the software ALCESTE: a chart for the interpretation of Classes of simple statements generated by the software and the use of the concepts of reified universe and consensual universe for the interpretation of its graphics (dendrograms).

Keywords: social representation; alcoholism; primary health care; cognitive polyphasia; ALCESTE.

 

Biografia do Autor

Luiz Gustavo Silva Souza, Universidade Federal Fluminense
Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professor do Departamento de Psicologia (CPS) da Universidade Federal Fluminense, Campos dos Goytacazes, RJ, Brasil.
Maria Cristina Smith Menandro, Universidade Federal do Espírito Santo
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFES.
Paulo Rogério Meira Menandro, Universidade Federal do Espírito Santo
Doutor em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.
Publicado
2015-12-14
Seção
Estudo Empírico