http://10.47456/argumentum.v17.2025.47276
Samba: símbolo da cultura nacional?
Samba: symbol of national
culture?
Yanne
Angelim Dias
https://orcid.org/0009-0000-8199-8826
Universidade Federal de
Sergipe (UFS), Departamento de Serviço Social, Aracaju, SE, Brasil
e-mail:
yanneufs@gmail.com
Maria
Zelma de Araújo Madeira
https://orcid.org/0000-0003-2291-4455
Universidade
Estadual do Ceará (UECE), Curso de Serviço Social, Fortaleza, CE, Brasil
e-mail:
zelmadeira@yahoo.com.br
Resumo: Este artigo traz uma discussão sobre samba considerando
suas principais acepções
apresentadas na produção acadêmica recente. Realizou-se pesquisa
bibliográfica com levantamento de produções na Biblioteca Digital de Teses e
Dissertações (BDTD) sobre o tema. A partir da pesquisa, reflete-se que o
enunciado de samba como gênero musical símbolo da cultura nacional – e não como
cultura afro-brasileira – colabora para o violento apagamento das
referências da cultura africana reinventada no Brasil a partir da diáspora e é
funcional ao mito da democracia racial no país. Destaca-se o samba como uma das
principais expressões de inventividade e resistência negra de raiz africana no
Brasil, cujas contribuições foram determinantes na conformação da sociedade
brasileira em seus aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais.
Palavras-chave: Samba. Raízes afro-brasileiras. Cultura Afro-brasileira.
Abstract:
This article discusses samba and considers it’s denotations as presented in recent academic publications.
Bibliographic research was conducted through a survey of the Digital Library of
Theses and Dissertations (Biblioteca Digital de Teses e Dissertações, BDTD) on the subject. The research indicates that the statement that
samba is a musical genre symbolic of national culture, and not of African-Brazilian culture, conspires with the violent
erasure of references to an African culture that was reinvented in Brazil by
the diaspora, and that it is functional to the myth of racial democracy in the
country. Samba stands out as one of the main expressions of inventiveness and
Black resistance of African roots in Brazil, whose contributions were decisive
in the conformation of Brazilian society in its social, economic, political,
and cultural aspects.
Keywords: Samba. African-Brazilian roots. African-Brazilian
Culture.
Neste
artigo, tomamos o samba como tema central de nossa atenção. A chamada
nacionalização do samba – para o qual, segundo Hermano Vianna (2002), em O mistério do samba, o
cenário do Rio de Janeiro exerceu centralidade – o anuncia como símbolo da
cultura nacional, música genuinamente brasileira. Com raízes
afro-brasileiras, perseguido pela polícia no início do século XX como símbolo da vadiagem, o samba passou por
transformações e, especialmente a partir do final dos anos 1930, no Rio de
Janeiro, foi utilizado na construção da noção de nacionalidade exaltada na Era
Vargas, destacando-se nesse processo o peso da urbanização, da inferência da
industrialização capitalista na música popular e do desenvolvimento da
radiodifusão no Brasil. Nessa direção, o samba se tornou amplamente divulgado
como gênero musical que expressa a brasilidade, símbolo da cultura nacional.
Nessa perspectiva de sua
acepção, é recorrente o samba ser destacado como um atrativo para
fortalecer o turismo internacional, especialmente no período do carnaval,
quando o Rio de Janeiro é destaque como cartão postal do Brasil. Reconhecido
legalmente como patrimônio cultural nacional, a Lei 14.991 de 27 de setembro de
2024 (Brasil, 2024) reconhece os modos de produção dos instrumentos musicais de samba e as
práticas a ele associadas como manifestações da cultura nacional, sendo eles:
pandeiro, cuíca, surdo, tamborim, rebolo, frigideira, tam-tam,
timba e repique de mão.
Porém, quando
falamos em samba, a que estamos nos referindo? Música? Dança? Podemos tratá-lo
no singular, tendo em vista suas várias expressões no país? Qual a relação do
samba com o que se costuma chamar de cultura nacional brasileira? Podemos
apreender o samba como um símbolo da cultura nacional? Ainda que não tenhamos
aqui a pretensão de responder a essas questões de maneira finalística, elas se
apresentam para nós como importantes inquietações que atravessam nossos estudos
sobre o tema.
Segundo o Dicionário da História Social do Samba (2022), organizado por Nei
Lopes e Luiz Antônio Simas, “[...] [n]o Brasil colonial e imperial, as várias danças de
origem africana, nas quais a umbigada era a principal característica, foram
referidas como ‘batuque’ ou ‘samba’, vocábulo de origem certamente
banto-africana” (Lopes; Simas, 2022, p. 247).
Alguns estudos sobre samba têm
se preocupado com sua historiografia, debatendo sobre suas origens e
transformações, dentre outros aspectos. Autores como Roberto Moura (2004), Nei
Lopes (2005), Marcos Napolitano e Maria Clara Wasserman (2000), Ana Maria
Rodrigues (1984) e Muniz Sodré (1998) problematizam as origens do samba. Estudos
de Muniz Sodré (1998) consideram o samba muito mais que um gênero musical,
explicitando que seus aspectos musicais estabelecem relações indissociáveis com
religiosidade e dança, características de suas raízes africanas fundamentais.
O
acesso a esses e outros estudos nos remete ao samba como expressão de complexas
relações que conformam a formação social brasileira, atravessada, entre outras
determinações essenciais, por referências da Cultura Africana recriada no
Brasil pela população negra a partir da diáspora e por seus descendentes, na
qual o samba encontra sua nascente.
Neste artigo, abordamos o samba,
expressão cultural afro-brasileira, considerando suas principais acepções
apresentadas na produção acadêmica recente. Tomar o samba como objeto de
estudos, apresentar uma sistematização do tratamento a ele conferido nas produções
teóricas recentes, trata-se, principalmente, de uma forma de dar visibilidade a
uma das principais expressões de inventividade e resistência negra de raiz
africana no Brasil, cujas contribuições foram determinantes na conformação da
sociedade brasileira em seus aspectos sociais, econômicos, políticos e
culturais.
Tal como destacou Lélia
Gonzalez, a “[...] cultura brasileira é uma cultura negra por excelência, até o
português que falamos aqui é diferente do português de Portugal. Nosso
português […] é ‘pretuguês[1]’” (Gonzalez, 2020, p. 269). Aqui a referida intelectual destaca a importante atuação
da mulher negra, “[...] a chamada mãe preta [...]” (Gonzalez, 2020, p. 269), na
conformação da cultura brasileira em suas bases, uma vez que, ao amamentar
crianças brancas e falar “[...] pretugês , [...] é ela que vai passar pro
brasileiro, de um modo geral, esse tipo de pronúncia, um modo de ser, de sentir
e de pensar” (Gonzalez, 2020, p. 269).
Nesse sentido, o samba se
apresenta como uma mediação relevante para se refletir sobre a realidade social
brasileira e suas contradições, apresentando-se como um tema relevante de
estudo também para o Serviço Social, nossa área de conhecimento e atuação profissional
central. Ainda que a produção sobre samba no Serviço Social pareça
quantitativamente restrita, temos identificado mais recentemente alguns
trabalhos que envolvem o tema, entre artigos (tais como os escritos por Aretha
Pestana, 2013; César Maranhão, 2014; Graziela Scheffer,
2016), trabalhos de conclusão de curso (a exemplo daqueles de autoria de Andressa de
Moraes, 2022; e Nery Moraes, 2023) e livros tais como aqueles organizados por
Marcelo Braz (2013) e Marcelo Braz e Luiz Leitão (2022).
Em O samba entre a “questão
social” e a questão cultural no Brasil, Marcelo Braz (2013) chama
atenção para a apreensão do samba como uma forma de criação artística, “[...]
uma modalidade de práxis pela qual os homens buscam modificar as relações
sociais que se dão entre si próprios, objetivando-se em produtos específicos,
característicos da atividade artístico-cultural” (Braz, 2013, p. 77). E,
enquanto “[...] práxis artístico-cultural é também expressão de uma ‘questão
cultural’ inserida no âmbito das relações sociais que conformam a formação
social brasileira” (Braz, 2013, p. 77). O autor destaca
que o samba é produto da formação social brasileira, num período histórico
determinado e vinculado a estratos de classe específicos e, assim, pondera que
ele “[...] exprime uma síntese dialética [...]” (Braz, 2013, p. 78) entre
“questão social” e a questão cultural no Brasil, as quais “[...] mantêm relação
de complementaridade e de determinação recíproca” (Braz, 2013, p. 78).
Assinalamos nessa relação
dialética também a questão racial que entendemos ser fundamental para apreender
quaisquer aspectos constitutivos da dinâmica da realidade brasileira e o que
nela se produziu e se produz historicamente, a exemplo do samba. Destaca-se que
o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão e, “[...] dentro da nova
institucionalidade com o pós-abolição, o jeito de tratar os ex-escravizados se
reconfigura estruturalmente sob forma de racismo” (Madeira, 2022, p. 79). Cabe
ressaltar que a abolição no Brasil não se concluiu, isto é,
[...]
não provocou mudanças profundas na estrutura fundiária, não alterando a lei de
propriedade: ao contrário, impediu avanços institucionais que deixaram lacunas
até o tempo presente na vida econômica, social, política e cultural
responsáveis pelas persistentes hierarquias raciais naturalizadas e
desigualdades engendradas pelo racismo estrutural e institucional que impede
ascensão e mobilidade dos grupos étnicos minorizados
(Madeira, 2022, p. 79).
Nessa dinâmica da sociedade brasileira marcada pelo racismo
que a estrutura, as mulheres negras são aquelas que mais sofrem o peso da
discriminação, da opressão e da exploração, das violências, expressando uma
relação indissociável entre racismo e patriarcado (Barroso, 2018). Nas palavras
de Abdias Nascimento (2016):
O
Brasil herdou de Portugal a estrutura patriarcal de família e o preço dessa
herança foi pago pela mulher negra, não só durante a escravidão. Ainda nos dias
de hoje, a mulher negra, por causa da sua condição de pobreza, ausência de
status social, e total desamparo, continua a vítima fácil, vulnerável a
qualquer agressão sexual do branco (Nascimento, 2016, p. 54).
As bases dessa formação social –
colonial-escravista-racista-patriarcal-sexista (Clóvis Moura, 1984; 1988; Beatriz
Nascimento, 2006a; 2006b; 2006c; Abdias Nascimento, 2016; Lélia Gonzalez, 2020)
– foram centrais no processo de estruturação da sociedade de classes e na
formação da classe trabalhadora no Brasil, forjando contornos particulares ao
desenvolvimento do capitalismo brasileiro dependente (Marini, 2011). Racismo e
patriarcado, estruturantes da formação social brasileira, funcionais ao
capitalismo dependente (Mauriel, 2023), seguem atualizando suas expressões,
recriando-se e operando implicações diretas na dinâmica contemporânea da luta
de classes no país.
Ao explicitar aspectos estruturais dessa sociedade, o samba
possibilita relevante debate sobre as questões social, racial e cultural
no Brasil, expressa-se, portanto, como muito mais que um gênero musical ou
dança. Mas até que ponto a acepção do samba como uma mediação tão relevante
para se refletir sobre a sociedade brasileira a partir de seus aspectos
estruturais tem comparecido nas produções acadêmicas? Como o samba é assinalado
nessas produções?
No intuito de conhecer as
principais acepções sobre samba que comparecem nas produções teóricas recentes,
realizamos uma pesquisa bibliográfica com levantamento das produções
científicas (teses e dissertações) disponíveis na Biblioteca Digital de Teses e
Dissertações sobre o tema, publicadas no período entre os anos de 2002 e 2022.
Vale informar que tal levantamento bibliográfico, de que resulta a elaboração
do presente texto, integrou uma pesquisa de objetivo mais amplo sobre a
participação das mulheres no samba, realizada durante estágio pós-doutoral
realizado de 2023 a 2024, na Universidade Estadual do Ceará (UECE), junto ao
Mestrado em Serviço Social, Trabalho e Questão Social (MASS) e ao Laboratório de
Estudos e Pesquisas em Afro brasilidade, Gênero e Família (NUAFRO)/UECE.
Neste artigo, portanto,
apresentamos parte dos resultados da referida pesquisa, especificamente aqueles
sobre as abordagens conferidas ao samba presentes nas produções acadêmicas
pesquisadas. Inicialmente apresentamos aqui uma caracterização geral dessas
produções tomadas como amostra de pesquisa e, em seguida, com base nos
resultados obtidos com a pesquisa bibliográfica, destacamos o samba como
relevante expressão da cultura afro-brasileira e problematizamos o recorrente
enunciado que o apresenta como gênero musical símbolo da cultura nacional.
Ao compartilharmos aqui parte de
resultados que integram uma pesquisa mais ampla sobre a participação das
mulheres no samba, entendemos ser importante destacar, ainda que brevemente,
aspectos metodológicos que possibilitaram alcançar tais resultados, bem como,
uma caracterização das produções científicas pesquisadas.
Do ponto de vista metodológico,
para a realização da pesquisa bibliográfica, partimos do levantamento
bibliográfico das produções científicas disponíveis na plataforma digital
intitulada Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), publicadas no período
entre os anos de 2002 e 2022, sobre o tema mulheres no samba, considerando
descritores, bem como, critérios de inclusão e exclusão previamente definidos,
considerando os objetivos propostos.
A
partir dos descritores previamente selecionados – samba; mulheres; mulheres no
samba; samba raiz; samba de roda; samba de coco; sambadeiras; roda de samba –
identificamos 43 trabalhos acadêmicos. A amostra da pesquisa foi composta por
trabalhos selecionados a partir de critérios de inclusão e exclusão previamente
definidos, no intuito de responder aos objetivos propostos. Consideramos
critérios de inclusão: Teses
e Dissertações publicadas entre os anos de 2012 a 2022; Teses e Dissertações
que tenham como centralidade de discussão a participação de mulheres no samba
no Brasil e/ou no Nordeste brasileiro. Foram tomados como critérios de
exclusão: Teses e Dissertações que não estejam dentro do lapso temporal de
publicação delimitado; Teses e Dissertações que não contemplem diretamente a
temática da participação de mulheres no samba no Brasil e/ou no Nordeste
brasileiro.
No
intuito de refinar a seleção dos trabalhos acadêmicos com base nesses
critérios, também realizamos leitura dos documentos considerando título,
sumário, resumo, introdução e considerações finais, o que nos levou a
selecionar 10 produções (2 teses e 8 dissertações), nas quais buscamos
identificar sob que acepções abordam o samba, o que suscitou as reflexões
compartilhadas no presente artigo. Tais trabalhos estão vinculados a diversas
áreas de conhecimento, tal como podemos verificar a seguir:
Produções
científicas presentes na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD) –
Brasil – 2012-2022 – selecionadas para análise
|
Título |
Autor (a) |
IES/UF |
Ano |
Área |
|
Aprendendo
a ler com minhas camaradas: seres, cenas, cenários e difusão do samba de roda
através das sambadeiras do Recôncavo baiano |
Queiroz, Clécia Maria Aquino de |
UFBA/BA |
2019 |
Educação/ Difusão
do Conhecimento |
|
Agora é
samba! Saberes afro-passistagógicos de mulheres
gaúchas |
Pires, Karen Tolentino de |
UFSM/RS |
2022 |
Educação/ Educação e
Artes |
|
DISSERTAÇÕES |
||||
|
Título |
Autor (a) |
IES |
Ano |
Área/Programa |
|
Vai dar samba: o discurso amoroso do samba e a
posição- sujeito mulher |
Alves, Tássia Gimenes |
UFF/RJ |
2014 |
Filosofia e Ciências
Humanas/História Cultural |
|
A filha da
Dona Lecy: estudo da trajetória de Leci Brandão |
Sousa, Fernanda Kalianny
Martins |
USP/SP |
2016 |
Antropologia
Social/Antropologia |
|
Trânsitos
Musicais e Comunicação Popular: Experiências de protagonismo de Mulheres
Negras em Cachoeira, BA. |
Gomes, Francimária
Ribeiro |
UFBA/BA |
2017 |
Filosofia e
Ciências Humanas/Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e
Feminismo |
|
“Samba de
coco de Arcoverde – mudança na regulação de espaço de homens e mulheres ou de
estrutura simbólica?” |
Jales, Danielly Amorim de Queiroz |
UFPE/PE |
2018 |
Filosofia e
Ciências Humanas/ Antropologia |
|
Samba de
Pareia pelos saberes do corpo que samba |
Silva, Jonathan Rodrigues |
UFS/SE |
2019 |
Culturas
Populares |
|
“Sempre fui
obediente, mas não pude resistir”: narrativas de mulheres musicistas em rodas
de samba do Rio de Janeiro |
Mostaro, Milene Gomes Ferreira |
FGV/RJ |
2021 |
Ciências
Sociais/ Pós-Graduação
em História, Política e Bens Culturais |
|
Elas
compõem, elas cantam: uma pesquisa sobre a autoria feminina de samba |
Pacheco, Ana Laura Furtado |
UFJF/MG |
2021 |
Letras –
Estudos Literários/Teorias da Literatura e Representações Culturais |
|
A cor e o
corpo: uma história feminista do samba e do carnaval no Rio de Janeiro |
Cavalcanti,
Maria Clara Martins |
Unicamp/ SP |
2021 |
Filosofia e
Ciências Humanas/História – História Cultural |
Fonte: Elaboração própria, 2024.
Conforme
exposto, da amostra considerada, destacam-se duas teses concentradas na área de
Educação, uma relacionada mais diretamente à Difusão do Conhecimento e a outra
a Educação e Artes. Essa foi a segunda área de maior concentração dos trabalhos
pesquisados, ficando atrás da área de Filosofia e Ciências Humanas que
concentrou quatro das oito dissertações selecionadas. Os demais trabalhos
(quatro dissertações) se vinculam às áreas de Antropologia, Culturas Populares,
Ciências Sociais e Letras, respectivamente. Entre as produções publicadas no
período considerado na pesquisa, verificamos ausência de trabalhos vinculados à
área de Serviço Social, razão pela qual não há produções dessa área na
composição da amostra de pesquisa.
Ademais,
identificamos que os trabalhos pesquisados apresentam publicação no período
entre 2014 e 2022, com maior concentração em 2021 (três trabalhos) e 2019 (dois
trabalhos). A região Nordeste concentra o maior número de produções
pesquisadas, com total de quatro trabalhos, dos quais dois foram publicados na
Bahia, um em Pernambuco e um em Sergipe. A região Sudeste aparece logo em
seguida, Rio de Janeiro e São Paulo – cada um com dois trabalhos – e Minas
Gerais com um trabalho publicado. Na região Sul identificamos a publicação de
um trabalho compondo a amostra de pesquisa.
Verificamos
que em termos de aspectos metodológicos e de método dos estudos que subsidiaram
as produções científicas selecionadas, a pesquisa de campo com realização de
entrevistas comparece em sete produções e cinco delas referem uso de observação
e pesquisa documental. Em três trabalhos também verificamos a realização de
pesquisa documental, totalizando assim sua utilização em oito das 10 produções
selecionadas. A pesquisa bibliográfica, subsídio de todos os trabalhos, apenas
em dois deles é citada diretamente como parte da metodologia utilizada.
Os
trabalhos pesquisados em sua maioria não apresentam uma sistematização
detalhada sobre os aspectos metodológicos adotados, o que nos exigiu especial
atenção ao longo da leitura dos estudos na sua totalidade para ser possível
caracterizar, ainda que minimamente, os tipos de pesquisa adotados. O mesmo
afirmamos em relação a identificação de métodos e abordagens de pesquisa. A
esse respeito foi possível identificar: menção de abordagem qualitativa e
princípios da Etnocenologia e Multirreferencialidade (um trabalho);
Etnomusicologia (um trabalho); Análise do Discurso (um trabalho); abordagem
concentrada na experiência e Etnopesquisa (um trabalho); Etnografia (um
trabalho); História Oral (um trabalho) e um trabalho informa no resumo que para
o estudo foi criado um método de pesquisa voltado para Mulheres Negras, o qual
é embasado por quatro etapas: conhecer, ouvir, ver e aprender, o que nos
remeteu à noção de “escrevivência” (apresentada por
Conceição Evaristo), ainda que não assinalado. Os três demais trabalhos não
mencionam diretamente sobre a abordagem metodológica utilizada.
A seguir
apresentaremos as abordagens em relação ao samba verificadas nos referidos
trabalhos pesquisados.
Verificamos
que há diversas caracterizações do samba manifestadas nas produções acadêmicas
pesquisadas, quais sejam: gênero ou estilo musical, discurso musical e
artístico, manifestação ou expressão cultural, patrimônio cultural, dança e
expressão de resistência negra.
Dos três
trabalhos que se referem ao samba como gênero ou estilo musical, destaca-se a
dissertação de Ana Pacheco (2021) que, ao caracterizá-lo como gênero musical
brasileiro por excelência, recupera aspectos históricos do seu nascimento na
área rural do país e sua relação com o candomblé, suas práticas nos quintais
das casas durante as celebrações religiosas. Ao tratar de tais aspectos
históricos, a autora se refere às raízes do samba como “[...] intercontinentais
[...]” (Pacheco, 2021, p. 13) – africana e europeia. Também destaca as
transformações pelas quais o samba passou ao longo do século XX com o processo
de urbanização e chamada era da indústria cultural, tornando-se o gênero
musical brasileiro por excelência. A dissertação de Tassia Alves (2014) também
chama atenção para a origem popular e africana do samba, bem como, da relação
com referências europeia e brasileira:
O samba se constitui como um gênero musical de expressão no
território brasileiro, especialmente no eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Tem
origem popular, uma vez que fora herança dos escravos trazidos para o Brasil,
sendo assim, uma mistura de estilos musicais africanos, europeus e brasileiros,
que começa a tomar força na sociedade por volta dos anos 1920 (Alves, 2014, p.
16).
É
importante assinalar aqui que essa “[...] mistura de estilos musicais [...]”
(Alves, 2014, p. 16) foi resultante do processo violento de colonização
europeia que marca a formação social brasileira. Um processo de expropriação
indissociável de mecanismos de opressão e exploração que caracterizam a
sociedade brasileira como patriarcal-racista-capitalista (Barroso, 2018; Cisne;
Santos, 2018).
A
noção de miscigenação (entre indígenas, negros e brancos) como característica
da população brasileira, comumente
propalada como indicação de uma suposta harmonia e homogeneização das relações
sociais no Brasil, essencialmente expressa o “[...] crime de violação e de
subjugação sexual cometido contra a mulher negra pelo homem branco [...]” (Nascimento,
2016, p. 61) e que perdurou “[...] como prática normal ao longo das gerações” (Nascimento, 2016, p. 61).
A
afirmação da miscigenação é recorrentemente utilizada para sustentar a ideia de
uma suposta democracia racial no Brasil. Tal como alerta Abdias Nascimento
(2016):
[…] à base de especulações intelectuais,
frequentemente com o apoio das chamadas ciências históricas, erigiu-se no
Brasil o conceito da democracia racial; segundo esta, tal expressão
supostamente refletiria determinada relação concreta na dinâmica da sociedade
brasileira: que pretos e brancos convivem harmoniosamente, desfrutando iguais
oportunidades de existência, sem nenhuma interferência, nesse jogo de paridade
social, das respectivas origens raciais ou étnicas (Nascimento, 2016, p. 35).
O
referido autor explicita que a chamada democracia racial é uma metáfora que
expressa o “[...] racismo estilo brasileiro [...]” (Nascimento, 2016, p. 82) que
não se manifesta de modo óbvio como ocorre nos Estados Unidos e nem de maneira
legalizada tal como o apartheid da África do Sul, contudo,
institucionalizou-se “[...] de forma eficaz nos níveis oficiais de governo,
assim como difuso e profundamente penetrante no tecido social, psicológico,
econômico, político e cultural da sociedade do país” (Nascimento, 2016, p. 82).
Os
estudos de Abdias Nascimento evidenciam o racismo na realidade brasileira,
destacando o que analisa como genocídio
do negro no Brasil sob diversas estratégias:
Da classificação grosseira dos negros
como selvagens e inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue
como tentativa de erradicação da ‘mancha negra’; da operatividade do
‘sincretismo’ religioso à abolição legal da questão negra através da Lei de
Segurança Nacional e da omissão censitária – manipulando todos esses métodos e
recursos – a história não oficial do Brasil registra o longo e antigo genocídio
que se vem perpetrando contra o afro-brasileiro. Monstruosa máquina
ironicamente designada ‘democracia racial’ que só concede aos negros um único
‘privilégio’: aquele de se tornarem brancos, por dentro e por fora. A
palavra-senha desse imperialismo da brancura, e do capitalismo que lhe é
inerente, responde a apelidos bastardos como assimilação, aculturação,
miscigenação; mas sabemos que embaixo da superfície teórica permanece intocada
a crença na inferioridade do africano e seus descendentes (Nascimento, 2016, p.
82).
Beatriz
Nascimento acentua: “[...] [a] cultura negra, que conseguiu se amalgamar com a
cultura índia, é realmente a cultura brasileira, […] que ficou ao nível de uma
subcultura […] porque uma outra cultura dominou ela nesse nível” (Nascimento,
2018, p. 125).
Essas
análises certamente auxiliam a desvelar o intencional apagamento da relevante
herança sociocultural negro-africana e de seus descendentes na construção da
formação social brasileira em seus mais diferentes aspectos (sociais,
econômicos, políticos, culturais). O que também se revela com relação às
contribuições dos povos indígenas. Entendemos que a recorrente caracterização
do samba como expressão da cultura
nacional ou cultura brasileira
participa das estratégias de genocídio da cultura negra no país.
Entre
os trabalhos pesquisados que abordaram o samba no Nordeste brasileiro,
constatamos confluência de análises ao caracterizá-lo como manifestação ou
prática cultural e expressão de resistência negra. Em sua dissertação,
Francimária Gomes (2017), além de considerar o samba como gênero musical ou
música negra, ao assinalar que também se trata de uma manifestação cultural
popular, chama atenção para sua caracterização enquanto expressão de
resistência negra e destaca a importância do samba de roda – com suas
características marcadas por traços da cultura da diáspora negra africana – na
formação da identidade cultural do Recôncavo Baiano:
O processo de patrimonialização permitiu
não apenas o reconhecimento do gênero enquanto elemento musical, também trouxe
visibilidade para um saber popular ancestral. Permitiu o fortalecimento de
grupos existentes e influenciou no surgimento de outros, marcando sua
importância na formação da identidade cultural do Recôncavo Baiano, assim como
ampliou as dinâmicas dos espaços musicais. Surgido dentro do contexto da
colonização, expressão musical e estética marginalizada e, posteriormente,
apropriada pela cultura mainstream (Hall, 2008;
Sandroni, 2001), o samba de roda se torna representativo principalmente por
manter em suas características traços da cultura da diáspora (Gomes, 2017, p.
19-20).
Em
sua tese, Clécia Queiroz (2019), ao identificar o samba de roda como
manifestação cultural, assinala o lugar relevante da dança e o denomina como
coreo-litero-musical participativa, entendendo que “[...] sua matéria-prima é
produzida pelo corpo e, uma vez transformada em música e poesia, se materializa
outra vez nele através da dança, informada pela participação de todos os
presentes” (Queiroz, 2019, p. 24). Ao caracterizar o samba de roda como dança e
expressão cultural popular, destaca suas raízes predominantemente africanas:
Entre todas as traduções culturais
realizadas no Recôncavo Baiano, o samba de roda talvez seja a maior delas e a
que lhe dá unidade. Suas origens não são muito precisas, mas há relatos de
viajantes e literatos da existência de formas culturais similares encontradas
desde o século XVII, com a disposição espacial em círculo de coreografias, onde
uma mulher vai ao centro de cada vez, requebrando os quadris de forma sensual,
e dele se retira, convidando uma outra mulher para o centro da roda através de
uma umbigada (SODRÉ, 1998). Contudo, as menções a um tipo de manifestação mais
próximo do que se produz atualmente como samba de roda datam do século XIX. As
estruturas do passado, tanto da dança como da música, características da
cultura de povos do centro-oeste africano (banto), que foram transplantados
para o Brasil em grande quantidade nos primeiros séculos da colônia, foram se
moldando, ganhando novos contornos no encontro com as matrizes diversas
presentes no país até chegar ao que se reconhece hoje como samba de roda. Chamo
atenção, contudo, para a predominância da contribuição dos africanos para essa
expressão cultural, que sempre foi praticada majoritariamente por negros
(Queiroz, 2019, p. 36-37).
A
dissertação de Jonathan Silva (2019), ao se referir ao Samba de Pareia da
Mussuca, em Sergipe, além de caracterizá-lo como manifestação cultural, também
salienta seu caráter de resistência negra e o reconhece como aquilombamento:
Afirmo que o samba pode, assim, ser visto
como um aquilombamento, pois é assim em todos os formatos que o samba acontece.
Desde a comemoração do nascimento da criança no povoado, até as apresentações
fora do seu local de origem. É preciso estar todos juntos para a roda
acontecer. De forma direta (Sambadeiras, tocadores e
as puxadoras de rimas) ou indiretamente (corpos ouvintes/dançantes que ficam
junto ao grupo, mais à margem da circunferência). É assim que se entende. Uma
roda feita de partes. Isso me faz lembrar que quilombo também é uma forma do
negro se re-entender sócio e culturalmente aqui no
Brasil, muito próxima a uma forma de organização vinda de África (ORÍ, 1989)
(Silva, 2019, p. 39).
Essa
acepção de samba como aquilombamento nos remete a Beatriz Nascimento, quando
afirma o que singulariza o quilombo: “[...] é que ele é um agrupamento de
negros, que o negro empreende, que aceita o índio dentro dessa estrutura e que
não foi aceito nunca dentro da sociedade brasileira, como ainda não é aceito
até agora” (Nascimento, 2018, p. 126). Ainda segundo argumenta a autora, o
colonialismo foi responsável pela desagregação do negro
[...] como homem, como cultura, como
sociedade, no momento em que ele se aglutina ele
sempre está repetindo […] a essência do que teria sido o quilombo, sabe? Porque
os quilombos são vários, milhares no Brasil e em todas as partes do mundo, com
características próprias. Então, a ordem oficial, a repressão, é que chamou
isso de quilombo, que é um nome negro e que significa união. Então, no momento em que o negro se unifica, se agrega, ele está
sempre formando um quilombo, está eternamente formando um quilombo, o nome em
africano é união (Nascimento, 2018, p. 126).
Além
das perspectivas citadas, Jonathan Silva (2019) observa o caráter também
artístico do samba de pareia quando é apresentado em palco e assume a feição de
espetáculo em eventos culturais que ocorrem fora da comunidade. A dimensão
artística do samba foi assinalada também por Tássia Alves (2014) em sua
dissertação quando, além de corroborar com as perspectivas de sua
caracterização como gênero musical, manifestação ou expressão cultural, também
o destaca como patrimônio cultural e discurso artístico, ao ressaltar “[...]
que o samba, enquanto discurso artístico e patrimônio cultural, está inserido
na sociedade historicamente” (Alves, 2014, p. 56), que as letras de sambas
indicam sentidos e posições ideológicas construídos socialmente. Nessa direção,
Alves (2014) se ampara em estudos de Magalhães (2011), quando reitera que
“[...] a arte apresenta-se como a expressão mais elevada do pensamento humano,
única capaz de refletir o seu tempo e antever, de forma artística,
possibilidades futuras para a sociedade” (Magalhães, 2011, p. 11-12).
Danielly
Jales (2018), ao acessar resultados de outros estudos a respeito do samba de
coco de Arcoverde (PE), destaca em sua dissertação ter verificado “[...] que o
coco tornou-se um indicador empírico importante para compreender os processos
de afirmação de identidade; de construção do conceito de negritude; bem como de
legitimação do patrimônio afro-brasileiro” (Jales, 2018, p. 15).
Acrescenta que estudos que assumem outra perspectiva se referem ao “[...] samba
de coco partindo de uma discussão focada nas suas origens e desdobramentos da
existência cultural da manifestação e dos diferentes tipos de cocos encontrados
no Nordeste” (Jales, 2018, p. 15).
A autora assinala ainda matrizes indígenas associadas às formas de dançar o
coco, quais sejam, “[...] basicamente a roda e a fileira parecendo ter sido
influenciado diretamente pelo Toré e outras danças indígenas (Pereira, 2005;
Machado, 2001)” (Jales, 2018, p. 16). Ainda de acordo com a referida
pesquisadora, não há um consenso entre mestres de samba de coco em Arcoverde
sobre sua origem. Alguns mestres que reconhecem a origem do coco na cultura
africana, para outros há apenas relação e há aqueles que informam a existência
do coco em Arcoverde em decorrência da migração de coquistas para aquela cidade
(Jales, 2018).
Milene
Mostaro (2021), em sua dissertação – um estudo de rodas de sambas de mulheres
no Rio de Janeiro – e Karen Pires (2022) em sua tese – sobre pedagogias em
dança de passistas no Rio Grande do Sul – corroboram com a caracterização do
samba como expressão ou manifestação cultural de origem africana. A primeira
chama atenção ainda para o samba como “[...] um fenômeno cultural tão marcante
e associado a um elemento da cultura e identidade nacional” (Mostaro, 2021, p.
38). A última destaca que “[...] o samba é um espaço de identidade e
resistência negra e que está inserido nas vidas de grande parte da população
negra brasileira [...]” (Pires, 2022, p. 23), ressaltando, assim, a identidade
negra.
A
questão da associação da noção de identidade nacional ao samba cumpre
funcionalidade econômica e política ao convertê-lo em mercadoria e utilizá-lo
como símbolo de uma suposta coesão nacional. Tal processo não pode ser
analisado sem considerar o apagamento de suas raízes africanas e
afro-brasileiras, o genocídio do negro no Brasil, nos termos de Abdias
Nascimento (2016), a ação dominadora por outra cultura que designou o lugar de
subcultura, tal como alerta Beatriz Nascimento (2018), às elaborações sociais,
políticas, econômicas e culturais da população negra e de povos indígenas no
país.
Pelo
exposto, verificamos a diversidade na abordagem do samba nas produções
acadêmicas pesquisadas que comparecem em oito das 10 produções que constituíram
a amostra da pesquisa. Desses oito trabalhos, identificamos que sete apresentam
confluência quando destacam diretamente sua relação com referências da Cultura
Africana, suas raízes negras (raízes africana e afro-brasileira), não operando
com seu reducionismo a um gênero musical. Contornos específicos nos chamaram a
atenção quando verificamos, por exemplo, que duas produções se referem ao samba
como manifestação cultural de origem africana e uma que o define como
patrimônio cultural afro-brasileiro, além de outras duas produções com
abordagem do samba sob a perspectiva de resistência negra e aquilombamento.
Ao
partirmos do exposto, entendemos que o discurso recorrente de que o samba é
símbolo da cultura nacional colabora para o violento apagamento das referências
da cultura africana reinventada o Brasil a partir da diáspora. E, nesse
sentido, as perspectivas apresentadas nas produções pesquisadas, em sua
maioria, assumem uma direção que tende a contribuir para descortinar o véu da noção de símbolo de brasilidade
atribuído ao samba, que eclipsa as profundas desigualdades sociais de
sexo/gênero, étnico-raciais e de classe no Brasil. O samba, que também é
produto das relações sociais, ao tempo que historicamente expressa tais
desigualdades, apresenta-se como estratégia de enfrentamento a elas, quando reafirma a resistência negra (e sua raiz
africana) no Brasil, ao explicitar a identidade, a
inventividade e a cultura negra (Munanga, 2020; 2024) na sociedade brasileira,
patriarcal e racializada.
O
caminho que nos trouxe até aqui favoreceu uma relevante aproximação ao
conhecimento acadêmico que vem sendo produzido sobre o samba no país e às
diferentes abordagens a seu respeito nas produções científicas recentes.
Essa aproximação nos
leva a reafirmar a apreensão do samba como expressão cultural afro-brasileira
e, nesse sentido, não pode ser reduzido à noção de gênero musical. Tal como nos
lembra Muniz Sodré (1998), na cultura tradicional africana, há uma unidade na
relação entre música, dança, lendas, mitos. Ao reconhecermos tais raízes do
samba, portanto, é necessário apreendê-lo considerando a relação indissociável
entre música, dança e religiosidade e, no Brasil, ao
se desenvolver a partir da diáspora africana, denota afirmação da identidade e
resistência negra no país.
Nessa direção analítica,
tratar do samba no sentido teórico-conceitual nos sugere exigir o
reconhecimento de suas dimensões que conformam unidade indissociável, sob pena
de reduzi-lo apenas à sua dimensão musical, fragmentando-o ao sabor da lógica
cartesiana. Tal redução também se mostra palatável ao propalado discurso
romântico-panfletário da beleza do Brasil miscigenado, o que corrobora com o
mito da democracia racial no país.
Nossa perspectiva de
análise aqui, portanto, colide com o tratamento do
samba como produto de uma suposta identidade nacional que eclipsa sua nascente
africana e suas características fundamentais enquanto expressão cultural
afro-brasileira e não apenas brasileira.
Com suas raízes africana
e afro-brasileira, seu desenvolvimento histórico no Brasil, seus conteúdos e
modos de realização, conforme apontamos, o samba expressa as relações sociais
que conformam a realidade brasileira, complexa, marcada por profundas desigualdades
de sexo/gênero e étnico-raciais e de classe. E, ao mesmo tempo, apresenta-se
como estratégia de enfrentamento a elas, quando reafirma a resistência
negra (e sua raiz africana) na sociedade brasileira patriarcal e racializada.
Reafirmamos nosso
entendimento de que estudar e debater sobre samba se revela uma importante
mediação para tratarmos de “questão social”, questão racial e questão cultural
no Brasil e, nesses termos, um tema não apenas pertinente, mas necessário de
ser tratado também no âmbito do Serviço Social, o que nos mobiliza a seguir com
aprofundamento de nossos estudos a respeito dessa discussão.
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de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, Instituto de Letras, Universidade
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VIANNA, H. O mistério do samba. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
193p.
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Yanne Angelim Dias Trabalhou na concepção, investigação, metodologia,
administração do projeto e escrita do manuscrito original.
Assistente social. Doutora em Serviço
Social. Realizou Estágio Pós-doutoral na Universidade
Estadual do Ceará (2023-2024), com estudos sobre mulheres no samba. Professora do
Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe.
Maria Zelma de Araújo Madeira Trabalhou na administração do projeto e supervisão.
Assistente social.
Doutora em Sociologia. Professora do Curso de Serviço Social e do Mestrado
Acadêmico em Serviço Social, Trabalho e Questão Social da Universidade Estadual
do Ceará (UECE). Fundadora e Coordenadora do NUAFRO/UECE. É Secretária Estadual
de Igualdade Racial do Ceará.
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Silvia Neves Salazar – Editora-chefe
Maria Lúcia Teixeira Garcia – Editora
Submetido em: 15/3/2025. Revisado em: 13/6; 28/7/2025. Aceito em: 16/9/2025.
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