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Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico: retórica do ódio e dissonância cognitiva coletiva

 

Bolsonarism: from cultural war to domestic terrorism:

the rhetoric of hate and collective cognitive dissonance

 

Anthony Gabriel da Silva FROTA

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Descrição gerada automaticamente https://orcid.org/0009-0008-3255-8179

Universidade Federal do Acre (UFAC). Centro de Filosofia e Ciências Humanas.

Departamento de Filosofia. Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPEG).

e-mail: anthonyfrota39@gmail.com

 

 

 

 

RESENHA/ BOOK REVIEW

 

 

 

 

 

 

 

 

João Cezar de Castro Rocha. Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico: retórica do ódio e dissonância cognitiva coletiva. 1. ed. São Paulo: Autêntica, 2023. 167p.

 

 

 

 

 

 

 

“Um homem convicto é resistente à mudança. Discorde dele, e ele se afastará. Mostre fatos e estatísticas, e suas fontes serão questionadas. Recorra à lógica e ele não entenderá sua perspectiva” (Leon Festinger).

 

L

ançado em 2023, o livro Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico é constituído por um conjunto de textos e entrevistas do autor, João Cezar de Castro Rocha, historiador e professor titular de literatura comparada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Discípulo de René Girard, João é uma voz muito importante para o combate aos extremismos que ameaçam o futuro da democracia brasileira – que, infelizmente, permanece instável e cheia de contradições.

 

No decorrer da obra, o leitor poderá refletir sobre o cenário político brasileiro pós-Bolsonaro a partir de uma compreensão dos fatores que embasaram o subtítulo: “guerra cultural” e “terrorismo doméstico”.

 

Para o autor do livro, é ingênuo considerar o bolsonarismo como um movimento ideológico assistemático, ou seja, como uma porção de “corpos sem cabeça”. Essa atitude, que tende a reduzir o bolsonarismo a uma porção de indivíduos sem inteligência crítica, levou muitos intelectuais de renome a serem devorados pela “esfinge” bolsonarista. Com efeito, para analisar as aberrações políticas provocadas pelo culto à personalidade de Jair Messias Bolsonaro, é preciso identificar os mecanismos e táticas utilizados para a radicalização das massas.

 

Rocha defende que a consolidação do bolsonarismo foi impulsionada por uma “midiosfera extremista”. Trata-se de um acontecimento sem precedentes na história brasileira, pois nunca estivemos tão expostos ao bombardeio de informações – factíveis ou mentirosas – como na atualidade. O uso desleal das ferramentas tecnológicas – grupos de WhatsApp e Telegram, robôs digitais, fakenews, deepfakes, aplicativos, canais do YouTube, bigtechs -, e até mesmo da velha mídia – canais de TV e rádio como a Jovem Pan - foi essencial para o processo de “bolsonarização” do país. Cotidianamente, milhões de pessoas são ludibriadas pelos vigaristas das telas e acabam temendo perigos que não existem no mundo factual: podemos citar como exemplo a “mamadeira erótica”, a temível “ameaça comunista”, a profana “ideologia de gênero”.

 

A guerra cultural, principal estratégia desse “ecossistema da desinformação”, baseia-se na desumanização do outro, portanto, nega toda e qualquer forma de alteridade. Por meio de uma retórica do ódio – que tem como principal representante o polemista Olavo de Carvalho - essa guerra traz efeitos potencialmente destrutivos para o ambiente democrático, pois favorece um pensamento unilateral e não dá espaço para divergências saudáveis.

 

Outro fator a ser destacado: a guerra cultural “personaliza” o perigo do qual todos querem se proteger. Assim, opositores de Bolsonaro são adjetivados das piores formas possíveis e até mesmo agredidos fisicamente. Para manter sua militância em estado de alerta, o bolsonarismo constrói narrativas maniqueístas. Ele se alimenta do ressentimento da grande massa, que não consegue direcionar a sua revolta para os verdadeiros “culpados”.

 

O adoecimento político é tremendo. Ele acaba por se concretizar em uma “arquitetura da destruição”: como foi visto na pandemia da COVID-19, o extremista boicota as vacinas, não usa máscaras, participa de aglomerações, toma medicações erradas, desconfia das autoridades sanitárias, só acredita nas informações da sua “bolha”. No contexto em que 700 mil pessoas foram vitimadas pelo vírus, uma rede de mentiras e teorias da conspiração colocou o país inteiro em risco.

 

A indiferença perante as pautas sociais é o que João Cezar chama de “despolitização da pólis”. Os indivíduos bolsonaristas são seres despolitizados na medida em que substituem as questões estruturais pela pauta dos costumes, muitas vezes associada à questão religiosa – que é de foro íntimo, portanto, não deveria interferir na laicidade do Estado.

 

Os atos golpistas ocorridos em 8 de janeiro de 2023 exemplificam como o bolsonarismo, este movimento sectário e nocivo à democracia, passou da guerra cultural para o “terrorismo doméstico”. Com a depredação dos Três Poderes, o país inteiro assistiu a uma das maiores demonstrações de barbárie já transmitidas pelos meios de comunicação.

 

João Cezar afirma que o aparente fracasso do governo Bolsonaro – até agora, o único a perder uma reeleição ­—, ao invés de despertar a consciência crítica, favorece a criação de inimigos em série. A lógica é sempre a seguinte: o bem somos nós; o mal são eles. Sem tragédia, não haveria motivos para que a milícia digital permanecesse em vigília, à espreita da “caça”.

 

Rocha faz uso do termo “dissonância cognitiva”, do psicólogo social Leon Festinger, para explicar a resistência dos extremistas a qualquer posicionamento contrário. Trata-se de um desconforto que o indivíduo sente ao entrar em contato com informações que ameaçam o seu sistema de crenças. Porém, o autor aplica esse conceito no plano da sociedade: não é um fenômeno individual, mas uma “dissonância cognitiva coletiva”.

 

De forma sintética, o livro expõe as peculiaridades do movimento bolsonarista, suas bases ideológicas e as consequências da guerra cultural e do terrorismo doméstico na opinião pública. É muito pertinente para lembrar a todos que, por muito pouco, o Brasil não retornou aos tempos de ditadura.

 

 

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Anthony Gabriel da Silva FROTA

Bacharel em Filosofia pela Faculdade Diocesana São José (FADISI). Cursando especialização Lato Sensu em Ontologia, Conhecimento e Linguagem na História da Filosofia pela Universidade Federal do Acre (UFAC), Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo, das Águas e das Floresta na Amazônia Acreana(Gecafa/UFAC). ________________________________________________________________________________________________

 

 

Editoras responsáveis

Silvia Neves Salazar – Editora-chefe

Maria Lúcia Teixeira Garcia - Editora

 

Submetido em: 7/2/2025. Aceito em: 6/6/2025.

 

 

Creative Common - by 4.0

Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.