Logotipo

Descri�‹o gerada automaticamente

Cr’tica radical e antirracismo: um debate urgente
para o Servi�o Social brasileiro

 

Radical criticism and anti-racism: an urgent debate for Brazilian Social Services

 

Iara Vanessa Fraga de SANTANA*

Universidade Estadual do Cear‡, Curso de Servi�o Social, Centro de Estudos Sociais Aplicados,

Fortaleza, CE, Brasil.

E-mail: iara.santana@uece.br

Descri�‹o: êcone

Descri�‹o gerada automaticamente https://orcid.org/0009-0001-3718-2739

 

Tales Willyan Fornazier MOREIRA

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Curso de Servi�o Social,

Departamento de Ci�ncias Humanas e Sociais, Te—filo Otoni, MG, Brasil.

e-mail: taleswf@live.com

Descri�‹o: êcone

Descri�‹o gerada automaticamente https://orcid.org/0000-0002-9191-7820

 

Introdu�‹o

           

C

onforme evidenciado por Souza (2024)[1], h‡ em curso no Brasil contempor‰neo uma intensa disputa pol’tica e te—rica em torno do debate das rela�›es Žtnico-raciais e do antirracismo, em que comparecem tr�s principais tend�ncias na disputa pela hegemonia do debate: i) a perspectiva liberal, a-cr’tica ao capital, calcada no individualismo e reprodutora da l—gica da sociedade de classes, que aponta como sa’da para o racismo o empreendedorismo negro / afroempreendedorismo, a representatividade nos espa�os de poder[2] e a constru�‹o de uma elite negra; ii) a de viŽs culturalista, puramente essencialista, que reivindica um afrocentrismo apartado das determina�›es estruturais de classe como forma de nega�‹o ao eurocentrismo[3], clamando por uma çfrica a-hist—rica e id’lica[4] e; iii) a perspectiva cr’tica, que tem como caracter’stica central a rela�‹o estrutural entre ra�a-etnia e classe, antirracismo e anticapitalismo.

 

Frente a esse cen‡rio de disputas que se coloca nesse campo, reafirmar o mŽtodo e a perspectiva indissoci‡vel entre classe e ra�a-etnia, antirracismo e anticapitalismo, Ž condi�‹o sine qua non para avan�armos na cr’tica radical ao racismo e para a supera�‹o do capitalismo Ð com todas suas opress›es e viol�ncias estruturais. Esta se refere a uma tarefa hist—rica que se coloca para n—s de maneira central no tempo presente, cuja pr—pria din‰mica da realidade e o movimento da hist—ria nos convoca a realizarmos as necess‡rias costuras da vida[5] e construirmos media�›es no plano te—rico e pol’tico que mirem para um horizonte estratŽgico revolucion‡rio e humanamente emancipado. Em outros termos, media�›es que nos permitam construir uma sociedade anticapitalista, livre de explora�‹o/opress‹o e desracializada[6].

 

Nesse movimento, Ž urgente tambŽm reconhecermos as trajet—rias dos povos ind’genas e comunidades tradicionais que sobreviveram sŽculos de coloniza�‹o-escravid‹o. Suas hist—rias, mem—rias e saberes historicamente expropriados e invisibilizados, podem tambŽm apontar caminhos poss’veis para o enfrentamento ao racismo. ƒ nos corpos-territ—rios desses povos que a gan‰ncia pelo lucro capitalista encontra a fonte de riquezas desde o processo de acumula�‹o primitiva atŽ a atual fase de acumula�‹o. E esse contexto gerador de diversas express›es da quest‹o social, atravessa os variados espa�os s—cio-ocupacionais do Servi�o Social, nos convidando, portanto, a conhecer essa realidade para transform‡-la.

 

As reflex›es seguintes est‹o divididas em dois t—picos que evidenciam a necessidade de o Servi�o Social realizar as cr’ticas e autocr’ticas necess‡rias para o real enfrentamento ao racismo. O primeiro realiza aproxima�›es iniciais sobre os territ—rios de povos ind’genas e comunidades tradicionais, a partir da rela�‹o ra�a-etnia-territ—rio-luta de classes, enfatizando a necessidade de avan�armos na constru�‹o de conhecimentos para o exerc’cio profissional junto a esses territ—rios. O segundo trata do antirracismo no Servi�o Social, registrando os importantes avan�os constru’dos pela profiss‹o, em especial nos œltimos anos, mas tambŽm evidenciando os significativos desafios que ainda comparecem nesse campo e que urge superarmos, rumando a constru�‹o de uma sociedade sem racismo.

Di‡logos desde os territ—rios de povos e comunidades tradicionais

 

Na cad�ncia acelerada deste tempo em que as rela�›es sociais constitutivas de racismo alcan�aram reconhecimento, ocupando desde as prateleiras das corpora�›es mundiais atŽ as bibliotecas comunit‡rias, h‡ de se ter cautela.  Essas resultam dos sŽculos de movimenta�‹o do povo negro e ind’gena, que tem in’cio ainda nas expropria�›es coloniais, seguida da travessia do atl‰ntico. As revoltas, insurg�ncias, aquilombamentos e greves fincaram as ra’zes dos movimentos negro e ind’gena na constru�‹o do antirracismo. Mesmo com a morte, o apagamento, o roubo e a apropria�‹o da ci�ncia produzida por esses povos, conseguiram ecoar alŽm-mar vest’gios que subsidiaram as an‡lises em torno da quest‹o Žtnico racial.

 

Essas se avolumaram nos marcos do movimento negro e ind’gena na segunda metade do sŽculo XX e possibilitaram ramifica�›es diversas que ora rompem, ora reproduzem as contradi�›es da sociedade classes. E talvez, ou inclusive por isso, Ž poss’vel encontrar nas fra�›es da classe trabalhadora, respostas para o enfrentamento ao racismo que se conectam com a multiplicidade dos n’veis de aliena�‹o aos quais estamos imersos(as). A t’tulo de exemplo, apesar de escassas, podemos observar candidaturas de ind’genas alinhadas com a extrema direita que explicitamente declaram guerra aos territ—rios origin‡rios. Ou, ainda, publica�›es e projetos que enaltecem o poder de negros(as) Ð mesmo que sejam alguns(mas) poucos(as) Ð, que venceram e chegaram ao topo, via empreendedorismo e for�a de vontade.

 

Nessa esteira, ocupamos o trecho advindo dos acœmulos do Servi�o Social renovado, cujo mŽtodo Ò[...] permanece mudando ou muda permanecendoÓ (Bagli, 2006, p. 81). H‡ de se evidenciar que as reprodu�›es equivocadas de um marxismo ortodoxo no ‰mbito do Servi�o Social brasileiro, retardaram a constru�‹o de uma pr‡xis antirracista na profiss‹o e ainda Ž poss’vel  encontrarmos nos dias atuais an‡lises sob essas sombras.

 

Nesse processo de cr’tica e autocr’tica levantamos: quem de n—s durante a forma�‹o ouviu refer�ncia ˆ primeira greve geral urbana de trabalhadores(as), ocorrida no ano de 1857, liderada por negros(as) de ganho? Ou, sobre a greve de jangadeiros em 1881, com a fundamental mobiliza�‹o de mulheres, que paralisou o transporte de negros(as) escravizados(as) dos navios negreiros para a terra? Ambas duraram semanas, desestabilizaram a economia de transi�‹o do escravismo para o capitalismo, mas n‹o ganharam as folhas de leituras nas nossas gradua�›es.

 

PorŽm, como Ò[...] no caminho da luz todo mundo Ž preto [...]Ó[7] e Ò[...] a viva contradi�‹o apresenta-se no novo que se constr—i, no velho que se destr—i e, sobretudo, naquilo que se reconstr—i, seja sobre novas ou antigas formas [...]Ó (Bagli, 2006, p. 81), alinhamos essas reflex›es a um exerc’cio coletivo de tessitura do enfrentamento ao racismo numa perspectiva da cr’tica radical ˆ sociabilidade capitalista que, por sua vez, Ž tambŽm racista e patriarcal.

 

Ao girarmos as velas do barco, escolhemos rumar para o di‡logo com a realidade antiga e atual dos povos ind’genas e comunidades tradicionais, buscando identificar contribui�›es para a luta antirracista, pois s‹o esses grupos populacionais que permanecem sendo os principais alvos da necessidade de lucratividade do capital.

 

No primeiro momento, de acumula�‹o primitiva, as metr—poles europeias exploraram os bens da natureza que eram cultivados, zelados e socializados pelos povos origin‡rios na latinoamŽrica.  ƒ chamada de primitiva Ò[...] porque constitui a prŽ-hist—ria do capital e do modo de produ�‹o que lhe correspondeÓ (Marx, 2013, p. 514).

 

A princ’pio, os cercamentos e a expuls‹o violenta das popula�›es camponesas no hemisfŽrio norte, depois o exterm’nio e escraviza�‹o das popula�›es origin‡rias ao sul. Assim, os quase quatrocentos anos de escravid‹o indg’ena e negra banhou de sangue e suor a hist—ria deste pa’s. Por essa raz‹o, Ò[...] a transforma�‹o da çfrica [e AmŽrica Latina Ð grifo nosso] numa reserva para a ca�a comercial de peles-negras caracteriza a aurora da era da produ�‹o capitalista. Esses processos id’licos constituem momentos fundamentais da acumula�‹o primitivaÓ (Marx, 2013, p. 533).

 

Digamos que essa jun�‹o riquezas naturais x povos origin‡rios (sejam das AmŽricas ou da çfrica), foi fundamental para a forma�‹o da economia brasileira que vivemos hoje, reveladora da quest‹o racial e agr‡ria n‹o resolvidas. Prado Jr. (1961) rompe com os escritos sobre o Brasil feudal e nos auxilia a compreender esse lugar do pa’s inserido na domina�‹o da burguesia europeia. Apesar dos seus estudos terem como ponto de partida a chegada dos portugueses com suas estratŽgias de ocupa�‹o Ð desconsiderando os povos que j‡ se encontravam aqui Ð, contribui para entendermos esse lugar do Brasil dependente e subalternizado.

 

Cultiva-se a cana como se extrai o ouro, como mais tarde se plantar‡ o algod‹o ou cafŽ: simples oportunidade do momento, com vistas para um mercado exterior long’nquo, um comŽrcio est‡vel e prec‡rio sempre. [...] a coloniza�‹o n‹o se orienta no sentido de constituir uma base econ™mica s—lida e org‰nica, isto Ž, a explora�‹o racional e coerente dos recursos do territ—rio para satisfa�‹o das necessidades materiais da popula�‹o que nela habita (Prado Jr., 1961, p. 67).

 

O extrativismo, as grandes monoculturas nos sistemas de sesmarias, alterando a diversidade de algumas biomas brasileiros, bem como a minera�‹o, s‹o express›es do capitalismo que recria mŽtodos de coloniza�‹o (Souza, 2024). Ainda no que se refere as reflex›es aqui tecidas sobre terra e territ—rios Žtnicos, tambŽm cabe destacar que Prado Jr. (1961) n‹o reconhece a subalterniza�‹o das popula�›es racializadas negras e ind’genas como essencial para a realiza�‹o desse projeto capitalista e patriarcal de exterm’nio. Ao contr‡rio, defende em seus escritos a tese da mesti�agem, sugerindo inclusive em algumas passagens a superioridade e evolu�‹o dos colonos europeus em detrimentos daqueles(as).

 

A outra fun�‹o do escravo, ou antes da mulher escrava, instrumento de satisfa�‹o das necessidades sexuais de seus senhores e dominadores, n‹o tem um efeito menos elementar. N‹o ultrapassar‡ tambŽm o n’vel prim‡rio e puramente animal do contato sexual, n‹o se aproximando sen‹o muito remotamente da esfera propriamente humana do amor, em que o ato sexual se envolve de todo um complexo de emo�›es e sentimentos t‹o amplos que chegam atŽ a fazer passar para o segundo plano aquele ato que afinal lhe deu origem (Prado Jr., 1961, p. 115).

 

Em di‡logo com esse autor, Gonzalez (1984) tece profundas cr’ticas e nos convida a pensar um Brasil verdadeiramente dos de baixo, a partir de uma hist—ria que n‹o nega o estatuto de sujeito humano ˆs popula�›es negras e ind’genas. ÒTratados sempre como objetos. AtŽ mesmo como objeto de saber. ƒ por a’ que a gente compreende a resist�ncia de certas an‡lises que, ao insistirem na prioridade da luta de classes, se negam a incorporar as categorias de ra�a e sexo. Ou seja, insistem em esquec�-lasÓ (Gonzalez, 1984, p. 232). Essa concep�‹o equivocada que trata classe como mera abstra�‹o e desconsidera sua diversidade, Ž express‹o daquele marxismo ortodoxo, que tambŽm Ž racista e sexista.

 

Dito isso, Ž oportuno destacar as expropria�›es contempor‰neas na certeza de que Ò[...] a viol�ncia Ž a parteira de toda a sociedade velha que est‡ prenhe de uma sociedade novaÓ (Marx, 2013, p. 821). Nesta fase do desenvolvimento veloz do capitalismo, em busca de recomposi�‹o das taxas de lucratividade a fim de sair de mais uma crise, os bens comuns da natureza t�m sido a principal estratŽgia. A chamada destrui�‹o criativa da terra e de outros bens comuns como os minŽrios, a ‡gua, o ar e atŽ o sol, vem sendo fundamental para acumula�‹o de capitais, haja vista serem meios de produ�‹o doados pela natureza e n‹o demandarem grandes investimentos em capital constante (Harvey, 2011, p. 151).


Montanhas inteiras s‹o cortadas ao meio ˆ medida que minerais s‹o extra’dos, criando cicatrizes de pedreiras nas paisagens, com fluxos de res’duos em c—rregos, rios e oceanos; a agricultura devasta o solo e, por centenas de quil™metros quadrados, florestas e matos s‹o erradicados acidentalmente como resultado da a�‹o humana, enquanto a queima das florestas na Amaz™nia, consequ�ncia da a�‹o voraz e ilegal de pecuaristas e produtores de soja, leva ˆ erosa‹o da terra (Harvey, 2011, p.151).

 

Por estabelecerem uma rela�‹o diferenciada daquela com a natureza, esses bens comuns se encontram melhor mantidos nas terras e territ—rios dos povos e comunidades tradicionais e, por isso, esses voltam a ser os principais alvos de acumula�‹o na contemporaneidade. De acordo com o Decreto 6.040/2007 (BRASIL, 2007)[8], essas popula�›es s‹o constitu’das por:

 

[...] grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas pr—prias de organiza�‹o social, que ocupam e usam territ—rios e recursos naturais como condi�‹o para sua reprodu�‹o cultural, social, religiosa, ancestral e econ™mica, utilizando conhecimentos, inova�›es e pr‡ticas gerados e transmitidos pela tradi�‹o; II - Territ—rios Tradicionais: os espa�os necess‡rios a reprodu�‹o cultural, social e econ™mica dos povos e comunidades tradicionais, sejam eles utilizados de forma permanente ou tempor‡ria, observado, no que diz respeito aos povos ind’genas e quilombolas, respectivamente, o que disp›em os arts. 231 da Constitui�‹o e 68 do Ato das Disposi�›es Constitucionais Transit—rias e demais regulamenta�›es (Brasil, 2007, n‹o paginado).

 

No esteio dos processos de resist�ncia desses povos e comunidades tradicionais, estes tambŽm conquistaram a cria�‹o do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), a partir do Decreto n¼ 8.750, de 9 de maio de 2016 (BRASIL, 2016). Ocupam assento no CNPCT povos ind’genas, quilombolas, ciganos, povos de terreiro de matriz africana, pescadores(as) artesanais, extrativistas, extrativistas costeiros e marinhos, cai�aras, faxinalenses, benzedeiros(as), raizeiros(as), geraizeiros(as), caatingueiros(as), vazanteiros(as), veredeiros(as), apanhadores(as) de flores sempre vivas, pantaneiros(as), ribeirinhos(as) e comunidades de fundos e fechos de pasto.

 

De acordo com o Relat—rio sobre os Direitos dos Povos e Comunidades Tradicionais do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) do ano de 2018, esses territ—rios vivenciam diversas viola�›es de direitos realizadas pelo capital com amparo do Estado. Resultante da realiza�‹o de miss›es em alguns dos territ—rios distribu’dos em todo o pa’s, o relat—rio ao passo que visibiliza as particularidades do modo de vida desses povos e comunidades, a exemplo das pr‡ticas de saœde realizadas por parteiras, benzedeiras e raizeiras, tambŽm denuncia a amea�a de continuidade de suas hist—rias.

 

A experi�ncia de povos e comunidades tradicionais com seus territ—rios implicam tambŽm em um sentimento de pertencimento a um lugar, nutrido pela mem—ria do seu processo de ocupa�‹o, incluindo eventos e pessoas de um passado comum; pelo apego ˆ paisagem em que nasceram e se criaram os membros da comunidade, ao longo de gera�›es; pela familiaridade adquirida com o lugar e cada um dos seus elementos materiais e simb—licos (Brasil, 2018, p. 21).

 

H‡ uma tend�ncia de os processos de expropria�‹o alcan�arem a vida em sua totalidade, alŽm da terra e do territ—rio (natureza fundi‡ria), os bens de uso comum, a partir do trabalho e, por sua vez, o conhecimento produzido[9]. Esses processos incidem tambŽm sobre as rela�›es culturais, tradi�›es, sobre conquistas sociais como o direito ˆ saœde e ˆ educa�‹o, por exemplo, crescentemente privatizados (Fontes, 2010).

 

Kopenawa; Bruce (2015) nos faz recordar que o ensino sobre a demarca�‹o das terras e dos territ—rios adveio do homem branco. Assim, Ò[...] a demarca�‹o, divis‹o de terra, tra�ar fronteira Ž costume de branco, n‹o do ’ndio. Brasileiro ensinou a demarcar terra ind’gena, ent‹o a gente passamos a lutar por issoÓ (Kopenawa; Bruce, 2015, p. 36), destacando a jun�‹o quest‹o racial e agr‡ria.

 

O Mapa de Conflitos: Injusti�a Ambiental e Saœde no Brasil da Funda�‹o Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgado em 2024, identificou 297 conflitos no ano de 2010 e, atŽ o momento, somam-se 640 situa�›es de injusti�a ambiental que envolvem, principalmente, a viol�ncia e expropria�‹o dos megaprojetos do capital contra territ—rios de povos e comunidades tradicionais, ou de periferias e ocupa�›es urbanas. Tal realidade reafirma a leitura de totalidade e n‹o recortada da divis‹o social e racial do trabalho, uma vez que a luta de classes no Brasil Ž determinada tambŽm pela origem Žtnico-racial dos(das) trabalhadores(as) desde o in’cio. Portanto, s‹o aquelas popula�›es com suas riquezas naturais[10] que permanecem sendo exploradas, evidenciando o racismo ambiental.

 

O Relat—rio do Conselho Indigenista Mission‡rio (CIMI), lan�ado em julho de 2024 com dados de 2023, anuncia as consequ�ncias de quatro anos de governo anti-ind’gena e os poucos e lentos avan�os do atual governo que criou o MinistŽrio dos Povos Ind’genas. De acordo com o levantamento realizado, foi identificado a continuidade de altos ’ndices de viol�ncia contra ind’genas e a ocorr�ncia de muitos conflitos e invas›es aos territ—rios tradicionais. As expropria�›es realizadas nesses territ—rios, tambŽm podem ser compreendidas a partir das contribui�›es de Pankararu (2022).

 

Esse cen‡rio deletŽrio n‹o muda quando miramos os territ—rios quilombolas. Estudo recente realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Coordena�‹o Nacional das Comunidades Quilombolas (CONAQ) (Oviedo; Lima; Sousa, 2024) afirma que 98% dos quilombos reconhecidos (s‹o 485) est‹o amea�ados por obras de infraestrutura, requerimentos miner‡rios e por sobreposi�›es de im—veis particulares. A incid�ncia de obras de infraestrutura corresponde a 57,9% totalizando 286 territ—rios quilombolas, impactando 1.931.583,9 ha (Oviedo; Lima; Sousa, 2024).

 

Essa realidade se apresenta no cotidiano do trabalho das(os) assistentes sociais de diversas formas e nos variados espa�os s—cio-ocupacionais, o que nos imp›e conhecer para transformar, necessariamente rompendo com pr‡ticas racistas.

 

Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, Ž o pensamento deles que se mostra curso e obscuro. N‹o consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. [...] ƒ por isso que suas palavras ficam t‹o ruins e emaranhadas. N‹o queremos mais ouvi-las. Para n—s, a pol’tica Ž outra coisa. S‹o as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. S‹o as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois s‹o nossas mesmo. Os brancos n‹o sonham t‹o longe quanto n—s. Dormem muito, mas s— sonham consigo mesmos (Kopenawa; Bruce, 2015, p. 37).

 

Dialogar com o conhecimento produzido ancestralmente por ind’genas, quilombolas, quebradeiras de c™co, comunidades de fundo de pasto, de terreiro, pescadores(as) e tantas outras, pode ser uma das estratŽgias indispens‡veis para a constru�‹o de uma pr‡xis radicalmente antirracista, a qual pressup›e o enfrentamento ao capitalismo, considerando a rela�‹o entre terra-ra�a/etnia-classe.

 

O antirracismo no Servi�o Social brasileiro: rupturas e perman�ncias

 

No ‰mbito do Servi�o Social brasileiro, o debate Žtnico-racial e do antirracismo tambŽm tem se colocado como uma das quest›es mais candentes nesta quadra hist—rica, haja vista todo o processo de constru�‹o em torno desse debate, protagonizado h‡ dŽcadas por assistentes sociais negras e, em especial, pela centralidade que a discuss‹o tem ganhado na agenda pol’tica das entidades profissionais, ampliando expressivamente o debate na categoria a partir dos meados da œltima dŽcada[11] (Moreira, 2024).

Cabe mencionar, desse modo, que as perspectivas te—rico-pol’ticas em disputa presentes no interior dos movimentos antirracistas e da sociedade em geral, tambŽm encontram eco na profiss‹o, sendo necess‡rio, portanto, apreender o Servi�o Social articulado ao movimento da hist—ria (Iamamoto, 2019), uma vez que a din‰mica do real incide diretamente nos processos de forma�‹o e trabalho profissional, n‹o sendo poss’vel conceb�-lo a partir de uma perspectiva ensimesmada, como se fosse uma ilha isolada da sociedade.

 

Considerando que a profiss‹o e seus agentes s‹o parte e express‹o desse processo mais amplo, e que tambŽm comparece no debate da categoria perspectivas pol’ticas e te—ricas diversas, esse cen‡rio nos exige ainda mais coer�ncia e radicalidade com o mŽtodo para a apreens‹o da realidade em uma perspectiva de totalidade hist—rica, recusando concep�›es liberais, conservadoras, antimarxistas, culturalistas, essencialistas e pautadas na pol’tica identit‡ria[12]. ƒ imprescind’vel, portanto, avan�armos nessa dire�‹o radical, sobremaneira, nesse momento estratŽgico de amplia�‹o do debate na profiss‹o, tendo em vista que:

 

Estamos em um cen‡rio decisivo em rela�‹o aos rumos do debate Žtnico-racial e do antirracismo na profiss‹o, uma vez que a virada na agenda pol’tica das entidades contribuiu para um avan�o expressivo da discuss‹o nos espa�os de forma�‹o e trabalho profissional, mas, ao mesmo tempo, comparece nesse processo tanto movimentos de ades‹o formal, quanto de ades‹o real ao antirracismo. Exatamente por isso, compreendemos que nessa contradi�‹o tambŽm residem as possibilidades hist—ricas de supera�‹o da ades‹o formal ao antirracismo, tendo como base os acœmulos constru’dos pela profiss‹o nesse campo (Moreira, 2024, p. 50).


Esse processo em curso de enraizamento do antirracismo na profiss‹o, permeado de desafios e desencontros te—rico-pol’ticos, deve impulsionar coletivamente a categoria profissional a avan�ar nesse debate, a partir dos seus fundamentos, atŽ mesmo porque, sendo o racismo um elemento estrutural e ordenador da sociedade capitalista, ele n‹o Ž apenas uma express‹o, mas determina�‹o que estrutura a pr—pria quest‹o social, portanto, condicionante de todas suas refra�›es (Assis, 2022).

 

Deste modo, sendo a quest‹o social a raz‹o de ser da profiss‹o (Netto, 2001) e considerando a funcionalidade do racismo para o sistema de explora�‹o/domina�‹o capitalista, este n‹o se trata de um debate tem‡tico,  reduzido ao campo culturalista e identit‡rio ou, ainda, uma responsabilidade de pesquisadores(as), estudantes e militantes negros(as), ind’genas e quilombolas, ao contr‡rio: avan�ar radicalmente nesse debate refere-se a um imperativo compromisso Žtico-pol’tico de todos(as) aqueles(as) que acreditam e se colocam na defesa intransigente da dire�‹o emancipat—ria do projeto Žtico-pol’tico.

 

Ao mesmo tempo que esse debate tem ganhado expressiva amplitude na profiss‹o, ele continua sendo um ponto de tens‹o, disputas e falsos antagonismos, como se houvesse oposi�‹o entre ra�a-etnia e classe, antirracismo e anticapitalismo. Por isso, compreendemos que Ò[...] ou a categoria profissional incorpora essa discuss‹o, dando relevo ao tema a partir de uma perspectiva te—rico-cr’tica, ou deixar‡ que esse debate seja realizado de forma a-hist—rica e descolada das mœltiplas determina�›es hist—ricas e materiaisÓ (Rocha, 2014, p. 304).

 

Nesse ’nterim, cabe ressaltar que se h‡ inœmeros equ’vocos te—rico-pol’ticos no que se refere ˆs tend�ncias presentes no campo do antirracismo que disputam a hegemonia do debate Žtnico-racial, cujas sombras se alastram na profiss‹o, na mesma medida, h‡ de se reconhecer tambŽm os limites e desencontros hist—ricos em rela�‹o a leitura do racismo que ocorreu no interior da esquerda marxista e que influenciou o Servi�o Social brasileiro.

 

Portanto, para a efetiva supera�‹o destes dilemas, tambŽm Ž necess‡rio um permanente movimento de autocr’tica por parte da profiss‹o, pois, sob a influ�ncia da esquerda marxista tradicional[13], o debate do racismo foi tratado por dŽcadas no Brasil (e reproduzido pelo Servi�o Social)[14] como algo de menor import‰ncia, meramente identit‡rio, p—s-moderno ou, ainda, como um desvio burgu�s que fragmenta a classe (Farias, 2017).

 

Desse modo, concordamos que:

 

Sem o mergulho na forma�‹o social concreta, as an‡lises de classes no Brasil imprimiram um racismo epistemol—gico, ao ocultar uma realidade de luta dos/as negros/as feita contra a explora�‹o capitalista e as suas resultantes. Mesmo as an‡lises marxistas e marxianas refor�aram o racismo epistemol—gico, por raramente contribu’rem com an‡lises que, fundadas nas particularidades e determina�›es da forma�‹o social brasileira, dessem conta do n’vel de explora�‹o a que estavam submetidos/as os/as trabalhadores/as negros/as (Martins, 2017, p. 276).

 

Esta reflex‹o Ž extremamente relevante e tambŽm deve mobilizar setores marxistas, em especial a esquerda marxista tradicional, a realizarem uma autocr’tica honesta acerca da leitura sobre as rela�›es Žtnico-raciais no Brasil, tendo em vista que a leitura hegem™nica da esquerda marxista no pa’s, sobremaneira durante o sŽculo XX, foi influenciada por uma vis‹o economicista, etapista e alheia ˆ pr—pria realidade brasileira, relegando a luta contra o racismo Ð assim como outras lutas anti opress›es Ð a segundo plano, como se fosse descolada da luta de classes (Moreira, 2024).

 

N‹o sem motivos, que apenas muito recentemente o Servi�o Social vem consolidando um entendimento coletivo de que a classe n‹o Ž mera abstra�‹o, ao contr‡rio, ela Ž determinada e atravessada pela condi�‹o Žtnico-racial, de g�nero, sexualidade, territ—rio e gera�‹o. Em se tratando da particularidade brasileira, a maioria da popula�‹o Ž negra, constitu’da de pretos(as) e pardos(as)[15], sendo este tambŽm o contingente da classe trabalhadora mais impactado pelo processo destrutivo do capital. Dessa maneira,

 

Constata-se que tal supera�‹o, passa necessariamente, pela compreens‹o do movimento das classes, uma vez que o servi�o social busca a perspectiva da totalidade hist—rica. Assim, o debate da profiss‹o engloba o enfrentamento das diferentes formas de opress›es e explora�‹o de classe, n‹o como fen™menos isolados ou ocasionais, mas como parte inerente da origem e reprodu�‹o da lei geral de acumula�‹o capitalista em seus diferentes momentos e particularidades s—cio-hist—ricas, onde o racismo precisa ser compreendido como elemento estrutural desta sociedade (Elpidio, 2020, p. 523, grifos nossos).

 
Sendo assim, urge avan�armos no debate Žtnico-racial e do antirracismo numa perspectiva radical, compreendendo que o racismo, enquanto desdobramento dos processos de colonialismo e escravismo, historicamente, se coloca como pilar essencial da explora�‹o e domina�‹o capitalista, desde os tempos de acumula�‹o primitiva. Assim, Ž necess‡rio compreendermos o racismo como elemento determinante e constitutivo da sociedade capitalista, como este se dinamiza em nossa particularidade s—cio-hist—rica e estrutura as rela�›es de produ�‹o e reprodu�‹o social.

 

Algumas considera�›es

 

Os apontamentos que aqui fizemos resultam de intensos di‡logos, incid�ncias pol’ticas e trabalho profissional com as popula�›es negras perifŽricas, bem como com povos ind’genas e comunidades tradicionais. As reflex›es ora apresentadas expressam tambŽm an‡lises tecidas coletivamente no ch‹o do enfrentamento di‡rio ao racismo no ‰mbito do Servi�o Social, mas tambŽm fora dele. Essa caminhada, por vezes t‹o desafiadora e desanimadora, encontra firmeza, sentido e ‰nimo quando recordamos do nosso compromisso hist—rico com nossos(as) ancestrais que j‡ miravam um horizonte de justi�a e liberdade.

 

Nessa dire�‹o, precisamos combater, com a mesma firmeza e radicalidade, tanto os setores liberais, conservadores, antimarxistas, p—s-modernos e essencialistas presentes no interior das lutas antirracistas, que negam as determina�›es estruturais da sociedade capitalista e a  rela�‹o entre ra�a-etnia e classe, antirracismo e anticapitalismo. Mas, tambŽm, os setores que reproduzem a l—gica da esquerda marxista tradicional, que n‹o s‹o capazes de ultrapassar uma mera revolu�‹o formal-abstrata, pois desconsideram a determina�‹o Žtnico-racial na composi�‹o da classe trabalhadora que, na realidade brasileira, possui centralidade (Farias, 2017).

 

Portanto, registramos que nenhuma dessas perspectivas nos serve para avan�armos na supera�‹o radical dessa sociedade, estruturada pelo racismo, pelo sexismo e pela viol�ncia colonial, que funciona como uma verdadeira m‡quina de moer corpos negros, ind’genas e de tantas outras comunidades que tradicionalmente mantŽm sociabilidades resistentes ao modelo capitalista secularmente imposto.

 

 

 

Refer�ncias

 

Almeida, S. Pref‡cio da edi�‹o brasileira. In: Haider, A. Armadilha da identidade: ra�a e classe nos dias de hoje. S‹o Paulo: Veneta, 2019.

 

Assis, E. S. de. A fundamental radicaliza�‹o e racializa�‹o da quest‹o social para um projeto profissional antirracista no Servi�o Social. 2022. Tese (Doutorado em Servi�o Social)ÐPrograma de Estudos P—s-Graduados em Servi�o Social, Faculdade de Ci�ncias Sociais da Pontif’cia Universidade Cat—lica de S‹o Paulo, 2022.

 

Bagli, P. Rural e urbano: harmonia e conflito na cad�ncia da contradi�‹o. In: Sposito, M. E. B.; Whitacker, A. M. (Orgs.). Cidade e campo: rela�›es e contradi�›es entre urbano e rural. 1. ed. S‹o Paulo: Express‹o Popular, 2006.

 

Brasil. Conselho Nacional de Direitos Humanos. Povos livres, territ—rios em luta: relat—rio sobre os direitos dos povos e comunidades tradicionais. Bras’lia (DF): Conselho Nacional dos Direitos Humanos, 2018.

 

Brasil. Decreto n. 8.750, de 9 de maio de 2016. Institui o Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais. Di‡rio Oficial da Uni‹o: se�‹o 1, Bras’lia, DF, ano 153, n. 88, p. 1, 10 maio 2016. Dispon’vel em: https://encurtador.com.br/7Ir5e. Acesso em: 14 jul. 2024.

 

Brasil. Decreto 6.040, de 7 de fevereiro de 2007. Institui a Pol’tica Nacional de Desenvolvimento Sustent‡vel dos Povos e Comunidades Tradicionais. Bras’lia (DF), 2007. Dispon’vel em: https://encurtador.com.br/MUmtl. Acesso em: 14 jul. 2024.

 

Conselho Indigenista Mission‡rio. Relat—rio Viol�ncia Contra os Povos Ind’genas no Brasil. Relat—rio 2024. Bras’lia(DF) : CIMI, 2024.

 

Elpidio, M. H. Diretrizes curriculares e quest‹o racial: uma batida pulsante na forma�‹o profissional. Kat‡lysis, Florian—polis, v. 23, p. 519-527, 2020.

 

Farias, M. Uma esquerda marxista fora do lugar: pensamento adstringido e a luta de classe e ra�a no Brasil. Ser Social, Bras’lia (DF), n. 41, p. 398-413, 2017.

 

Fontes, V. O Brasil e o capital imperialismo: teoria e hist—ria. Rio de Janeiro: EPSJV; UFRJ, 2010.

 

Funda�‹o Oswaldo Cruz. Mapa . O Mapa de Conflitos: Injusti�a Ambiental e Saœde no Brasil.  Rio de Janeiro: Neepes, 2024. Dispon’vel em: https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/ . Acesso em: 13 de junho de 2024.

 

Gonzalez, L. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ci�ncias Sociais Hoje, S‹o Paulo: Anpocs, p. 223-244, 1984.

 

Haider, A. Armadilha da identidade: ra�a e classe nos dias de hoje. S‹o Paulo: Veneta, 2019.

 

Harvey, D. O enigma do capital e as crises do capitalismo. S‹o Paulo: Boitempo, 2011.

Iamamoto, M. V. O Servi�o Social brasileiro em tempos de mundializa�‹o do capital. In: Yazbek, M. C; Iamamoto, M. V. (orgs.). Servi�o Social na hist—ria: AmŽrica Latina, çfrica e Europa. S‹o Paulo: Cortez, 2019.

 

Instituto Brasileiro de Geografia e Estat’stica. Pesquisa Nacional por Amostra de Domic’lios Cont’nua. Censo Demogr‡fico 2022. Tabela 6408 - Popula�‹o residente, por sexo e cor ou ra�a. Bras’lia (DF), 2022. Dispon’vel em:

https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6408. Acesso em: 15 jul. 2024.

 

Kopenawa, D.; Bruce, A. A queda do cŽu: palavras de um xam‹ yanomami. Tradu�‹o Beatriz Perrone. 1. ed. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 2015.

 

Martins, T. Oposi�‹o entre as lutas anticapitalista e antirracista: realidade ou erro de an‡lise? Ser Social, Bras’lia (DF), n. 41, p. 275-295, 2017.

 

Marx, K. Cr’tica da Economia Pol’tica. Livro Primeiro. O Processo de Produ�‹o do Capital. CAP. XXIV. S‹o Paulo: Boitempo, 2013.

 

Moreira, T. W. F. Ades‹o formal ou real ao antirracismo no Servi�o Social?: Caminhos e descaminhos do debate Žtnico-racial na categoria profissional. 2024. Tese (Doutorado em Servi�o Social) Ð Pontif’cia Universidade Cat—lica de S‹o Paulo, 2024.

 

Netto, J. P. Cinco notas a prop—sito da Òquest‹o socialÓ. Temporalis, Bras’lia (DF): Associa�‹o Brasileira de Ensino e Pesquisa em Servi�o Social, ano 2, n. 3, jan./jun. 2001.


Oviedo, A. F. P.;
Lima, W. P. Sousa, F. C.  As press›es ambientais nos territ—rios quilombolas no Brasil. Bras’lia (DF): Instituto Socioambiental (ISA). Coordena�‹o Nacional de Articula�‹o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), 2024.

 

Pankararu, E. C. de A. S. Trabalho, Expropria�‹o, Povos Ind’genas no Brasil e a L—gica do Capital. Temporalis, Bras’lia (DF): Associa�‹o Brasileira de Ensino e Pesquisa em Servi�o Social, ano 22, n. 43, p. 174Ð190, 2022. Dispon’vel em: https://periodicos.ufes.br/temporalis/article/view/38228/25309. Acesso em: 14 jul. 2024.

 

Perer�, SŽrgio. Costura da Vida. Canal SŽrgio Perer�. 22 maio 2019. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=NG_ErFvTn04. Acesso em: 15 jul. 2024.

 

Prado Jr., C. Forma�‹o do Brasil Contempor‰neo. S‹o Paulo: Brasiliense, 1961.

 

Principia. Interprete: Emicida. çlbum: Amarelo (AmarElo). Faixa: 01- Principia (Participa�›es: Pastor Henrique Vieira / Fabiana Cozza / Pastoras do Ros‡rio). Autoria: Emicida / Nave.  2019. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=QaxvYQowyYo. Acesso em: 14 jul. 2024.

 

Ribeiro, M. As abordagens Žtnico-raciais no Servi�o Social. Servi�o Social e Sociedade, S‹o Paulo, n. 79, p. 148-161, 2004.

 

Rocha, R. A inser�‹o da tem‡tica Žtnico-racial no processo de forma�‹o em Servi�o Social e sua rela�‹o com a educa�‹o antirracista. In: Abramides, M. B. C.; Duriguetto, M. L. Movimentos Sociais e Servi�o Social: uma rela�‹o necess‡ria. S‹o Paulo: Cortez, 2014.

 

Souza, C. L. S. de S. A disputa em torno do debate racial no Brasil: teoria e mŽtodo para o avan�o da perspectiva cr’tica. Argumentum, Vit—ria, v. 16, n. 2, p. 8-21, maio/ago. 2024.

 

 

 

 

________________________________________________________________________________________________

Iara Vanessa Fraga de Santana

Assistente Social (UECE). Doutora em Servi�o Social (UFPE). Mestra em Desenvolvimento Territorial da AmŽrica Latina e Caribe (ENFF/UNESP-S‹o Paulo). Especialista em Direitos Sociais do Campo/Resid�ncia Agr‡ria (UFG) e em Gest‹o de Pol’ticas Pœblicas em Ra�a e G�nero (UNB). Docente do curso de Servi�o Scoial da Universidade Estadual do Cear‡ (UECE). Integrande do Laborat—rio de Pesquisas e Estudos em Servi�o Social (LAPESS) e do Mestrado Acad�mico em Servi�o Social (MASS/UECE). Comp›e a Diretoria Executiva do Instituto Terramar e a Articula�‹o Antinuclear do Cear‡.

 

Tales Willyan Fornazier Moreira

Assistente Social (UFTM). Doutor e Mestre em Servi�o Social (PUC/SP). Docente do curso de Servi�o Social da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). L’der do GEFEPSS UFVJM - Grupo de Estudo e Pesquisa: Fundamentos, Forma�‹o e Exerc’cio Profissional em Servi�o Social (DGP-CNPq). Membro do Nœcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Ind’genas (NEABI) da UFVJM. Membro da coordena�‹o colegiada da Rede Mineira de Grupos de Estudos sobre os Fundamentos do Servi�o Social (ReMGEFSS). Comp›e a Frente Nacional de Assistentes Sociais no Combate ao Racismo.

________________________________________________________________________________________________

 

 

 

 

 



 

 © A(s) Autora(s)/O(s) Autor(es). 2024. Acesso Aberto. Esta obra est‡ licenciada sob os termos da Licen�a Creative Commons Atribui�‹o 4.0 Internacional (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR), que permite copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato, bem como adaptar, transformar e criar a partir deste material para qualquer fim, mesmo que comercial.  O licenciante n‹o pode revogar estes direitos desde que voc� respeite os termos da licen�a

 

[1] Nos referimos ao primoroso texto da autora Cristiane Luiza Sabino de Souza, intitulado A disputa em torno do debate racial no Brasil: teoria e mŽtodo para o avan�o da perspectiva cr’tica, publicado nesta edi�‹o da Revista Argumentum, n. 2 de 2024.

[2] Compreendemos que em uma sociedade profundamente racista e desigual, a ÔrepresentatividadeÕ cumpre sim um papel de significativa relev‰ncia, quando aliada a um projeto pol’tico comprometido com o fim do racismo e do capitalismo. Do contr‡rio, a mera representatividade por ela mesma, que refor�a a ideia de Ônegros/as ou ind’genas no topoÕ acaba t‹o somente sendo funcional ao capital, n‹o se expressando em nenhuma mudan�a concreta na vida das popula�›es negras e ind’genas, pois n‹o representa um projeto coletivo, mas individual.

[3] Conforme aponta Souza (2024), esse movimento Ž fundamental para a cr’tica ao colonialismo, contudo, n‹o pode ocorrer de maneira superficial, a-hist—rica, reduzida ao campo da cultura e das ÒepistemologiasÓ sem fazer a cr’tica radical ao capitalismo, e o que tem prevalecido nesse campo Ž uma cr’tica esvaziada ao eurocentrismo.

[4] Souza (2024) tambŽm menciona que essa perspectiva culturalista, ao apartar ra�a-etnia e classe Ð visto que negam toda contribui�‹o do marxismo por Ôser euroc�ntricoÕ e n‹o apresentar nenhuma contribui�‹o para este debate Ð, ao n‹o apreender a complexidade dos desafios vivenciados pelas popula�›es negras (que vivem na sociedade de classes, cujo sistema capitalista cria e recria suas estratŽgias coloniais de domina�‹o) e ao se ater t‹o somente ˆ dimens‹o cultural e epistemol—gica, n‹o refletindo sobre as contradi�›es reais que os povos africanos vivenciam sob a Žgide destrutiva do neocolonialismo/imperialismo, acaba por reproduzir uma concep�‹o metaf’sica de negritude, culminando tambŽm numa perspectiva a-hist—rica e romantizada de çfrica.

[5] Refer�ncia ˆ mœsica Costura da Vida, de SŽrgio Perer� (2019), grande mœsico, artista mineiro e uma refer�ncia importante na resist�ncia contra o racismo.

[6] Como afirma Almeida (2019), num sentido revolucion‡rio, a afirma�‹o da ra�a Ž feita t‹o somente para que um dia possamos super‡-la. Deste modo, Ž fundamental termos n’tido que nossa luta, numa dimens‹o radical, deve se direcionar para a supera�‹o da no�‹o de ra�a, visto que esta foi constru’da historicamente para justificar a explora�‹o, a viol�ncia, a desumaniza�‹o, o genoc’dio e a barb‡rie. Foi com base nesta constru�‹o que as popula�›es negras e ind’genas passaram a ser tratadas como outros, isto Ž, como sub-humanos e inferiores.

[7] Refer�ncia ao trecho da mœsica Principia (2029), do rapper e compositor brasileiro, Emicida.

[8] Esse decreto institui a Pol’tica Nacional de Desenvolvimento Sustent‡vel dos Povos e Comunidades Tradicionais.

[9] Sobre isso encontramos a relevante afirmativa no Relat—rio do CNDH (Brasil, 2018): ÒPovos e comunidades tradicionais t�m sistemas pr—prios de conhecimento sobre a realidade, que refletem suas experi�ncias hist—ricas e territoriais e contribuem para o manejo da vida em todas as suas dimens›es materiais e simb—licas, que incluem o sagrado. Os sistemas de conhecimentos tradicionais indicam outras formas de estar no mundo, com potencial para renovar o pensamento e ampliar os repert—rios de saberes e fazeres na constru�‹o de solu�›es para os novos desafios da contemporaneidade, sejam os desafios socioambientais ou aqueles relativos ˆ conviv�ncia com respeito ˆ diferen�a e valoriza�‹o da diversidadeÓ (Brasil, 2018, p. 21).

[10] Comumente a literatura nomeia de recursos naturais, ou riquezas naturais, o que muitos povos ind’genas e comunidades tradicionais chamam de m‹e terra, pachamama. As ‡guas, as florestas e os demais bens comuns da natureza s‹o considerados organismos vivos e sacralizados para muitos desses povos. Em raz‹o disso fazemos este destaque, pois os significados e sentidos da natureza s‹o radicalmente diferenciados.

[11] Destacamos aqui algumas das mais importantes e emblem‡ticas constru�›es deste per’odo recente: a Campanha de gest‹o do Conjunto CFESS-CRESS (tri�nio 2017-2020) Assistentes Sociais no Combate ao Racismo; a constru�‹o dos Subs’dios para o debate sobre a Quest‹o ƒtnico-Racial na Forma�‹o em Servi�o Social e do documento As cotas na p—sgradua�‹o: orienta�›es da ABEPSS para o avan�o do debate, ambos pela ABEPSS (bi�nio 2017-2018); a constru�‹o da Plataforma Antirracista no site da ABEPSS e a realiza�‹o da pesquisa A inser�‹o da educa�‹o para as rela�›es Žtnico-raciais no ‰mbito da p—s-gradua�‹o na ‡rea de Servi�o Social nos œltimos cinco anos (2017-2022), tambŽm realizadas pela ABEPSS (bi�nio 2021-2022); o espraiamento dos Comit�s Antirracistas nos CRESS e a constru�‹o do Comit� Antirracista do CFESS, em 2023, bem como a publica�‹o da Resolu�‹o CFESS n. 1.054/2023, de 14 de novembro de 2023, que estabelece normas vedando condutas de discrimina�‹o e/ou preconceito Žtnico-racial no exerc’cio profissional do/a assistente social. AlŽm desses marcos no ‰mbito das entidades representativas, destacamos a cria�‹o da Frente Nacional de Assistentes Sociais no combate ao racismo (2020) e da Articula�‹o Brasileira de Servi�o Social e Povos Ind’genas (2021).

[12] Para maior aprofundamento sobre a Ôpol’tica identit‡riaÕ, sugerimos a leitura de Haider (2019).

[13] Nos referimos aqui ao debate realizado por Farias (2017). Em linhas gerais, trata-se de uma esquerda que, sob a influ�ncia stalinista, j‡ nasceu degenerada no Brasil, contaminando e hegemonizando o pensamento da esquerda brasileira atŽ a dŽcada de 1960.

[14] Nessa dire�‹o, Ž importante mencionar a discuss‹o realizada por Matilde Ribeiro (2004), quando a autora destaca que mesmo com todos avan�os conquistados no processo de renova�‹o profissional, as rela�›es Žtnico-raciais acabaram sendo invisibilizadas no contexto das an‡lises de classe. Se, de um lado, temos o VI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) de 1989 como um marco hist—rico central para o debate das rela�›es raciais na profiss‹o Ð e registros de assistentes sociais negras(os) que desde a dŽcada de 1940 participavam dos movimentos raciais e feministas e estavam nas trincheiras de denœncia ao racismo Ð, isso n‹o foi suficiente para que esse debate fosse incorporado coletivamente no processo de renova�‹o do Servi�o Social. Ao evidenciar isso, n‹o estamos querendo fornecer a Ômuni�‹o ao inimigo(a)Õ para fortalecer perspectivas a-hist—ricas e/ou que recusam todas as imprescind’veis conquistas do Servi�o Social renovado, ao contr‡rio, nossa inten�‹o Ž sinalizar que os desafios, disputas e desencontros te—rico-pol’ticos em rela�‹o a esse debate s‹o hist—ricos na profiss‹o (a princ’pio, pela influ�ncia da esquerda marxista tradicional que reproduzia uma concep�‹o de que a luta contra o racismo enfraqueceria a luta contra o capitalismo, como se fossem lutas opostas e, no tempo presente, perspectivas que negam a sociedade de classes e as contribui�›es do marxismo), mas se acirram de maneira significativa nesta quadra hist—rica, tendo em vista o movimento de enraizamento desta discuss‹o no Servi�o Social brasileiro, de maneira ininterrupta, h‡ quase uma dŽcada (Moreira, 2024).

[15] De acordo com o IBGE (2022), a popula�‹o negra representa 55,9% da popula�‹o brasileira. Mais informa�›es dispon’veis em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6408.