http://10.47456/argumentum.v18.2026.51565
Fundamentos e trabalho com famílias: percepções no Serviço Social
Fundamentals and Work with Families: Perceptions in
Social Work
Fernanda Escobar Fernandes BARBOSA
https://orcid.org/0009-0001-7802-5369
Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, Programa
de Pós-Graduação em Política Social e
Serviço Social, Porto Alegre, RS, Brasil
e-mail: fernandaefb1@gmail.com
Alzira Maria Baptista LEWGOY
https://orcid.org/0000-0002-7312-3111
Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, Departamento
de Serviço Social e do
Programa de Pós-Graduação em
Política Social e Serviço Social, Porto Alegre, RS, Brasil
e-mail:
alzira.lewgoy@ufrgs.br
Resumo: O artigo analisa o trabalho da/o assistente social com
famílias na contemporaneidade a partir das mediações com os fundamentos do
Serviço Social. Trata-se de pesquisa qualitativa, baseada em pesquisa de campo
com nove assistentes sociais atuantes nas políticas de assistência social,
saúde e área sociojurídica, articulada à revisão de literatura. Os resultados
demonstram concepções ampliadas de família, alinhadas ao projeto ético-político
da profissão, e práticas atravessadas pelo familismo, conservadorismo e
responsabilização privada das famílias. Destacam-se o protagonismo feminino, a
complexidade das demandas e limites das políticas públicas. O artigo contribui
para o debate ao articular as percepções das/os assistentes sociais às
mediações dos fundamentos do Serviço Social, evidenciando avanços e
contradições no exercício profissional.
Palavras-chave: Serviço Social. Trabalho com famílias. Fundamentos do Serviço Social.
Conservadorismo. Políticas sociais.
Abstract: This article
analyses the contemporary work of social workers with families, based on the
mediations of the foundations of Social Work. It is a qualitative study based
on field research conducted with nine social workers working in social
assistance, health, and socio-legal policies, combined with a literature
review. The results reveal broadened concepts of family, aligned with the
profession’s ethical-political project, and practices shaped by familism,
conservatism, and the privatisation of family responsibilities. Key aspects
highlighted include the central of women role in family arrangements, the
complexity of demands, and the limits imposed by public policies. The article
contributes to the debate by linking social workers’ perceptions with the mediations
of the fundamentals of Social Work foundations, revealing advances and
contradictions in professional practice.
Keywords: Social Work. Work with families. Fundamentals of Social Work.
Conservatism. Social policies.
1 INTRODUÇÃO
Este artigo, o qual tem por objetivo analisar o trabalho da/o assistente
social com famílias, evidenciando suas tendências e desafios na
contemporaneidade, a partir das mediações com os fundamentos históricos,
teórico-metodológicos e ético-políticos do Serviço Social, apresenta resultados
de uma pesquisa de natureza qualitativa e caráter exploratório. Trata-se de
pesquisa de campo, realizada com nove assistentes sociais atuantes nas
políticas de assistência social, saúde e na área sociojurídica[1], articulada à revisão de literatura da área, que subsidia a análise
crítica dos dados à luz dos fundamentos do Serviço Social.
A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
universidade proponente, bem como pelos espaços sócio-ocupacionais dos sujeitos
de pesquisa. Foram adotados todos os procedimentos éticos necessários, a fim de
garantir o sigilo das informações, o anonimato das/os participantes e a
participação voluntária mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE).
Visto que os valores conservadores na sociedade brasileira expressam um
processo histórico marcado por estruturas patriarcais, escravocratas e
colonialistas, forjadas desde o período colonial sob a concentração de poder
das elites econômicas e políticas (Fausto, 2006), a centralidade da família
nuclear como modelo hegemônico não pode ser dissociada dessa formação
sócio-histórica. A transição do regime escravista para a ordem do trabalho
livre não foi acompanhada de políticas públicas capazes de garantir condições
materiais de existência e cidadania à população negra, aprofundando
desigualdades ainda vigentes. Ao encontro disso, Sabino e Teles (2021) apontam
que: “O Estado pós-abolição não criou alternativas de sobrevivência e inserção
da maioria negra no mercado de trabalho, no acesso à terra e a direitos
básicos. Ao contrário, criou barreiras e mecanismos de repressão,
criminalização e políticas de eliminação” (Sabino; Teles, 2021, p. 52).
Dessa forma, a longa duração da escravidão e a ausência de reformas
estruturais deixaram marcas que se expressam nas desigualdades sociais, raciais
e de gênero ainda vigentes (Schwarcz; Starling, 2015). Nos últimos anos, tais
elementos foram reatualizados com o fortalecimento de projetos políticos de
extrema direita, mobilizados em nome da ordem e da moral, reforçando mecanismos
de exclusão e controle social (Duarte, 2023). Assim, o conservadorismo no
Brasil se apresenta como parte constitutiva de uma continuidade histórica que
estrutura disputas em torno de projetos societários.
A família nuclear, composta por mãe, pai e filhos, não constitui um
modelo universal ou natural. Na contemporaneidade, as diferentes configurações
familiares têm conquistado maior visibilidade social e reconhecimento jurídico,
embora essas formas de organização sempre tenham existido. O que se altera são
os modos pelos quais tais configurações são reconhecidas e legitimadas,
afastando leituras evolucionistas da família (Biroli, 2014).
Nessa perspectiva, a família moderna constitui-se como instituição
histórica e contraditória, funcional à consolidação do capitalismo. Sua
conformação responde a interesses sociais e econômicos específicos, operando
como espaço central da reprodução da vida sob relações desiguais de gênero,
classe e raça. Nesse sentido, Federici (2021) afirma
que a família pode ser compreendida como “[...] uma invenção do capital para o
capital [...]” (Federici, 2021, p. 32), evidenciando
seu papel na exploração do trabalho feminino e na sustentação da sociabilidade
capitalista.
O Serviço Social, enquanto profissão inserida na divisão social, técnica, racial e sexual do trabalho,
emerge historicamente marcado pela intervenção junto às famílias, com
protoformas associadas ao desenvolvimento do capitalismo e a iniciativas de
cunho confessional e moralizador (Iamamoto, 2011). Em
sua gênese, o trabalho profissional é atravessado por uma contradição: ao mesmo
tempo em que media necessidades da classe trabalhadora, também se insere nas
relações sociais que sustentam a ordem capitalista (Iamamoto;
Santos, 2021).
Desde o surgimento da profissão, a intervenção junto às famílias da
classe trabalhadora se conformou como espaço privilegiado de trabalho,
especialmente no que diz respeito ao ajustamento dos sujeitos e à moralização
da pobreza. Essa herança tensiona o trabalho na contemporaneidade, que se
realiza entre a reprodução de práticas conservadoras e a construção de
mediações críticas orientadas pelo projeto ético-político.
Com o processo de redemocratização e a promulgação da Constituição
Federal de 1988, alteram-se as requisições profissionais e o lugar das famílias
nas políticas sociais. A centralidade atribuída às famílias revela-se ambígua:
representa avanço ao incluí-las no escopo das políticas sociais, mas mantém
limites estruturais expressos no subfinanciamento, na focalização e na
permanência de práticas conservadoras, reforçando a responsabilização familiar
em contextos de desproteção social.
Nessa tessitura, a/o assistente social atua como trabalhador
assalariado, mediando demandas das famílias e requisições institucionais do
Estado capitalista (Iamamoto, 2011). Tal mediação
exige clareza teórica e crítica para tensionar as políticas sociais como campo
de disputas e afirmação de direitos, problematizando permanências conservadoras
incompatíveis com o projeto ético-político. Assim, os fundamentos do Serviço
Social constituem mediações indispensáveis para a análise crítica do trabalho
com famílias, permitindo apreendê-lo em suas determinações históricas, sociais
e ideopolíticas. É nessa articulação que se situa o
eixo analítico deste artigo.
Considerando esse cenário, os fundamentos constituem mediações centrais
para a análise da questão social, da família e do trabalho da/o assistente
social na sociedade capitalista (Yazbek, 2018; 2020). Apesar da centralidade da
família no cotidiano profissional, observa-se uma lacuna na produção teórica do
Serviço Social no que se refere à sua articulação com os fundamentos da
profissão, uma vez que parte da literatura ainda a aborda de forma
homogeneizante ou como mera destinatária das políticas públicas, desconsiderando
suas determinações estruturais. Estudos evidenciam a presença de perspectivas
contraditórias, incluindo leituras moralizantes que tendem a reforçar discursos
conservadores no interior da profissão (Horst; Tomaz, 2024). Diante disso,
torna-se necessário fortalecer análises que tratem a família como categoria
crítica, vinculada à totalidade social e às formas de reprodução da vida sob o
capitalismo.
Observou-se, por meio de levantamento bibliográfico realizado em
periódicos da área do Serviço Social, no período de 2018 a 2024, a escassez de
produções que articulem a família aos fundamentos da profissão. Em um universo
de 4.444 artigos analisados, apenas 8 produções estabeleciam essa relação de
forma direta, o que evidencia a necessidade de aprofundamento desse debate. É
nesse horizonte que se insere o presente artigo, ao articular a análise
empírica do trabalho da/o assistente social com famílias às mediações dos
fundamentos do Serviço Social, evidenciando contradições, permanências
conservadoras e disputas ético-políticas no exercício profissional
contemporâneo.
2 TRABALHO DA/O ASSISTENTE SOCIAL COM FAMÍLIAS NA CONTEMPORANEIDADE
Os resultados aqui apresentados decorrem da análise qualitativa do
material coletado na pesquisa de campo, realizada por meio de entrevistas
semiestruturadas com nove assistentes sociais atuantes nas políticas de
assistência social, saúde e área sociojurídica. As entrevistas abordaram
concepções de família, demandas, instrumentos de trabalho e fundamentos no
exercício profissional. Trata-se de uma amostra intencional, composta por
profissionais com experiência na área. A análise dos dados foi realizada por meio
da técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2016).
A exposição dos resultados organiza-se a partir de eixos analíticos que
privilegiam a apreensão das mediações que conformam o trabalho da/o assistente
social com famílias, em detrimento de uma apresentação linear do roteiro de
entrevistas. Essa opção metodológica possibilitou evidenciar aproximações e
tensões presentes no cotidiano profissional, bem como permanências históricas,
disputas de concepções e estratégias construídas pelas/os assistentes sociais
no enfrentamento das expressões da questão social que atravessam as famílias
atendidas. A análise é orientada pelas dimensões dos fundamentos do Serviço
Social — histórica, teórico-metodológica e ético-política —, que permitem
apreender essas mediações em sua complexidade.
O trabalho da/o assistente social com famílias constitui um campo
contraditório: ao mesmo tempo em que se consolidam concepções críticas,
alinhadas ao projeto ético-político do Serviço Social, persistem práticas e
exigências institucionais marcadas pelo familismo e por valores conservadores,
intensificados no contexto de precarização das políticas sociais. Nesse
sentido, o trabalho profissional ultrapassa a dimensão técnico-operativa,
envolvendo disputas ético-políticas e ideológicas, nas quais a/o assistente
social atua como mediador entre demandas das famílias, requisições do Estado e
limites das políticas sociais. As seções seguintes aprofundam essas questões.
2.1 Concepções
de família(s)
A análise das entrevistas evidencia que a maioria das/os assistentes
sociais participantes compartilham uma concepção ampliada e contemporânea de
família, alinhada à noção de famílias no plural, conforme discutido por Mioto
(2010) e Horst e Mioto (2017), visto que é predominante a compreensão da
família como construção social, histórica e cultural, produzida nas relações
sociais concretas e atravessada pelas determinações da sociedade capitalista,
afastando-se de leituras naturalizadas ou biologicistas.
Essa perspectiva rompe com o modelo nuclear tradicional, heteronormativo e
patriarcal, reconhecendo a diversidade de arranjos, vínculos e significados que
constituem as famílias na contemporaneidade.
As falas das/os entrevistadas/os indicam a centralidade do afeto, da
convivência e do apoio mútuo como elementos definidores das relações
familiares, relativizando a primazia dos laços consanguíneos. S1, por exemplo,
afirma que “família são relações de pessoas que se gostam”, enquanto S2
destaca que a família é composta por “um grupo de pessoas que mantém uma
convivência mais próxima, que tem um objetivo de se ajudar”, reforçando que
tais vínculos não se definem necessariamente pelo sangue. Essas concepções
dialogam com a leitura crítica de Mioto (2010), para quem a família deve ser
apreendida como espaço relacional contraditório, que articula dimensões
privadas e públicas, sendo simultaneamente lugar de cuidado, proteção,
conflitos e reprodução das desigualdades sociais.
Entretanto, os dados também revelam a coexistência de concepções
idealizadas de família, que a definem como instância natural de proteção e
estabilidade. Essas leituras, embora não se expressem necessariamente como
posicionamentos políticos conscientes, aproximam-se do familismo ao
desconsiderar as condições objetivas de vida das famílias e os limites
estruturais de sua capacidade protetiva. Nesse sentido, Horst e Mioto (2017)
apontam que, historicamente, a atuação profissional “[...] muda de forma, preservando,
no entanto, compromissos sociopolíticos com o conservadorismo [...]” (Horst;
Mioto, 2017, p. 229), o que ajuda a compreender a permanência de concepções
normativas mesmo em contextos marcados pelo avanço do projeto ético-político
crítico, evidenciando diferentes formas de apreensão da família na
sociabilidade capitalista.
Conforme analisa Heller (2021), o pensamento cotidiano permite a
convivência de concepções contraditórias, o que contribui para explicar a
permanência de noções idealizadas de família mesmo entre profissionais
alinhados ao projeto ético-político do Serviço Social. Essas contradições não
se colocam, necessariamente, como incoerência individual, mas como expressão
das mediações entre formação crítica, experiência cotidiana e valores
socialmente hegemônicos.
Assim, os resultados indicam que o trabalho da/o assistente social com
famílias se realiza em um campo de disputas conceituais, no qual concepções
críticas e ampliadas coexistem com resquícios de leituras conservadoras. Tal
constatação reforça a necessidade de mediação permanente entre teoria e prática
e de investimento em formação teórico-metodológica, para sustentar um exercício
profissional coerente com os fundamentos do Serviço Social e seu projeto
ético-político.
2.2 Arranjos
familiares e protagonismo feminino
Os arranjos familiares identificados no cotidiano profissional das/os
entrevistadas/os evidenciam uma realidade marcada pela pluralidade e pelo
protagonismo feminino. As famílias monoparentais chefiadas por mulheres, bem
como aquelas em que avós, tias ou outras mulheres assumem funções parentais,
aparecem como configuração predominante, expressando a feminização histórica da
responsabilidade pelo cuidado e pela reprodução social. Essa realidade é
explicitada na fala de S7 ao afirmar que “Quando não é mãe solo, é avó,
quando não é avó, é tia. Ou seja, é sempre o lado feminino do cuidado”,
evidenciando a centralidade das mulheres na sustentação cotidiana da vida
familiar, expressão da divisão sexual do trabalho na sociabilidade capitalista.
Essa centralidade feminina não decorre de uma suposta aptidão natural
das mulheres para o cuidado, mas da divisão sexual do trabalho própria da
sociabilidade capitalista patriarcal, que atribui às mulheres o trabalho
reprodutivo, doméstico e de cuidado, sem reconhecimento social ou remuneração (Federici, 2021). No contexto brasileiro, essa sobrecarga
incide de forma ainda mais intensa sobre mulheres negras e empobrecidas,
revelando a imbricação entre gênero, raça e classe na conformação das famílias
atendidas pelas políticas sociais (Cisne, 2013; Santos; Passos, 2025). Tal
dimensão aparece de forma concreta nas falas das entrevistadas, como destaca S4
ao relatar que “em 90% das famílias a figura masculina não aparece”,
reforçando a naturalização da ausência masculina e a responsabilização feminina
pelo cuidado.
As falas também evidenciam a presença de arranjos familiares diversos,
como famílias reconstituídas, homoafetivas, extensas e redes de apoio
comunitárias, confirmando que a pluralidade familiar não é exceção, mas
expressão concreta da realidade social contemporânea. S1 ressalta que “existe
uma diversidade muito grande de configurações familiares”, enquanto S3
amplia essa compreensão ao afirmar que, em muitos territórios, “o vizinho
faz parte daquela família, é o suporte que aquela família tem”,
reconhecendo redes de apoio que extrapolam os limites do núcleo doméstico.
No entanto, especialmente na área sociojurídica, emerge uma contradição
entre essa pluralidade vivida e a centralidade conferida pelas instituições à
família biológica e ao modelo nuclear heteronormativo. S5 problematiza essa
lógica ao afirmar que, muitas vezes, “a gente acaba priorizando afetos que
não se dão mais, em detrimento dessa questão da família biológica”,
evidenciando como o poder judiciário tende a reafirmar vínculos consanguíneos
mesmo quando não correspondem às relações efetivas de cuidado. Tal postura
reafirma valores conservadores e patriarcais, negando o reconhecimento de
formas ampliadas de pertencimento e cuidado (Keller, 2019).
Diante disso, o trabalho da/o assistente social se constitui como
mediação crítica ao tensionar essas normativas institucionais, afirmando a
legitimidade de arranjos familiares baseados no afeto, na convivência e na
responsabilidade coletiva. Essa postura reafirma o compromisso ético-político
da profissão com a diversidade, os direitos humanos e a dignidade dos sujeitos,
ao mesmo tempo em que explicita os limites institucionais para a efetivação de
uma concepção ampliada de família no interior das políticas públicas.
2.3 Demandas
complexas e limites institucionais
As demandas apresentadas pelas famílias atendidas revelam o caráter
complexo e contraditório das expressões da questão social na contemporaneidade:
pobreza, violência doméstica, adoecimento mental, uso abusivo de substâncias
psicoativas, insegurança alimentar e rupturas de vínculos aparecem de forma
entrelaçada, exigindo do trabalho profissional uma leitura que ultrapasse
explicações individualizantes e moralizantes (Iamamoto,
2007). As falas das/os entrevistadas/os evidenciam esse entrecruzamento ao
relatarem situações em que conflitos familiares, negligência, sofrimento
psíquico e ausência de suporte estatal se sobrepõem no cotidiano profissional,
como aponta S1 ao afirmar que “em torno de 70% das demandas são de conflito
familiar, que transita por negligência, suspeita de maus-tratos”.
Os dados indicam que a fragilidade das políticas públicas e o desmonte
da rede de proteção social intensificam essas demandas, transferindo às
famílias responsabilidades que caberiam ao Estado. Essa dinâmica reforça o
familismo, ao acionar a família como instância compensatória diante da
insuficiência das políticas sociais, especialmente nas áreas de assistência
social, saúde e saúde mental (Mioto et al., 2018). S2 exemplifica esse
cenário ao relatar situações em que idosos são cuidados por outros idosos, sem
qualquer suporte institucional, evidenciando a insuficiência das políticas de
cuidado e o deslocamento da responsabilidade para o âmbito familiar.
Em contextos de extrema precarização, os serviços e as/os próprias/os
assistentes sociais passam a assumir funções socialmente atribuídas à família,
como cuidado cotidiano, acolhimento e mediação de conflitos, evidenciando a
ausência do Estado na garantia de proteção social. Essa realidade é demonstrada
na fala de S9 ao afirmar que, diante da fragilização ou inexistência de
vínculos familiares, “acabamos fazendo o papel de família”. Conforme
analisa Iamamoto (2007), tais situações materializam
a questão social não como conjunto de carências isoladas, mas como expressão
das contradições estruturais do capitalismo, que produzem desigualdades
profundas e desorganizam os vínculos sociais.
Dessa forma, o trabalho da/o assistente social se realiza em permanente
tensão entre a necessidade de responder às demandas imediatas das famílias e os
limites institucionais impostos pela precarização das políticas públicas. Como
aponta S7, muitas situações que culminam em medidas protetivas ou acolhimento
institucional decorrem menos de “falhas familiares” e mais da ausência
de políticas públicas capazes de garantir renda, cuidado e proteção, o que
exige da/o assistente social a construção de mediações que articulem proteção
social, defesa de direitos e leitura crítica da realidade, evitando a
reprodução de práticas moralizantes e reafirmando o compromisso ético-político
da profissão com a emancipação dos sujeitos e a afirmação dos direitos sociais.
2.4 Instrumentos
de trabalho com famílias
No que se refere aos instrumentos
utilizados no trabalho com famílias, os resultados evidenciam o uso
predominante de entrevistas, visitas domiciliares e produção de documentos
técnicos, como relatórios, laudos e pareceres. Esses instrumentos possuem
potencial analítico e interventivo, desde que articulados aos fundamentos
teórico-metodológicos e ético-políticos da profissão (Lewgoy; Silveira, 2007).
As entrevistas aparecem como recurso central no cotidiano profissional, sendo
descritas pelas entrevistadas como o principal meio de acesso à realidade das
famílias, ainda que, como aponta S6, “em geral, é entrevista individual, e
não de fato um trabalho com a família como grupo”, o que evidencia a
dificuldade em realizar um trabalho que considere a totalidade das relações
familiares.
Entretanto, as falas indicam que tais instrumentos são frequentemente
tensionados pela burocratização e pela lógica do controle institucional, o que
pode reduzir seu uso a práticas fiscalizatórias e administrativas. A visita
domiciliar, por exemplo, é reconhecida como fundamental para conhecer a
realidade das famílias, mas também problematizada por S7 ao relatar práticas
invasivas e pouco planejadas, que acabam assumindo caráter de vigilância. Nessa
direção, quando utilizada de forma acrítica, a visita domiciliar pode reforçar
processos de controle moral e violação de direitos, em vez de constituir espaço
de diálogo e construção de conhecimento com as famílias (Closs;
Scherer, 2017).
Ao mesmo tempo, emergem experiências que buscam romper com a
individualização das ações, como grupos reflexivos, conferências familiares e
articulações intersetoriais. S2 relata a realização de conferências familiares
com equipes multiprofissionais para construção coletiva de planos de cuidado,
enquanto S3 menciona a tentativa de constituir grupos como estratégia para
“dar conta de demandas que o individual não alcança”. Essas iniciativas
apontam possibilidades de práticas contra-hegemônicas,
ainda que encontrem limites na sobrecarga de trabalho, na escassez de recursos
e na fragilidade das redes de proteção, reafirmando a autonomia relativa da/o
assistente social (Iamamoto, 2007).
A produção escrita, por sua vez, aparece como instrumento central do
trabalho profissional, especialmente na área sociojurídica, sendo descrita
pelas entrevistadas como uma das principais formas de materializar a
intervenção, pois relatórios, estudos sociais, laudos e pareceres não apenas
registram informações, mas subsidiam decisões institucionais que impactam
diretamente a vida das famílias. Conforme destaca Toniolo (2023), tais
documentos não devem se limitar à descrição de fatos, mas situar as situações
analisadas na totalidade social, evidenciando suas determinações históricas e
estruturais — dimensão que, como reconhecem as próprias entrevistadas, é
constantemente tensionada pelas exigências de rapidez, objetividade e
padronização institucional.
2.5
Fundamentos, conservadorismo e disputas ético-políticas
A análise evidencia que os fundamentos do Serviço Social são
reconhecidos como base indispensável para o trabalho profissional com famílias,
predominando a referência à teoria social crítica e ao materialismo
histórico-dialético como fundamentos capazes de sustentar uma leitura de
totalidade, historicidade e contradição da realidade social (Yazbek, 2020;
Netto, 2011). Contudo, os dados revelam dificuldades na apropriação sistemática
desses fundamentos no cotidiano profissional, seja em função de lacunas na formação,
seja pelas condições objetivas de trabalho, marcadas pela intensificação
laboral e pela precarização do exercício profissional (Iamamoto;
Santos, 2021). Em alguns casos, os fundamentos aparecem reduzidos à dimensão
ética ou à interdisciplinaridade, fragilizando a especificidade crítica do
Serviço Social enquanto profissão inserida na divisão social, técnica, racial e
sexual do trabalho (Closs, 2015).
Nesse cenário, a precarização da formação profissional emerge como
elemento central para compreender as dificuldades na apropriação crítica dos
fundamentos do Serviço Social e a permanência de práticas conservadoras no
trabalho com famílias. O avanço do ensino superior privado, especialmente na
modalidade de Educação a Distância (EaD), tem
impactado a formação das/os assistentes sociais ao priorizar currículos
tecnicistas, fragmentados e dissociados da pesquisa, da extensão e da
supervisão acadêmica qualificada (Gonçalves; Silva, 2020).
Essa lógica mercantilizada compromete a apreensão da teoria social
crítica, aprofunda a cisão entre teoria e prática e fragiliza a capacidade
analítica das/os profissionais para compreender as mediações estruturais da
questão social. Como alerta Iamamoto (2007), a
fragilidade da formação teórico-metodológica favorece abordagens
individualizantes e moralizantes no trabalho com famílias. Trata-se, portanto,
de um elemento político central, que incide diretamente sobre o exercício
profissional e tensiona o projeto ético-político do Serviço Social, exigindo a
defesa de uma formação crítica.
O conservadorismo emerge como elemento transversal no trabalho com
famílias, manifestando-se por meio de julgamentos morais, culpabilização das
famílias e idealização do modelo nuclear heteronormativo como referência
universal de proteção e cuidado. Mesmo após a consolidação do projeto
ético-político do Serviço Social, o conservadorismo permanece como ideologia
latente na profissão, especialmente no trabalho com famílias (Iamamoto, 2011).
No contexto brasileiro, esse conservadorismo não se apresenta como
resíduo do passado, mas como expressão de uma herança histórica autoritária,
patriarcal e racista, que se reatualiza em diferentes conjunturas e atravessa
as instituições estatais e as políticas sociais. Nos últimos anos, com o avanço
da extrema direita e do bolsonarismo, tais valores foram intensificados e
legitimados no debate público, mobilizando discursos em defesa da família
tradicional, da moral cristã e da responsabilização individual como resposta às
expressões da questão social (Duarte, 2023). Essa ofensiva conservadora reforça
processos de criminalização da pobreza e deslegitima a diversidade familiar.
Nesse sentido, o trabalho da/o assistente social com famílias
configura-se como um espaço de disputa entre projetos societários antagônicos.
A afirmação de uma centralidade sociofamiliar crítica exige enfrentar o
familismo[2] que atravessa as políticas sociais, tensionar práticas institucionais
que transferem às famílias responsabilidades estruturais e reafirmar a proteção
social como dever do Estado e direito da população.
Assim, trata-se de articular, no trabalho profissional, referenciais
críticos e o compromisso ético-político com a emancipação humana, reconhecendo
as famílias como espaços históricos e contraditórios, constituídos por sujeitos
de direitos, e não como responsáveis pela superação das desigualdades sociais
produzidas pelo capitalismo. Nesse contexto regressivo, marcado pelo desmonte
das políticas sociais e pela reatualização de valores conservadores, o trabalho
da/o assistente social assume caráter eminentemente político, expressando a
dimensão ético-política dos fundamentos do Serviço Social ao disputar sentidos,
denunciar violações de direitos e sustentar práticas profissionais alinhadas ao
projeto ético-político da profissão (Yazbek, 2018).
2.6 Desafios do trabalho com famílias na atualidade
Os desafios atuais do trabalho da/o assistente social com famílias,
conforme as falas das/os entrevistadas/os, estão profundamente articulados à
precarização das políticas públicas e ao desmonte da rede de proteção social,
expressões da ofensiva neoliberal no Estado brasileiro. A ausência de recursos
materiais, humanos e institucionais atravessa o cotidiano profissional,
limitando a efetivação de direitos e tensionando permanentemente o exercício
profissional. Como afirma S1, “não adianta ter uma rede super colaborativa e
não ter estrutura”, evidenciando o esgotamento de um sistema de proteção
fragilizado que transfere às famílias responsabilidades que caberiam ao Estado.
Esse processo de desresponsabilização estatal intensifica a sobrecarga
das famílias da classe trabalhadora, que passam a assumir funções de cuidado e
provisão material sem suporte público, reforçando o familismo como eixo
estruturante da política social brasileira (Mioto et al., 2018).
Situações como idosos cuidando de outros idosos, mães solo sobrecarregadas e
famílias sem acesso a serviços básicos revelam não apenas mudanças
demográficas, mas a insuficiência das políticas públicas frente às novas
configurações familiares.
A precarização da rede de proteção compromete o acompanhamento
continuado das famílias. Conforme S4, os serviços tornam-se “de travessia”,
restritos a orientações e encaminhamentos, em função da insuficiência de
equipes, excesso de demandas e escassez de tempo. Nesse contexto, a
precariedade das condições de vida, marcada pelo desemprego, insegurança
alimentar e ausência de serviços, fragiliza vínculos familiares e projetos de
futuro.
Essa realidade dialoga com Yazbek (2018) ao apontar que o neoliberalismo
compromete a universalização dos direitos sociais e reforça a responsabilização
individual e familiar pelas expressões da questão social, inserindo a/o
assistente social em um campo permanentemente tensionado entre a defesa de
direitos e a mediação com serviços precarizados.
Outro desafio refere-se à intensificação do sofrimento psíquico e ao uso
abusivo de substâncias psicoativas, especialmente em territórios marcados pela
desigualdade. As falas de S2, S6 e S7 indicam o adoecimento mental como uma das
expressões mais agudas da questão social, agravada pela insuficiência da rede
de saúde mental. Soma-se a isso o avanço do crime organizado, que impõe limites
à presença estatal e ao trabalho profissional, expressando determinações
estruturais de classe e território (Souza, 2015).
As desigualdades territoriais e as tensões institucionais, especialmente
na articulação com o Conselho Tutelar e outros órgãos do sistema de garantia de
direitos, também emergem como desafios relevantes. As falas apontam práticas
autoritárias e fragmentadas, que dificultam decisões compartilhadas e exigem
da/o assistente social constante mediação em um modelo de regulação marcado
pela verticalização e responsabilização (Raichelis,
2010).
Por fim, a dimensão ética e política do trabalho profissional é
evidenciada por S4 ao afirmar que as políticas públicas devem possibilitar que
as pessoas consigam sonhar. A precarização compromete não apenas o acesso a
direitos, mas a capacidade de projetar futuros, o que dialoga com a concepção
marxista de liberdade como possibilidade concreta de escolha (Marx, 2013).
Desse modo, os desafios do trabalho da/o assistente social com famílias
revelam um campo de intensas disputas ético-políticas, marcado pelo desmonte
das políticas públicas e pelo avanço do conservadorismo. Ainda assim, os
relatos evidenciam a sustentação de práticas críticas e comprometidas com a
defesa dos direitos humanos, reafirmando o projeto ético-político do Serviço
Social como horizonte de resistência e transformação social.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise permite afirmar que o trabalho da/o assistente social com
famílias se realiza em um cenário marcado por grandes contradições, no qual
convivem avanços teórico-políticos importantes e limites estruturais
persistentes. Se, por um lado, observa-se a ampliação das concepções de família
e o fortalecimento de leituras críticas alinhadas ao projeto ético-político do
Serviço Social, por outro, permanecem práticas institucionais atravessadas pelo
familismo, pela responsabilização privada e pela reatualização de valores
conservadores, especialmente em um contexto de precarização das políticas
públicas e regressão de direitos sociais.
A pesquisa revela que, embora predomine entre as/os profissionais uma
compreensão crítica e plural de família, persistem limites impostos pela
precarização das políticas públicas, pelo desmonte da rede de proteção social e
pela intensificação das expressões da questão social. A centralidade conferida
às famílias nas políticas sociais brasileiras, longe de se constituir apenas
como avanço, mantém caráter ambíguo ao deslocar responsabilidades estruturais
do Estado para o âmbito privado, sobrecarregando especialmente mulheres, em sua
maioria negras e empobrecidas.
Os dados empíricos evidenciam que as demandas apresentadas pelas
famílias são atravessadas por desigualdades de classe, raça, gênero e
território, exigindo da/o profissional uma leitura de totalidade articulada aos
fundamentos do Serviço Social. Entretanto, a apropriação sistemática desses
fundamentos é tensionada pelas condições objetivas de trabalho e pela
precarização da formação profissional, intensificada pela mercantilização do
ensino superior e pela expansão do EaD, processo que
contribui para a reatualização de práticas conservadoras no trabalho com
famílias.
Nesse contexto, o trabalho da/o assistente social com famílias se
configura como espaço privilegiado de disputa entre projetos societários
antagônicos. Sustentar uma centralidade sociofamiliar crítica implica enfrentar
o familismo, tensionar normativas institucionais e reafirmar a proteção social
como dever do Estado e direito da população. Assim, reafirma-se que a defesa
dos Fundamentos do Serviço Social e do Projeto Ético-Político da profissão
constitui condição indispensável para a construção de respostas profissionais
comprometidas com os direitos humanos, a justiça social e a emancipação dos
sujeitos, especialmente em um cenário marcado pela regressão de direitos e pelo
avanço do conservadorismo no Brasil.
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NOTAS
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Fernanda Escobar Fernandes Barbosa
Trabalhou na
concepção, delineamento e interpretação dos dados, na redação do artigo e
aprovação da versão a ser publicada.
Graduada em Serviço Social pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestra em Política Social e
Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Política Social e Serviço
Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutoranda em
Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul. Assistente Social Analista da Polícia Penal do Estado do Rio
Grande do Sul. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Formação e Exercício
Profissional em Serviço Social – GEFESS/UFRGS.
Alzira Maria Baptista Lewgoy Trabalhou na concepção e
delineamento do artigo, e redação do artigo e sua revisão crítica.
Doutora em Serviço Social pela
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e Pós-Doutora em Serviço Social pelo Instituto Superior
Miguel Torga, Coimbra – Portugal. Professora associada do Departamento de
Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social e Serviço
Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Coordenadora do
Grupo de Estudos e Pesquisas em Formação e Exercício Profissional em Serviço
Social – GEFESS/UFRGS.
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Editoras responsáveis:
Silvia Neves Salazar–Editora-chefe
Maria Lúcia Teixeira Garcia–Editora
Agências financiadoras
O presente trabalho foi realizado
com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES) por meio de bolsa de mestrado.
Aprovação por Comitê de Ética e
consentimento para participação
Aprovação no Comitê de Ética em
Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, através do CAAE nº
77840724.1.3001.5327. Assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE).
Preprints
(X) O manuscrito não é um preprint.
Conflito de
interesses
Informar conflito de interesses: financeiros, pessoais, entre possíveis
revisores e editores, e/ou possíveis vieses temáticos.
( ) As pessoas autoras declaram os seguintes interesses conflitantes:
indicar quais conflitos.
(X) As pessoas autoras declaram não haver interesses conflitantes.
Reconhecemos que algumas autorias podem estar sujeitas a acordos de
confidencialidade. Nesses casos, obrigatoriamente declarar:
( ) As pessoas autoras informam estar vinculadas a acordos de
confidencialidade que impedem a divulgação de possíveis conflitos de interesse
relacionados a este trabalho.
Consentimento para
publicação
As autoras permitem a publicação do presente trabalho.
Disponibilidade de
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de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi enviado para publicação
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Publisher
Programa de
Pós-graduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo.
Histórico
Recebido em: 03/02/2026
Revisado em: 22/04/2026
Aprovado em: 19/05/2026
Publicado em: 26/07/2026
|
Copyright (c) 2026 Fernanda Escobar Fernandes
Barbosa, Alzira Maria Baptista Lewgoy. Este trabalho está licenciado sob uma
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autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o
trabalho licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY 4.0), que permite o compartilhamento
do trabalho com reconhecimento da autoria. Os artigos são de acesso aberto e
uso gratuito. https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt-br |
|
[1] Opta-se, neste trabalho, pelo uso da expressão área
sociojurídica, conforme problematização realizada por Borgianni
(2013), por entender que o termo campo pode sugerir que o Serviço Social
funcione neste espaço a partir da lógica própria do Direito. A autora ressalta
que a/o assistente social não tem como atribuição interpretar ou decidir
juridicamente, mas intervir sobre as expressões da questão social que se
manifestam em espaços atravessados pelo sistema de justiça. Assim, a
denominação área sociojurídica contribui para evidenciar que o jurídico opera
como mediação do trabalho profissional, e não como seu fundamento central.
[2]Familismo designa a perspectiva das políticas sociais que
desloca para as famílias a responsabilidade pelo cuidado e proteção social,
reforçando a desresponsabilização do Estado (Mioto et al., 2018).