O uso de metáfora por pessoas vivendo com demência
entre o problema de compreensão e a possibilidade de significação
DOI:
https://doi.org/10.47456/rctl.v20i45.52621Palavras-chave:
Subjetividade, Metáfora, NeurolinguísticaResumo
Os discursos de pessoas com demência frequentemente escapam às formas convencionais de linguagem. O uso metafórico, nesse contexto, pode ser interpretado como um erro de linguagem sob a perspectiva gramatical normativista. A partir da neurolinguística, as alterações de linguagem são compreendidas por meio da identificação e descrição de fenômenos linguísticos considerados desviantes em relação à norma. Aqui, o uso de metáforas nas falas de pessoas com demência é observado como dado de linguagem: não é indicador de prejuízo cognitivo, mas se inscreve nos modos singulares de produção de sentido e nas estratégias de reorganização comunicativa desses sujeitos. A partir de quatro dados de fala, discutimos a diluição da experiência física em abstrações aparentemente inusitadas. A metáfora em uso, nesse contexto, não parece ter a intenção deliberada de criar um efeito emotivo, mas apresenta vestígios de subjetividade. Mesmo quando carregadas de um efeito de surpresa, entendemos esse uso criativo — com deslocamentos pouco usuais entre domínios (sociocognitivos) da experiência — como apoiado em um sistema conceptual compartilhado. Inferimos que uma racionalidade imaginativa, que permanece possível no contexto de síndromes demenciais pela memória do corpo, permite que a biografia seja, em alguma medida, mantida, ainda que em desafino, como notas que ressoam em desarmonia.
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