O uso de metáfora por pessoas vivendo com demência

entre o problema de compreensão e a possibilidade de significação

Autores

DOI:

https://doi.org/10.47456/rctl.v20i45.52621

Palavras-chave:

Subjetividade, Metáfora, Neurolinguística

Resumo

Os discursos de pessoas com demência frequentemente escapam às formas convencionais de linguagem. O uso metafórico, nesse contexto, pode ser interpretado como um erro de linguagem sob a perspectiva gramatical normativista. A partir da neurolinguística, as alterações de linguagem são compreendidas por meio da identificação e descrição de fenômenos linguísticos considerados desviantes em relação à norma. Aqui, o uso de metáforas nas falas de pessoas com demência é observado como dado de linguagem: não é indicador de prejuízo cognitivo, mas se inscreve nos modos singulares de produção de sentido e nas estratégias de reorganização comunicativa desses sujeitos. A partir de quatro dados de fala, discutimos a diluição da experiência física em abstrações aparentemente inusitadas. A metáfora em uso, nesse contexto, não parece ter a intenção deliberada de criar um efeito emotivo, mas apresenta vestígios de subjetividade. Mesmo quando carregadas de um efeito de surpresa, entendemos esse uso criativo — com deslocamentos pouco usuais entre domínios (sociocognitivos) da experiência — como apoiado em um sistema conceptual compartilhado. Inferimos que uma racionalidade imaginativa, que permanece possível no contexto de síndromes demenciais pela memória do corpo, permite que a biografia seja, em alguma medida, mantida, ainda que em desafino, como notas que ressoam em desarmonia.

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Biografia do Autor

  • Marina Guitti de Souza, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

    Médica, mestranda na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e preceptora na Residência de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Unicamp. Possui residência em Psiquiatria e em Psicogeriatria pela Unicamp, além de graduação em Medicina pelo Centro Universitário Saúde ABC. Integra grupo de pesquisa nas áreas de linguagem, psicopatologia fenomenológica e psicanálise (IEL/Unicamp).

  • Edwiges Maria Morato, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

    Professora Titular do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na área de Neurolinguística. Graduada em Linguística (Unicamp) e em Fonoaudiologia (PUC-Campinas), é Mestre e Doutora em Linguística pela Unicamp, com doutorado sanduíche na Université Sorbonne-Nouvelle (Paris III). Realizou pós-doutorados na França. É pesquisadora do CNPq e da Fapesp.

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Publicado

07-09-2026