Usurpação de terras em Moçambique: leitura a partir do ProSAVANA

Authors

  • Ana Caroline N. Nascimento
  • Luana de Andrade C.

Abstract

O trabalho pretende situar criticamente os impactos acerca do Programa de Cooperação Tripartida para o Desenvolvimento Agrícola da Savana Tropical em Moçambique (ProSAVANA), mais expecificamente com relação à usurpação de terras dos camponeses/as moçambicanos/as. 

            Do período colonial, passando pela luta armada, pelo pós-independência, e o estabelecimento da paz, construíram-se determinações, as quais denotam um padrão de acumulação classificado como economia extrativa (CASTEL BRANCO, 2010). A centralidade da estratégia de crescimento econômico pauta-se por um lado, na extração de recursos naturais (carvão, gás natual, madeira, hidrocarbonetos e etc), concretizada pela associação entre Estado nacional, elites politicoeconômicas locais e empresas estrangeiras, e sua exportação essencialmente como produtos primários, e de outro, na ausência de investimento estatal na autonomia do setor industrial.

            Desse modo, projeto de desenvolvimento defendido reproduz a vulnerabilidade no país, expressa através da pobreza, do desemprego, da insegurança alimentar, e da abrupta elevação do custo de vida, sobretudo de itens de primeira necessidade, como os alimentos.

               Nesse sentido, o trabalho está enquadrado no debate sobre Questão Agrária, Urbana e Ambiental, visto que o Programa supracitado insere-se nos marcos da estratégia (neo)desenvolvimentista brasileira – cuja voracidade por terras demonstram resultados dramáticos (SANTOS, 2013) –, e  pode ser caracterizada como de natureza subimperialista e neocolonial. Tomamos como base pesquisa de iniciação científica iniciada em 2016, vinculada ao projeto do Profº Dr. Marco Mondaini, ao Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco (DSS-UFPE) e ao Instituto de Estudos da África (IEAf).

            Propomos uma análise teórico-conceitual e histórico-social de abordagem marxista, com centralidade na categoria totalidade, no conceito de (neo)desenvolvimentismo e a concepção contra hegemônica de direitos humanos, antagônica à noção liberal. O ProSAVANA, inspirado na experiência do Programa de Cooperação Nipo-brasileiro para o desenvolvimento dos Cerrados (PRODECER), está sendo instituído no cenário da economia moçambicana dependente e extrativista, apresentando um viés ”salvacionista", de suposto promotor do desenvolvimento agrícola no Corredor de Nacala. Em oposição, organizações da sociedade civil, a exemplo da União Nacional de Camponeses (UNAC) e da Acção Académica Para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais (ADECRU) denunciam a arbitrariedade da imposição do ProSAVANA, marcada pela ausência de responsabilização pelas terras usurpadas, falta de transparência do processo, bem como pela elevação do custo de vida e elevação do déficit alimentar, considerando a estratégia de desenvolvimento agrícola de submissão da agricultura familiar ao agronegócio.

Percebe-se que nesta conjuntura, os interesses da população em cujas terras será executado o ProSAVANA são desconsiderados. Isto se deve ao fato de que o programa tem origem como um projeto comercial, político e diplomático, sem reais preocupações com as necessidades dos habitantes das zonas rurais, onde mais de 80% dos moçambicanos desenvolvem a agricultura familiar (WORLD BANK, 2012). Assim sendo, enquanto pesquisadoras da área dos direitos humanos, tomamos como necessária a reflexão a respeito da tensão entre os direitos ao desenvolvimento e à autodeterminação dos povos, como destacado por Santos (2013).

 

 

References

BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética e Serviço Social: fundamentos ontológicos. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2006.

BRAZ, Marcelo. Notas sobre o projeto ético-político do Serviço Social. In: CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Assistente social: ética e direitos. Coletânea de Leis e Resoluções. 4. ed. Rio de Janeiro: 2002.

______. A hegemonia em xeque: projeto ético-político do Serviço Social e seus elementos constitutivos. Revista Inscrita, Rio de Janeiro, v. X, p. 4-10, 2007.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Tradução Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968. (Coleção Perspectivas do homem, volume 48, série filosofia).

GUERRA, Yolanda. A instrumentalidade do serviço social. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

HARVEY, David. O novo imperialismo. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2010.

HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções: 1789-1848. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 1998.

______. Renovação e conservadorismo no Serviço Social: ensaios críticos. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2002.

______. As dimensões ético-políticas e teórico-metodológicas no Serviço Social contemporâneo. In: MOTA, Ana Elisabete; BRAVO, Maria Inês Souza; TEIXEIRA, Marlene et al. (Orgs.). Serviço Social e Saúde: formação e trabalho profissional. São Paulo: OPAS, OMS, Ministério da Saúde, 2006.

______;. CARVALHO, Raul de. Relações sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. São Paulo: Cortez, 2003.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução Maria Helena Barreiro Alves. Revisão Carlos Roberto F. Nogueira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983 (Novas direções).

MONTAÑO, Carlos. A natureza do Serviço Social: um ensaio sobre sua gênese, a “especificidade” e sua reprodução. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

______; DURIGUETTO, Maria Lúcia. Estado, classe e movimento social. São Paulo: Cortez, 2010. (Biblioteca Básica de Serviço Social, v. 5).

NASCIMENTO, Milton Meira. Rousseau: da servidão à liberdade. In: WELFORT, Francisco C. (Org.). Os clássicos da política. 14. ed. São Paulo: Ática, 1993. v. 1.

NICOLAU, Maria Célia Correia. Formação e fazer profissional do assistente social: trabalho e representações sociais. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, v. 24, n. 79, p. 82-107, set. 2004.

PAULO NETTO, José. Capitalismo monopolista e Serviço Social. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

______. A conjuntura brasileira: o Serviço Social posto à prova. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, v. 24, n. 79, p. 5-26, set. 2004.

______; BRAZ, Marcelo. Economia política: uma introdução crítica. São Paulo: Cortez, 2006. (Biblioteca Básica de Serviço Social, v. 1).

PEREIRA, Potyara A. P.; STEIN, Rosa Helena. Política social: universalidade versus focalização. Um olhar sobre a América Latina. In: BOSCHETTI, Ivanete; BEHRING, Elaine R.; SANTOS, Silvana Mara de Moraes et al. (Orgs.). Capitalismo em crise, política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2010.

PEREIRA, Potyara A. P. Política social: temas & questões. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. In: WELFORT, Francisco C. (Org.). Os clássicos da política. 14. ed. São Paulo: Ática, 1993. v. 1.

SANTOS, Josiane Soares. “Questão social”: particularidades no Brasil. São Paulo: Cortez, 2012. (Coleção biblioteca básica de Serviço Social, v. 6).

SILVA, Maria Ozanira da S. Formação profissional do assistente social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1995.

SOARES, Laura Tavares. Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2009

Published

2017-08-08