Trabalho, desproteção social e situação de rua no capitalismo contemporâneo

Authors

  • Edilene Souza da Silva Mestre em Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Pesquisadora no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Seguridade e Assistência Social

Abstract

O presente trabalho propõe reflexões acerca do processo de saúde-adoecimento da classe trabalhadora e seus desdobramentos em situações de desproteção social, culminando em múltiplas expressões da questão social, com destaque para a vivência em situação de rua. Parte-se da experiência profissional desenvolvida em um Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro POP, localizado  no município de Hortolândia, interior paulista, integrante da Região Metropolitana de Campinas. O município possui aproximadamente 240 mil habitantes, conforme dados do IBGE, e apresenta uma população em situação de rua estimada em cerca de 150 pessoas, composta majoritariamente por homens negros, entre 35 e 50 anos, oriundos do próprio município, que vivenciam a dor de não mais serem absorvidos pelo mercado de trabalho em decorrência de lesões, acidentes ou situações traumáticas relacionadas à atividade laboral. A experiência profissional no serviço evidencia que grande parte dos usuários chegou à situação de rua em decorrência do adoecimento relacionado ao trabalho, processo que, além de provocar o afastamento ou exclusão do mercado laboral, desencadeou perda de renda, fragilização e rompimento de vínculos familiares e sociais. Observa-se que esse percurso frequentemente é acompanhado pelo uso abusivo de álcool e outras drogas, utilizado, em muitos casos, como estratégia para suportar o sofrimento psíquico e amenizar as perdas decorrentes da exclusão do mercado de trabalho.Parte-se da compreensão de que as transformações contemporâneas no mundo do trabalho, marcadas pela intensificação da precarização, pelo processo de acumulação flexível (Harvey, 1989) e pela fragilização das políticas de proteção social (Salvador, 2010), têm produzido impactos diretos nas condições de vida da classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 2010), especialmente no que se refere ao sofrimento físico e mental decorrente das atuais formas de exploração do trabalho.

Published

2026-08-20