O problema do sentido do sofrimento
Resumo
O artigo examina o assim chamado “problema do sentido do sofrimento”, formulado no FP 1888, 14 [89] e que trata do antagonismo entre o “sentido cristão” e o “sentido trágico”. A caracterização do problema será feita mediante a explicitação de três aspectos formais que atuam na constituição geral de suas teses: o contexto temático religioso, a linguagem da fisiologia e o uso de uma noção agonística de antagonismo. Para cada um será destinada uma seção que visará mostrar sua função na estratégia argumentativa nietzschiana. Num quarto momento, a convergência dos três elementos mostrará que a linguagem da fisiologia fornece a Nietzsche não somente um léxico, mas um procedimento investigativo heurístico, o qual, aplicado às valorações religiosas da existência, revela sua gênese em justificações antagônicas do sofrimento. Identificando o tema da justificação como o cerne que propriamente caracteriza o problema do sentido do sofrimento, a sua análise distinguirá dois significados pelos quais se pode justificar o sofrimento: um significado ideal de justificação, ligado a um tipo de sofredor, cuja debilidade fisiológica necessita da ficção de um além-mundo para fins de consolo e narcotização; e um significado trágico, reservado para os tipos de superabundância de forças, cuja afirmação jubilosa da existência justifica o sofrimento no próprio curso do vir-a-ser, na criação e renovação contínuas da vida. Concluir-se-á com considerações acerca da possibilidade de trabalhar o problema do sentido do sofrimento como hipótese interpretativa para uma crítica da modernidade.Downloads
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