SOCIEDADE CIVIL E MOBILIZAÇÕES SOCIAIS NO CONTEXTO DO DESASTRE SOCIOAMBIENTAL NO RIO DOCE

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Resumo

O artigo investiga as mudanças na ação coletiva no contexto do desastre socioambiental no rio Doce, provocado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Brasil, das mineradoras Samarco-Vale-BHP Billiton. Marcado por interações conflitivas entre sociedade civil, Estado e mercado, as mudanças organizacionais na ação coletiva são verificadas em dois aspectos: 1) na emergência de novos ativismos ao longo do tempo, no incremento do associativismo civil, e na criação de novas organizações; 2) em repertórios de confronto caracterizados pela combinação entre ação extranstitucional (protestos públicos), ação institucional (instituições participativas e ação judicial) e tática multiescalar (nacionalização e internacionalização da causa). Argumenta que as transformações na ação coletiva se vinculam às oportunidades e restrições políticas da conjuntura crítica do desastre, que favorecem a emergência de formas de mobilização e de ativismos na sociedade civil. Mas não somente. Os movimentos sociais e organizações preexistentes desempenharam papel fundamental no surgimento das mobilizações de atingidos, funcionando como incubadoras para o movimento social contencioso ao agir sobre sua formação organizacional e identitária.

Biografia do Autor

Euzeneia Carlos, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Doutora em Ciência Política. Professora do Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenadora do Núcleo Participação e Democracia (NUPAD) da UFES e Pesquisadora do Núcleo Democracia e Ação Coletiva (NDAC) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)

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Publicado

2019-12-05

Edição

Seção

GT-6: Território e ativismos sociais urbanos