Análise discursiva crítica da violência política de gênero
DOI:
https://doi.org/10.47456/b12frv95Resumen
Este artigo utiliza a abordagem dialético-relacional da Análise de Discurso Crítica para demonstrar como as manifestações verbais de violência política de gênero no espaço da Câmara Municipal de Vitória contribuem para a manipulação da construção de uma identidade profissional e social negativa de uma mulher vereadora, conferindo-a atributos que pressupõem indignidade ao cargo político e desmerecimento de respeito. Analisou-se a transcrição de um trecho da sessão ordinária do dia 08 de março de 2021, na comemoração do Dia Internacional da Mulher, em que a vereadora Camila Valadão foi atacada pelos vereadores durante a homenagem. Para isso, foi utilizado como fundamentação teórica Fairclough (2003), Biroli (2014) e Saffioti (2021), dentre outras. Compreendendo o uso da língua como prática social, este estudo justifica-se pela importância de perceber como o discurso e a linguagem podem contribuir para relações de opressão contra mulheres e outras minorias, relações assimétricas de poder no espaço político e sustentação do abuso de poder por ideologias misóginas. Dentre os resultados de pesquisa foi possível perceber a utilização de falsas referências intertextuais por meio do discurso indireto para validação da censura e a presença de juízo de valor nas avaliações referentes ao corpo e às escolhas linguísticas da vereadora.
Referencias
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1980.
BARROS, Antonio Teixeira de; BUSANELLO, Elisabete. Machismo discursivo: modos de interdição da voz das mulheres no parlamento brasileiro. In: Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 27, n. 2, e53771, 2019.
BIROLI, Flávia. Autonomia, dominação e opressão. MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia (Orgs.). Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014. p. 109-122.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Edições 70, 2021 (2011).
BRASIL. Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932. Decreta o Código Eleitoral. [Revogado pelo Decreto nº 11, de 1991.] Rio de Janeiro (RJ): Presidência da República. Disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1930-1949/d21076.htm. Acesso em 05 jun. 2025.
_______. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.
________. Lei nº 14.192, de 4 de agosto de 2021. Estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. Brasília (DF): Presidência da República. Disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14192.htm. Acesso em 03 jun. 2025.
CÂMARA MUNICIPAL DE VITÓRIA. Resolução nº 2.060, de 13 de setembro de 2021. Institui o Regimento Interno da Câmara Municipal de Vitória. Vitória (ES): Câmara Municipal de Vitória. 13 set. 2021. Disponível em https://camarasempapel.cmv.es.gov.br/Arquivo/Documents/legislacao/html/R20602021.html. Acesso em 06 jun. 2025.
COELHO, Naiara; VOLOTÃO, Amanda. Não serei interrompida: O processo de silenciamento feminino no espaço político brasileiro. In: Cadernos de Gênero e Diversidade. Vol. 06, N. 02 - Abr. - Jun., 2020. p. 151 – 170.
CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 171–188, jan. 2002. Disponível em https://doi.org/10.1590/S0104-026X2002000100011. Acesso em 05 de jun. de 2025.
DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Sandra Regina Netz (trad.). Porto Alegre: Artmed, 2006.
FAIRCLOUGH. Norman. Discurso e Mudança Social. 2. ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2016.
________. Analysing Discourse: textual analysis for social research. London and New York: Routledge, 2003.
FIORIN, José Luiz. Língua, discurso e política. Revista Alea: estudos neolatinos. n. 1, 2009. https://doi.org/10.1590/S1517-106X2009000100012. Disponível em https://www.scielo.br/j/alea/a/djMj5DwcxCY7wXK3nzPTwhf/. Acesso em 22 abr. 2025.
________. Modalização: da língua ao discurso. ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 44, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/4204. Acesso em: 5 jun. 2025.
FONTANA, Mónica Zoppi. Pós-verdade e enunciação política: entre a mentira e o rumor. In: CURCINO, Luzmara; SARGENTINI, Vanice; PIOVEZANE, Carlos (Org.). Discurso e pós-verdade. São Paulo: Parábola, 2021. p. 87-104.
GODOY, Arilda Schmidt. Introdução à pesquisa qualitativa e suas possibilidades. RAE - Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 35, n. 2, p. 57-63, 1995. Disponível em https://www.scielo.br/j/rae/a/ZX4cTGrqYfVhr7LvVyDBgdb/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 17 ago. 2025.
KULAITIS, Letícia Figueira Moutinho. “Os Homens Estruturam um Mundo Deles e para Eles”: A Violência Política de Gênero como Estratégia Ortodoxa de Reprodução do Campo Político. Mediações, v. 29, n. 1, p. e49152, jan. 2024. Disponível em https://doi.org/10.5433/2176-6665.2024v29n1e49152. Acesso em 05 de jun. 2025
MACHIN, David.; MAYR, Andrea. How to do Critical Discourse Analysis. Londres: Sage, 2012.
MAGALHÃES, Izabel. Por uma abordagem crítica e explanatória do discurso. In: DELTA, vol. 2, n. 2, 1986
MIGUEL, Luis Felipe. A identidade e a diferença. MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia (Orgs.). Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014. p. 79-92.
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Violência política de gênero é crime: saiba como reconhecer e denunciar essa prática. – Brasília: MPF, 2022. Disponível também em: http://www.mpf.mp.br/pge/institucional/gtviolencia-de-genero/publicacoes-1. Acesso em 04 jun. 2025.
NEVES, Maria Helena de Moura. A polissemia dos verbos modais. Ou: falando de ambigüidades. ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 44, 2001. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/4202. Acesso em: 4 jun. 2025.
SAFFIOTI, Heleieth. Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero. In: Cadernos Pagu. n. 16. 2001: pp.115-136. Disponível em https://doi.org/10.1590/S0104-83332001000100007. Acesso em 21 mai. 2025.
SOUZA, Cibele Naidhig de. O desenvolvimento da expressão modalizadora "pode ser". Um caso de (inter)subjetivização no português. ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 59, n. 1, 2015. DOI: 10.1590/1981-5794-1502-2. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/6177. Acesso em: 5 jun. 2025.
THOMPSON, John B. Ideologia e Cultura Moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. 8. ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 2009.
VAN DIJK, Teun A. La multidisciplinariedade del análisis crítico del discurso: un alegato em favor de la diversidad. In: WODAK, Ruth; MEYER, Michael. Métodos de análisis crítico del discurso. Barcelona: Editorial Gedisa, 2015 [2003]. p. 143-177.
VIEIRA, Viviane; Resende, Viviane de Melo. Análise de Discurso (para a) Crítica: o texto como material de pesquisa. Campinas/ SP: Pontes, 2016.
WODAK, Ruth. Do que trata a ACD – um resumo de sua história, conceitos importantes e seus desenvolvimentos. Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 4, n.esp, p. 223-243, 2004.
________; De qué trata el análisis crítico del discurso (ACD). Resumen de su historia, sus conceptos fundamentales y sus desarrollos. In: WODAK, Ruth; MEYER, Michael. Métodos de análisis crítico del discurso. Barcelona: Editorial Gedisa, 2015a [2003]. p. 17-34.
ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.
Descargas
Publicado
Número
Sección
Licencia
Derechos de autor 2026 PERcursos Linguísticos

Esta obra está bajo una licencia internacional Creative Commons Atribución-NoComercial-SinDerivadas 4.0.
O autor de submissão à Revista PERcursos Linguísticos cede os direitos autorais à editora da revista (Programa de Pós-Graduação em Linguística - UFES), caso a submissão seja aceita para publicação. A responsabilidade do conteúdo dos artigos é exclusiva dos autores. É proibida a submissão integral ou parcial do texto já publicado na revista a qualquer outro periódico.
Os trabalhos aqui apresentados utilizam a licença Creative Commons CC BY: Attribution- NonCommercial- NoDerivatives 4.0 International. Para mais informações, verificar: https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
Os trabalhos na revista são arquivados pelo sistema Rede de Preservação PKP (PKP PN) e LOCKSS
