Acho Que Sou Um Autista
Resumen
Acho Que Sou Um Autista
Jamais me considerei um ser humano normal – o que é um ser humano normal?! Não sei. Uma coisa eu sei: tenho medo de gente. Desde ainda muito pequeno. Notadamente de gente extrovertida. Tenho pavor estar em multidões, como em estádios de futebol. Em dia de grandes jogos, aquela gente toda gritando me apavora. Para viver em sociedade, aprendi cedo que nela o ser humano desempenha os mais diversos papéis. Assim como os atores fazem no teatro e no cinema. Assim pude desempenhar o papel de professor, ensinando a matéria aos meus alunos. O papal de filho, compreendendo meus sofridos pais. Que Deus os tenha hoje e sempre em um bom lugar. A mim, eles ensinaram a fazer escolhas. O papal de irmão dos outros seis vivos que tive, todos nós filhos do mesmo pai e da mesma mãe. O de marido, meio sem graça, da mulher que amo. O de pai de meus três filhos, meus descendentes, e mais recentemente desempenho o papel de avô de meus, por hora, dois netinhos. Foi consciente de estar desempenhando papéis no teatro da vida que pude sobreviver a tudo o que vivi. Tudo de bom e de ruim. Eu sei, nunca foi uma atuação tranquila minha exposição à frente de outros ou imerso em aglomerações. Sempre necessitei superar o meu medo de gente. É sempre uma luta insana a minha, na interação e na conexão com outras pessoas.
Tenho a consciência de que jamais tive amigos. Não por culpa dos outros. Não tenho amigos unicamente por eu não gostar de ter gente colada em mim. Aqueles próximos a mim sempre foram apenas colegas. Uns de infância, outros de trabalho e de luta. Hoje eu os considero verdadeiros anjos.
Sempre preferi e desejei a solidão. E na solidão, os livros – meus verdadeiros amigos! Também foi na solidão desejada que o álcool surgiu talvez como uma fuga do mundo. E assim, fugindo do mundo, eu me declaro uma fraude. Adoro atividades que exigem o silêncio para a sua execução. Em verdade, digo e confirmo o que digo, a palavra ela é maravilhosa! O ser humano teria enormes dificuldades para conviver em sociedade se não tivesse a palavra como instrumento de mediação. Mas é inabalável a consciência em mim de que a palavra sem a razão é vazia de sentido e fere, às vezes mortalmente, a sensibilidade humana. Minha preferência é pelas ações silenciosas. Como dizem por aí, que a mão direita não saiba o que faz a mão esquerda. Por tudo isso, acho que jamais terei a certeza se, durante todos esses anos, eu realmente vivi ou apenas existi.
À noite, frequentemente, tenho sonhos aterrorizantes. Todos eles repletos de muita atribulação. É quando meus demônios avançam sobre mim! Como feras, eles me cercam e me atormentam. Não me deixando dormir em paz. Intrigante! Em meus sonhos, estou sempre perdido e jamais chego ao destino a que me propus chegar. Também não consigo retornar ao ponto de onde parti. É tudo muito surreal! Uma característica aterrorizante que muito me assusta é o fato de estar permanentemente em situações vexatória - descalço nas ruas lotadas de gente, vestindo apenas short e sem dinheiro para tomar uma condução de volta para casa. É horrível!... Acho mesmo que a minha convivência no Universo diz que, na vida, eu olhei para o abismo e o abismo olhou para mim. E fica claro que eu e o abismo gostamos do que vimos um no outro.
Acredito que o meu desejo de permanente solidão e a necessidade de convivência exigida pelo grupo social são causas de grande perturbação em minha saúde mental. Até porque sei que o ser humano é um animal social, que não sobrevive sozinho.
Consciente de tudo o que de bom e de ruim acontece na vida, eu não questiono a presença de Deus; em verdade, questiono a sua ausência.