A FOME QUE ME FEZ GAVIÃO
Resumen
Esta crônica autobiográfica narra, em tom lírico-crítico, a experiência de um professor que revisita memórias de infância marcadas pela fome e pela escassez no interior do Espírito Santo e em territórios periféricos do Brasil. A imagem central do texto — o episódio em que uma família, por falta de alternativas, consome a carne de um gavião — funciona como metáfora radical da desigualdade social e das “ossadas baratas” que sustentam vidas relegadas às margens. Entre recordações de frutas colhidas no quintal, da maternidade solitária e do trabalho precoce, o autor reconstrói a própria formação subjetiva e política, recusando a romantização da miséria e transformando a memória em denúncia. O passado de privação é articulado à docência: a fome que um dia o fez “gavião” reaparece nos olhares vazios de seus estudantes e passa a orientar uma prática pedagógica sensível às violências estruturais que atravessam a escola. Assim, a crônica afirma a escrita como gesto ético de resistência e a educação como possibilidade de romper com destinos impostos, defendendo que ninguém nasceu para se contentar com ossos baratos.