KARLA CRISTINA ALVES ROBERTO, RENE EUGENIO SEIFERT JUNIOR 60
GESTÃO & CONEXÕES - MANAGEMENT AND CONNECTIONS JOURNAL, VITÓRIA (ES), V. 15, N. 1, DE 2026.
Ou seja, enquanto este produz vivências de sofrimento, também produz vivências de
prazer, especificamente: reconhecimento, impacto social e oportunidade de renda.
Em quarto lugar, e mais importante do que o simples reconhecimento que o
trabalho envolve prazer e sofrimento, como observa Dejours (1992), a chave da
questão é como a organização do trabalho possibilita (ou não) a transformação do
sofrimento em prazer. Para Dejours essa dinâmica é essencial para a manutenção da
saúde mental do trabalhador, e para que o mesmo não entre em colapso (Areosa,
2019). Dejours já denunciava que, no capitalismo contemporâneo, a destruição do
coletivo no trabalho aumenta vivências de sofrimento. Nosso estudo sugere que no
caso do trabalho de produção de conteúdo em mídias sociais a possibilidade de
transformação de vivências de sofrimento em prazer ganha complexidade na medida
em que os resultados do trabalho são mediados pelos algoritmos da plataforma, e
sem que os trabalhadores tenham acesso, gerência e clareza sobre seu
funcionamento (Duffy et al., 2021; Karhawi & Prazeres, 2022). Deste modo, uma
publicação com baixo desempenho de visualização e distribuição, por exemplo, tende
a ser compreendida como uma “falha pessoal”, ainda que o baixo desempenho possa
ter sido ocasionado por razões unilateralmente definidas pela plataforma, uma
penalização ou outro fator aos quais o criador de conteúdo não tem acesso, ou
clareza.
Este reconhecimento sugere que ao contrário da dinâmica estabelecida em
espaços de trabalho técnico mais tradicionais, em que normas, procedimentos e
expectativas de desempenho do trabalho prescrito são projetados pela organização
de trabalho empregadora, e podem ser acessadas e conhecidas pelo trabalhador
(Dejours, 2014), na produção de conteúdo para mídias sociais, assim como em outros
trabalhos plataformizados (Abílio, 2019), esta relação é obscura e volátil. Neste
contexto, o desempenho do trabalho ganha conotações de um jogo de tentativa e erro,
no qual diferentes formas e modelos de produção de conteúdo precisam ser
constantemente testados em busca do desempenho mais eficiente. Nestes termos,
constitui-se num um espaço de trabalho que predispõe o trabalhador a um contínuo
estado de ansiedade, potencializando experiências de distúrbio do sono e estresse. É
possível reconhecer também que a mediação algorítmica, com demanda constante
para produção de conteúdo criativo e relevante, vinculado às métricas de
engajamento, potencializam o excesso de trabalho e a auto exploração dos criadores
de conteúdo. Os resultados do estudo indicam que a busca por modelos ideais de
conteúdo, que apresentem o melhor desempenho, acaba por produzir excesso de
trabalho. Além das horas que passam online, os criadores empregam boa parte de
suas rotinas diárias para planejamento, processo criativo, análise e estudos em face
das estatísticas de desempenho das postagens. Com isso, os criadores lamentam não
conseguir descansar e tirar férias, queixando-se, inclusive, de não ter tempo suficiente
para amigos e familiares. Se considerarmos ainda que a mediação algorítmica
privilegia a distribuição de conteúdos polêmicos, uma vez que tecnicamente ampliam
o engajamento dos usuários, reconhecemos que estes também potencializam
vivências de violência digital como o cyberbullying e o assédio online.
Nestes termos, os resultados do estudo sugerem que a possibilidade de
transformação do sofrimento em prazer nesse espaço de trabalho, é dependente da
mediação algorítmica da plataforma. Ou seja, se estabelece uma dinâmica que,
diferente da lógica de trabalho em organizações não plataformizadas, define-se a
partir daquilo que Cutolo & Kenney (2021) argumentam constituir determinações