MARINA NORONHA KRAISER, CAROLINA MARIA MOTA-SANTOS, CARINE RODRIGUES NUNES GIESBRECHT, MANOEL BASTOS 79
GESTÃO & CONEXÕES - MANAGEMENT AND CONNECTIONS JOURNAL, VITÓRIA (ES), V. 15, N. 1, DE 2026.
Estudos ressaltam que mulheres, ao empreenderem, podem conquistar no s
maior autonomia financeira (Fernandes et al., 2016), como tambm capacidade de
assumir decises que at ento ficavam apenas a cargo dos homens da famlia (Mota-
Santos, Carvalho Neto, Caeiro, Versiani, & Martins, 2016). Entretanto, nesta
pesquisa, a conquista da independência financeira é, também, fator de conflito, por
colocarem as mulheres em condição de igualdade com seus maridos ou, ainda, por
se sentirem invadindo um espaço que deveria ser, por excelência, deles. Uma das
entrevistadas, dona de uma das mais antigas e bem estabelecidas fábricas da cidade,
casada por 22 anos, atribui o fim do seu casamento a seu sucesso como empresária
e à sua independência financeira, conquistados por meio da produção de lingerie:
Às vezes eu me pergunto se não foi isso que acabou com meu casamento...
porque ao mesmo tempo... às vezes... não sei... teve uma traição e tudo... não
sei o que que foi. Às vezes eu ocupei muito meu tempo, né? Por eu trabalhar,
ns no “ficava junto”... s vezes eu me afastei um pouco... no sei... no sei, eu
que me pergunto, se eu não tive a culpa, né, às vezes (...). Só eu que dominava
tudo, só eu que sustentava tudo. (E7).
Na fala de E7, ficam evidentes traços de uma identidade ainda quase patriarcal,
na qual os lugares de poder da mulher são a casa e a maternidade, não sendo
permitido a ela conquistar poder financeiro e expandir seu campo de atuação e tomada
de decisões. Ao conquistar o espaço comercial e a independência financeira, essa
mulher compromete seu papel por excelência, de cuidados com a casa, o marido e as
crianças, e invade um espaço que seria restrito a eles. Para E7, isso passou dos
limites que o marido poderia aceitar.
As expectativas sociais sobre essas mulheres ainda recaem fortemente sobre os
cuidados com a casa, os filhos e o marido, sendo a independência financeira delas
uma novidade naquele contexto social, a qual traz sentimentos ambíguos e
reconfigurações nos arranjos familiares. Isso corrobora o que Eagly & Karau (2002)
ressaltam, que tambm no trabalho que muitos dos conflitos advindos dos
esteretipos e papis sociais vm tona, afetando as identidades socioprofissionais
dos sujeitos. Além disso, o quanto fica evidente o impacto que os esteretipos e
expectativas da sociedade e dos prprios trabalhadores acerca de suas profisses
tm sobre a construo de suas identidades (Cantarotti, 2017; Minini e Ferraz, 2015).
Relevncia do associativismo para a noção de pertencimento e
construção de identidade
Essa categoria investiga o associativismo e as relações estabelecidas, por meio
dele, pelas mulheres de Taiobeiras, bem como sua relevância na construção e
fortalecimento das identidades dessas mulheres. Tenta-se, com isso, apreender a
percepo que as mulheres tm de fazer parte de um grupo, de se apoiarem e de
tomarem decises coletivamente. Como parte dessa categoria, foram observados
fatores ligados identidade profissional e tambm em relao identidade de gnero,
ou seja, da percepo de se apoiarem enquanto empresrias, costureiras, e tambm
enquanto mulheres, as quais enfrentam desafios semelhantes em seu dia.
Cabe lembrar que Taiobeiras conta, desde 2015, com a Associao de Moda
ntima e Praia de Taiobeiras (Amip), a qual tem trabalhado o fortalecimento do
municpio enquanto polo de lingerie, por meio do fomento cultura do associativismo,