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ARTIGO SUBMETIDO EM: 20.05.2026 ACEITO EM:17.07.2026 PUBLICADO EM:15.09.2026
Revista Gestão & Conexões
Management and Connections Journal
Vitória (ES), v.15, n.3, Setembro/Dezembro 2026
ISSN: 2317-5087
DOI: https://doi.org/10.47456/regec.2317-5087.2026.15.3.52723.100.121
Fragmentação na literatura: gerenciamento de projetos,
inovação social e organizações da sociedade civil
Fragmentation in the literature: project management, social
innovation, and civil society organizations
André Roberto Ramos Santos
Roque Rabechini Junior
Universidade Nove de Julho (UNINOVE)
Universidade Nove de Julho (UNINOVE)
andreramos198551@gmail.com
rabechinijr@gmail.com.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6277-6571
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3618-3016
RESUMO
O fortalecimento das parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil (OSCs) ampliou a
necessidade de critérios técnicos mais consistentes para seleção e gestão de projetos sociais. Este estudo objetivou
estruturar e sistematizar a fundamentação teórica sobre gerenciamento de projetos no Terceiro Setor, inovação social e
critérios de seleção pública de organizações da sociedade civil. Adotou-se a Revisão Sistemática da Literatura, realizada
nas bases Web of Science e Scopus, com seleção final de 122 artigos publicados entre 2014 e 2024. Os resultados
evidenciam uma literatura fragmentada, marcada pela predominância de estudos isolados sobre gerenciamento de
projetos, inovação social e seleção pública. Observou-se ainda a prevalência de abordagens tradicionais de gestão,
baixa operacionalização prática da inovação social e ausência de critérios técnicos estruturados nos processos de
seleção. Conclui-se que há uma lacuna teórica e prática na integração desses três eixos.
Palavras-chave: gerenciamento de projetos no terceiro setor; organizações da sociedade civil; inovação social;
seleção de projetos públicos; administração pública.
ABSTRACT
The strengthening of partnerships between public administration and civil society organizations (CSOs) has increased the
need for more consistent technical criteria for the selection and management of social projects. This study aimed to
structure and systematize the theoretical foundations of project management in the Third Sector, social innovation, and
public selection criteria for Civil Society Organizations. A Systematic Literature Review was conducted using the Web of
Science and Scopus databases, resulting in a final sample of 122 articles published between 2014 and 2024. The findings
reveal a fragmented body of literature, characterized by the predominance of isolated studies on project management,
social innovation, and public selection processes. The results also indicate the prevalence of traditional management
approaches, limited practical operationalization of social innovation, and the absence of structured technical criteria in
public selection processes. It is concluded that there is a theoretical and practical gap in the integration of these three
dimensions.
Keywords: project management in the third sector; civil society organizations; social innovation; selection of public
projects; public administration.
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Introdução
A ampliação das parcerias entre a administração pública e as organizações da
sociedade civil (OSCs) tem reposicionado o papel do Estado na execução de políticas
públicas, especialmente em contextos de maior complexidade social e restrições
fiscais (Osborne, 2006). No Brasil, esse movimento foi institucionalizado com a
promulgação da Lei nº 13.019/2014, que estabeleceu diretrizes para a formalização
das parcerias, com ênfase em transparência, controle e responsabilização dos atores
envolvidos (Dagnino, 2019; Medeiros & Di Giovanni, 2022).
Apesar desses avanços institucionais, a literatura aponta que os processos de
seleção de projetos de OSCs apresentam fragilidades estruturais, especialmente no
que se refere à definição de critérios técnicos claros e consistentes para avaliação das
propostas. Estudos indicam que os editais públicos tendem a priorizar requisitos
formais, como regularidade jurídica, tempo de existência e experiência prévia, em
detrimento da análise da lógica de intervenção, da capacidade de execução e dos
potenciais impactos sociais dos projetos (O’Neill & Loftus, 2013; Rodríguez Bolívar et
al., 2016).
A esfera civil envolve conexões não governamentais e não econômicas, como
associações, organizações e movimentos sociais, que emergem de forma espontânea
e com consciência dos problemas da sociedade. Compreende-se que organizações
da sociedade civil é um termo que define o agente de equilíbrio, que busca dar
assistência ao indivíduo e amenizar as desigualdades produzidas pelo capital e o
mercado (Nemoto et al., 2018).
Neste sentido, a participação da comunidade e sua inserção nos processos de
decisão sobre as políticas sociais decorrem da lógica pela qual esse tipo de
organização é constituído por pessoas comuns, movidas pelo interesse de produzir o
bem comum. Neste contexto, surgem as organizações da sociedade civil (OSCs).
Entende-se que, diferente da lógica do segundo setor, o fundador dessa organização
não é seu “proprietário” (Tondolo et al., 2022). Observa-se uma tendência mundial de
abertura do Estado para arranjos cooperativos, em que as OSCs têm uma posição
estratégica na implementação de políticas públicas e no apoio às situações
vulneráveis da população (Osborne, 2006; Bason, 2018).
Contudo, embora as OSCs atuem no campo dos serviços sociais, exclusão e
igualdade e desempenhem um papel importante na mudança social, o
desenvolvimento de competências por essas organizações sociais, a falta de modelos
estruturados para planejamento e avaliação de projetos, e a objetividade nos
processos de seleção por meio de chamadas públicas são alguns dos principais
entraves na implementação dessa agenda (Rodríguez Bolívar et al., 2016; Morrison
et al., 2022).
Nesse contexto, a literatura de gerenciamento de projetos tem sido apontada
como uma possível base para qualificação técnica das propostas apresentadas pelas
organizações do terceiro setor, ao oferecer instrumentos voltados ao planejamento,
monitoramento e avaliação de resultados (Love, Edwards & Irani, 2012; Costamagna
et al., 2021). No entanto, tais modelos foram originalmente desenvolvidos em
contextos corporativos e apresentam limitações quando aplicados ao terceiro setor,
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que é marcado por escassez de recursos, estruturas organizacionais flexíveis e forte
orientação ao impacto social (Mathers et al., 2015; Herlin, 2015).
Sob essa perspectiva, a inovação social torna-se um conceito central na
reordenação dos métodos de produção de políticas públicas. Concebida como o
desenvolvimento de respostas mais eficazes e equitativas para as questões sociais e
sistemas mais sustentáveis para enfrentar esses desafios, a inovação social é mais
do que simplesmente "a introdução de novos processos e tecnologias", e seu potencial
inclui a melhoria das instituições e culturas na relação entre Estado e sociedade
(Phills, et al., 2008; Cajaiba-Santana, 2014).
Apesar do seu potencial, sua operacionalização continua a carecer de
ferramentas metodológicas, o que impede seu uso como critério técnico dentro dos
procedimentos de avaliação de projetos públicos (van Wijk et al., 2019). Vários
estudos destacam a fragilidade das ferramentas de seleção pública atualmente em
vigor. Elas também negligenciam a dimensão mais importante da lógica do projeto:
teoria da mudança, matriz de riscos, indicadores de resultados por entre outros
(O’Neill & Loftus, 2013).
Por meio de uma revisão sistemática da literatura analisou-se o estado da arte
das temáticas propostas, com objetivo de estruturar e sistematizar a fundamentação
teórica existente sobre inovação social, gerenciamento de projetos no terceiro setor e
critérios utilizados pela administração pública na seleção destes projetos. A pesquisa
visa responder a seguinte questão: “Como se caracterizam as práticas de
gerenciamento de projetos do terceiro setor, inovação social e o processo de seleção
de organizações da sociedade civil pela administração pública?”
Existem razões práticas/empíricas e lacunas teóricas por trás da justificativa para
conduzir a pesquisa. Do ponto de vista empírico, funcionários públicos relataram suas
dificuldades em relação a falta de parâmetros técnicos objetivos para a análise dos
planos de trabalho apresentados pelas organizações da sociedade civil, resultando
em insegurança jurídica, assimetrias na avaliação e baixa eficácia em termos das
ações acordadas. A etapa de planejamento foi definida com base no objetivo principal
desta pesquisa e nos critérios estabelecidos por autores como Biolchini et al. (2005),
que recomendam a definição de uma pergunta estruturadora, aliada a uma estratégia
de busca reprodutível.
Espera-se que esse estudo possa contribuir com a prática, buscando contribuir
com servidores públicos e gestores de organizações da sociedade civil, para que
possam entender o equilíbrio destes conceitos em suas atividades, além da sua
contribuição para a teoria, que possa orientar outras pesquisas na buscar de
melhorias no processo de qualificação do processo de seleção de projetos de
organizações da sociedade civil, debruçando-se sobre a articulação de práticas de
gerenciamento de projetos e inovação social.
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Fundamentação teórica
Práticas de gerenciamento de projetos de organizações da sociedade civil do
terceiro setor
A adoção de práticas de gerenciamento de projetos no contexto de
desenvolvimento internacional no qual os projetos são conduzidos por organizações
não-governamentais (ONGs) considerados um dos pilares no fornecimento de
assistência e desenvolvimento para países emergentes (Golini et al., 2015b). Nesse
sentido, as evidências identificadas na literatura indicam que a incorporação dessas
práticas tem recebido crescente atenção dos pesquisadores. Nemoto et al. (2018)
reforçam que o conceito de gestão de projetos de organizações da sociedade civil
vem evoluindo ao longo dos anos. Apesar desta evolução, alguns aspectos
permanecem comuns na literatura, destacando que todo projeto corresponde a um
conjunto de atividades destinadas à utilização eficaz dos recursos disponíveis na
organização, com o objetivo de alcançar as metas estabelecidas.
Porém, há evidências que muitas dessas organizações ainda operam sob
lógicas gerenciais pouco formalizadas, com forte presença de práticas intuitivas,
assistencialistas ou baseadas em carisma organizacional (PMI, 2008; Tenório, 2006;
Dagnino, 2019). Essa situação se agrava à medida que as entidades do terceiro setor
assumem responsabilidades por projetos financiados com recursos públicos. Herlin
(2015) aponta que a legitimidade institucional das organizações da sociedade civil
está condicionada à sua capacidade de demonstrar coerência técnica e transparência
nos processos gerenciais. Corroborando essa perspectiva, estudo como os de
Douglas, Schillemans e ‘t Hart (2021) indicam que a fragilidade técnica na gestão de
projetos compromete a relação de confiança entre organizações sociais e entes
públicos, podendo gerar riscos à prestação de contas e à continuidade das parcerias.
Além disso, Love, Edwards e Irani (2012) observam que os guias tradicionais de
boas práticas em gestão de projetos, tais como PMBOK e PRINCE2 são, em muitos
casos, implementados de forma superficial ou sem a devida adaptação à lógica social.
Outros estudos, como o de Costamagna et al. (2021), defendem a criação de modelos
híbridos, que combinem a lógica técnica do planejamento com os valores
participativos das organizações. Entretanto, Mathers, Dempsey e Molin (2015)
enfatizam que a resistência à adoção de ferramentas formais muitas vezes está ligada
à cultura interna das organizações, moldada por princípios de horizontalidade,
autonomia e construção coletiva.
Nesses ambientes, a imposição de lógicas procedimentais pode ser percebida
como burocracia ou distanciamento do social. Isso ocorre porque as OSCs atuam em
espaços de articulação entre diferentes atores, nos quais demandas, interesses e
pretensões são vocalizados com o propósito de planejar, executar e avaliar políticas
públicas, bem como produzir mecanismos capazes de melhorar a gestão das
iniciativas (Tenório, 2006). Autores como Rodríguez Bolívar et al. (2016) ressaltam
que a baixa maturidade em gestão de projetos também decorre da precariedade de
indicadores técnicos nos processos de financiamento público. Ou seja, se o Estado
não exige formalmente a adoção de estruturas metodológicas robustas, as
organizações da sociedade civil não são estimuladas a desenvolvê-las e aplicá-las em
seus projetos.
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Em conjunto, esses estudos demonstram que o problema não está apenas na
ausência de ferramentas de gerenciamento de projetos, mas na inexistência de
modelos concebidos especificamente para o contexto das organizações da sociedade
civil. Isso explica por que abordagens tradicionais apresentam resultados limitados
quando transpostas diretamente para esse ambiente.
Seleção de projetos das organizações da sociedade civil e seus critérios
A Lei nº 13.019/2014 estabeleceu o novo Marco Regulatório das Organizações
da Sociedade Civil (MROSC), tendo sofrido profundas alterações com a Lei nº
13.204/2015 e regulamentada pelo Decreto nº 8.726/2016. Trata-se de uma lei
nacional, aplicada a toda a administração pública, direta e indireta, de todas as esferas
federativas, inclusive empresas públicas e sociedades de economia mista prestadoras
de serviços públicos e suas subsidiárias (Portella & Sabença, 2019).
Apesar dos avanços promovidos pelo MROSC, estudo como o de O’Neill e Loftus
(2013) apontam que os editais públicos frequentemente priorizam requisitos formais,
como documentação jurídica, tempo de existência da organização e experiência
anterior, em detrimento da análise de elementos técnicos como a lógica de
intervenção, indicadores de impacto, estratégias de monitoramento e capacidade de
execução do projeto. Isso revela uma assimetria entre a retórica da profissionalização
exigida às organizações da sociedade civil e os critérios efetivamente utilizados para
a seleção das propostas.
A ausência de diretrizes técnicas claras cria um ambiente de insegurança para
as organizações da sociedade civil e para os gestores públicos. Rodríguez Bolívar
et al. (2016) e Abbott et al. (2012) argumentam que essa lacuna regulatória favorece
interpretações subjetivas dos avaliadores e pode reproduzir privilégios institucionais,
beneficiando organizações já consolidadas e penalizando iniciativas inovadoras ou
emergentes, mesmo quando tecnicamente qualificadas. Essa constatação também
está presente no artigo de Medeiros e Di Giovanni (2022), que apontam para a
fragilidade técnica dos pareceres emitidos nos processos de seleção, frequentemente
baseados em critérios de conveniência política ou alinhamento temático genérico.
Mesmo em contextos de alta institucionalização, como na Alemanha ou Suécia,
autores como Söderholm et al. (2019) alertam para o risco de capturas institucionais
quando os critérios técnicos não estão claramente explicitados nos chamamentos.
Apesar do avanço legal promovido pelo MROSC, a implementação da Lei nº
13.019/2014 não tem sido acompanhada por instrumentos operacionais que
qualifiquem os planos de trabalho apresentados pelas organizações da sociedade
civil. Muitos dos documentos analisados destacam que os editais raramente exigem
que as organizações apresentem uma matriz lógica do projeto, análise de riscos,
plano de comunicação, plano de monitoramento e indicadores de resultado;
elementos centrais em qualquer modelo de gerenciamento de projetos (Love,
Edwards & Irani, 2012; Medina & Medina, 2017).
Além disso, poucos municípios ou entes federativos desenvolveram modelos
técnicos padronizados que sirvam de referência para as organizações proponente. O
estudo de Morrison et al. (2022) aponta que, na ausência de métricas objetivas, a
avaliação tende a se tornar uma prática opaca, dificultando tanto a prestação de
contas quanto o aprimoramento contínuo das ações. Isso é ainda mais crítico quando
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se trata de projetos sociais, cujos resultados são muitas vezes intangíveis e dependem
de variáveis contextuais complexas.
Nesse cenário, alguns autores propõem a criação de frameworks que articulem
os princípios da inovação social com as exigências de planejamento técnico, criando
uma base comum para a elaboração e a avaliação dos planos de trabalho. Tais
frameworks poderiam ser inseridos nos editais públicos como instrumentos de apoio
técnico, garantindo isonomia, clareza e transparência nos processos de seleção.
Torna-se evidente a necessidade de avançar para uma nova geração de editais
públicos, nos quais os critérios técnicos não apenas estejam explicitados, mas façam
parte de uma lógica coerente de seleção baseada na qualificação dos projetos.
Inovação social
A inovação social tem ganhado espaço como uma alternativa crítica ao modelo
tradicional de formulação e implementação de políticas públicas. Diante da crescente
complexidade dos problemas sociais, aliada à limitação fiscal e à ineficácia de
soluções centralizadas, diversos estudos propõem a inovação social como resposta
baseada na coprodução de valor público, envolvendo múltiplos atores, sobretudo do
Terceiro Setor (Murray, Caulier-Grice & Mulgan, 2010; Nicholls, Simon & Gabriel,
2015).
Conforme apontam Phills, Deiglmeier e Miller (2008), a inovação social pode ser
definida como uma solução nova para um problema social, mais eficaz e sustentável
do que as alternativas anteriores, cujos benefícios extrapolam os interesses
individuais e produzem valor para a coletividade. Estudos recentes relacionam
inovação social à construção de redes interorganizacionais e modelos de governança
colaborativa (Westley et al., 2014).
Entretanto, embora a inovação social seja frequentemente citada como uma
abordagem promissora, muitos estudos analisados a tratam como conceito descritivo,
pouco operacionalizado em práticas de gestão de projetos. Autores como Yan, Lin e
Clarke (2018) e Dufays e Huybrechts (2014) indicam que ainda há um hiato entre a
retórica da inovação social e a existência de frameworks que orientem sua aplicação
prática em projetos sociais implementados por organizações do terceiro setor.
A fragmentação também aparece no modo como diferentes disciplinas abordam
o tema. Enquanto as ciências sociais enfatizam aspectos como engajamento
comunitário, construção coletiva e empoderamento de minorias (Borzaga & Bodini,
2014), a literatura de administração pública e inovação tende a priorizar eficiência,
mensuração de impacto e sustentabilidade financeira.
Söderholm et al. (2019), por exemplo, analisaram experiências dessas
organizações que implementam projetos ambientais inovadores e constataram que os
maiores desafios não estão nas ideias propostas, mas na capacidade de documentá-
las, replicá-las e ajustá-las a diferentes contextos. Esse achado reforça o argumento
de que a inovação social carece de metodologias padronizadas que permitam sua
integração aos processos formais.
Essa tendência se reforça e está associada à aproximação da inovação social e
as metodologias ágeis de gerenciamento de projetos. Autores como Murray et al.
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(2010) e Kania e Kramer (2011) sugerem que abordagens como design thinking,
canvas social e desenvolvimento iterativo podem ser adequadas ao contexto de
projetos sociais, pela sua flexibilidade e foco em cocriação. Contudo, poucos estudos
analisam a compatibilidade entre essas metodologias e os requisitos formais dos
editais públicos, que muitas vezes exigem rigidez documental e previsibilidade de
resultados.
Além disso, a literatura aponta que, mesmo quando reconhecida como relevante,
a inovação social raramente é incorporada como critério técnico nos processos de
seleção de projetos públicos. Isso limita sua adoção pelas organizações da sociedade
civil, que, pressionadas por regras formais e escopo fechado, priorizam o cumprimento
de exigências mínimas em detrimento da criatividade ou da adaptação local (Pol &
Ville, 2009; Mulgan, 2019).
Apesar das dificuldades, há exemplos de tentativas de institucionalizar a
inovação social. Estudos como os de Cajaiba-Santana (2014) e van Wijk et al. (2019)
indicam que redes territoriais e consórcios intersetoriais têm sido experimentados
como meios para organizar, avaliar e escalar soluções inovadoras, com apoio técnico
de universidades, governos locais e organizações multilaterais.
Nesse contexto, observa-se que a inovação social, embora amplamente referida
como alternativa ao modelo tradicional de políticas públicas, ainda não possui uma
estrutura técnico-gerencial consolidada, especialmente quando utilizada como
elemento articulador de abordagens já consolidadas, como as práticas de governança
e de gerenciamento de projetos.
Metodologia
Para este estudo foi realizada uma revisão sistemática da literatura (RSL). Que
é indicada para sintetizar áreas de conhecimento fragmentadas e oferecer subsídios
para o desenvolvimento de produtos técnico-tecnológicos (Tranfield et al., 2003).
Neste estudo utilizamos o protocolo de Pollock e Berge (2018), que é dividido em seis
etapas, sendo elas:
a) apresentar os objetivos da pesquisa;
b) localizar trabalhos científicos significativos nas bases de dados;
c) coletar e consolidar dos dados;
d) avaliar dos artigos de acordo com os critérios de inclusão e exclusão;
e) analisar e sintetizar as evidências, buscando identificar padrões nos dados;
e
f) compreender e interpretar as informações obtidas para elaboração do
relatório final.
Apresentação do objetivo da pesquisa
O objetivo da pesquisa é estruturar e sistematizar a produção científica sobre
práticas de gerenciamento de projetos no terceiro setor, inovação social e critérios de
seleção de organizações da sociedade civil, buscando compreender como esses
elementos têm sido abordados de forma integrada na literatura.
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Estratégia de busca por trabalhos nas bases de dados
Foram utilizadas as bases de dados Scopus e Web of Science, selecionadas por
sua abrangência multidisciplinar, rigor de indexação e relevância acadêmica
internacional. A construção e o refinamento das strings de busca consideraram os
critérios de Breteron et al. (2007) Booth et al. (2016), que recomendam testes de
precisão e recuperação antes da aplicação definitiva nas bases de dados.
Após a definição das bases de pesquisa, a estratégia de busca foi
operacionalizada por meio da seguinte string: (("Project Management" OR "public
management" OR "Governance Projects" OR "Public Projects" OR "management")
AND ("third sector" OR "non-governmental organizations" OR "nonprofit organization"
OR "project selection" OR "public call") AND (model* OR method* OR process* OR
framework* OR procedure*)) AND (social innovation*). As buscas nas bases Web of
Science e Scopus foram realizadas em 18 de abril de 2025. Totalizando um resultado
de 268 documentos na Web of Science e 177 documentos na Scopus. Após a
remoção de duplicatas e a organização dos dados, foram identificados 46 documentos
comuns às duas bases, resultando em uma amostra inicial de 399 documentos únicos
para triagem, conforme apresentado na Tabela 1.
Tabela 1 – Resultados da revisão sistemática da literatura (RSL)
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Outro ponto importante, está relacionado a definição dos critérios inclusão e
exclusão. Eles foram divididos por filtros de seleção: artigos que tratavam sobre as
temáticas inseridas na string, e os filtros de exclusão: documentos do tipo livros e
capítulos de livros, documentos em idioma diferente do inglês (aplicado apenas à Web
of Science, visto que a exportação da Scopus não continha informação de idioma),
documentos sem citações (com exceção dos publicados em 2023 ou 2024,
considerados ainda recentes e sem tempo hábil de citação) e documentos publicados
antes de 2014, considerando a importância da Lei nº 13.019/2014 como marco jurídico
das parcerias com OSCs no Brasil, conforme Figura 1.
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Figura 1 – Artigos publicados por ano
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Embora a estratégia de busca tenha contemplado literatura internacional, optou-
se pelo recorte temporal iniciado em 2014 por duas razões complementares. A
primeira decorre da promulgação da Lei nº 13.019/2014, que iniciou o marco
regulatório das organizações da sociedade civil (MROSC), objeto empírico que
motivou esta investigação. A segunda refere-se ao fato de que, a partir desse período,
observa-se maior convergência internacional entre os debates sobre governança
colaborativa, gerenciamento de projetos de organizações da sociedade civil e
inovação social, permitindo analisar a produção científica em um contexto institucional
contemporâneo.
Esses documentos foram submetidos a uma leitura exploratória, considerando o
cruzamento entre palavras-chave, resumos e fontes de publicação, a fim de verificar
a aderência efetiva ao tema da pesquisa. Foram priorizados os estudos que
abordavam diretamente práticas de gerenciamento de projetos no Terceiro Setor,
inovação social aplicada a políticas públicas e processos de avaliação técnica em
parcerias público-sociais.
O processo de seleção dos estudos seguiu as recomendações metodológicas
de Denyer e Tranfield (2009) e Petticrew e Roberts (2006), priorizando a
transparência, a reprodutibilidade e a criticidade na condução da revisão sistemática.
Os dados extraídos dos estudos selecionados foram organizados em uma matriz
analítica que contemplou as seguintes dimensões: identificação da publicação (autor,
título, fonte, ano), tipo de estudo (empírico, teórico, revisão), principais conceitos
abordados (gestão de projetos, inovação social, seleção pública) e contribuições para
a construção de modelos operacionais.
Uma outra estratégia importante da pesquisa, foi a utilização de uma matriz com
os achados da revisão sistemática da literatura, permitindo sistematizar as
informações extraídas dos artigos de forma padronizada, favorecendo a comparação
entre os estudos e reduzindo inconsistências durante a etapa de análise. Essa
organização também possibilitou identificar recorrências temáticas e relações entre os
diferentes eixos investigados, subsidiando a construção da síntese integrativa
apresentada na seção de resultados.
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A aplicação dos filtros automáticos resultou na seleção de 122 documentos para
análise aprofundada, sendo 74 provenientes da Web of Science e 48 da Scopus. Essa
etapa garantiu a aplicação sistemática dos critérios de inclusão e exclusão
previamente definidos, em conformidade com as orientações metodológicas de
Pollock e Berge (2018). Posteriormente, os estudos selecionados foram organizados
para a etapa de triagem e análise, conforme ilustrado na Figura 2.
Figura 2 – Resultado das pesquisas as bases de dados
Fonte: Adaptado de Pollock e Berge (2018).
A triagem dos estudos ocorreu em duas etapas sucessivas. Inicialmente,
realizou-se a leitura dos títulos, resumos e palavras-chave para verificar a aderência
ao objetivo da pesquisa. Em seguida, os artigos potencialmente elegíveis foram
submetidos à leitura integral, permitindo confirmar sua inclusão de acordo com os
critérios previamente estabelecidos. Nos casos em que persistiram dúvidas quanto à
aderência temática, o estudo foi reavaliado considerando sua contribuição para pelo
menos um dos três eixos analíticos definidos nesta revisão.
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Coleta e consolidação dos dados por categorização
A categorização temática seguiu abordagem de análise de conteúdo proposta
por Bardin (2011), permitindo agrupar os achados segundo os eixos previamente
definidos. O objetivo central desta análise é identificar os principais enfoques teóricos,
reconhecer padrões recorrentes, destacar ausências temáticas e revelar as conexões
(ou a ausência delas, no caso deste estudo revela-se com fragmentação) entre os
eixos centrais que sustentam o campo.
A análise de conteúdo foi operacionalizada mediante codificação temática dos
artigos, utilizando como unidade de análise os conceitos, categorias analíticas e
contribuições metodológicas presentes em cada estudo. Posteriormente, os códigos
foram agrupados por similaridade, permitindo a consolidação dos três eixos analíticos
que estruturam a síntese apresentada na seção de resultados.
Os resultados demonstram uma fragmentação substancial na abordagem
integrada desses três eixos, a maioria dos estudos aprofunda um único tema, com
raras contribuições interdisciplinares que articulem esses três blocos temáticos,
correspondentes aos eixos centrais da pesquisa.
O heatmap sintetiza as concorrências temáticas entre os três eixos da revisão
sistemática de literatura, que foram as práticas de gerenciamento de projetos de
organizações da sociedade civil, inovação social e seleção de projetos das
organizações da sociedade civil. A cor mais escura representa maior número de
artigos que conectam dois eixos no mesmo estudo. Observa-se que predominaram as
ligações entre práticas de gerenciamento de projetos/seleção de organizações da
sociedade civil e práticas de gerenciamento de projetos/inovação social, enquanto
inovação social/seleção de organizações da sociedade civil é mais rara. Essa
distribuição evidencia que a literatura avança em aproximações parciais conforme
visualizamos no heatmap da Figura 3.
Figura 3 – Heatmap de Concorrência Temática
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
A síntese integrada dos achados evidencia que os três eixos não apresentam
apenas lacunas isoladas, mas limitações interdependentes. As práticas de
gerenciamento de projetos oferecem instrumentos para planejamento, execução e
controle, porém permanecem pouco adaptadas às especificidades das organizações
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da sociedade civil. A inovação social, por sua vez, contribui para a articulação entre
atores e para a geração de valor social, mas ainda carece de mecanismos que
permitam sua operacionalização e avaliação. Já os critérios de seleção pública
continuam fortemente orientados por exigências formais, com limitada incorporação
de elementos relacionados à capacidade de gestão, à colaboração entre os
envolvidos e ao impacto esperado. Desse modo, a principal contribuição da integração
desses resultados está em demonstrar que a qualificação dos processos de seleção
depende da articulação simultânea entre capacidade técnica, mecanismos de
inovação social e critérios avaliativos objetivos, e não do desenvolvimento isolado de
cada campo.
Resultados e discussão
A análise dos 122 artigos revelou que 49 publicações tratam diretamente de
aspectos ligados ao gerenciamento de projetos por organizações da sociedade civil
ou definidos como terceiro setor. A maior parte desses estudos concentra-se em
diagnósticos de fragilidade institucional, fragilidade dos critérios de avaliação e
dificuldades de adaptação de modelos consolidados em outros setores. O predomínio
é de análises que reforçam a distância entre os referenciais clássicos da gestão de
projetos como o PMBOK (PMI, 2017) ou o PRINCE2 e a realidade operacional das
OSCs, muitas vezes marcadas por equipes enxutas, baixa profissionalização e
estrutura organizacional incipiente (Herlin, 2015; Medina & Medina, 2017).
Entre os estudos analisados, destacam-se a preocupação com a informalidade
e a intuitividade na elaboração, monitoramento e avaliação de projetos. Love, Edwards
e Irani (2012), por exemplo, demonstram que os riscos de falhas em projetos no setor
público e no terceiro setor são exacerbados pela ausência de ferramentas formais de
gestão e pela descontinuidade institucional. Esse argumento é reforçado por Ziegler
(2017), ao afirmar que grande parte das OSCs operam com baixa institucionalização
de rotinas, o que compromete não apenas a efetividade das ações, mas também sua
possibilidade de replicação e aprendizagem.
Outro ponto comum na literatura é a tensão entre a lógica técnica da gestão de
projetos e os valores do campo social. Diversos autores ressaltam que muitas
organizações operam a partir de visões militantes ou comunitárias, priorizando a
escuta das demandas locais e a mobilização de capital social, muitas vezes em
detrimento de aspectos técnicos como definição de escopo, cronograma, orçamento
e indicadores (Mathers, Dempsey & Molin, 2015; Pestoff, 2012).
De maneira geral, a literatura carece de proposições metodológicas que
ofereçam um caminho intermediário entre a rigidez dos modelos corporativos e a
flexibilidade característica do terceiro setor. Nessa direção, Borzaga e Bodini (2014)
defendem que a inovação social deve ser incorporada às políticas públicas por meio
de arranjos institucionais capazes de articular diferentes atores e gerar valor social.
Em perspectiva convergente, Dansoh (2018) e Dagnino (2020) ressaltam a
necessidade de modelos de gestão que conciliem flexibilidade organizacional com
mecanismos mínimos de planejamento, coordenação e avaliação. Em conjunto, esses
estudos indicam a necessidade de abordagens híbridas, capazes de incorporar
dimensões qualitativas, como confiança, engajamento comunitário e participação
social, sem renunciar a critérios técnicos básicos, como metas, entregas e prazos.
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Por outro lado, o estudo de Douglas et al. (2021) é um dos poucos a indicar que
a baixa confiança institucional nas organizações da sociedade civil decorre, em parte,
da ausência de competências específicas para lidar com editais públicos, relatórios
técnicos e auditorias. Isso reforça a ideia de que o fortalecimento da gestão de projetos
no Terceiro Setor depende de capacitação técnica, desenvolvimento de modelos
apropriados e institucionalização de práticas baseadas em evidências.
Em conjunto, os estudos analisados demonstram que o desafio enfrentado pelas
organizações da sociedade civil não decorre da ausência de práticas de
gerenciamento de projetos, mas da limitada adaptação dos modelos tradicionais às
especificidades do Terceiro Setor. Embora ferramentas amplamente consolidadas
contribuam para o planejamento, monitoramento e controle dos projetos, sua
aplicação tende a privilegiar aspectos técnicos e operacionais, deixando em segundo
plano elementos característicos das organizações da sociedade civil, como a
flexibilidade, a participação dos diferentes atores e a geração de valor social. Essa
constatação evidencia a necessidade de abordagens que conciliem rigor gerencial e
sensibilidade às particularidades do contexto social.
Outro eixo desta pesquisa trata sobre a inovação social, aparecendo de forma
explícita em 45 dos 122 artigos analisados. Trata-se de um campo conceitualmente
fértil, porém ainda pouco sistematizado em sua aplicação ao gerenciamento de
projetos e às políticas públicas executadas por organizações da sociedade civil. A
literatura é predominantemente exploratória, com forte carga conceitual.
Conceitualmente, a inovação social é compreendida como a geração de novas
soluções para problemas sociais complexos, envolvendo múltiplos atores e
promovendo impactos que superam os limites das soluções tradicionais (Phills et al.,
2008). Autores como Murray, Caulier-Grice e Mulgan (2010) reforçam o caráter
sistêmico da inovação social, ao argumentar que ela deve ser vista como um processo
participativo e cocriado, e não apenas como a introdução de produtos ou serviços
novos.
Essa constatação é reforçada por Cajaiba-Santana (2014), que propõe uma
compreensão mais crítica e processual da inovação social, destacando que sua
ocorrência depende da articulação entre agência e estrutura, ou seja, entre os atores
que propõem as mudanças e os contextos institucionais em que essas mudanças são
implementadas. A literatura, entretanto, raramente discute como essas articulações
se materializam na prática dos projetos sociais. Casos como os relatados por Dufays
e Huybrechts (2014) e Pestoff et al. (2012) demonstram o potencial de arranjos
híbridos e coproduzidos para gerar soluções inovadoras em áreas como inclusão
social, educação, saúde e desenvolvimento territorial. No entanto, mesmo esses
estudos reconhecem que a institucionalização da inovação social ainda enfrenta
barreiras normativas, culturais e técnicas, o que dificulta sua adoção como critério de
avaliação.
Outro aspecto recorrente na literatura diz respeito à ausência de frameworks
metodológicos para planejar, executar e mensurar inovação social em projetos.
Apenas um pequeno grupo de estudos, como os de Nicholls et al. (2015) e Geobey
et al. (2014), propõe caminhos concretos para a adoção da inovação social como
diretriz operacional. Mesmo nesses casos, as propostas ainda carecem de
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indicadores validados, processos de avaliação formativa ou modelos de governança
que garantam a perenidade das inovações propostas.
De forma integrada, os estudos sobre inovação social evidenciam avanços
importantes na compreensão dos processos colaborativos e na construção de
soluções voltadas ao enfrentamento de problemas públicos complexos. Entretanto, a
revisão demonstra que esse avanço permanece predominantemente conceitual, com
reduzida incorporação de mecanismos operacionais que permitam sua aplicação nos
processos de gestão e seleção de projetos. Assim, embora a inovação social seja
reconhecida como elemento articulador entre Estado, organizações da sociedade civil
e sociedade, ainda são escassos os estudos que traduzem esse potencial em critérios
objetivos capazes de orientar a tomada de decisão na administração pública.
O terceiro eixo analítico deste estudo compreende os critérios técnicos adotados
pela administração pública na seleção de projetos de organizações da sociedade civil.
Dos 122 artigos analisados, apenas 28 abordam diretamente esse tema, evidenciando
uma lacuna relevante na literatura. Esse reduzido número de estudos revela o limitado
avanço normativo, institucional e metodológico sobre os critérios técnicos de seleção,
cuja ausência compromete a capacidade da administração pública de avaliar a
qualidade das propostas e, consequentemente, a efetividade das políticas públicas
executadas em parceria com o Terceiro Setor.
Como exemplo, o estudo de O'Neill e Loftus (2013) evidencia a prevalência de
critérios formais e documentais nos processos seletivos, como regularidade fiscal,
tempo de existência da organização e compatibilidade temática da proposta, em
detrimento de critérios substantivos voltados à avaliação da consistência
metodológica, da viabilidade técnica e da capacidade de execução dos projetos. Esse
cenário gera um desequilíbrio entre os aspectos administrativos e os elementos
técnicos, abrindo espaço para avaliações subjetivas, inconsistentes e vulneráveis a
interferências externas.
Além dos percentuais por temas, a análise das fontes revelou uma concentração
dos artigos selecionados em periódicos voltados para administração pública, políticas
sociais e inovação. Destacam-se como fontes recorrentes os periódicos como: Public
Administration Review, Nonprofit Management & Leadership, Journal of Social
Entrepreneurship e International Journal of Project Management, conforme Tabela 2.
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Tabela 2 – Artigos publicados por revista
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
No cenário brasileiro estudos evidenciam que a Lei nº 13.019/2014, conhecida
como MROSC, representou um avanço importante ao estabelecer regras gerais para
as parcerias entre Estado e organizações da sociedade civil. O estudo de Abbott et al.
(2017) destaca que essa lacuna normativa é agravada por deficiências institucionais
dentro dos próprios órgãos públicos, que muitas vezes não dispõem de profissionais
capacitados para analisar os projetos sob a ótica da lógica de intervenção, dos
impactos esperados ou da consistência do método proposto.
Outro ponto recorrente é a ausência de padronização nos editais públicos. Os
artigos revelam uma grande heterogeneidade nas exigências feitas pelas
administrações públicas, o que dificulta a comparação entre propostas e compromete
a transparência. Estudos como o de Borzaga e Bodini (2014) alertam que essa falta
de uniformidade mina o próprio propósito dos chamamentos públicos, que deveriam
premiar mérito técnico e impacto social em vez de favorecer organizações com maior
experiência burocrática ou capacidade de adequação documental.
A literatura internacional apresenta experiências relevantes sobre modelos de
contratualização e governança baseados em evidências e com forte componente
avaliativo, conforme discutido por Cropper et al. (2016) e Clarke e Craft (2018). Esse
cenário reforça a existência de uma lacuna metodológica e normativa entre a
concepção das políticas públicas e os instrumentos efetivamente utilizados para sua
operacionalização.
Complementarmente, Nicholls et al. (2015) chegam a propor indicadores de
inovação social para avaliação de projetos, mas seu escopo é limitado e voltado a
experiências comunitárias. Essa deficiência compromete não apenas a qualidade das
propostas selecionadas, mas também a própria legitimidade dos chamamentos
públicos enquanto instrumento de política pública.
Os estudos analisados convergem ao demonstrar que os processos de seleção
de organizações da sociedade civil permanecem fortemente orientados por requisitos
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legais, documentais e administrativos. Embora esses elementos sejam fundamentais
para assegurar a conformidade jurídica e a transparência dos chamamentos públicos,
eles se mostram insuficientes para avaliar a qualidade técnica das propostas e sua
capacidade de gerar resultados sociais. A revisão evidencia, portanto, que a literatura
ainda oferece poucas contribuições para a construção de critérios objetivos, auditáveis
e fundamentados em práticas de gerenciamento de projetos e inovação social,
revelando uma lacuna que limita o aprimoramento dos processos de seleção
conduzidos pela administração pública.
Análise Transversal entre os Eixos Temáticos
A análise transversal dos artigos que foram considerados no processo de RSL,
possibilitou identificar linhas e desconexões ou vazios significativos entre entre os três
eixos analíticos considerados nesta pesquisa: (i) práticas de gerenciamento de
projetos em organizações da sociedade civil; (ii) inovação social; e (iii) critérios
técnicos de seleção em chamamentos públicos. Embora cada um desses eixos tenha
apresentado avanços conceituais e metodológicos em sua própria trajetória de
desenvolvimento, a revisão evidencia que esses avanços ocorreram de forma
predominantemente isolada, sem a consolidação de um campo integrado capaz de
articular práticas de gerenciamento de projetos, inovação social e critérios técnicos de
seleção de OSCs. A Figura 4 representa, de forma conceitual, essa lacuna identificada
na literatura, evidenciando a ausência de um modelo ou framework que conecte três
campos de conhecimento.
Figura 4 – Síntese interpretativa dos resultados da RSL
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Do ponto de vista quantitativo, observou-se uma distribuição equilibrada entre os
eixos de gerenciamento de projetos e inovação social, com uma presença menor de
estudos voltados aos critérios técnicos nos processos de seleção de projetos por
chamamentos públicos. No entanto, mais revelador que essa distribuição é o fato de
que menos de 10% dos artigos abordam dois ou mais eixos de forma articulada. O
fenômeno da fragmentação temática é uma das linhas que mais evidenciam a
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produção acadêmica sobre os temas, limitando a capacidade de construção de um
referencial teórico coerente e aplicável à realidade do Terceiro Setor, conforme mapa
de interseções da Figura 5.
Figura 5 – Mapa de interseções entre os eixos da pesquisa nos artigos selecionados
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
As pesquisas sobre gerenciamento de projetos tendem a se concentrar nas
divergências entre abordagens tradicionais e os problemas reais que surgem durante
o processo diário de uma organização da sociedade civil, que se caracterizam
principalmente por escassos recursos, fortes laços comunitários e pouca ou nenhuma
formação técnica para gerenciar projetos. Isso contrasta com o foco dos estudos sobre
inovação social, que tendem a trabalhar em nível mais conceitual.
Na prática, essa fragmentação transcende o campo teórico e produz efeitos
diretos sobre a qualidade das parcerias entre a administração pública e as
organizações da sociedade civil. A ausência de integração entre práticas de
gerenciamento de projetos, mecanismos de inovação social e critérios técnicos de
seleção dificulta a elaboração de propostas consistentes, com objetivos claramente
definidos, indicadores de resultados, estratégias de monitoramento e mecanismos de
avaliação. Como consequência, projetos tecnicamente frágeis tendem a receber
avaliações inconsistentes, enfrentar maiores dificuldades de financiamento e
apresentar menor capacidade de implementação e geração de impacto social. Dessa
forma, a fragmentação identificada na literatura também se reflete na prática
administrativa, comprometendo a efetividade das políticas públicas desenvolvidas em
parceria com o Terceiro Setor.
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Conclusões
A análise dos 122 artigos evidencia que a fragmentação da literatura não se
limita à distribuição temática dos estudos, mas se manifesta na ausência de
articulação entre três dimensões centrais: a capacidade de gestão dos projetos, a
articulação entre atores e os critérios técnicos de seleção pública.
No campo do gerenciamento de projetos, os estudos analisados apontam a
predominância de modelos oriundos do setor privado, como PMBOK e PRINCE2, cuja
adaptação ao contexto das organizações da sociedade civil permanece limitada,
resultando em baixa institucionalização de práticas de planejamento e avaliação
(Herlin, 2015; Love, Edwards & Irani, 2012).
No eixo da inovação social, embora autores como Phills, Deiglmeier e Miller
(2008) e Cajaiba-Santana (2014) consolidem o conceito como um processo de
articulação entre múltiplos atores para geração de valor público, a literatura revela
dificuldades em sua operacionalização, especialmente na tradução desses princípios
em instrumentos aplicáveis à gestão de projetos e à avaliação de propostas (van Wijk
et al., 2019).
Já no campo dos critérios de seleção, os estudos indicam que os processos de
chamamento público permanecem ancorados em exigências formais, com limitada
incorporação de critérios técnicos relacionados à lógica de intervenção, capacidade
de execução e mensuração de impacto (O’Neill & Loftus, 2013; Rodríguez Bolívar
et al., 2016; Abbott et al., 2017). Isso é ilustrado pela predominância de análises
formais em detrimento da lógica do projeto e dos indicadores de impacto ou
capacidade técnica de gestão de projetos dessas organizações da sociedade civil.
Os achados deste estudo apontam para oportunidades de avanço da pesquisa
sobre a integração entre gerenciamento de projetos, inovação social e critérios
técnicos de seleção de organizações da sociedade civil. Nesse sentido, esta revisão
contribui tanto para o campo teórico quanto para a prática ao sistematizar criticamente
a produção científica existente e evidenciar lacunas que permanecem pouco
exploradas na literatura. Além disso, oferece uma agenda para pesquisas futuras,
incentivando investigações que aprofundem a compreensão dessas relações e
subsidiem o desenvolvimento de abordagens capazes de integrar esses três eixos em
processos de seleção mais consistentes e efetivos
A principal contribuição do estudo reside na articulação de dimensões
geralmente analisadas de forma isolada: gestão de projetos, inovação social e critérios
técnicos de seleção pública. Apenas assim podemos qualificar o ambiente de
cooperação entre o Estado e o Terceiro Setor, em favor de relações mais justas,
eficientes e transformadoras nos projetos de OSCs.
Esse estudo abre espaço para que pesquisas futuras investiguem questões de
integração teórica e metodológica dos eixos, permitindo compreender como as
práticas de gestão de projetos podem contribuir eficientemente para gerar mudanças
sociais e minimizar as deficiências na seleção das organizações civis, procurando
produzir algo que auxilie o poder público na qualificação e escolha de projetos das
organizações da sociedade civil.
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