Chamada de artigos para o dossiê: "Vertentes da linguagem visual nas sociedades clássica e pós-clássica

12-07-2023

As imagens ocupam um lugar privilegiado no amplo sistema de comunicação humana sendo, sem dúvida, uma forma de linguagem. Por meio das representações imagéticas, indivíduos e grupos revelam sentimentos particulares, interesses políticos, projetos de sociedade ou aspirações de poder ao conceberem o mundo a partir de seus respectivos pontos de vista. O mesmo pode ser dito acerca de outras manifestações da linguagem visual, como no caso das intervenções corporais, em que os indivíduos estabelecem uma comunicação não verbal com quem os observa mediante o uso de anéis, amuletos, pinturas e vestimentas, ou submetendo-se a procedimentos estéticos, a exemplo de depilações, hidratações e exercícios para definição dos músculos. Como bem afirmou David Le Breton (2007, p. 7), o corpo é socialmente construído e o seu aspecto visual é um elemento incontornável dessa construção.

Seja por meio de mosaicos, na moda ou mesmo na decoração do lar, a linguagem visual é amiúde um processo de escolhas conectado às balizas simbólicas de determinado indivíduo ou grupo que, por sua vez, tem como referência um circuito cultural específico ancorado em sua própria realidade. Deste modo, ainda que a linguagem visual ofereça muitas possibilidades, ela também apresenta limites interpretativos sobre o passado, em especial no que diz respeito a generalizações. Como alerta William Mitchell (2005, p. 33-34), devemos ser cautelosos ao mensurar a influência que uma imagem teve em seu tempo, sendo, por vezes, mais produtivo nos debruçarmos sobre o que o produtor da imagem quis transmitir. Além disso, as imagens que chegaram até nós não raro encontravam-se associadas ao “projeto” de memória daqueles que a produziram, pois selecionaram certas representações da realidade com o propósito de eternizá-las.

As evidências iconográficas, como nos lembra Peter Burke (2017, p. 23), não devem ser subestimadas pelo fato de serem supostamente mais fáceis de serem decodificadas pelo olhar moderno do que, por exemplo, um texto em latim ou grego. Pelo contrário, as imagens são tão complexas quanto os próprios manuscritos e também sofreram a interferência de terceiros durante sua transmissão desde a Antiguidade, o que exige, no tratamento das imagens, um rigor análogo àquele aplicado às fontes escritas, principalmente quando estas imagens provêm de uma época tão longínqua. A cultura material, suporte mediante o qual a linguagem visual do passado é mais acessada com mais frequência, deve ser abordada de maneira histórica: deve-se contextualizar sua produção, reconstruir sua trajetória e manuseio até a atualidade e pô-la em diálogo com as fontes textuais da época e com as reflexões acadêmicas pertinentes (REDE, 1996, p. 276).

Diante do exposto, esperamos que este dossiê de Romanitas reúna interpretações plurais acerca das sociedades clássica e pós-clássica elaboradas à luz da linguagem visual presente em moedas, estátuas, mosaicos, adereços, pinturas, projetos arquitetônicos, inscrições epigráficas, ambientes, paisagens, grafites e demais formas de comunicação imagética, levando em consideração as contribuições interdisciplinares.

 

Organizador: Prof. Me. Edjalma Nepomoceno Pina

Prazo de submissão: 15 de fevereiro de 2024

 

Referências

BURKE, Peter. Testemunha ocular: o uso de imagens como evidência histórica. São Paulo: Editora Unesp, 2017.

LE BRETON, D. A sociologia do corpo. Petrópolis: Vozes, 2007.

MITCHELL, W. J. T. What do pictures want? Chicago: Chicago University Press, 2005.

REDE, M. História a partir das coisas: tendências recentes nos estudos de cultura material. Anais do Museu Paulista, v. 4, p. 265-282, 1996.