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A metapsicologia do sadismo-masoquismo em Freud e a sua relação com as teorias pulsionais: a dupla afetação na teoria freudiana

Metapsychology of sadism-masochism in Freud and its relation to the drive theories: double affectation in Freudian theory

Renan Dutra da Cunha

0000-0001-6271-3231  

rdutradacunha@hotmail.com

UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora

Daniel Omar Perez

0000-0002-5965-3490

danielomarperez1@gmail.com

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas / UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora

Recebido: 13/05/2025

Received: 13/05/2025

Aprovado: 22/01/2026

Approved: 22/01/2026

Publicado: 02/02/2026

Published: 02/02/2026

Resumo

Este trabalho propõe uma análise dos conceitos de sadismo e masoquismo nas obras de Freud, com o objetivo de evidenciar como a teoria do sadismo-masoquismo e as teorias pulsionais se articularam e se influenciaram mutuamente. Em sua primeira teoria pulsional, Freud relaciona o sadismo ao componente agressivo da pulsão que se tornou exacerbado e independente e que, por conta disso, dominou a tendência sexual do sujeito, enquanto o masoquismo é considerado uma continuação do sadismo que retornou contra a própria pessoa. Na segunda teoria das pulsões, com a introdução do conceito de pulsão de morte, a ênfase anteriormente dada ao sadismo recai sobre o masoquismo, agora considerado primário. O masoquismo corresponderia à parte da pulsão de morte que permaneceu no organismo ligada à libido, e o sadismo, parte dessa pulsão desviada aos objetos do mundo externo e posta a serviço da função sexual. Concluímos que não somente a introdução do conceito de pulsão de morte na obra de Freud implicou uma reformulação importante em sua teoria do sadomasoquismo, mas os próprios conceitos de sadismo e masoquismo também exerceram, de certo modo, uma influência na reformulação de sua teoria das pulsões.

Palavras-chave: psicanálise; metapsicologia; sadismo; masoquismo; pulsão.

Abstract

This work proposes an analysis of the concepts of sadism and masochism in Freud's works, with the aim of showing how the theory of sadism-masochism and the drive theories were articulated and mutually influenced each other. In his first drive theory, Freud associates sadism with the aggressive component of the drive that became exacerbated and independent, consequently dominating the subject’s sexual tendency, while masochism is considered a continuation of sadism turned back against the person themselves. In the second drive theory, with the introduction of the death drive, the emphasis previously placed on sadism moves to masochism, now considered as primary. Masochism would correspond to the part of the death drive that remained bound to the libido and retained within the organism, and sadism, the portion of that drive deflected toward external objects and placed in the service of the sexual function. We conclude that not only did the introduction of the concept of death drive into Freud’s work imply an important reformulation in his theory of sadomasochism, but the concepts of sadism and masochism themselves also exerted, in a certain way, an influence on the reformulation of his theory of drives.

Keywords: psychanalysis; metapsychology; sadism; masochism; drive.

Introdução

O sadismo-masoquismo — ou, simplesmente, o sadomasoquismo — ocupa um lugar significativo na teoria freudiana, manifestando-se em alguns casos clínicos e, de modo particular, na formulação de parte de sua metapsicologia, sobretudo no que tange ao conceito de pulsão.  Mesmo em alguns textos cujos temas centrais não sejam o sadismo e o masoquismo, estes quadros ou conceitos são frequentemente mobilizados por Freud como recursos para sustentar e desenvolver sua construção teórica.

A estreita relação entre a produção teórica acerca do sadomasoquismo e as duas teorias pulsionais é evidente. Na primeira teoria pulsional, o sadismo dá origem ao masoquismo por meio de um retorno pulsional em direção ao próprio Eu e a subsequente transformação da pulsão em seu contrário, substituindo a meta ativa da pulsão de crueldade por uma passiva. Com a introdução do conceito de “pulsão de morte”, a relação sadismo primário/masoquismo secundário é invertida. A ênfase anteriormente dada ao sadismo é deslocada para o masoquismo, agora considerado primário em relação ao seu oposto. O masoquismo, agora reconhecido como primário, é concebido como o resquício de pulsão de morte ligada libidinalmente que permaneceu no organismo, enquanto o sadismo, agora secundário, corresponde à pulsão de morte jogada para fora em direção aos objetos exteriores e submetida à atividade sexual.

Com este trabalho — que se inscreve no campo da Filosofia da Psicanálise —, objetivamos realizar uma análise dos conceitos de sadismo e masoquismo nas obras de Freud, demonstrando a maneira pela qual a teoria do sadismo-masoquismo e as teorias pulsionais se articularam e mutuamente se afetaram. Demonstramos, por meio de nossos resultados, que não apenas o conceito de pulsão de morte modificou a teoria do sadomasoquismo, mas os próprios conceitos de sadismo e masoquismo também contribuíram, de certa forma, para a transformação da teoria pulsional freudiana. Para este empreendimento, utilizamos alguns dos principais textos e artigos do autor sobre o tema, incluindo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), “As pulsões e seus destinos” (1915), “Além do princípio do prazer” (1920), “O Eu e o ID” (1923) e “O problema econômico do masoquismo” (1924), além de outros materiais em que os conceitos aparecem ou que nos permitiram pensá-los. Esta tarefa nos permitiu compreender suas transformações e desdobramentos ao longo da obra, sendo alcançada através de uma análise e explicação dos textos acima citados. Outros trabalhos, teses e artigos também foram utilizados a fim de avançarmos em nossa análise.

Torna-se importante alinharmos que a análise interna dos textos de Freud acima indicados se deu em confluência com o trabalho preconizado por Monzani (1989). Na introdução de “Freud: o movimento de um pensamento” — considerada, juntamente com a sua conclusão, um manifesto epistemológico para as pesquisas em Filosofia da Psicanálise —, o autor esclarece sua tentativa de “ler e discutir a psicanálise freudiana enquanto um discurso teórico”, desdobrando-se em “um trabalho de análise das ideias” e em uma “tentativa de reconstrução do movimento de seu pensamento”. É neste sentido que a presente pesquisa buscou avançar, explicitando “as articulações que comandam a estrutura da obra” e esclarecendo “algumas articulações que guiam o movimento de pensamento no interior da obra de Freud” (Monzani, 1989, pp. 24 e 25).

O sadismo e o masoquismo nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905)

O sadismo e o masoquismo são descritos por Freud de forma detalhada pela primeira vez em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). É válido mencionar que o que é escrito no primeiro ensaio se dá a partir das publicações de Krafft-Ebing, Moll, Moebius, Havelock Ellis, dentre outros, como o próprio autor esclarece em sua primeira nota. Freud apresenta neste capítulo classificações que giram em torno de duas expressões técnicas: o objeto sexual, que seria a pessoa geradora da atração sexual, e a meta sexual, que seria o ato sexual em si. Além disso, apresenta uma sexualidade considerada pela opinião popular como normal, tendo o sexo oposto sexualmente maduro como objeto sexual e a união dos genitais como meta sexual normal.

Tomando isto e a categoria de perversão (ou aberração sexual) da psiquiatria de sua época como referência, a homossexualidade (chamada aqui de “inversão”), a pedofilia e zoofilia, o fetichismo, o voyerismo, o exibicionismo, o sadismo, o masoquismo, dentre alguns outros atos, são colocados por Freud no campo dos “desvios” ou “variações da pulsão sexual”, porque desviam da norma. Apesar de se utilizar da categorização de perversão para a produção dos ensaios, não a utiliza com seu teor moralizante e patológico à maneira como este conceito foi cunhado, um esforço que percebemos ao longo do ensaio. O termo “perversão” é usado pelo autor não em um sentido patológico, mas em um sentido descritivo, a fim de relacioná-lo às práticas sexuais não genitais ou que não se restringem à copulação. Mendonça (2015, p. 20), em sua tese, articula que a perversão em Freud é um dos “nomes da sexualidade humana”.

Tanto na perversão de olhar e ser olhado quanto no sadismo-masoquismo, “a meta sexual está presente em configuração dupla, em forma ativa e passiva” (Freud, 1905/2016, p. 51). Freud (1905/2016, p. 51) se refere ao sadismo-masoquismo como “A mais frequente e mais significativa de todas as perversões”. Mais do que o prazer com a dor ou a “inclinação a infligir dor ao objeto sexual e sua contrapartida”, Freud referencia Krafft-Ebing ao afirmar que os termos cunhados por ele — o sadismo e o masoquismo — “ressaltam o prazer com toda a espécie de humilhação e submissão”, enquanto outros autores a designam de modo mais restrito, por algolagnia, “que enfatiza o prazer com a dor, a crueldade” (Freud, 1905/2016, p. 51)[1]. O sadismo, portanto, é a forma ativa dessa perversão, enquanto o masoquismo, a forma passiva. Da mesma maneira que o voyeurismo e o exibicionista são, respectivamente, as metas ou formas ativa e passiva da pulsão de olhar; assim são o sadismo e o masoquismo as formas ativa e passiva da pulsão de crueldade.

Nesse trabalho de 1905, o sadismo é definido por Freud (1905/2016, p. 52) como “um componente agressivo do instinto sexual [ou pulsão sexual] que se tornou independente, exacerbado, e foi colocado na posição principal mediante deslocamento”, ou seja, que dominou a tendência sexual do sujeito. Já o masoquismo — pelo menos ainda neste momento de sua teorização, como se verá mais adiante — pode ser considerado frequentemente como “um prosseguimento do sadismo, voltado contra a própria pessoa, que toma inicialmente o lugar do objeto sexual” (Freud, 1905/2016, p. 53). Freud chega, inclusive, a duvidar se sequer ele aparecesse primariamente, mantendo a ideia de que talvez de fato ele só aparecesse por meio de uma transformação do sadismo.[2]

Freud (1905/2016, p. 53) expõe de maneira bastante breve que, conforme alguns autores — que ele não os cita —, esse “elemento agressivo da libido” ou essa “agressividade mesclada ao instinto sexual” seria “um vestígio de apetites canibalescos, ou seja, uma contribuição do aparelho de apoderamento”. Além disso, que também já “se afirmou que toda dor, em si, já contém a possibilidade de uma sensação de prazer” (Freud, 1905/2016, p. 54). Conforme alega Brenner (1959), Freud identificou esta capacidade humana de gerar excitação sexual a partir de uma estimulação dolorosa como um possível fator para que os masoquistas chegassem inclusive ao orgasmo em situações nas quais fosse infligida dor em seus corpos.

Esclarece que a característica mais notável do sadismo e do masoquismo “é o fato de suas formas ativa e passiva se encontrarem regularmente na mesma pessoa” (Freud, 1905/2016, p. 54). É a partir deste ponto na teoria freudiana que percebemos que o sadismo e o masoquismo, apesar de apresentarem características opostas, não correspondem a dois quadros separados. Eles são um par de opostos — o sadismo-masoquismo ou sadomasoquismo — e suas formas ativa e passiva se encontram em uma mesma pessoa, embora um lado se apresente menos ou mais desenvolvido que o outro. Assim sendo, aquele que sente prazer em causar dor, em alguma medida também seria capaz de sentir prazer com a própria dor nas relações sexuais. A seguinte citação torna explícita esta concepção de Freud (1905/2016, p. 54): “Um sádico sempre é, simultaneamente, um masoquista, embora o lado ativo ou o lado passivo da perversão esteja mais desenvolvido nele e constitua sua atividade sexual predominante”.

Por meio do conceito de pulsão, Freud realiza uma aproximação entre a neurose e a perversão, cujas repercussões teóricas podem ser observadas em importantes proposições. Ao afirmar que “a neurose é [...] o negativo da perversão” (Freud, 1905/2016, p. 63), indica que os sintomas neuróticos não são formados — pelo menos não de maneira exclusiva ou predominante — a partir da pulsão sexual normal, mas “que representam, isto sim, a expressão convertida de instintos que poderíamos denominar perversos (no sentido mais amplo)” (Freud, 1905/2016, p. 63). Em nota, escreve que as fantasias conscientes dos perversos “coincidem até em detalhes no seu conteúdo” com as fantasias inconscientes dos neuróticos. Com isso, o que está consciente para os perversos, que em alguns momentos transformam suas fantasias em atos, está inconsciente para os neuróticos, cujas fantasias inconscientes dão origem aos seus sintomas.

Ferraz (2010, p. 34) defende que essa construção teórica freudiana “teve uma importância decisiva para a compreensão da sexualidade em geral, pois demonstrou que o perverso não porta uma aberração ausente nos outros seres humanos, mas que ele simplesmente atua aquilo que se encontra, de forma latente e potencial, em todas as pessoas”. Hendrickx (2017), em contrapartida, alerta para o fato de que a metáfora freudiana do “negativo” não implica, como parece sugerir, uma simetria no sentido de haver um caminho de mão-dupla que permite também que uma perversão surja a partir de uma neurose. O autor escreve que somente o sintoma neurótico pode se desenvolver a partir da sexualidade pré-genital perversa, não o contrário.

Percebemos, neste momento do ensaio, que Freud utiliza dos conhecimentos acerca da neurose, mais especificamente acerca de suas pulsões sexuais encontradas no inconsciente[3], para contribuir com esclarecimentos em seus estudos sobre as perversões. Hendrickx (2017) afirma que é justamente o fato de olhar a perversão a partir dos conhecimentos e materiais acerca da neurose que torna a teoria freudiana mais profunda na temática da perversão se comparada com a dos sexologistas precursores. O autor reitera que quando Freud se depara com as fantasias sexuais inconscientes trazidas à luz pelo seu trabalho analítico, é incitado a estudar a sexualidade infantil, encontrando nela, “essencialmente perversa” (Hendrickx, 2017, p. 54, tradução nossa[4]), as raízes da sexualidade normal.

Freud apresenta contribuições importantes quando discorre um pouco mais acerca das pulsões parciais que se apresentam como pares de opostos, tomando como pano de fundo a neurose e devolvendo alguns esclarecimentos importantes ao campo das perversões. Escreve:

Quando é encontrado no inconsciente um instinto suscetível de fazer par com um oposto, verifica-se normalmente que também esse último é atuante. Assim, cada perversão ‘ativa’ é acompanhada de sua contraparte passiva; quem é exibicionista no inconsciente é também voyeur ao mesmo tempo; quem sofre das consequências da repressão de impulsos sádicos tem, na inclinação masoquista, outra fonte que lhe aumenta os sintomas. É certamente digna de nota a concordância total com o comportamento das perversões ‘positivas’ correspondentes. No quadro clínico, porém, uma ou outra das inclinações opostas tem o papel dominante (Freud, 1905/2016, p. 65 [grifos nossos]).

Por “perversões positivas” entendemos aquelas fantasias perversas que estão conscientes, enquanto as “perversões negativas”, aquelas que estão no inconsciente e que se manifestam muitas vezes em sintomas neuróticos. Ainda que esta passagem diga respeito a uma construção teórica direcionada às neuroses, tudo isso, como lemos acima, pode ser facilmente aplicado aos conhecimentos das perversões, dada a “concordância total [das neuroses] com o comportamento das perversões ‘positivas’ correspondentes” (Freud, 1905/2016, p. 65). A utilização dos conhecimentos acerca das neuroses como estratégia epistemológica para um aprofundamento nos conhecimentos sobre as perversões se mostra muito clara nessa parte do texto.

Fica ainda mais clara, a partir da citação acima, a concepção freudiana de que o sadismo e o masoquismo, assim como o voyerismo e o exibicionismo, são indissociáveis, uma coisa só. Não haveria, neste sentido, uma pulsão sádica e uma outra masoquista completamente separadas, mas uma pulsão de crueldade que seria ela mesma composta por sua parte ativa e passiva que se encontraria em uma mesma pessoa, e que no caso de uma perversão se manifestou em (ou promoveu) uma das inclinações opostas como atividade sexual predominante. Há um fragmento de seu texto que torna ainda mais evidente tal concepção, quando Freud (1905/2016, p. 64) escreve “o instinto do prazer de olhar e da exibição e o instinto ativo e passivo da crueldade”, não “os instintos”, no plural. Retornamos à afirmação de Freud apresentada algumas páginas atrás de que um sádico é, ao mesmo tempo, um masoquista, e vice-versa.

A metapsicologia do sadismo-masoquismo em “As pulsões e seus destinos” (1915)

No ensaio “As pulsões e seus destinos” (1915) — um dos artigos metapsicológicos nos quais Freud se propõe a avançar em alguns de seus conceitos fundamentais, manifestando o esforço do autor em definir o conceito de “pulsão” e de fazer progredir a sua ciência —, Freud (1915/2019, p. 29) realiza um questionamento que inaugura o desenvolvimento do nomeado primeiro dualismo pulsional: “Quais pulsões se podem designar e quantas elas seriam?”. Afirma ser uma questão bastante arbitrária e que é possível estabelecer um número muito grande de pulsões, de modo que não poderia objetar conceitos como “pulsão de jogo”, “pulsão de sociabilidade”, “pulsão de destruição” etc. No entanto, Freud (1915/2019, p. 29) se atenta ao fato de que seria importante encontrar e definir as pulsões primordiais, aquelas que não seriam suscetíveis à decomposição ou que “não admitiriam uma decomposição adicional em relação às fontes pulsionais”. Por exemplo, no caso da pulsão de jogo, seria possível chegar a uma outra pulsão, o que não ocorreria com as primordiais.

Freud estabelece, direcionado por este raciocínio, dois grupos de pulsões primordiais: as pulsões do Eu ou de autopreservação, e as pulsões sexuais. Ambas não poderiam ser decompostas, ou seja, formar-se-iam originariamente por assim dizer. Prossegue afirmando que este agrupamento se trata “de uma mera construção auxiliar, que só deve ser mantida enquanto for útil e cuja substituição por outra pouco alterará os resultados de nosso trabalho de descrição e de ordenação” (Freud, 1915/2019, p. 29). Esclarece que tal classificação surgiu do desenvolvimento da psicanálise nos estudos sobre as neuroses de transferência, que através das quais se chegou ao entendimento “de que um conflito entre as exigências da sexualidade e as do Eu estava na raiz de todas aquelas afecções” (Freud, 1915/2019, p. 31). Esse dualismo pulsional, portanto, se explica pela própria dualidade entre Eu e sexualidade alcançada nos estudos sobre as neuroses.

Após preencher de conteúdo o conceito de pulsão[5], Freud introduz o tema que dá nome ao artigo: os destinos das pulsões. Afirma que, a partir da observação, foi possível identificar quatro destinos pulsionais: a reversão em seu contrário, o retorno em direção à própria pessoa, o recalque e a sublimação. O autor os considera “como espécies de defesa contra as pulsões” (Freud, 1915/2019, p. 35), no sentido de que se contrapõem ao seu fluxo direto que desembocaria em sua meta final. Nesse artigo de 1915, Freud apenas trabalha os dois primeiros destinos, já que os outros dois teriam artigos dedicados a tratá-los, embora o texto sobre a sublimação jamais tenha sido publicado.

A reversão em seu contrário, como expõe o autor, “desdobra-se em dois processos diferentes: a passagem de uma pulsão da atividade para a passividade e a inversão de conteúdo” (Freud, 1915/2019, p. 35). O primeiro caso se trata da transformação do sadismo em masoquismo ou do voyerismo em exibicionismo, enquanto o segundo diz respeito ao “caso único da transformação do amar em um odiar” (Freud, 1915/2019, p. 35), que é tratado ao final do artigo e que não será aqui apreciado por se distanciar do escopo de nossa pesquisa. Com relação ao segundo destino, o retorno em direção à própria pessoa, escreve que “se torna compreensível se considerarmos que o masoquismo é um sadismo que se voltou contra o próprio Eu, e que o exibicionismo inclui a contemplação do próprio corpo” (Freud, 1915/2019, p. 37, grifos nossos). Deste modo, a reversão em seu contrário diz respeito à transformação da meta, enquanto o retorno à própria pessoa envolve a “troca de objeto com a invariância da meta” (Freud, 1915/2019, p. 37).

Os dois destinos aqui tratados estão vinculados, já que para que aconteça a reversão de uma pulsão é necessário que antes haja o retorno pulsional em direção ao próprio Eu ou ao corpo, ou seja, é necessário que antes haja a troca de objeto. Tomando o par de opostos sadismo-masoquismo como exemplo, quando há a reversão da pulsão de atividade em uma de passividade, o sadismo, que estava direcionado a um outro, retorna primeiramente contra o próprio Eu. Com esse retorno, realiza-se, em seguida, a substituição da meta ativa pela passiva, de modo que uma outra pessoa é escolhida como objeto, originando-se, somente após esta escolha, o masoquismo. Freud (1915/2019, p. 37) esquematiza bem o processo de reversão da pulsão:

a) O sadismo consiste em atividade de violência, dominação sobre outra pessoa como objeto.

b) Tal objeto é abandonado e substituído pela própria pessoa. Com o retorno em direção à própria pessoa, também se realiza a transformação da meta ativa da pulsão em uma meta passiva.

c) Novamente, outra pessoa é procurada como objeto, a qual, em decorrência da transformação da meta ocorrida, terá que assumir o papel de sujeito.

Por mais que Freud sugira — tanto no parágrafo supracitado quanto no que o antecede em seu artigo — que na fase b os dois destinos coincidam, trazendo a ideia de que o retorno pulsional em direção à própria pessoa envolva de imediato a transformação de sua meta, parece-nos que esta convergência não pode ser levada às últimas consequências. Em primeiro lugar, porque no próprio parágrafo em que o autor define o retorno pulsional ele também afirma que tal processo consiste na “troca do objeto com a invariância da meta” (Freud, 1915/2019, p. 37). Em segundo, porque no parágrafo em que o autor trabalha especificamente essa fase por meio de seus resultados sobre a neurose obsessiva[6], Freud (1915/2019, p. 39, grifos nossos) afirma que na fase b “O verbo ativo não passa para a voz passiva, mas para a voz média reflexiva”, ou seja, o mesmo sujeito que gera a ação também a sofre. Tudo isto nos permite compreender que na fase b, antes da meta ativa se transformar em uma passiva e permitir com que o sujeito elenque um outro como seu objeto, a meta ativa persiste inalterada, ainda que direcionada ao próprio Eu.

Em uma tentativa de avançarmos neste ponto, podemos ponderar que, na verdade, a pulsão de crueldade nesse momento é satisfeita tanto a partir de uma meta ativa quanto de uma passiva, visto que o sujeito satisfaz um sadismo que é direcionado pelo próprio sujeito ao seu próprio Eu. Com isso, admitimos que na fase b o sujeito é tão sádico quanto masoquista consigo mesmo, resguardando-nos de utilizar tais conceitos para além de seu sentido de perversão: é masoquista porque satisfaz sua pulsão de crueldade com um sadismo que é direcionado contra seu próprio Eu, ao mesmo tempo que é sádico pelo fato de ser ele próprio a direcionar o sadismo. É o que ocorre, como nos traz Brenner (1959), na melancolia: o impulso sádico antes direcionado a um terceiro amado e odiado retorna agora em direção ao próprio Eu através do mecanismo da identificação com esse objeto perdido, “resultando em um sadismo autodirecionado, ou um masoquismo” (Brenner, 1959, p. 198, tradução nossa[7]).

O masoquismo mesmo, que coloca o sujeito em uma posição de passividade diante de um outro, se constitui apenas quando há a transformação da meta e a escolha de um novo objeto. Como explicita Freud (1915/2019, p. 37), “O caso c é o que comumente se chama de masoquismo”. Ou seja, por mais que a famosa afirmação de que “o masoquismo é um sadismo que se voltou contra o próprio Eu” (Freud, 1915/2019, p. 37) nos induza a pensar que apenas o retorno pulsional basta para constituir essa perversão, esta só de fato se instaura quando há a transformação da meta e a escolha de um novo objeto. O masoquismo é, sim, o retorno do sadismo contra a própria pessoa, mas não apenas isso: é este retorno do sadismo contra o próprio Eu junto com a substituição da meta ativa pela passiva e sua consequente escolha de um objeto que é um outro que atormenta, que humilha, que machuca.

Contudo, Freud indica que o destino pulsional de retorno à própria pessoa, por mais que pareça ser apenas uma etapa intermediária no processo de transformação de uma pulsão, de algum modo se mantém ao final dele. Freud (1915/2019, p. 37) explicita: “A observação analítica não deixa dúvidas quanto ao fato de que o masoquista também frui da fúria contra sua pessoa e de que o exibicionista também frui do próprio desnudamento”. Ainda que tenha ocorrido a reversão da pulsão em seu contrário (o sadismo em um masoquismo, por exemplo), com a substituição da própria meta e uma nova escolha objetal, parece que ali ainda há um resquício do retorno pulsional em direção ao Eu que o toma como objeto e que sustenta de alguma forma a meta ativa da pulsão.

Isto pode ser associado à concepção apresentada pelo autor de que a satisfação masoquista ocorre “pela via do sadismo original” (Freud, 1915/2019, p. 37). Freud (1915/2019, p. 37) afirma que o masoquista se satisfaz sadisticamente “na medida que o Eu passivo põe-se, no plano da fantasia, em seu lugar anterior, que agora foi deixado para o outro sujeito”. Deste modo, em última instância, o objeto continua sendo o próprio Eu, visto que o sujeito se satisfaz ao se pôr de maneira ativa, no plano da fantasia, no lugar do outro que o toma como objeto. Pode-se dizer, inclusive, levando às últimas consequências a afirmação precedente, que a satisfação masoquista é uma satisfação de uma fantasia sádica.

Como podemos perceber, Freud ainda não reconhece nesse momento de sua teoria a existência de um masoquismo originário, persistindo a ideia de que o masoquismo é a continuação de um sadismo que se voltou contra a própria pessoa. Defende que a única coisa originariamente masoquista é a fruição ou o prazer com a dor. O ato de infligir dor no outro não se trata de uma meta sádica originária, mas masoquista. “A criança sádica não leva a causação de dores em consideração e não a tem como intenção” (Freud, 1915/2019, p. 39). Quando há a transformação do sadismo em masoquismo, a dor se presta muito bem ao papel de meta passiva, já que Freud sustenta que há motivos para supor que as sensações de dor ou desprazer provocam excitação sexual e sensações prazerosas. Quando se torna uma meta masoquista, pode ser que se torne retroativamente uma meta sádica, de modo que quando há a transformação de volta para o sadismo, a criança ou o adulto sádico frui masoquistamente no ato de causar dor no outro a partir da identificação com aquele que sofre.

Por fim, Freud (1915/2019, p. 43) defende que a transformação pulsional “por uma reversão da atividade em passividade e por um retorno em direção à própria pessoa nunca empenha, de fato, todo o montante de moção pulsional”. Isto equivale dizer que a atividade de uma pulsão continua a existir, ainda que não na mesma medida, mesmo após a sua transformação em uma meta de passividade, e vice-versa. Podemos inclusive entender esta passagem como uma elaboração metapsicológica do que foi exposto nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), parte na qual Freud (1905/2016, p. 54) expõe o fato de “suas formas ativa e passiva se encontrarem regularmente na mesma pessoa”, e que o “sádico sempre é, simultaneamente, um masoquista, embora o lado ativo ou o lado passivo da perversão esteja mais desenvolvido nele e constitua sua atividade sexual predominante”.

A segunda teoria pulsional e a dupla afetação

O segundo momento da teoria pulsional freudiana traz à tona inúmeros problemas e impasses teóricos[8]. No entanto, os desenvolvimentos teóricos acerca do sadomasoquismo ganham novos contornos que marcam um giro teórico na relação entre sadismo e masoquismo.

Em “Além do princípio do prazer” (1920), trabalho no qual é formulada a segunda teoria pulsional, a saber, a oposição entre pulsão de vida e pulsão de morte, Freud apresenta poucas ideias acerca do sadismo-masoquismo que seriam continuadas em “O Eu e o ID” (1923) e “O problema econômico do masoquismo” (1924). Nesse texto, como nos indica Caropreso (2020), Freud reformula o conceito de pulsão atrelando-a ao ser vivo em sua totalidade e não mais o reduzindo ao psiquismo como era feito nos artigos de 1915. Enquanto em “As pulsões e seus destinos” (1915) a pulsão era pensada como a representante psíquica de um estímulo endógeno — ou, em “O inconsciente” (1915), o próprio estímulo endógeno que possui sua expressão no psiquismo —, na obra de 1920 o autor a define como “um impulso, presente em todo organismo vivo, tendente à restauração de um estado anterior” (Freud, 1920/2010, p. 202).

A reformulação no conceito de pulsão tem seu início a partir do que o autor nomeia por “compulsão à repetição”, a saber, a repetição de situações ou experiências em si mesmas desprazerosas. Esta compulsão à repetição — como percebidas em algumas brincadeiras infantis, nos sonhos traumáticos, na transferência observada na clínica e as repetições chamadas por muitos de “destino” — seria expressão de uma tendência primordial, anterior e independente do princípio do prazer, que não o contrariaria, mas que funcionaria para além dele. Freud (1920/2010), no capítulo IV, esboça qual seria a função desta tendência utilizando do trauma como referência. Como escreve:

Às excitações externas que são fortes o suficiente para romper a proteção nós denominamos traumáticas. Acho que o conceito de trauma exige essa referência a uma defesa contra estímulos que normalmente é eficaz. Um evento como o trauma externo vai gerar uma enorme perturbação no gerenciamento de energia do organismo e pôr em movimento todos os meios de defesa. Mas o princípio do prazer é inicialmente posto fora de ação. Já não se pode evitar que o aparelho psíquico seja inundado por grandes quantidades de estímulo; surge, isto sim, outra tarefa, a de controlar o estímulo, de ligar psicologicamente as quantidades de estímulo que irromperam, para conduzi-las à eliminação (Freud, 1920/2010, p. 192).

Essas experiencias traumáticas ou produtoras de desprazer, que nem na época em que ocorriam eram prazerosas, seriam repetidas por essa tendência primordial do aparelho psíquico em uma tentativa de dominar os estímulos suscitados por elas, portanto. À medida que esses estímulos que geram desprazer são ligados psiquicamente, as suas representações podem ser evitadas pelo princípio do prazer, que agora tem seu trabalho possibilitado pela compulsão à repetição. Neste sentido, a compulsão à repetição possibilita a submissão dessas representações ao exercício do princípio do prazer, que a partir de então se torna apto a evitar o desprazer produzido por elas.

Ao atribuir um caráter impulsivo ou pulsional (triebhaft)[9] à compulsão à repetição, o autor se depara com a necessidade de esclarecer a relação entre essa tendência primordial e as pulsões. A consequência foi que o próprio conceito de “pulsão” foi ampliado de modo a abarcar a característica de compulsão à repetição, passando a ser definido, de forma geral, como um impulso a repetir um estado anterior. É neste ponto que o psicanalista cunha seu conceito de “pulsão de morte”, que é definido como um impulso ou uma tendência a restaurar um estado anterior, a saber, o estado do inanimado, da inércia, do nível zero de excitação, um impulso que possui como meta a morte do organismo. Conforme se percebe em:

Seria contrário à natureza conservadora dos instintos que o objetivo da vida fosse um estado nunca antes alcançado. Terá de ser, isto sim, um velho estado inicial, que o vivente abandonou certa vez e ao qual ele se esforça por voltar, através de todos os rodeios de seu desenvolvimento. Se é lícito aceitarmos, como experiências que não tem exceção, que todo ser vivo morre por razões internas, retorna ao estado inorgânico, então só podemos dizer que o objetivo de toda vida é a morte, e, retrospectivamente, que o inanimado existia antes que o vivente [...] A tensão que sobreveio [ao se tornar vivente], na substância anteriormente inanimada, procurou anular a si mesma; foi o primeiro instinto, o de retornar ao inanimado (Freud, 1920/2010, pp. 204 e 205).

Portanto, como se lê na última frase do trecho supracitado, a pulsão de morte é a primeira pulsão a surgir no organismo vivo e tem o seu surgimento no momento em que o inanimado se torna vivente, ou seja, antes mesmo do psiquismo ser formado. Em oposição a estas, na segunda teoria pulsional, encontram-se as pulsões sexuais, ou seja, as pulsões de vida. Enquanto Freud (1920/2010, p. 214) sustenta que as pulsões de morte buscam “conduzir a vida à morte”, as pulsões de vida almejam conservá-la ou renová-la, de tal modo que “um grupo de instintos precipita-se para a frente, a fim de alcançar a meta final da vida o mais rapidamente possível” (Freud, 1920/2010, p. 208), enquanto “o outro corre para trás, a fim de retomá-lo de certo ponto e assim prolongar a jornada” (Freud, 1920/2010, p. 208).

Como o conceito de “pulsão” é definido por Freud neste ponto de sua teoria como um impulso inerente ao organismo vivo que tende a repetir um estado anterior, tal característica precisou também ser atribuída ao segundo grupo de pulsões, que, como as pulsões de morte, possuiriam então um caráter conservador ou compulsivo (Caropreso, 2020). Todavia, enquanto Freud encontra êxito ao fundamentar teoricamente a partir da Biologia a hipótese de que o objetivo da vida é morrer por causas internas e que haveria, portanto, um impulso nos seres vivos que impeliria à morte, o autor não encontra uma fundamentação tão sólida nessa disciplina para o caráter conservador das pulsões de vida[10]. Portanto, a questão “o que a pulsão de vida busca restaurar?” permanece mal respondida ao longo do texto e só vem a ser descartada no “Compêndio de psicanálise” (1940[1938]), texto no qual o autor descarta a característica de compulsão à repetição atrelada a este grupo de pulsões.[11]

Sem desviarmos de nosso tema, verificamos que Freud (1920/2010, p. 225), no capítulo VI, questiona se não seria a pulsão sádica — uma pulsão parcial que é dominante em uma das organizações pré-genitais e que compõe posteriormente a pulsão sexual na posição de um componente (o componente agressivo ou sádico) — uma pulsão de morte que foi empurrada “do Eu pela influência da libido narcísica, de modo que surge apenas em relação ao objeto”. Esta suposição surge a partir do seguinte questionamento: “como pode o instinto sádico, que visa ferir o objeto, ser derivado do Eros conservador da vida?” (Freud, 1920/2010, p. 225).

Com a introdução do conceito de “pulsão de morte” e sua identificação à pulsão sádica, o sadismo e a pulsão sexual (pelo menos em seu estado puro) passam a não ser mais correspondentes como eram em “As pulsões e seus destinos” (1915), período no qual Freud considerava a própria pulsão sádica um tipo de pulsão sexual parcial. No entanto, o pressuposto de que o sadismo seria uma pulsão de morte expulsa do Eu pela libido sugere, ainda assim, o envolvimento do sadismo com a pulsão sexual ou de vida, de modo que ele é colocado “a serviço da função sexual” (Freud, 1920/2010, p. 225), participando das fases pré-genitais e se firmando enquanto um componente da pulsão sexual no estágio da primazia genital.

Neste momento testemunhamos uma ampliação do conceito de pulsão de morte, que, para além de ser uma tendência a restaurar um estágio anterior, é agora também relacionada ao ódio, à agressividade e ao próprio sadismo. Com Grossman (2015), entendemos que esta correspondência altera também o status dos conceitos de sadismo e agressividade[12], que agora passam a ser considerados “uma projeção [no objeto] de uma tendência autodestrutiva biologicamente determinada” (Grossman, 2015, p. 647, tradução nossa[13]). Por outro lado, Caropreso (2020, p. 56) indica que a consideração da agressividade como manifestação da pulsão de morte colocou algumas complicações na teoria freudiana, “entre elas a estreita relação entre a sexualidade e a agressividade” e o fato de que a característica restauradora “não é facilmente conciliável com a suposição de que a pulsão de morte se manifesta como ódio ou agressividade”.

De todo modo, com o sadismo, sugere Freud nesta obra de 1920, poder-se-ia cumprir a exigência de oferecer um exemplo de uma pulsão de morte, e é a partir deste ponto que a sua teoria do sadismo-masoquismo começa a ganhar novos contornos. Em “Além do princípio do prazer”, Freud (1920/2010) já introduz uma mudança importante em sua teoria que será destrinchada em seus próximos trabalhos, a saber, o destaque conferido ao masoquismo, a partir de agora considerado primário. Laznik et al. (2015, p. 133), a respeito deste momento teórico de Freud, utiliza da seguinte pergunta para expressar este giro em sua teoria, o qual parafraseamos: como o sujeito pode buscar causar dor no outro sem que haja, nele próprio, o registro desta dor? O autor afirma, logo em seguida, que não há possibilidade de pensar o sadismo sem levar em conta uma experiência masoquista anterior (Laznik et al., 2015, p. 133).

Antes deste giro teórico, em um esforço de avançar com o fenômeno do sadismo, Freud, em “O Eu e o ID” (1923), recorre às suas últimas formulações a respeito das pulsões de vida e de morte elaboradas no texto de 1920 e afirma que veio “a enxergar no sadismo o seu representante [referindo-se à pulsão de morte]” (Freud, 1923/2011, p. 50)[14]. O pressuposto de que o sadismo seria fruto de um envolvimento da libido com a pulsão de morte brevemente esboçado na obra de 1920 é aqui reafirmado e aprofundado, admitindo uma junção e disjunção das duas espécies pulsionais, e encontrando no componente sádico da pulsão sexual “o exemplo clássico” (Freud, 1923/2011, p. 51) dessa mescla ou amálgama, enquanto o sadismo como perversão se apresentaria para nós como “o modelo de uma disjunção, embora não levada ao extremo” (Freud, 1923/2011, p. 52). Posto isto, torna-se importante notar que mesmo o sadismo sendo o representante da pulsão de morte ou de destruição, de alguma forma e em algum grau ele está mesclado ou entrelaçado com a pulsão de vida ou sexual.

Para compreendermos a passagem acima, é importante avançarmos em alguns pontos. O tal componente sádico ao qual Freud aqui se refere diz respeito ao “componente agressivo” introduzido em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, de 1905, que é também brevemente retomado em “Além do princípio do prazer” (1920) e avançado no contexto de sua nova teoria pulsional. Na obra de 1920 o autor cita em nota o texto de 1905 ao utilizar o conceito de “componente sádico” e torna um pouco mais clara a ideia que em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) havia permanecido enigmática. A relação entre o componente sádico da pulsão sexual e a própria pulsão sádica pode ser assim interpretada agora: o componente sádico que faz parte da pulsão sexual no estágio da primazia genital é o que um dia foi a própria pulsão sádica que aparece anteriormente, enquanto pulsão parcial, em algumas das fases pré-genitais (fase sádico-oral e sádico-anal). Como percebemos em:

Há muito reconhecemos um componente sádico no instinto sexual; ele pode, como sabemos, tornar-se autônomo e, como perversão, dominar toda a tendência sexual da pessoa. Ele [o componente sádico] também aparece, como instinto parcial dominante, numa das ‘organizações pré-genitais’, como as denominei. [...] Não cabe supor que esse sadismo é na verdade um instinto de morte que foi empurrado do Eu pela influência da libido narcísica, de modo que surge apenas em relação ao objeto? Então ele entra a serviço da função sexual; no estágio oral da organização da libido, a posse amorosa ainda coincide com a destruição do objeto, depois o instinto sádico se separa e enfim, no estágio da primazia genital, para a finalidade da procriação, assume a função de subjugar o objeto sexual até o ponto exigido para a realização do ato (Freud, 1920/2010, pp. 225-6).

Com base no que Freud escreve em “O Eu e o ID” (1923), compreendemos que o componente agressivo ou sádico da pulsão sexual, que se faz presente inclusive na pulsão sexual daqueles cuja sexualidade é tida como normal[15], é prova de um entrelaçamento pulsional entre pulsão de vida e pulsão de morte. Sendo assim, a pulsão sexual — classificada pelo autor como pulsão de vida[16] — conteria uma parte de pulsão de morte, a saber, o componente sádico, que se entrelaçaria a ela. No sadismo enquanto perversão, considerado uma disjunção das duas espécies de pulsões não levada ao extremo, o componente sádico quase que se “desprende” da pulsão sexual à medida que se torna, como é exposto por Freud em seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), independente, intensificado e “colocado na posição principal mediante deslocamento” (Freud, 1905/2016, p. 52). No entanto, tal disjunção não se dá de modo completo: afinal, a satisfação sádica continua sendo uma satisfação de natureza sexual ou libidinal.

Em 1924, Freud publica o importante artigo intitulado de “O problema econômico do masoquismo” (1924), no qual o masoquismo é considerado um enigma do ponto de vista econômico. O enigma é posto através do seguinte questionamento: se os processos psíquicos são regidos pelo princípio do prazer, como o fenômeno do masoquismo, que possui como objetivo a dor e o sofrimento, pode ser compreendido? Lichtmann (1996) nos alerta que ainda que essa problemática seja colocada por Freud em um contexto de pós-produção do “Além do princípio do prazer” (1920), tal paradoxo não poderia ser resolvido pelo texto em questão pelo fato de não se tratar somente de um além do princípio do prazer, mas de algo de uma outra ordem. A solução para este enigma é apresentada por Freud ao longo do texto por meio do masoquismo erógeno e do seu constituinte amálgama pulsional como veremos mais adiante.

Neste artigo, Freud (1924/2011) apresenta três formas de masoquismo: o masoquismo erógeno, o feminino e o moral, que longo do texto são desenvolvidos teoricamente pelo autor. Grossman (1986) nos esclarece que essas três formas de masoquismo correspondem a uma tríade apresentada por Krafft-Ebing a respeito dos fenômenos do sadismo e masoquismo. Esta tríade proposta por Krafft-Ebing, que reaparece de maneira modificada no trabalho de Freud de 1924, consiste na dor erógena, na atividade sexual e na idealização na forma de subjugamento a um terceiro produzindo gratificação sexual.

Em Freud (1924/2011), o masoquismo feminino, “o mais acessível à nossa observação” (Freud, 1924/2011, p. 188), corresponde ao masoquismo como perversão e se manifesta em fantasias cujo conteúdo manifesto é “ser amordaçado, amarrado, golpeado, chicoteado de maneira dolorosa, maltratado de algum modo, obrigado à obediência incondicional, sujado, humilhado” (p. 189). Tais fantasias podem conduzir à masturbação ou serem elas mesmas a satisfação sexual, bem como podem ser transformadas em desempenhos reais que funcionam como um caminho para o ato sexual ou que são eles próprios “realizados como fim em si” (Freud, 1924/2011, p. 188).

Recebe o nome de “feminino” dada a “situação caracteristicamente feminina”, conforme esclarece o autor, em que tais fantasias masoquistas colocam o sujeito, ou seja, “significam ser castrado, ser possuído ou dar à luz” (Freud, 1924/2011, p. 189). No entanto, por mais que a interpretação principal seja realizada pela via do feminino, Freud (1924/2011, p. 190) também concorda que há alguns elementos presentes nela que apontam para o infantil, como é o caso do sentimento de culpa que precisa ser expiado por meio das punições e que mantém “o nexo com a masturbação infantil”.

Prosseguindo com a exposição, o masoquismo erógeno corresponde ao prazer na dor e é o que está na base dos outros dois, que se originam a partir dele. Como alega Blum (2011), ele pode ser suscitado a partir de qualquer estímulo doloroso, tanto físico quanto psicológico, e necessita geralmente de uma fantasia masoquista consciente para que seja satisfeito nas relações sexuais ou na própria masturbação, sendo de fato a “forma de masoquismo com prazer manifesto na dor ou derivado dela” (Blum, 2011, p. 157, tradução nossa[17]).

Freud retoma os “Três ensaios” (1905) — mais especificamente a passagem em que afirma ser a excitação sexual resultado de todo um conjunto de processos internos — para dizer que talvez qualquer processo interno importante no organismo seja capaz de produzir excitação sexual, de modo que até mesmo a dor e o desprazer podem produzir tal efeito. Segundo o autor, tal excitação a partir da dor “seria um mecanismo fisiológico infantil, que mais tarde desaparece” (Freud, 1924/2011, p. 190).

A natureza lacunar de tal explicação para o enigmático prazer na dor faz com que Freud utilize de suas elaborações metapsicológicas recém-construídas a respeito das duas novas espécies pulsionais para avançar nos fenômenos do masoquismo e do sadismo. Para isso, o autor retoma o amálgama das pulsões elaborado em “O Eu e o ID” (1923) e afirma que, possibilitada por esta mescla, a pulsão de morte — que cria a tendência nos seres vivos a atingir o estado inorgânico — é tornada inócua ao sujeito pela libido, que desvia grande parte dessa pulsão “para fora, para os objetos do mundo exterior” (Freud, 1924/2011, p. 191) por meio da musculatura. Uma parte desta pulsão desviada, que pode agora ser chamada de pulsão de destruição ou de apoderamento, é posta “a serviço da função sexual”, dando origem ao “sadismo propriamente dito” (Freud, 1924/2011, p. 191).

O masoquismo erógeno, em contrapartida, seria o resquício ou resíduo da pulsão de morte desviada para fora que permaneceu no organismo e que foi ligada libidinalmente, de forma que se tornou, por um lado, “componente da libido, e, por outro lado, ainda tem seu próprio ser como objeto” (Freud, 1924/2011, p. 192). Essa erotização ou ligação libidinal da destrutividade oriunda da pulsão de morte é o que torna esta suportável ou menos perigosa (Lichtmann, 1996).

Percebemos, a partir deste ponto, uma grande mudança na concepção de masoquismo, mudança esta ensaiada em 1920 e agora tornada pronta em 1924: o masoquismo passa a ser considerado primário, originário, e não meramente uma continuação do sadismo que retornou contra a própria pessoa, como era sustentado em 1915. Contudo, como afirma Grossman (1986), embora o masoquismo seja considerado primário do ponto de vista metapsicológico, ele é considerado secundário do ponto de vista clínico. Isto se verifica quando compreendemos que o masoquismo observado clinicamente — seja o que aparece sob a forma de uma perversão ou de um masoquismo moral, que será apresentado adiante — é considerado por Freud um masoquismo secundário[18], ou seja, uma introjeção ou retorno contra o próprio Eu do sadismo que estava direcionado para fora, regredindo ao masoquismo originário ou acrescentando-se a ele (Grossman, 1986; Silva, 2018; Buchaúl, 2015; Freud, 1924/2011).

Ademais, concordamos com Caropreso (2020) que afirma que com a consideração de que o masoquismo corresponde a um fenômeno primário, Freud passa automaticamente a considerar o sadismo como um fenômeno secundário. Outros autores, como Buchaúl e Câmara (2016), Civitarese (2016) e Silva (2018), também defendem esta interpretação. Embora em 1924 Freud não tenha sido explícito quanto à origem de um a partir do outro, em “Além do princípio do prazer” (1920) o autor escreve que o “masoquismo, a volta do instinto contra o próprio Eu, seria então, na realidade, um retorno a uma fase dele mesmo, uma regressão” (Freud, 1920/2010, p. 226), tornando clara a concepção de que haveria um masoquismo não somente anterior ao sadismo como originador deste. Em outros termos, se o masoquismo, um sadismo que retorna contra a própria pessoa, é ao mesmo tempo uma regressão a um masoquismo anterior, então significa dizer que há primeiramente um masoquismo, que se transforma em sadismo, e que depois se transforma novamente em um masoquismo a partir do retorno da pulsão. Em acréscimo, Freud, em 1933, em suas “Novas conferências introdutórias”, vem a confirmar que “o masoquismo é mais velho que o sadismo” (Freud, 1933/2010, p. 254). Silva (2018, p. 27) também nos contribui com a afirmação de que com o conceito de pulsão de morte, “o masoquismo é tomado como primário, pois é ele que inaugura a sexualidade”.

Fica, no entanto, uma questão referente ao conceito de sadismo apresentado no artigo de 1924. Por mais que se compreenda que o sadismo seja a pulsão de destruição que foi posta ao encargo da sexualidade, não fica tão claro o que Freud quis de fato significar ao utilizar o termo “sadismo propriamente dito”. Contudo, quando o autor afirma ser o masoquismo erógeno ou originário a parte da pulsão de morte que não foi transposta para fora e que se ligou à libido, dois parágrafos posteriores o autor reescreve sua definição substituindo a frase “torna-se ligada libidinalmente” (Freud, 1924/2011, p. 191) por “tornou-se componente da libido” (Freud, 1924/2011, p. 192). Reproduzindo esta associação entre “ligado à libido” e “tornar-se componente libidinal”, podemos lançar luz ao que Freud escreve a respeito do sadismo. Seguindo este raciocínio, podemos interpretar que a pulsão de morte que foi transposta aos objetos do mundo exterior e ligada à função sexual — e que, portanto, se ligou à libido —, dá origem a um sadismo propriamente dito enquanto um componente da libido.

Ainda, encontramos apoio a esta interpretação no próprio artigo de 1923, “O Eu e o ID”, no qual de maneira germinal Freud (1923/2011) traça algumas linhas teóricas a respeito deste tema. Formula que a pulsão de morte seria neutralizada e os seus impulsos destrutivos seriam desviados através da musculatura para o mundo exterior, manifestando-se “então — mas provavelmente só em parte — como instinto de destruição voltado para o mundo externo e outras formas de vida” (Freud, 1923/2011, p. 51). Admite, ainda, que “a concepção de uma mescla [ou junção] das duas espécies de instintos, impõe-se-nos a possibilidade de uma — mais ou menos completa — disjunção desses instintos” (Freud, 1923/2011, p. 51). Em seguida, que com o “componente sádico do instinto sexual teríamos o exemplo clássico de uma mescla instintual adequada a um fim; no sadismo que se tornou independente como perversão, o modelo de uma disjunção, embora não levada ao extremo” (Freud, 1923/2011, pp. 51-52, grifos nossos). Esse componente sádico da pulsão sexual, como afirmado na citação, é uma mescla da pulsão de morte com a libido (ou com a pulsão de vida), e esta mescla é “adequada a um fim”, a saber, a função de tornar a pulsão de morte inócua ao sujeito.

É exatamente isto que Freud escreve de maneira mais desenvolvida em 1924 quando utiliza o termo “sadismo propriamente dito” para designar o produto dessa junção pulsional, que em 1923 ele designa por “componente sádico”. Visto que as linhas de pensamento apresentadas nos dois artigos são traçadas de forma bastante similar, senão idêntica, e que os dois artigos foram publicados em datas muito próximas, é possível sugerir que em “O problema econômico do masoquismo” (1924) o que Freud chama por “sadismo propriamente dito” pode ser articulado com a ideia de componente agressivo (ou sádico) da pulsão sexual. Neste sentido, seria o produto da pulsão de morte ligada à libido e destinada aos objetos exteriores o componente sádico presente na pulsão sexual que já fora apresentado desde os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). Robert (2015, p. 87) parece seguir uma linha de pensamento similar ao considerar esse “sadismo propriamente dito” como um “sadismo em sentido amplo”, ou seja, um sadismo que ultrapassa seu significado de perversão.

Prosseguindo com a discussão dos resultados obtidos no artigo de 1924, com o masoquismo erógeno e sua junção pulsional, Freud encontra uma maneira de apresentar uma solução para o problema do masoquismo com o qual o artigo é inaugurado. A partir de Lichtmann (1996), podemos compreender que Freud soluciona o problema realizando nos parágrafos iniciais do artigo algumas novas contribuições à teoria do princípio do prazer e, mais tarde, formulando o conceito de masoquismo erógeno. Lichtmann (1996), articulando o que Freud apresenta no início do artigo com o conceito mencionado, conclui que o masoquismo erógeno e o próprio princípio do prazer são considerados eventos contemporâneos e produtos de um mesmo fenômeno, como veremos a seguir.

No início de “O problema econômico do masoquismo” (1924), Freud trabalha a sua teoria do princípio do prazer, desta vez relacionando-a aos conceitos de pulsão de morte e pulsão de vida recém-formulados. Freud (1924/2011) escreve que o princípio do Nirvana, nome sugerido por Barbara Low, é uma tendência do aparelho psíquico a reduzir a quantidade de excitação ao nível zero ou a deixá-la no nível mais baixo possível, estando tal princípio a serviço da pulsão de morte que por si só seria esta tendência. Em seguida, esclarece que ainda que o princípio do prazer — uma tendência a evitação do desprazer e busca pelo prazer — possa ser confundido com o princípio de Nirvana, eles não podem ser considerados equivalentes. Isto se deve ao fato de que nesse trabalho Freud conclui que o fator quantitativo da excitação (o aumento ou a redução dela) não mais pode ser utilizado para definir o desprazer e o prazer[19]. Afirma, por exemplo, que a excitação sexual, por mais que corresponda a um aumento de estímulo, é uma excitação prazerosa por conta de seu fator qualitativo.

Partindo disto, Freud (1924/2011) conclui que o princípio do prazer não equivale ao princípio de Nirvana, mas se origina a partir de uma modificação dele causada pela própria pulsão de vida. Enquanto o princípio do Nirvana pertence à pulsão de morte e expressa a sua tendência, o princípio do prazer corresponde à “reivindicação da libido” (Freud, 1924/2011, p. 187) ou da pulsão de vida que se liga à pulsão de morte, modificando aquela tendência.[20]

Através da conclusão de Lichtmann (1996), e com base nas formulações teóricas de Freud acerca desses dois princípios e a formulação do conceito de masoquismo erógeno, ambos, masoquismo erógeno e princípio do prazer, são produtos da junção das pulsões de morte e de vida; “portanto, as duas faces, os dois aspectos de um mesmo momento psíquico” (Lichtmann, 1996, p. 891, tradução nossa[21]). A ligação da pulsão de vida à pulsão de morte torna não somente o que resta de pulsão de morte no organismo inócua como dá origem a um novo princípio que passa a reger a vida psíquica a partir de então. Neste sentido, o masoquismo deixa de ser uma contradição ao princípio do prazer à medida que o masoquismo erógeno, que é o próprio prazer na dor e a base dos outros tipos de masoquismo, não possui seu surgimento em um momento em que o princípio do prazer já estava estabelecido e regendo a vida psíquica, mas surge ao mesmo tempo que ele.

O terceiro tipo de masoquismo, o masoquismo moral — aquele que pode se oferecer à observação “como uma norma de conduta na vida” (Freud, 1924/2011, p. 188) —, destaca o sofrimento em si e dispensa a obrigatoriedade prevista nos dois anteriores de um outro amado que faz o sujeito sofrer. De acordo com Freud (1924/2011, p. 194):

O que importa é o sofrimento mesmo; se ele é infligido por uma pessoa amada ou outra qualquer não faz diferença; pode ser causado também por poderes ou circunstâncias impessoais, o verdadeiro masoquista sempre oferece a face quando vê perspectiva de receber uma bofetada.

Freud (1924/2011, pp. 194-5) esclarece que esta forma de masoquismo pode ser percebida na clínica através da chamada “reação terapêutica negativa”, uma “atitude contrária à influência da terapia” e ao restabelecimento da saúde. Nela, o autor argumenta que se pode constatar um sentimento de culpa inconsciente[22] ou uma necessidade inconsciente de punição cuja satisfação funciona como uma das maiores resistências à melhora do quadro neurótico, sendo o sofrimento produzido pela neurose “o fator que a torna valiosa para a tendência masoquista” (Freud, 1924/2011, p. 195). Tal satisfação, obtida através do sofrimento gerado pela neurose e alicerçada por essa necessidade de punição inconsciente, seria um exemplo claro de um masoquismo moral.

Para Freud, a tendência masoquista encontraria na neurose uma maneira de obter satisfação através do sofrimento gerado por ela, de modo que o quadro neurótico é apenas mantido e tornado resistente ao tratamento por conta de seu sofrimento. Para estes pacientes, à medida que surgisse uma outra fonte de desprazer — como algum infortúnio na vida pessoal ou até mesmo uma doença orgânica —, a neurose poderia perder seu espaço e deixar de existir, colocando em evidência que o ponto essencial do fenômeno é “poder conservar uma certa medida de sofrimento” (Freud, 1924/2011, p. 195). O masoquismo moral tem também sua expressão em diversos outros casos nos quais o sofrimento é gerado através de atos inadequados “que então devem ser expiados mediante os reproches da consciência sádica” (Freud, 1924/2011, p. 200) ou por meio de situações inconscientemente buscadas em que o sujeito é punido pelo “Destino”, que de acordo com o autor é uma “grande autoridade parental” ou “representante dos pais” (Freud, 1924/2011, p. 200).

Para se aprofundar no fenômeno em questão, Freud (1924/2011, p. 200) se beneficia de sua metapsicologia recém-desenvolvida em “O Eu e o ID” (1923) e afirma que tal necessidade de punição ou sentimento de culpa inconsciente, expressão do masoquismo moral (também inconsciente), pode ser traduzida como “necessidade de castigo nas mãos de um poder parental”.

Para que esta afirmação fosse compreendida, Freud precisou esclarecer, retomando o que já havia escrito em 1923, que o Super-eu é a introjeção, no Eu, dos pais e de suas características essenciais (poder, severidade, vigia e punição), desenvolvendo como função a consciência moral e se constituindo enquanto um modelo a ser seguido pelo Eu. A consciência de culpa, portanto, seria produto de uma tensão entre essas duas instâncias, dado que o “Eu reage com sentimentos de angústia (angústia de consciência) à percepção de que não ficou à altura das exigências colocadas por seu ideal, o Super-eu” (Freud, 1924/2011, p. 196).

Como um dos principais pontos de sua argumentação para a compreensão do fenômeno do masoquismo moral, Freud sustenta que há na formação do Super-eu uma dessexualização da relação com os pais, que agora são introjetados no Eu da criança em vez de continuarem sendo objetos de sua libido. Esta dessexualização por meio da introjeção possibilita que o complexo de Édipo seja superado, sendo o Super-eu o seu herdeiro e substituto. Dessa forma, a consciência moral surge com a dessexualização e a superação do complexo de Édipo, ao passo que, com o masoquismo moral, “a moralidade é novamente sexualizada, o complexo de Édipo é revitalizado, [e] abre-se o caminho para regredir da moralidade para o complexo de Édipo” (Freud, 1924/2011, p. 200). Dito de outro modo, ao passo que a moralidade corresponde à dessexualização do complexo de Édipo, o masoquismo moral é a sexualização da moralidade.

Compreendemos adequadamente o parágrafo acima quando tomamos o esclarecimento do autor de que o masoquismo moral é expressão da relação do Eu masoquista “que anseia por castigo” (Freud, 1924/2011, p. 199) com o Super-eu sádico.[23] Com isso, fica clara a interpretação de que a necessidade de punição ou o masoquismo moral corresponde à “necessidade de castigo nas mãos de um poder parental”. Retoma o que havia desenvolvido em 1919[24] a respeito das fantasias infantis de surra para estabelecer que, assim como o desejo de apanhar do pai se constitui como uma “deformação regressiva” do desejo de ter uma relação sexual com ele, o masoquismo moral sexualiza a moralidade, fazendo-a regredir ao complexo de Édipo. Há aqui, podemos dizer, uma deformação regressiva tanto no que se refere à regressão da moralidade ao Édipo anteriormente superado quanto à regressão da organização genital a uma satisfação pela via da fase sádico-anal, tal qual acontece no caso das fantasias de surra.

Deste modo, por mais atenuada que seja a relação entre o masoquismo moral e a sexualidade como salienta Freud no primeiro parágrafo sobre o tema, ela não é inexistente como aparenta ser em uma primeira vista. Fica em evidência que tal relação não pode ser desconsiderada, ainda que por uma via mais enigmática, sendo o masoquismo moral, podemos dizer, uma pulsão de morte que sexualiza a moralidade a partir de sua regressão ao Édipo. E, vale dizer, o masoquismo moral não é apenas uma pulsão de morte: como o próprio masoquismo erógeno e produto deste, o masoquismo moral também é expressão da pulsão de morte ou destruição ligada à libido, revelando sua ligação com o sexual ou com o erotismo. Freud (1924/2011, p. 194) pontua inicialmente que aqueles que sofrem pela via da moral, aqueles “que prejudicam a si mesmos”, são também chamados de masoquistas pela linguagem corrente justamente por ser reconhecida a ligação deste tipo de masoquismo com o erotismo. Ou seja, corresponde também a uma satisfação de ordem sexual.

Por fim, a partir de todo o material analisado, podemos confirmar que há uma espécie de dupla afetação entre a teoria do sadomasoquismo e a teoria pulsional freudianas: não somente o conceito de pulsão de morte alterou a teoria do sadomasoquismo, mas os próprios conceitos de sadismo e masoquismo contribuíram de algum modo para a alteração da teoria pulsional. Conforme afirma Lichtmann (1996), os fenômenos clínicos do sadismo e masoquismo foram o que ajudaram a fundar a hipótese da pulsão de morte, fazendo balançar a primeira teoria pulsional. O movimento de retorno à teoria do sadomasoquismo é ainda mais evidente quando percebemos a sua alteração após a introdução do conceito de pulsão de morte. Portanto, à medida que o conceito de sadismo contribuiu para a formulação da segunda teoria das pulsões conforme foi utilizado como modo de exemplificação[25] da pulsão de morte, a teoria do sadomasoquismo foi alterada pela nova teoria das pulsões que tornou o masoquismo primário e anterior ao sadismo.

Considerações finais

A teoria freudiana do sadismo-masoquismo tem seu desenvolvimento de maneira articulada às suas duas teorias pulsionais. Ela depende do conceito de pulsão para se desenvolver e é utilizada para o desenvolvimento das teorias pulsionais. No primeiro dualismo pulsional, o sadismo é correspondido ao componente agressivo da pulsão que se tornou exacerbado e independente e que, por conseguinte, dominou a tendência sexual do sujeito, enquanto o masoquismo é considerado uma continuação do sadismo que retornou contra a própria pessoa. No segundo dualismo pulsional, a ênfase anteriormente dada ao sadismo incide sobre o masoquismo, que passa a ser considerado primário. A pulsão de morte é tornada inócua e desviada para fora pela libido, sendo o sadismo uma parte da pulsão desviada aos objetos do mundo externo e posta a serviço da função sexual. O masoquismo corresponderia à parte da pulsão de morte que permaneceu no organismo ligada à libido. Este masoquismo primário, erógeno, daria origem a outros dois, o feminino e o moral, que corresponderiam a um retorno pulsional em direção ao Eu.

As articulações entre as duas teorias são evidentes. Nisto, não há como ter dúvidas. Contudo, a partir de nossos resultados, demonstramos aquilo que aqui denominamos de uma dupla afetação entre a teoria do sadomasoquismo e a teoria pulsional freudianas. Ao passo que o sadismo auxiliou na circunscrição do conceito de pulsão de morte ao permitir que ela fosse exemplificada, a passagem da primeira para a segunda teoria pulsional freudiana alterou de maneira substancial a sua teoria do sadomasoquismo, invertendo a relação entre sadismo primário e masoquismo secundário.

Agradecimentos

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG / Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.

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Renan Dutra da Cunha

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora na linha de pesquisa em História e Filosofia da Psicologia.

Daniel Omar Perez

Professor de Filosofia (Graduação e Pós-graduação) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisador com bolsa de produtividade em pesquisa no CNPQ desde 2008 (atualmente Pq 1D). Concluiu o Doutorado em 2002 na Universidade Estadual de Campinas (Brasil), com o apoio da CAPES. No ano de 2007 realizou um estágio de pós-doutorado na Michigan State University (EUA), também com o apoio da CAPES, onde trabalhou a antropologia pragmática de Kant e organizou, junto com Frederick Rauscher, o livro “Kant in Brazil”, publicado pela Sociedade Kantiana dos Estados Unidos. Em 2012 realizou um estágio de pós-doutorado na Bonn Universität (Alemanha) onde desenvolveu parte do projeto sobre antropologia em Kant e avançou na tradução das “Reflexões de Antropologia” de Kant.

Como citar

Dutra da Cunha, R. & Omar Perez, D. A metapsicologia do sadismo-masoquismo em Freud e a sua relação com as teorias pulsionais: a dupla afetação na teoria freudiana. Sofia, Espírito Santo, Brasil, v. 15, n. 1, p. e15148567, 2026. DOI:  https://doi.org/10.47456/sofia.v15i1.48567  Disponível em : https://periodicos.ufes.br/sofia/article/view/48567 . Acesso em: 5 fev. 2026.

Os textos deste artigo foram revisados por terceiros e submetidos para validação do(s) autor(es) antes da publicação



[1] Grossman (1986, p. 394) alega que no desenvolvimento das ideias freudianas sobre o sadomasoquismo podemos perceber um esforço de Freud em integrar estas duas perspectivas; de um lado, a ênfase nos fatores interpessoais e de relação com o objeto, do outro uma ênfase no fator erógeno (o prazer com a dor propriamente dita).

[2] Esta afirmação final é mais bem explorada no artigo de 1915 “As pulsões e seus destinos”. É de fundamental importância, aliás, esclarecer que tudo escrito aqui acerca do masoquismo – como nos informa a nota do tradutor na página 52 – foi incorporado aos “Três ensaios” no ano de publicação do artigo metapsicológico citado, em 1915. Desta forma, o que foi apresentado no artigo de 1915 não foi algo que começou a ser desenvolvido no texto de 1905, mas o contrário.

[3] Freud (1905/2016, p. 65) indica esta possibilidade quando escreve: “[...] é encontrado no inconsciente um instinto suscetível de fazer par com um oposto”. É válido contrapor esta afirmação com o esclarecimento de Freud no artigo “O inconsciente” (1915), no qual afirma não existir pulsões reprimidas ou inconscientes, apenas suas representações.

[4]essentially perverse” (Hendrickx, 2017, p. 54).

[5] Freud arquiteta o conceito de “pulsão” por meio de dois vieses: partindo da Fisiologia, em um primeiro momento, e por meio da vida anímica ou mental, em um segundo. Por desviar de nossos objetivos e por ultrapassar o escopo do presente artigo, não aprofundaremos este tópico.

[6] Na neurose obsessiva, a pulsão sádica é alvo de recalque e não alcança sua meta final, retornando em direção ao próprio Eu. No entanto, essa transformação da pulsão de crueldade não é levada até o fim e é interrompida na fase b, levando o neurótico obsessivo a se culpar, a se atormentar, a se punir, ou seja, a tomar atitudes sádico-masoquistas contra si mesmo. Essa pulsão sádica que tomava o outro como objeto, agora toma o próprio Eu. Como afirma Freud, “A ânsia em atormentar torna-se autotormento, autopunição, mas não masoquismo” (Freud, 1915/2019, p. 39).

[7] “[…] resulting in self-directed sadism, or masochism” (Brenner, 1959, p. 198).

[8] Cf. Caropreso (2020).

[9] Referimo-nos à passagem: “As manifestações de uma compulsão à repetição [...] exibem em alto grau um caráter impulsivo” (Freud, 1920/2010, pp. 199 e 200). O adjetivo “impulsivo” utilizado pelo tradutor Paulo César de Souza se refere ao adjetivo alemão triebhaft, que como bem nos informa o próprio tradutor em uma nota poderia ser traduzido por “instintual” ou “pulsional”.

Além da passagem supracitada, Freud (1920/2020), no capítulo III, também afirma que a compulsão à repetição aparenta ser “mais originária, mais elementar e mais pulsional [triebhafter] do que o princípio do prazer” (p. 99, grifo nosso).

[10] Não exporemos as argumentações fundamentadas na Biologia e na Filosofia realizadas por Freud em seu esforço de fundamentar tanto o conceito de “pulsão de morte” quanto o conceito de “pulsão de vida. Justificamos esta ausência no fato de se tratar de um extenso e complexo material que demandaria uma pesquisa que está para além dos objetivos do presente trabalho.

[11] Como fica evidenciado em Freud (1940 [1938], p. 196).

[12] Em “Além do princípio do prazer” (1920/2010) Freud estreita as noções de agressividade e sadismo à medida que “agressividade” e “sadismo” correspondem à pulsão de morte. Como vemos em Freud (1920/2010, p. 225), o autor se questiona se não seria possível relacionar o amor (afeição) e ódio (agressividade) às pulsões de vida e de morte, respectivamente. Logo em seguida, apresenta um argumento que faz corresponder o sadismo à pulsão de morte, de modo que podemos pensar que pulsão de morte, ódio, agressividade e sadismo são considerados quase como equivalentes neste momento teórico de Freud. No entanto, agressividade e sadismo não são exatamente a mesma coisa, principalmente se levarmos em conta o artigo “O problema econômico do masoquismo” (1924). Entendemos que, para o autor, o sadismo é a agressividade — e, portanto, a pulsão de morte — entrelaçada ou articulada com a libido ou pulsão de vida e posta a serviço da função sexual. Tal diferenciação já é esboçada nas entrelinhas de “Além do princípio do prazer” (1920/2010) se analisamos com o devido cuidado.

[13] “[...] the projection of a biologically determined self-destructive trend” (Grossman, 2015, p. 647).

[14] Aqui ele afirma o que em 1920 ele sugere. Cf. Freud (1920/2010, p. 226).

[15] Vale relembrar que Freud, em “Três ensaios” (1905), esclarece que a sexualidade normal contém um componente sádico que se manifesta nos diversos comportamentos agressivos, de dominação e de humilhação que podem ser percebidos nas relações sexuais consideradas as mais normais possíveis. Dizer que a sexualidade de alguém contém um componente sádico não significa dizer que esta pessoa é uma sádica ou que sua forma de se relacionar sexualmente é um sadismo. O sadismo enquanto perversão — não aquele sadismo que se faz presente na sexualidade normal — só surge em casos em que o componente sádico da pulsão se tornou intensificado e independente (Freud, 1905/2016).

[16] Inclusive em “O Eu e o ID” (1923/2011, p. 50), Freud retoma o que já havia dito em “Além do princípio do prazer” (1920): “Ela [a pulsão de vida] compreende não apenas o próprio instinto sexual desinibido e os impulsos instintuais sublimados e inibidos na meta, dele derivados, mas também o instinto de autoconservação”.

[17] “[…] form of masochism with manifest pleasure in pain or derived from pain” (Blum, 2011, p. 157).

[18] A respeito do conceito de “masoquismo secundário” apresentado por Freud em “O problema econômico do masoquismo” (1924/2011), o autor escreve: “Não ficaremos surpresos de ouvir que, em determinadas circunstâncias, o sadismo ou instinto de destruição voltado para fora, projetado, pode ser novamente introjetado, voltado para dentro, desse modo regredindo à sua situação anterior. Então ele resulta no masoquismo secundário, que se junta àquele original” (Freud, 1924/2011, p. 193).

[19] Em trabalhos anteriores, Freud considerava que o desprazer era o aumento de estímulos ou excitação, e o prazer, a redução de estímulos ou excitação.

[20] Já o princípio de realidade seria uma modificação do princípio do prazer causada pela influência do mundo exterior.

[21] [...] pues las dos caras, los dos aspectos del mismo momento psíquico (Lichtmann, 1996, p. 891).

[22] Freud coloca entre aspas este “sentimento de culpa inconsciente” por reconhecer que se trata de uma expressão errada sob o ponto de visto psicológico, mas que de alguma forma cumpre a função de auxiliá-lo em suas elaborações teóricas sobre o tema do masoquismo moral. Utiliza, por isso, o termo “necessidade de punição” em alguns momentos do artigo para substituir o anterior, que é psicologicamente incorreto pela impossibilidade de haver sentimentos inconscientes. Acerca disto, cf. “O inconsciente” (1915).

[23] O autor realiza uma diferenciação entre a hipermoralidade e o masoquismo moral que merece ser aqui destacada. Salienta que existem certas pessoas que “causam a impressão de serem moralmente inibidas de um modo excessivo, de se acharem sob o domínio de uma consciência [moral] particularmente sensível, embora não estejam cônscias dessa hipermoral” (Freud, 1924/2011, p. 199). Embora este tipo de comportamento ou fenômeno possa ser confundido com o masoquismo moral, a diferença é que neste a ênfase incide sobre o masoquismo do Eu “que anseia por castigo”, enquanto na hipermoral “a ênfase recai sobre o intensificado sadismo do Super-eu” (Freud, 1924/2011, p. 199). Lima e Leite (2011) ressaltam que, de todo modo, nos dois casos, trata-se de relações intrapsíquicas entre o Eu e o Supereu que produzem uma necessidade de punição inconsciente. Além disso, as autoras também chamam a atenção ao fato de que geralmente o sadismo do Supereu é consciente, enquanto a tendência masoquista do Eu se mantém inconsciente ao sujeito (Lima e Leite, 2011).

[24] “Batem numa criança” (Freud, 1919/2010).

[25] Cf. Freud (1920/2010, p. 226).