
Guy Debord e o Estruturalismo: para a crítica do “baixo clero” universitário
Guy Debord and Structuralism: toward a critique of the university “Rank-and-file”
Davi Galhardo
UEMA – Universidade Estadual do Maranhão, MA, Brasil.
Recebido: 19/06/2025
Received: 19/06/2025
Aprovado: 12/02/2026
Approved: 12/02/2026
Publicado: 24/02/2026
Published: 24/02/2026
Resumo
Após quase três décadas desde que a primeira edição brasileira de La société du spectacle (1967) veio a público, em 1997, com uma tradução assinada por Estela dos Santos Abreu (1932-) e em virtude dos esforços do selo carioca Contraponto, fundado por César de Queiroz Benjamin (1954-), é lícito dizer que o ‘livro de teoria’ da Internacional Situacionista (1957-1972) gerou um impacto significativo na cena pública tupiniquim. Desde então, o teórico crítico francês passou a penetrar cada vez mais no imaginário político e acadêmico do nosso país, ensejando ações político-culturais e publicações versando sobre os mais distintos aspectos de sua obra. Presentemente, contudo, gostaria de sublinhar que há ainda uma faceta desta obra carente de discussões mais robustas entre nossos pares, a saber, a crítica debordiana ao Estruturalismo francês. Para alcançar esse objetivo, investigarei aqui alguns poucos parágrafos do livro de 1967 e três epístolas sobre Louis Althusser (1918-1990) que constam na correspondência de Debord. Esse material será confrontado com algumas passagens curtas e cruciais de obras de expoentes do próprio Estruturalismo da França dos anos 1950 e 1960, notadamente Roland Barthes (1915-1980) e o próprio Louis Althusser. Nessa reflexão filosófica tomo como chave de leitura e leitmotiv o equívoco da tradução brasileira que considerou o Estruturalismo como o ‘pensamento universitário do baixo clero’, ao invés do ‘pensamento universitário dos quadros médios’. A contribuição teórica original e hipótese do presente ensaio interpretativo, portanto, visa mostrar a fecundidade do viés metodológico debordiano do desvio (détournement) como chave de leitura para o terreno da história hodierna, considerando que a intelectualidade brasileira ainda segue profundamente marcada pela influência Estruturalista. Grosso modo, Debord destacou que, sob outro ponto de vista, erros e fracassos podem transformar-se em vitórias. Com efeito, esse procedimento poderá ser expandido em lutas históricas vindouras e, quiçá, na transformação da vida social como conhecemos agora.
Palavras-chave: sociedade do espetáculo; internacional situacionista; estruturalismo francês; Détournement; teoria crítica.
Abstract
Nearly three decades after the first Brazilian edition of La société du spectacle (1967) was published in 1997 – translated by Estela dos Santos Abreu (1932-) and due to the efforts of the publisher Contraponto from Rio de Janeiro, founded by César de Queiroz Benjamin (1954-) – it is fair to say that the “theory book” of the Situationist International (1957-1972) has had a significant impact on the Brazilian public sphere. Since then, the French critical theorist has increasingly penetrated the political and academic imagination of our country, inspiring political-cultural actions and publications addressing various aspects of his work. At present, however, I would like to emphasize that there remains a facet of this work that is still lacking in more robust discussion among our peers: namely, Debord’s critique of French Structuralism. To pursue this objective, I will examine a few selected paragraphs from the 1967 book and three letters concerning Louis Althusser (1918-1990) that appear in Debord’s correspondence. This material will be confronted with brief but crucial passages from works by prominent figures of French Structuralism in the 1950s and 1960s, notably Roland Barthes (1915-1980) and Althusser himself. This philosophical reflection is guided by a key interpretative thread: the mistranslation in the Brazilian edition that rendered Structuralism as the “university thought of the lower clergy” rather than the “university thought of the middle ranks.” The original theoretical contribution and hypothesis of this interpretative essay, therefore, aims to demonstrate the fruitfulness of Debord’s methodological approach to ‘détournement’ as a key to understanding contemporary history, considering that Brazilian intellectual circles are still deeply marked by Structuralist influence. Broadly speaking, Debord emphasized that, from another point of view, errors and failures can be transformed into victories. Indeed, this procedure could be expanded in future historical struggles and, perhaps, in the transformation of social life as we know it now.
Keywords: society of spectacle; situationist international; French structuralism; Détournement; critical theory.
INTRODUÇÃO
Em 1997, publicava-se a primeira edição brasileira de A sociedade do espetáculo (1967), sob os auspícios do selo carioca Contraponto (Debord, 1997)[1]. Com uma tradução assinada por Estela dos Santos Abreu (1932-), a editora fundada por César de Queiroz Benjamin (1954-) trouxe ao público do nosso país um acesso mais imediato ao ‘livro de teoria’ da Internacional Situacionista (1957-1972), três décadas após sua aparição.
A própria tradutora brasileira, alguns anos mais tarde, relembraria o feito com muito carinho. “Um dos livros que traduzi e mais aprecio é A sociedade do espetáculo, do Guy Debord, não só pela importância do conteúdo quanto pela capacidade do autor de ver o homem e o mundo de maneira ampla” (Rocha, 2021, p. 54). Em linhas gerais, segundo ela, é lícito dizer justamente que “Debord é um absoluto profeta da inteligência. Não falou de temáticas incertas, conhecia realmente os rumos que a sociedade tomaria e tomou, para tornar-se o lamentável espetáculo que temos hoje” (Rocha, 2021, p. 54-55).
Sem dúvidas, trata-se de um acontecimento ímpar do ponto de vista individual e coletivo, vez que muitos debates acadêmicos e manifestações nutriram-se da introdução desse opúsculo na nossa cena pública. Na virada do milênio, experiências estético-políticas travadas nas ruas do Brasil guardaram de fato relações secretas com a crítica do espetáculo de Debord e os situacionistas – especialmente aquelas das Ações Globais Anticapitalistas (entre 1999 e 2005). Mas, também, o aparecimento de uma edição pirata de A sociedade do espetáculo (Debord, 2003) e, pouco depois, de uma primeira tese de doutoramento sobre Guy Debord (Aquino, 2005), demonstraram a importância que essas ideias e experimentos passaram a ter no Brasil do terceiro milênio.
Presentemente, gostaria de me colocar como tarefa dar continuidade a essa tradição de ruptura, ou ainda, a esse ‘passado recente’ (como diria Walter Benjamin (2007)) da teoria crítica. Por certo, de lá para cá muita água passou por debaixo da ponte, mas, tantas outras deixaram de rolar. Alguns trabalhos acadêmicos relevantes foram publicados – Ricardo (2012), Casale (2012), Bueno (2017), Souza (2020) e Zacarias (2022) etc. –, enquanto outras iniciativas sociais apresentaram-se como herdeiras das teses situacionistas – Jappe (2016), Nunes (2022). Todavia, há um nicho de diálogo especialmente carente de discussões entre nossos pares, a saber, a querela de Debord (e seus camaradas) com o Estruturalismo. Com a conclusão da publicação das cartas, essa possibilidade investigativa se mostra mais viável ao público interessado nesse nicho e me permite articular sumariamente essa reflexão.
Esse ensaio pretende ser, portanto, uma modesta contribuição a essa nova frente de recepção da obra debordiana, ainda em vias de consolidação em nosso país. Para levar essa pretensão ao êxito, investigarei aqui primordialmente alguns poucos parágrafos de La société du spectacle (1967) – especialmente aqueles do capítulo VIII que tocam diretamente em nossa problemática, a saber, §§ 197-202 – e três cartas sobre Louis Althusser que constam nos volumes V, VI e VII da correspondência do teórico crítico francês (Debord, 2005; 2007; 2008). Esse material será confrontado com algumas passagens curtas e cruciais de obras de expoentes do próprio Estruturalismo da França dos anos 1950 e 1960, notadamente Roland Barthes e Louis Althusser, garantindo o princípio jurídico do contraditório.
Essa reflexão filosófica toma como chave de leitura e leitmotiv o equívoco da tradução brasileira que considerou o Estruturalismo, em sua citada edição de A sociedade do espetáculo, como o “pensamento universitário do baixo clero” (SduS, § 201, grifo meu)[2]. De forma menos ofensiva, a expressão utilizada por Debord é na verdade “pensée universitaire de cadres moyens” (SduS, § 201, grifo meu), ou seja, algo como “pensamento universitário dos quadros médios” (SduS, § 201, tradução minha, grifo meu)[3]. Para além da crítica higienista do “sic”, penso que essa imprecisão vem bem a calhar na medida em que me permite estender o raciocínio em tela do Estruturalismo, apontando para o ‘academicismo’ contemporâneo que muitas vezes perde de vista a história presente e a própria realidade que lhe circunda.
A contribuição teórica original e hipótese do presente ensaio filosófico-interpretativo, baseado em leitura imanente de textos e reconstrução conceitual[4], portanto, visa mostrar a fecundidade do viés metodológico debordiano do desvio (détournement) (Debord, 2006) como chave de leitura para o terreno da história hodierna, considerando que a intelectualidade brasileira ainda segue profundamente marcada pela influência Estruturalista. Grosso modo, ele sublinhou que, sob outro ponto de vista, erros e fracassos podem transformar-se em vitórias. Esse horizonte, certamente, poderá ser expandido em lutas históricas vindouras e, quiçá, na transformação da vida social como conhecemos hoje.
Pensamento submisso e crítica do espetáculo
A “Internationale Situationniste” (1957-1972) – doravante IS – foi um grupo de contestação social cujas ações, que fitavam a união das demandas das vanguardas históricas e da filosofia/política revolucionária, se alinharam com os eventos da segunda metade do século XX na França, especialmente durante o famoso “Maio de 68”, caracterizado pela ocupação de diversas fábricas por operários em greve e pela mobilização massiva nas ruas em busca do fim do trabalho alienado e da sociedade capitalista. Apesar de sua aspiração internacionalista, o grupo nunca contou com mais de quinze membros oficiais simultaneamente. Além disso, o número total de pessoas que passaram pela organização não ultrapassa sete dezenas.
Ainda assim, essa vanguarda protagonizou acalorados debates na cena pública bem como desferiu críticas profundas contra os mais diversos segmentos do contexto intelectual e político do qual fora contemporânea em suas movimentações. Tendo Guy Louis Marie Vincent Ernest Debord (1931-1994) como principal expoente, os situacionistas se envolveram em querelas com o grupo Socialisme ou barbárie (S ou B), com o Existencialismo e com a Pintura Abstrata. Mas, também, tiveram rusgas com o Novo Romance (Nouveau Roman), com o Realismo Socialista e com a Nova Onda (Nouvelle Vague) do cinema francês etc.[5] Ora, mas, a oposição de Debord e seus camaradas ao Estruturalismo, certamente, representa um caso à parte, digno de um olhar mais determinado.
De saída, penso que destacar a força epistemológica do Estruturalismo em seu contexto pode ajudar na compreensão das críticas igualmente fortes por parte de Debord e dos situacionistas. Não se trata, conforme creio, de uma oposição puramente teórica por parte dos situacionistas, mas, sim, de uma disputa pela validação de fundamentos com reverberações sociais muito bem determinadas e igualmente profundas.
Nos anos 1950 e 1960, o Estruturalismo representava uma verdadeira tendência na Europa. Ao contrário, por exemplo, da dialética (hegeliana ou marxista), que sobrevivia na universidade francesa em casos raros como os de Jean Hyppolite e Henri Lefebvre, o fato é que o Estruturalismo se tornara uma espécie de pensamento e/ou metodologia incontornável para as ciências sociais e humanas do período. De modo análogo ao hegelianismo na Alemanha dos anos 1820-1840, que chegou mesmo a trajar-se quase como a ‘filosofia oficial’ do período[6], o pensamento estruturalista marcou época e formou muitos especialistas de algumas gerações, estendendo-se até mesmo ao ultramar (Arantes, 1994).
“O êxito que o estruturalismo conheceu na França ao longo dos anos 50 e 60 não tem precedente na história da vida intelectual desse país. O fenômeno obteve adesão da maior parte da intelligentsia” (Dosse, 1993, p. 13), diz François Dosse na introdução do primeiro volume de sua História do estruturalismo (1991). De fato, trata-se mesmo de um caso singular, em que há uma adesão em bloco de distintos ramos do conhecimento universitário a uma determinada matriz de pensamento.
Nada obstante, Dosse também argumenta – de modo semiconsciente –, que as próprias “razões desse êxito espetacular dependeram essencialmente do fato de que o estruturalismo apresentou-se como um método rigoroso que podia ocasionar esperanças a respeito de certos progressos decisivos” (Dosse, 1993, p. 13, grifo meu) no mundo científico e cultural. Em outros termos, as esperanças intelectuais depositadas no Estruturalismo tinham íntima relação então com o meio século de catástrofes que lhe era precedente. Nesse lapso temporal, vale lembrar, as duas grandes guerras, o nazifascismo, as bombas de Hiroshima e Nagasaki e outras mazelas sociais foram atreladas às assim chamadas ‘grandes narrativas’ ou, na formulação posterior de Jean-François Lyotard, às ‘metanarrativas’ (o Marxismo, o Iluminismo, o Idealismo etc.) e suas respectivas crises (Lyotard, 1979).
Seja como for, ainda que imediatamente desprovida da dimensão contemplativa pensada pela leitura debordiana, o fato é que esse pretenso elogio de François Dosse ao Estruturalismo toca de modo crítico no ponto nevrálgico da questão que quero enfocar aqui. De forma bastante direta, importa notar que o Estruturalismo é de fato, para Debord, uma visão passiva sobre o mundo, tornando-o, pois, em um objeto incompreensível e imutável. Seu êxito, portanto, só pode mesmo ser explicado pelo fato de sua colaboração com o status quo se manifestar de forma espetacular. Dito de forma distinta, do ponto de vista situacionista, o Estruturalismo não é apenas um reforço para o poder constituído, mas, é propriamente constituído pelo poder.
Em La société du spectacle (1967), o Estruturalismo é duramente lido por Guy Debord como um “pensamento universitário dos quadros médios [cadres moyens]” (SduS, § 201, tradução minha), ou seja, como uma reflexão acadêmica mediana, ou ainda, como uma forma de pensamento de segunda categoria e envergadura epistemológica. Nessa altura, evidentemente, esse argumento tem muito peso e mira muitos adversários famosos e renomados na França[7].
Roland Barthes, por exemplo, havia publicado um trabalho que marcaria época com o título de Ensaios críticos (1964). Nessa oportunidade, encontramos escritos que remontam a uma década e que perfazem o percurso intelectual do seu autor em temas como teatro, literatura, sociedade e, claro, Estruturalismo. Nesse tomo, o autor francês dá a ver a tônica geral da sua reflexão estético-social, valendo-se várias vezes dos fundamentos estruturalistas, no mesmo pé em que os esclarece. Segundo ele, portanto, “o estruturalismo, em particular, pode ser definido historicamente como a passagem da consciência simbólica à consciência paradigmática: há uma história do signo, que é a história de suas ‘consciências’” (Barthes, 2003, p. 287, tradução minha). De fato, Barthes compreende que “em relação a todos os seus usuários, o estruturalismo é essencialmente uma atividade, isto é, a sucessão regulamentada de um certo número de operações mentais” (Barthes, 2003, p. 295, tradução minha).
Por isso mesmo, Barthes também afirma que “o objetivo de toda atividade estruturalista, seja ela reflexiva ou também poética, é reconstruir um ‘objeto’, de modo que nesta reconstrução se manifestem as regras de funcionamento (as ‘funções’) deste objeto” (Barthes, 2003, p. 295, tradução minha). Em suma, portanto, “o objeto do estruturalismo não é o homem rico em certos sentidos, mas o homem que produz sentidos [...], Homo significans: este seria o novo homem da investigação estrutural” (Barthes, 2003, p. 300, tradução minha, grifo do autor). Por certo, não é difícil ver que essas noções buscam não se dobrar às adversidades históricas imediatas, em nome de atividades mentais e/ou linguísticas. Além disso, em lugar do ser social em sua constituição histórica de milhares de anos, urge agora uma ‘humanidade significante’ e recém-descoberta em operações obscuras do pensamento que já não se interessa em escrutinar o real, mas, sim, em submeter-se ao poder.
Nesse horizonte, o Estruturalismo não mede esforços para convencer a todos que “a própria ideia de revolução era impossível, ilógica e ridícula” (Jappe, 1999, p. 166). Certamente, isso explica as posições críticas de Debord frente a essa pretensa forma de pensamento moderno. Mas, apesar desse quadro, alguns intelectuais franceses buscaram desenvolver uma conciliação entre esse novo paradigma de conhecimento e a dialética marxista. É este o caso de Louis Althusser.
Sem qualquer pretensão de esgotar a totalidade do pensamento de Althusser, interessa-me tão somente apontar aqui algumas das posições que justificariam as críticas situacionistas às suas ideias. Nesse sentido, em Lênin e a Filosofia (1969), o filósofo francês argumenta que a relação necessária entre o Marxismo e as estruturas remetia a algo que se encontrava nas entrelinhas do próprio Karl Marx. Em seus termos, “no cerne da teoria marxista existe uma ciência: uma ciência inteiramente singular, mas uma ciência. O elemento novo que o marxismo introduz na filosofia é uma nova prática da filosofia” (Althusser, 1989, p. 68, grifo meu, grifo do autor). Assim, é com base nessa tese que a compreensão althusseriana sustentará que marxismo e Estruturalismo não são díspares. Ao contrário, se ambas as formas de conhecimento são pensadas como científicas, a tarefa fundamental comum entre essas seria nada menos do que desvelar o funcionamento do real.
É, pois, nesses termos que o célebre Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado (1970) se sustenta e desenvolve uma tentativa de união efetiva entre dois paradigmas. De fato, Althusser parte nesse trabalho da intuição de que o binômio superestrutura e infraestrutura, constatado por Marx[8], não fora até então suficientemente compreendido. Por seu turno, o filósofo francês argumenta que a sociedade capitalista dispõe de Aparelhos Repressivos de Estado (ARE) e dos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) para sua manutenção. Leia-se, o capitalismo produz formas de expressão e manutenção da vida social que lhe são próprias, isto é, que reproduzem seus signos, linguagem, poder, subjetividade e ideologia (Althusser, 1985).
Em outro contexto, Althusser argumenta então que a escola, por exemplo, funciona como um meio de perpetuar o capitalismo, tanto em sua operação quanto em seus princípios, ao mostrar-se como local de excelência para a propagação da ideologia dominante. Dito de outra maneira, a educação escolar tradicional tem como função fundamental a manutenção da estrutura social e no apoio à lógica do capitalismo. Além disso, seguindo Althusser, o Estado desempenha um papel fundamental nesse processo, empregando seus Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) para manter as relações de produção.
Destarte, o Aparelho Ideológico de Estado é a concretização das ideologias que o dominam. Por isso mesmo, a escola, como entidade, espelha e funciona conforme a dinâmica e as ações do Aparelho Ideológico de Estado ligado à educação. Outrossim, a escola se estabelece como uma entidade dedicada a reproduzir os interesses do Estado. Contudo, é mister notar que a escola também apresenta componentes que permitem a expressão da luta de classes. Em outros termos, apesar da escola reforçar as relações de exploração do sistema capitalista, ela pode ser vista como um local de confronto e luta de classes para ideologias subordinadas. Dessa forma, a escola surge como um lugar de conflitos, mas, também pode ser um campo para a revolução ou, pelo menos, para a mudança social (Althusser, 1999). Evidentemente, esse raciocínio poderia ser ampliado para a Universidade.
Mas, para Debord, a situação se processa em outros termos, uma vez que o Estruturalismo se mostra insuficiente para escrutinar os objetos que se propõe. Em uma carta a Gérard Lebovici, enviada em 07 de maio de 1978, Guy Debord desdenha do fato de que livros “recuperadores” e/ou “positivadores” sobre o ‘maio de 1968 francês’ estivessem sendo publicadas aos montes naquele momento. Neste filão, o nome de Althusser emerge enquanto analogia de um autêntico admirador do stalinismo, porém, um admirador decepcionado com as recentes iniciativas autênticas dessa corrente política. Ora, isso se justifica pelo fato de que tanto um quanto outro teriam uma compreensão pífia acerca da realidade política da sociedade capitalista mais desenvolvida. Por isso mesmo, a tese de Debord é que, em última instância, Althusser não passava de um vassalo do Kremlin.
De modo semelhante, em 06 de agosto de 1990, em uma epístola remetida a Giorgio Agamben, encontramos outra crítica direta ao Marxismo-Estruturalista de Louis Althusser. De maneira bastante franca, Debord elucida nessa oportunidade que as “glosas” de Agamben ao seu livro Comentários sobre a sociedade do espetáculo (1988) enchiam-lhe de orgulho e admiração. Nada obstante, Debord pontua que o procedimento de Agamben é totalmente distinto daquele “lunático e sombrio Althusser, [que ficava] tentando um tipo de ‘salvação por transferência’ do método marxista, acrescentando uma grande dose de Hegel” (Debord, 2008, n.p., tradução minha). Em síntese, Debord critica Althusser por considerar que suas movimentações não endossam à crítica de economia política, mas, sim, servem-lhe como corolário.
Nesse horizonte de reflexão, vale notar também que ao isolar as categorias inerentes à linguagem do contexto social, segundo a ótica debordiana, o Estruturalismo pratica uma verdadeira reificação da comunicação (Aquino, 2005). Insisto: o argumento crítico de Debord sobre a corrente estruturalista francesa gira em torno da noção de que essa não apenas agrada ao poder instituído, mas, também, é gestada pelo próprio status quo, já que fala a sua linguagem separada de modo integral. Trata-se, em última instância, de uma pretensa forma de conhecimento inter e transdisciplinar que busca congelar a realidade histórica e transitória e legislar sobre ela a partir de uma falsa consciência suprahistórica ancorada na linguagem e na semiótica (SduS, § 201).
Com base nesse mesmo raciocínio, o curta-metragem Critique de la séparation (1961), de Guy Debord, começaria demonstrando justamente uma crítica à reificação da linguagem, a partir de uma citação/desvio do linguista estruturalista André Martinet. “quando consideramos o quão natural e útil é para o ser humano identificar sua linguagem com a realidade, percebemos o nível de sofisticação que ele teve de alcançar para ser capaz de se dissociar delas e fazer de cada um objeto de estudo” (Debord, 2006, p. 541, tradução minha). Ora, a perspectiva do teórico crítico nessa oportunidade – furtando as palavras de um representante do campo opositor! – é justamente que somente com a sociedade capitalista mais desenvolvida se pôde conjecturar que a linguagem tem uma primazia e uma autonomia frente à vida social. A separação, portanto, é imprescindível para a fragmentação do saber apregoada pelo Estruturalismo.
Em termos filosóficos, a virada linguística na filosofia é impensável sem o desenvolvimento das forças produtivas e a especialização radical dos conhecimentos na sociedade capitalista moderna (Oliveira, 2006). Em termos historiográficos, valendo-me novamente das palavras de François Dosse, posso ratificar que o Estruturalismo adere à uma postura “espetacular” frente ao mundo, em sua gênese e dissolução, na medida em que busca supostamente desvelar os seus sentidos. Vejamos:
O triunfo do paradigma estruturalista resulta, em primeiro lugar, de um contexto histórico particular marcado, desde o final do século XIX, pela progressiva tendência do ocidente para uma temporalidade moderada. Mas também é fruto do notável desenvolvimento das ciências sociais, que se defrontou com a dominação hegemônica da Sorbonne, detentora da legitimidade sábia e distribuidora das humanidades clássicas. Uma verdadeira estratégia inconsciente de superação do academicismo no poder consubstanciou-se então num programa estruturalista, que teve a uma dupla função – a de contestação e a de contracultura. O paradigma estrutural demonstrou sua eficácia nesse domínio ao garantir o lugar para todo um saber proscrito, à margem das instituições canônicas (Dosse, 1993, p. 13, grifos meus).
Desde uma perspectiva materialista, todo esse sucesso do Estruturalismo é explicável quando se tem em mente que ele é tão-somente a aceitação passiva da realidade tal como ela é apresentada/narrada pelas classes dominantes e por seus vassalos. Mas, se “não se julga o indivíduo pela ideia que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal época de transformações pela consciência que ela tem de si [...] explicar essa consciência pelas contradições da vida material” (Marx, 2008, p. 48) é o que se mostra mais adequado em toda e qualquer oportunidade.
Em La société du spectacle, Guy Debord desenvolve, portanto, que “a afirmação da estabilidade definitiva de um curto período de congelamento do tempo histórico é a base inegável, consciente e inconscientemente proclamada” (SduS, § 201, tradução minha), pelo Estruturalismo. Por isso mesmo, o devaneio a-histórico do Estruturalismo é o da “eterna presença de um sistema que nunca fora criado e que nunca se acabará” (SduS, § 201, tradução minha). Com razão, creio, Debord sublinha então que esse ponto de vista fora extraído da linguística, da etnologia – conforme endossado pelo próprio François Dosse (1993) –, mas, também, da observação entusiasmada da própria dinâmica da sociedade capitalista.
O Estruturalismo é lido por Debord como o elogio do poder. “A estrutura é filha do poder presente. O estruturalismo é o pensamento garantido pelo Estado, que pensa as condições de ‘comunicação’ espetacular como um absoluto” (SduS, § 202, tradução minha, grifo do autor). Ora, é por essa razão então que mesmo “seu modo de estudar os códigos de mensagens em si mesmos, não é mais que o produto, e o reconhecimento, de uma sociedade onde a comunicação existe sob a forma de uma cascata de signos hierárquicos” (SduS, § 202, tradução minha). Dito de outro modo, o Estruturalismo não se pergunta se as formas de comunicação que encontra são as únicas possíveis, ele se conforma em aceitá-las de modo insidioso.
Como bem destaca Anselm Jappe, “Debord vê no estruturalismo a principal ideologia apologética do espetáculo [...], porque nega a história e quer fixar as condições atuais da sociedade como estruturas imutáveis” (Jappe, 1999, p. 165). Efetivamente, nos próprios termos do teórico crítico francês, isso significa que “a apologia do espetáculo se constitui como pensamento do não-pensamento, num franco esquecimento da prática histórica, nas diversas disciplinas em que se enraíza o estruturalismo” (SduS, § 196, tradução minha, grifos do autor).
Em linhas gerais, para Debord, a negação da sociedade do espetáculo e das suas formas de expressão e comunicação consiste na sua mais autêntica verdade (SduS, § 199). Por isso mesmo, “não é o estruturalismo que serve para provar a validade trans histórica da sociedade do espetáculo”, diz Guy Debord. “Ao contrário, é a sociedade do espetáculo, impondo-se como realidade maciça, que serve para provar o sonho frio do estruturalismo” (SduS, § 202, tradução minha). Sem dúvidas, “Foucault vende como pãezinhos” (Dosse, 1993, p. 367), mas, ainda assim, alguma coisa da bravata estruturalista poderá ser desviada/revertida para a crítica da totalidade, junto com toda a safra de subcomunicação vazia de conteúdo crítico, mas, repleta de exaltação ao espetáculo. Com isso, já não estamos mais nas trilhas de um retorno ao “grau zero da escrita” (SduS, § 204, tradução minha), como quis o estruturalista Roland Barthes[9], “mas, sim, na sua reviravolta [renversement]” (SduS, § 204, tradução minha).
Considerações finais
Durante as filmagens de seu segundo filme, Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps (1959) (Debord, 2006), Guy Debord buscou realizar um travelling que recomporia, de forma ficcional, o modo como o seu grupo de vanguarda, na época a Internacional Letrista, vivera durante certo período, a saber, à margem da sociedade. Nesse movimento clássico do cinema, portanto, “a câmera inteira se desloca sobre uma plataforma (dolly), indo para frente ou para trás, podendo também fazer curvas” (Rodrigues, 2007, p. 35). Ora, isso significa dizer então que a câmera passeia nessa forma de gravação, de modo a apresentar a cena em sua inteireza, já que “esses movimentos podem ser conjugados com os movimentos da câmera em si, movimentando-se sobre o seu próprio eixo, para cima ou para baixo, ou esquerda e direita” (Rodrigues, 2007, p. 35). Todavia, a cena fora mal executada e acabou não alcançando a sua perfeição. Mesmo assim, Debord viu nessa oportunidade algo que veio bem a calhar para o filme e para sua crítica social.
Guy Debord reconheceu a André Mrugalski, operador-chefe do filme em questão, as dificuldades que acabaram gerando o seu travelling imperfeito. Contudo, o teórico crítico opta por valorizar e manter as imperfeições dessa cena, posto que elas acabaram ressaltando a perspectiva delirante do próprio filme. Assim, aquilo que parecia um erro técnico acabou se tornando um elemento crítico. Logo, o resultado é uma dupla crítica: i) à tentativa de capturar o real como testemunho histórico e ii) às frágeis estratégias de resistência ao capitalismo moderno. Destarte, o travelling imperfeito reforçou os objetivos do próprio Debord, viabilizando que sua crítica ao cinema se estendesse mais uma vez a uma dimensão crítica de toda a sociedade do espetáculo (Galhardo, 2020).
Ora, é neste mesmo sentido que nos servimos do equívoco da tradução brasileira de La société du spectacle (1967) acerca do “pensée universitaire de cadres moyens” (SduS, § 201) como mote de reflexão sobre o Estruturalismo, no interior do pensamento de Guy Debord. Com isso, notamos com maior rigor de que modo essa corrente de pensamento é, pelo menos sob a ótica debordiana, um reforço para a sociedade capitalista e para a forma de pensamento submisso e a-histórico que ela tolera no seu interior. Para Debord, o Estruturalismo é, de fio a pavio, filho e servo do poder instituído. Destarte, a presente investigação partiu de um deslize de tradução para explorar, na prática, o horizonte do dértournement de Debord (e dos situacionistas), enquanto anúncio de que todo dado de antemão pode vir-a-ser outrem. Trata-se, em poucas palavras, de demonstrar que equívocos e/ou derrotadas podem ser recolocados em jogo e subvertidos no terreno da história presente.
Em suma, ao invés de meramente recompor o itinerário desse texto, acredito que vale muito mais a pena concluir sublinhando a importância do inacabamento histórico e das suas possibilidades latentes. Afinal, a realidade brasileira segue carente de discussões teórico-acadêmicas (e, claro, práticas políticas) que coloquem em foco as contradições da sociedade do espetáculo em sua fase integrada (Debord, 1996). Possivelmente, esse é um dos motivos pelos quais Estruturalismo (e suas variantes) segue sendo tão aceito e aplaudido entre nossas fileiras (Arantes, 2021) — dando vasão à persistência da crítica ao ‘baixo clero’ intelectual iniciada por Debord. De minha parte, contudo, ecoando o lema benjaminiano, posso dizer finalmente então que “o erro é apenas um novo alento para a busca da verdade” (Benjamin, 2009, p. 23).
Referências bibliográficas
ALTHUSSER, Louis. Lênin e a Filosofia. São Paulo: Edições Mandacaru, 1989.
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.
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Agradecimentos
O presente trabalho foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Davi Galhardo
Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Professor de Filosofia da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (PPGFIL-UFMA).
Como
citar
GALHARDO, D. Guy Debord e o Estruturalismo:
para a crítica do “baixo clero” universitário. Sofia, Espírito Santo,
Brasil, v. 15, n. 1, p. e15148915, 2026. DOI: https://doi.org/10.47456/sofia.v15i1.48915 Disponível em : https://periodicos.ufes.br/sofia/article/view/48915
. Acesso em: 24 fev. 2026.
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[1] Daqui para a frente, La société du spectacle (1967) será indicado no próprio texto ou em rodapé pelas iniciais SduS, seguidas do parágrafo correspondente. Quando necessário, cotejarei o original francês (Debord, 1992) com a tradução portuguesa, recomendada pelo próprio autor em 1979 (Debord, 1972; 2024).
[2] Tradução de Estela dos Santos Abreu.
[3] A edição portuguesa, com tradução de Francisco Alves e Afonso Monteiro, não comete o mesmo equívoco e fala em “pensamento universitário de quadros médios” (Cf. Debord, 2024, p. 142, § 201, grifos do autor; Debord, 1972, p. 191, § 201, grifos do autor).
[4] Ao propor esse tipo de procedimento metodológico busco, a um só tempo, a aderência ao horizonte de reflexão formulado por Debord (e seus camaradas) e a crítica do cenário filosófico que tenho sob os olhos em parte da Universidade brasileira contemporânea. Trata-se, portanto, de uma crítica do presente que maneja os bens culturais em nome de suas próprias demandas.
[5] Sem dúvidas, esse nivelamento é bastante passível de questionamentos, na medida em que dá pouca atenção às diferenças existentes nessas experiências tão dissonantes.
[6] Em uma publicação recente em nosso país, Friedrich Engels narra com grande beleza o contexto do hegelianismo dominante e as incursões de Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling em sua tentativa desesperada de superar teoricamente o já falecido autor da Fenomenologia do Espírito (1807) (Engels, 2021).
[7] Para fins propedêuticos, recortaremos a discussão e deixaremos o exame das críticas de Debord a Jacques Lacan, e as suas relações críticas com Freud e Joseph Gabel, para outra oportunidade. Uma primeira aproximação, contudo, pode ser encontrada em Haritçalde, Christian Campos de Oliveira. Sonho e espetáculo: uma aproximação a Guy Debord. 2014. 68 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Psicologia) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. De igual modo, o confronto dos situacionistas com Claude Lévi-Strauss e Michael Foucault será escrutinado em ocasião futura, vez que perpassa de forma mais explícita por uma crítica à Antropologia e ao ‘sociologismo’. Uma visão preliminar desse terreno pode ser encontrada em GOBIRA, Pablo; LIMA, Oscar; CARRIERI, Alexandre. Uma “sociedade do espetáculo” nos/dos estudos organizacionais brasileiros: notas críticas sobre uma leitura incipiente. Cadernos EBAPE.BR, Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, abr./jun. 2015, p. 256-285.
[8] “O modo de produção da vida material condiciona o processo social, político e intelectual da vida em geral. Não é a consciência dos humanos que determina seu ser, mas o inverso: é seu ser social que determina sua consciência. Em certo estágio de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas a expressão jurídica correspondente, com as relações de propriedade em que se haviam movido até aquele momento. Essas relações se convertem de formas de desenvolvimento das forças produtivas em seus grilhões. Instaura-se, então, uma época de revolução social. Com a mudança da base econômica, revoluciona-se mais lenta ou mais rapidamente toda a gigantesca superestrutura. Ao analisar essas revoluções, é preciso distinguir constantemente entre a revolução material das condições de produção, a ser fidedignamente constatada nos termos da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas, em que os humanos se conscientizam desse conflito e o travam até o fim. [...] Uma formação social nunca desaparece antes de desenvolver todas as forças produtivas que ela comporta, e relações de produção novas e superiores nunca têm lugar antes que as condições materiais de sua existência tenham sido incubadas no seio dessa mesma velha sociedade. Por conseguinte, a humanidade só se propõe a cumprir tarefas que é capaz de resolver [...]” (Marx, 2024, p. 25).
[9] Esse título, desviado por Debord na presente oportunidade, fora o nome do primeiro livro deste autor. Cf. Barthes, Roland. Le degré zéro de l'écriture. Paris: Éditions du Seuil, 1953.