
Dezessete questões sobre o evangelho segundo Mateus[1]
AGOSTINHO. Aurelii Augustini Quaestionum septemdecim in Evangelium secundum Matthaeum liber unus. Opera Omnia PL 35. NBA. Disponível: https://www.augustinus.it/latino/questioni_matteo/index.htm. Acesso em: 13 out. 2025
Tradução: Matheus dos Reis Gomes
E-mail: matheusdosreisgomess@gmail.com
ORCID: 0000-0002-5534-8886
Afiliação: UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto
Recebido: 14/10/2025
Received: 14/10/2025
Aprovado: 18/11/2025
Approved: 18/11/2025
Publicado: 23/01/2026
Introdução
A Quaestionum septemdecim in Evangelium secundum Matthaeum inscreve, no conjunto da obra agostiniana, um regime hermenêutico rigoroso orientado pela fricção interna do texto mateano. Cada quaestio irrompe de uma dificuldade de ordem lógica, histórica ou teológica que o Evangelho, na sua própria literalidade, expõe e não resolve. Agostinho, ao não contornar essas resistências, as converte em gesto especulativo. A littera se vê submetida à intelligentia spiritalis sob a regência da regula fidei, sem dissolução da materialidade linguística.
Composta provavelmente na primeira década do século V, a Quaestiones se situa no momento em que Agostinho, já bispo de Hipona, faz da exegese o eixo de formulação doutrinal. Seu surgimento está relacionado à necessidade de oferecer respostas às interpelações que o próprio texto de Mateus suscita no exercício pastoral e no processo de consolidação da ortodoxia latina. As disputas anti-pelagianas obrigam a precisão conceitual da graça, da vontade e do pecado. No texto, a forma interrogativa não é expediente retórico, mas índice histórico da gênese do pensamento, uma vez que a Escritura institui o problema e o pensamento, para ser verdadeiro, deve-lhe resposta. A ocasionalidade pastoral do escrito não reduz sua densidade teórica. O que é produzido circunstancialmente adquire valor sistemático.
A partir dessa tensão hermenêutica, surge a implicação antropológica decisiva, i.e., o sujeito cristão é definido no cruzamento entre a dependência radical da gratia e a efetividade da voluntas. O drama do pecado e da salvação, embora não tematizado de modo direto, revela-se quando a atividade interpretativa confronta a economia narrativa do Evangelho. A subjetividade cristã é deduzida da demanda de sentido que o texto impõe.
A presente tradução sustenta-se na convicção de que o texto das Quaestiones representa uma forma específica do raciocínio agostiniano, que é a lógica do problema. A operação interpretativa se dá na fronteira entre o dado revelado e a necessidade do conceito. Preserva-se a sintaxe latina sempre que possível, bem como os termos que compõem o campo semântico e teológico do autor, evitando adaptações niveladoras.
Esta tradução foi realizada diretamente a partir do texto latino estabelecido na editio typica da Patrologia Latina (vol. 35), com cotejo à edição da Nova Bibliotheca Augustiniana. Adota-se o texto conforme a edição digital de referência. A escolha editorial assegura fidelidade máxima à forma textual que sustenta o argumento teológico e antropológico do escrito.
Com isso, busca-se restituir ao leitor aquilo que constitui a força filosófica desta obra, ou seja, a interpretação como lugar de verdade. A Escritura interpela. Agostinho responde. A verdade, aqui, não é anterior à leitura. Ela se forma na exigência da questão.
Quaestionum septemdecim in Evangelium secundum Matthaeum
Santo Agostinho
QUESTÃO 1. O que foi dito: os meninos mortos desde dois anos e abaixo significa que os humildes, possuindo dupla caridade (geminam caritas)[2], como pequeninos de dois anos, podem morrer por Cristo.
2. O que vos digo nas trevas (in tenebris), quando ainda estais no temor carnal (timore carnali), porque nas trevas está o temor, dizei na luz, na confiança da verdade, tendo recebido o Espírito Santo; e o que ouvis no ouvido (in aure), pregai sobre os tetos, isto é, o que ouvis em segredo; tendo sido calcada a morada da carne, pregai.
3. Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Pois vim separar o homem contra seu pai, porque alguém renuncia ao diabo, que fora seu pai[3]; e a filha contra sua mãe, isto é, o povo de Deus contra a cidade mundana (mundanam civitatem), isto é, a sociedade perniciosa do gênero humano, que ora pela Escritura é significada com o nome de Babilônia, ora de Egito, ora de Sodoma[4], ora com outros nomes diversos; a nora contra a sogra, isto é, a Igreja contra a Sinagoga, que segundo a carne gerou Cristo[5], esposo da Igreja; porém se dividem pela espada do espírito (gladio spiritus), que é a palavra de Deus[6]; e os inimigos do homem são os de sua casa, com os quais antes estava enredado pela familiaridade.
4. Mas o fato de que, descendo do monte, depois de haver dado ali preceitos aos discípulos e à multidão[7], cura imediatamente o leproso (leprosus), estendendo sua mão, significa que aqueles que duvidavam de cumprir tais preceitos são purificados por seu auxílio de tal variedade.
5. O que o Senhor disse ao escriba que quis segui-lo: As raposas têm tocas e as aves do céu têm moradas, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça, entende-se que, movido pelos milagres do Senhor, quis segui-lo por vã ostentação (inanem iactantiam), a qual é significada pelas aves; mas fingiu a obediência de discípulo, cuja ficção (fictio) é significada pelo nome das raposas; pela reclinação da cabeça, porém, significou sua humildade, a qual naquele simulador e soberbo não tinha lugar (locum).
6. Deixa que os mortos sepultem seus mortos. Aqui chama de mortos os que não creem; mas seus mortos aqueles que, do mesmo modo sem fé, saíram do corpo.
7. Sacudi o pó dos vossos pés, ou em contestação do labor terreno que em vão teriam assumido por eles, ou para mostrar que até tal ponto nada terreno buscavam deles, que nem mesmo o pó da terra deles permitiam aderir a si.
8. Sede, pois, prudentes como as serpentes, para evitar o mal guardando a cabeça, que é Cristo[8]; pois a serpente, em defesa da cabeça, expõe todo o corpo ao perseguidor. Ou porque, comprimindo-se nas estreitezas (angustias), despojada da túnica velha, renova-se, o que imitam aqueles aos quais foi dito: Entrai pela porta estreita[9], quando se despojam do homem velho[10]. Pois, se o mal fosse para ser evitado de modo que se resistisse violentamente aos maus, não teria dito antes: Envio-vos como ovelhas no meio de lobos. Quis, porém, que fossem simples como as pombas, para não fazer mal algum a ninguém; pois esse gênero de ave não mata absolutamente nenhum dos animais, não só os grandes, contra os quais não tem força, mas também os pequeníssimos, dos quais até mesmo os passarinhos minúsculos se alimentam. Existe, contudo, em todos os animais irracionais uma certa sociedade comum, assim como também entre os racionais, isto é, entre os homens, não só entre si, mas também com os anjos. Aprendam, portanto, pela semelhança das pombas, a nada absolutamente fazer mal a ninguém que pertença à sua sociedade pela participação da razão.
9. Confesso-te, Pai, Senhor do céu e da terra. Note-se que a confissão (confessionem) é posta em louvor de Deus; pois o Senhor não confessava pecados, os quais não tinha[11], sobretudo porque outro evangelista recorda que o disse em exultação[12]. Ainda que as próprias palavras que diz não deixem dúvida de que são ditas em louvor de Deus. Assim, a Escritura chama de confissão em geral tudo aquilo que se enuncia manifestamente, como se vê. Pois aquilo que diz: Se alguém me confessar (confitebor) diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai[13], ou, como está em outro lugar, diante dos Anjos de Deus[14], não confessa, certamente, pecados quem confessa Cristo. E se alguns pensam que se chama confissão por isso, porque o nome de Cristo era lançado como crime no tempo da perseguição, acaso também Cristo confessa diante do Pai ou dos Anjos o homem que o confessou? Está também no Eclesiástico: E direis isto na confissão: todas as obras do Senhor, pois são muito boas[15], lugar no qual, sem dúvida, são exaltados os louvores de Deus. Estas coisas foram ditas por causa da ignorância dos irmãos que, quando ouvem essa palavra sendo lida pelo leitor, batem logo no peito, sem atender ao contexto em que é dita, como se não pudesse haver confissão senão de pecados.
10. Deve-se notar, sobre o que aos judeus pareceu feito ilicitamente, que os discípulos arrancaram espigas no sábado, que foi dado um exemplo da potestade régia (regiae potestatis) em Davi, outro da sacerdotal naqueles que, pelo ministério do templo (ministerium templi), violam o sábado; para que o crime de arrancar espigas no sábado pertença muito menos àquele que é o verdadeiro rei e o verdadeiro sacerdote e, por isso, o Senhor do sábado.
11. 1. Quando, contudo, os homens dormiam, veio seu inimigo, e semeou zizania no meio do trigo e retirou-se. Quando mais negligentemente agissem os priores da Igreja, ou aceitassem o sono da morte os Apóstolos, veio o diabo e semeou aqueles que o Senhor interpreta como filhos maus. Mas corretamente se questiona se são hereges ou católicos vivendo mal. Podem, de fato, os filhos maus serem também hereges, porque do mesmo grão do Evangelho e do nome de Cristo são gerados, e por opiniões viciadas convertem-se a falsos dogmas. Mas quando diz que foram semeados no meio do trigo, parece significar aqueles que estão em uma única comunhão; contudo, visto que o Senhor interpretou o campo não como a Igreja, mas este mundo, bem se entendem os hereges, porque não se misturam com os bons[16] pela sociedade de uma única Igreja ou de uma única fé, mas pela sociedade do nome cristão neste mundo, de modo que aqueles que são maus na mesma fé sejam considerados palha e não zizania, pois a palha também possui fundamento comum com o trigo e a raiz comum. Naquela rede em que se encerram os peixes bons e maus[17], não é irrazoável entender os maus católicos. Porque outro é o mar, que mais representa este mundo, outro a rede, que parece mostrar a comunhão de uma única fé ou Igreja. Entre hereges e maus católicos há a diferença de que os hereges creem falsamente, enquanto estes últimos, crendo na verdade, não vivem conforme creem.
11. 2. Costuma-se também questionar em que os cismáticos (schismatici) diferem dos hereges, e encontra-se que não é a fé diversa que os distingue, mas a sociedade da comunhão rompida. Contudo, se devem ser contados entre as zizania, pode-se duvidar. Mais parecem semelhantes às espigas corrompidas, como está escrito: O filho iníquo (filius iniquus) será corrompido pelo vento[18], ou pela palha das espigas quebradas ou cortadas e levadas da segeta. Quanto mais altos, isto é, soberbos, mais frágeis e leves são. Não se segue, contudo, que todo herege ou cismático deva ser separado corporalmente da Igreja. Pois se crê falsamente sobre Deus ou sobre alguma parte da doutrina pertinente à edificação da fé[19], de modo que não seja temperado pela hesitação do buscador, mas crê inabalavelmente sem plena ciência, é herege e está fora em espírito, embora interiormente aparente estar corporalmente. Muitos tais a Igreja suportam, porque não defendem falsidade de modo a causar grande multidão; se assim fizessem, seriam então excluídos. Igualmente, qualquer que inveje os bens, buscando ocasiões para excluir ou degradar outros, ou pronto para defender seus crimes se denunciados, já é cismático (schismaticus) e separado de coração da unidade, mesmo que não se associe corporalmente à Igreja por sacramento.
11. 3. Por isso, apenas aqueles católicos maus são corretamente designados, que, embora acreditem nas verdades pertinentes à doutrina da fé, e mesmo que ignorem algo ou considerem necessário buscar, discutem com piedade sem prejuízo da verdade, e amam e honram os bons ou aqueles que consideram bons, ainda que vivam flagrantemente e criminosamente contra o que creem ser o modo de viver. Tais, mesmo se delatados ou acusados, corrigidos pela disciplina da Igreja ou suspensos da comunhão, de modo algum consideram-se desligados da comunhão católica, buscando lugar para satisfação segundo lhes for permitido. E às vezes, pela penitência, são transformados em frutos, sejam corrigidos ou afastados, ou mesmo assustados sem menção nominal pela palavra de Deus. Outras vezes, mesmo sob o nome de penitentes, vivem como costumam, ou pouco menos, alguns até mais; de modo algum, entretanto, se afastam da unidade católica. Aos que assim vivem, se a morte os alcança, são considerados palha até o fim. Isto também eles creem; pois se creem de outro modo e sustentam firme, já devem ser contados entre os hereges, acreditando que Deus dará perdão a todos, mesmo em grande iniquidade, até o fim da vida, apenas porque não mantiveram a unidade da Igreja por sincero amor, mas mais por temor das penas. Portanto, não creem firmemente nisso, embora talvez ainda investiguem; mas são mais enganados pela esperança de postergação, imaginando viver mais tempo e eventualmente mudarem hábitos perdidos para melhor. Contra eles é dito: Não demores em voltar a Deus, nem difere de dia em dia; sua ira virá subitamente, e no tempo da vingança te destruirá[20]; convertem-se, de fato, aqueles que começam a viver corretamente. Isso é retornar a Deus. Os que seguem suas concupiscências perseverantemente, de certo modo têm as costas voltadas a Deus[21], embora, estando na unidade, muitas vezes tentem olhá-Lo com o pescoço torcido. Por isso, estes, como diz o profeta, são carne e espírito caminhando sem retorno[22]. Todavia, como dito, por causa da mesma fé e unidade da Igreja, nem entre as zizania, pois estão arrancadas da raiz, nem entre a palha das espigas, que ousa sobrepor-se dura aos grãos, mas mesmo sujeita aos grãos, contam-se entre a palha que deve ser separada por última ventilação[23].
11. 4. Bons católicos são aqueles que seguem fé íntegra e bons costumes. Quanto à doutrina da fé, buscam, se algo precisam buscar, para evitar conflito perigoso entre buscador ou com quem busca, ou ouvintes de quem discute. Assim ensinam, se algo devem ensinar, que insiram com segurança, confiança e suavidade o habitual e confirmado; o inusitado, mesmo se perceberam com clareza, deve ser apresentado como busca e não comando, devido à fragilidade do ouvinte. Se a verdade tem peso tal que excede forças do discípulo, deve ser suspensa para crescer, não imposta para esmagar o pequeno. Daí a palavra do Senhor: Quando o Filho do Homem vier, encontrarás fé na terra?[24]. Daí aquela palavra do mesmo Senhor: Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não as podeis suportar agora[25]. No que diz respeito, porém, aos costumes, isto é dito de modo bom e conciso: ou é preciso lutar contra o amor dos bens temporais, para que ele não vença; ou, se já domado, deve ser submisso, de modo que, quando começar a erguer-se, possa ser facilmente reprimido; ou, ainda, deve estar de tal modo extinto, que de nenhum modo se mova. Disso resulta que alguns enfrentam a própria morte pela verdade com fortaleza, outros com equanimidade, outros com alegria. Esses três modos são os frutos da terra fértil: trinta, sessenta e cem[26]. Em algum desses graus deve o homem ser encontrado no tempo de sua morte, se deseja sair desta vida com reta disposição de espírito.
11. 5. Devem ser toleradas não apenas as zizania até a colheita, que, quando o diabo semeou com erros e falsas opiniões, isto é, quando sobrepôs heresias pelo nome de Cristo, mais se ocultou e fez-se ocultíssimo, ou seja, retirou-se, mas também a palha até a ventilação[27]. Não se prova mais fortemente a densidade dos grãos, senão pelas perturbações da palha, que não pode pressionar, se defendida pela verdade, cedendo com unidade mantida. Embora nesta parábola o Senhor, como concluiu em sua explicação, signifique não apenas alguns, mas todos os escândalos e aqueles que fazem iniquidade pelo nome de zizania.
11. 6. Quando a erva cresceu e deu fruto, então apareceram as zizania. Pois, quando o homem espiritual (spiritalis homo) começou a discernir tudo[28], então os erros lhe começam a aparecer. Os servos disseram-lhe: Queremos ir e colher? Seriam estes os servos que pouco depois chama de ceifeiros (messoribus)? Ou porque na exposição da parábola os ceifeiros foram ditos anjos, ninguém ousou facilmente dizer que os anjos não sabiam quem semeou as zizania, e que apareceram aos anjos quando a erva deu fruto; mais corretamente devem-se entender os próprios homens fiéis, aqui significados pelo nome de servos, a quem também chama boa semente? Não é estranho que a boa semente também seja chamada de servos do pai da família, como disse de si mesmo que é a porta e pastor[29]. Pois uma mesma coisa, de diferentes significações, recebe múltiplas e diversas similitudes, especialmente quando fala aos servos, não dizendo: Na hora da colheita direi: colham primeiro as zizania, mas: direi aos ceifeiros. Assim se entende que outras são as funções para queimar as zizania, e nenhum filho da Igreja deve assumir esta função.
11. 7. Quando, portanto, alguém começa a ser espiritual, conhece os erros dos hereges e julga completamente tudo o que ouviu ou leu, em repulsa à regra da verdade; mas até que seja aperfeiçoado nesses espirituais e de certo modo amadureça no fruto que a erva deu, pode mover-se sobre o motivo pelo qual tantas falsidades de hereges existiram sob nome cristão. Daí os servos dizem: Não semeaste bom semente em teu campo? De onde vêm então as zizania? Então, ao perceber que o diabo inventou esta fraude, e sentindo-se incapaz contra a autoridade de tão grande nome para encobrir suas falácias com o mesmo nome, sua vontade pode ser subornada para remover tais homens das coisas humanas, se houver oportunidade; mas se deve fazer, a justiça de Deus consulta, se deve ordenar ou permitir, e se é função dos homens. Por isso os servos dizem: Queres que vamos recolhê-la? À qual a própria Verdade responde que o homem não está constituído nesta vida de forma a saber certamente qual será seu futuro, ou como seu erro contribuirá ao progresso dos bons, e, portanto, tais não devem ser removidos nesta vida, para não matar bons ao tentar matar maus, que poderiam ser futuros, ou úteis aos bons mesmo contra vontade; mas deve ser oportuno, quando no fim não resta tempo de mudança de vida ou progresso para a verdade pela comparação com o erro alheio; então isso não é feito por homens, mas por anjos. Daí responde o pai da família: Não, para que, ao colher, não arranquem trigo com a zizania. Mas na hora da colheita direi aos ceifeiros etc.”, e assim os torna pacientes e tranquilos.
11. 8. Pode-se questionar por que diz: Amarrem feixes para queimar, e não um único feixe ou monte de zizania, senão talvez pela variedade de hereges, e não apenas discrepantes do trigo, mas de si mesmos, cada conventículo próprio da heresia, nos quais individualmente estão ligados pela sua comunhão, significou pelo nome de feixes, para que desde então comecem a ser amarrados para queimar, quando segregados da comunhão católica começaram a ter suas próprias igrejas, para que a queima seja no fim do século, conforme a persistência do erro de cada um. Se assim fosse, não muitos se converteriam ao remeter-se à católica. Por isso, a amarração dos feixes será no fim, para punir a pertinácia do erro de cada um, não confusamente.
11. 9. Para que não arranquem trigo junto com a zizania. Ou porque os bons, ainda frágeis, precisam de alguma mistura dos maus, seja para exercício ou comparação, para maior estímulo a melhorar; se removidos, a altura da caridade murcha, o que é arrancar – como diz o Apóstolo: Para que, enraizados e fundados em caridade, possais compreender[30]. Ou talvez porque muitos primeiro são zizania e depois trigo, que, se não suportados pacientemente enquanto maus, não alcançam mudança louvável; e se arrancados, o trigo que seriam se extingue junto.
12. [13.] O reino dos céus é semelhante a um homem negociante que procura boas pérolas. E, tendo encontrado uma pérola preciosa, foi, vendeu tudo o que possuía e a comprou. A questão é por que passou do número plural ao singular, de modo que, quando o homem busca boas pérolas, encontra uma preciosa, a qual, vendendo tudo o que possui, compra. Portanto, ou esse homem, procurando bons homens com os quais viva utilmente, encontrou um por todos, sem pecado[31], mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus[32]; ou, buscando os mandamentos, pelos quais, observando-os, se comporte retamente com os homens, encontrou o amor ao próximo, no qual, segundo o Apóstolo, tudo está contido: não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, e se há outro mandamento, sejam as pérolas singulares, que neste discurso são recapituladas: amarás o teu próximo como a ti mesmo[33]. Ou o homem de bons entendimentos busca e encontra aquele único em quem todos estão contidos: no princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus[34], luminoso pela candura da verdade (candore veritatis) e sólido pela firmeza da eternidade, e por toda parte semelhante a si mesmo na beleza da divindade, o qual deve ser compreendido como Deus penetrando a carapaça da carne (carnis testudine). Pois ele já havia chegado à própria pérola, a qual, nas coberturas da mortalidade, como que sob o obstáculo das conchas, havia estado oculta nas profundezas deste século e entre as durezas pétreas dos judeus. A esse, portanto, já tinha chegado à pérola o que disse: E se conhecíamos Cristo segundo a carne (carne), agora já não o conhecemos[35]. E nenhum intelecto (intellectus) é digno do nome de pérola, senão aquele ao qual se chega, dissipadas todas as coberturas carnais, pelas quais, seja por palavras humanas (verba humana), seja por similitudes circundantes (similitudines circumpositas), é coberto, para que seja visto puro, sólido e em nenhuma parte dissonante de si mesmo, por razão certa (certa ratione). Contudo, todos esses intelectos verdadeiros, firmes e perfeitos são contidos por aquele único por meio de quem todas as coisas foram feitas[36], que é a Palavra de Deus. Qualquer que seja, pois, desses três, ou se outro ocorrer que possa ser bem significado pelo nome de uma única e preciosa pérola, o seu preço somos nós mesmos (nos ipsos), que, para possuí-la, não somos livres, a não ser desprezando tudo o que possuímos temporalmente por nossa libertação. Pois, vendendo nossas coisas, não recebemos delas preço maior do que a nós mesmos, porque não estávamos tão implicados nelas, que novamente nos demos por aquela pérola, não porque ela valha tanto, mas porque mais não podemos dar.
13. 1. [14.] E fecharam os seus olhos, para que não vejam com os olhos, isto é, eles mesmos foram a causa de que Deus lhes fechasse os olhos. Pois outro evangelista diz: Cegou os olhos deles. Mas se foi para que nunca vejam, ou para que, assim, ao menos um dia vejam, desagradando-se de sua cegueira, sofrendo e, por isso, humilhados e comovidos à confissão de seus pecados e à piedosa busca de Deus, assim Marcos o diz: Para que, de algum modo, se convertam e lhes sejam perdoados os pecados[37]. Entende-se, portanto, que mereceram, por seus pecados, não compreender, e, contudo, isso mesmo lhes foi feito misericordiosamente, para que reconhecessem seus pecados e, convertidos, merecessem perdão. O que João, porém, diz assim: Por isso não podiam crer, porque Isaías novamente disse: cegou os olhos deles e endureceu o seu coração, para que não vejam com os olhos e compreendam com o coração e se convertam, e eu os cure[38], parece contrariar este sentido e força-nos a entender que o dito para que não vejam com os olhos não se deve tomar como para que assim um dia vejam, mas sim para que absolutamente não vejam, já que diz abertamente: para que não vejam com os olhos. E ao dizer por isso não podiam crer, mostra claramente que essa cegueira não foi feita para que, comovidos e tristes por não entenderem, se convertessem algum dia pela penitência; pois não poderiam fazê-lo, a não ser que primeiro cressem, para que, crendo, se convertessem, convertendo-se fossem curados, e, curados, entendessem; mas antes foram cegados para que não cressem, como ele mesmo diz abertamente: por isso não podiam crer.
13. 2. Mas, se é assim, quem não se levantaria em defesa dos judeus, para proclamar que estavam sem culpa por não terem crido? Pois não podiam crer porque Deus cegou seus olhos[39]. Mas, como Deus deve ser entendido como isento de culpa, somos obrigados a confessar que, por outros pecados, mereceram ser assim cegados; por essa cegueira, contudo, não puderam crer. Pois as palavras de João são: Por isso não podiam crer, porque Isaías novamente disse: cegou os olhos deles. Em vão, portanto, tentamos entender que foram cegados para que se convertessem, quando não podiam converter-se porque não criam, e não podiam crer porque estavam cegos. Ou talvez não seja absurdo dizer que alguns judeus eram curáveis, mas, tendo caído em tão grande tumor de soberba (superbiae tumore), convinha-lhes primeiro não crer e terem sido cegados para não entenderem o Senhor falando por parábolas, e, não as entendendo, não crerem nele; e, não crendo, crucificassem-no com os outros desesperados, e assim, depois da sua ressurreição, se convertessem, já mais humilhados pela culpa da morte do Senhor e o amassem mais intensamente, de quem se alegravam por lhes ter sido perdoado tão grande crime; pois tal era a sua soberba, que somente por tal humilhação podiam ser abatidos. Que isso não é incongruente pode julgar qualquer um que leia claramente nos Atos dos Apóstolos que assim aconteceu[40]. Não, portanto, se opõe o que diz João, por isso não podiam crer, porque cegou os olhos deles, para que não vejam, à sentença pela qual entendemos que foram cegados para que se convertessem[41], isto é, para que, por meio das obscuridades das parábolas, as sentenças do Senhor lhes fossem ocultadas, de modo que, depois da ressurreição, se arrependessem mais salutarmente. Pois, cegados pela obscuridade do discurso, não entenderam as palavras do Senhor; e, não entendendo, não creram nele; e, não crendo, o crucificaram; e assim, após a ressurreição, aterrorizados pelos milagres feitos em seu nome, compungidos pela culpa maior, prostraram-se em penitência, receberam indulgência e converteram-se com obediência inflamados de ardente amor (dilectione).
13. 3. Quanto àqueles para quem essa cegueira não serviu à conversão, que se produzia pela linguagem das parábolas, o profeta diz noutro lugar, o que também o Apóstolo recordou ao tratar da obscuridade das línguas: Em outras línguas e com outros lábios falarei a este povo, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor[42]. Pois não se diria nem assim me ouvirão, se não fosse feito para que, ao menos assim, me ouvissem; isto é, para que lhes servisse à humilde confissão, à busca solícita, à conversão obediente e ao amor fervente. E isso é análogo também na medicina do corpo (medicinae corporalis): muitos remédios (medicamenta) primeiro afligem para curar, e os próprios colírios (colliria), quando é necessário que sejam aplicados internamente, se primeiro não fecham e perturbam o sentido da visão, não podem ser eficazes.
13. 4. Nem deve inquietar que o mesmo profeta diga: Se não crerdes, não entendereis (Nisi credideritis non intellegetis)[43], como se fosse contrário ao que João disse: Por isso não podiam crer, porque cegou os olhos deles[44], isto é, porque aquelas parábolas foram ditas de modo que não pudessem ser entendidas. Pois alguém dirá: se para entender deviam crer, como é que não podiam crer porque não entendiam, isto é, porque Deus cegou seus olhos? Mas o que Isaías disse: se não crerdes, não entendereis, refere-se àquela compreensão em que se há de permanecer sempre, das coisas inefáveis (ineffabilium); mas quando se diz que algo deve ser crido, não pode ser crido o que não é ao menos inteligido. Portanto, é necessário entender o que foi dito, para crer no que pode ser dito; e crer no que pode ser dito, para entender o que não pode ser dito.
14. [15.] E sem parábolas (parabolis) não lhes falava, não porque nada tenha dito propriamente, mas porque quase nenhum discurso proferiu em que não tenha significado algo por parábola, embora nele também tenha dito algumas coisas propriamente, de modo que frequentemente se encontre um discurso seu todo explicado por parábolas, mas nenhum completamente sem elas. Falo dos discursos explicados, isto é, aqueles em que, a partir de alguma ocasião de fatos, começa a falar até concluir tudo o que pertence ao mesmo assunto e passa a outro. Às vezes, contudo, um evangelista conecta o que outro indica ter sido dito em tempos diversos, pois não seguiu estritamente a ordem dos fatos (rerum gestarum ordinem), mas cada um, segundo a capacidade de sua memória (recordationis), ordenou o relato que começou.
15. [16.] Entendestes todas estas coisas? Dizem-lhe: Sim. Ele lhes disse: Por isso todo escriba instruído (scriba doctus) no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas (nova et vetera). Ou quis com esta conclusão expor o que disse ser o tesouro escondido no campo (thesaurum in agro absconditum)[45], a saber, as Sagradas Escrituras, que se compreendem sob o nome dos dois Testamentos, Novo e Velho; assim como em outro evangelista parece expor pela conclusão da espada de dois gumes (gladium bis acutum)[46]. Ou, porque falou estas coisas em parábolas e, tendo-lhes perguntado se as entenderam, responderam que sim, talvez com essa última semelhança do pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas quis mostrar que deve ser tido por douto na Igreja aquele que compreendeu também as Escrituras antigas explicadas pelas parábolas, tomando delas as regras destas novas, pois também estas o Senhor pronunciou em parábolas, embora o próprio Cristo fosse o fim delas (finis illorum)[47], isto é, para que nelas se cumprissem e se manifestassem; e, se o próprio Cristo, em quem se cumprem e se revelam, ainda fala por parábolas até que sua paixão rasgue o véu (passio velum discindat)[48], de modo que nada fique oculto que não seja revelado[49], quanto mais devemos saber que aquelas que, de tão longe, foram escritas sobre ele para a recomendação de tão grande salvação, estavam cobertas por parábolas, as quais os judeus, tomando-as à letra, não quiseram ser doutos no reino dos céus, nem passar a Cristo, para que fosse tirado o véu que está posto sobre o seu coração[50].
16. 1. [17.] Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas, e suas irmãs, não estão todas entre nós? Donde, pois, a este tudo isso? E escandalizavam-se nele. Que entre os judeus o nome ‘irmãos’ costume ser usado para designar parentes (cognatos) até se prova a tal ponto que, não só entre aqueles do mesmo grau de geração, como os filhos de irmãos e de irmãs, que também entre nós são chamados comumente irmãos, mas também o tio materno (avunculus) e o filho da irmã, como Jacó e Labão entre si, são encontrados chamados irmãos[51]. Não é, pois, de admirar que sejam chamados irmãos do Senhor quaisquer parentes do lado materno, já que também, pela parentela de José, puderam ser chamados irmãos por aqueles que o julgavam pai do Senhor.
16. 2. A justiça geral (generalem iustitiam) não é violada por alguém senão quando transgride por concupiscência (libidine), ou o pacto da sociedade humana, como no furto, roubo (rapina), adultério, incesto, e coisas semelhantes; ou a natureza, como na injúria, no homicídio, no coito com homens ou com animais; ou a medida no uso das coisas permitidas, como é bater mais do que convém em um servo ou filho, comer ou beber mais do que convém, ou mesmo com a própria esposa mais do que convém, e semelhantes.
16. 3. Com razão se entende que o Espírito Santo deu primeiro aos homens o dom das línguas[52], que foram instituídas pelo pacto e convenção dos homens, e são aprendidas externamente pelos sentidos corporais pela prática da audição, para mostrar-lhes quão facilmente poderia torná-los sábios pela sabedoria de Deus que é neles interiormente.
16. 4. De modo semelhante, a vontade do Verbo eterno (Verbi sempiterni) é sempre estável, porque possui todas as coisas ao mesmo tempo; mas nossa vontade não permanece, porque não tem tudo simultaneamente; por isso, ora queremos isto, ora aquilo. Assim também estavam naquele Verbo todas as coisas que foram feitas, e a própria assunção do homem foi por ele prevista, como se o pintor, querendo pintar uma casa inteira, pensasse ou soubesse o lugar onde também deve pintar a si mesmo: tem tudo na arte, na preparação e na vontade, ainda que desenvolva cada parte em seu tempo. Assim toda criatura e o próprio homem, que havia de representar a pessoa daquela mesma Sabedoria pela assunção mística e inefável, sempre esteve nessa Sabedoria, como que na arte eterna de Deus, embora em tempos próprios se realize o que ela dispôs, pois ela atinge com força de um extremo ao outro e dispõe tudo suavemente[53], e permanecendo em si, renova todas as coisas[54].
16. 5. De igual modo, como alguém poderia desejar querer morrer, se assim tivesse chegado a querer morrer, aquele que já possui fé sã e vê aonde deve chegar, para este já progride de tal modo que se aparta desta vida de bom grado. Pois ver para onde se deve chegar não é apenas isso, mas também amar aquilo (amare illud) e desejar ali já estar, o que, uma vez produzido no espírito, é necessário para que se morra de bom grado. Por isso, em vão dizem alguns, que já possuem fé sã, que não querem morrer para progredir, quando, de fato, o próprio progresso deles consiste em querer morrer. Portanto, se quiserem falar a verdade, não digam: ‘Por isso não quero morrer para progredir’, mas: ‘Por isso não quero morrer, porque progredi pouco’. Assim, o não querer morrer dos fiéis não é conselho para progredir, mas sinal de que progrediram pouco. Consequentemente, aquilo que não querem, que sejam perfeitos, o desejam, e são perfeitos.
Matheus dos Reis Gomes
Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Agradecimentos
Este trabalho contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Referências Bibliográficas
AGOSTINHO. Aurelii Augustini Quaestionum septemdecim in Evangelium secundum Matthaeum liber unus. Opera Omnia PL 35. NBA. Disponível: https://www.augustinus.it/latino/questioni_matteo/index.htm Acesso em: 13 out. 2025
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[1] Tradução realizada diretamente do texto latino estabelecido na editio typica da Patrologia Latina (vol. 35), conforme a edição crítica da Nova Bibliotheca Augustiniana (NBA). Adota-se o texto latino conforme disponível na edição digital de referência (https://www.augustinus.it/latino/questioni_matteo/index.htm), respeitando a ortografia e a pontuação do original, bem como as subdivisões internas do tratado. Todas as opções tradutórias foram orientadas pela busca de precisão filológica e pela preservação da estrutura sintática e semântica do latim agostiniano, evitando-se adaptações estilísticas ou paráfrases interpretativas.
[2] Cf. Mt 22, 37-40.
[3] Cf. Jo 8, 44.
[4] Cf. Ap 11, 8.
[5] Cf. Rm 9, 5.
[6] Cf. Ef 6, 17.
[7] Cf. Mt 5-7.
[8] Cf. 1Cor 11, 3.
[9] Mt 7, 13.
[10] Cf. Cl 3, 9.
[11] Cf. 1Pd 2, 22.
[12] Cf. Lc 10, 21.
[13] Mt 10, 32.
[14] Lc 12, 8.
[15] Eclo 39, 20-21.
[16] Cf. Mt 3, 12.
[17] Cf. Mt 13, 47-50.
[18] Pr 10, 5.
[19] Cf. Ef 4, 29.
[20] Eclo 5, 8-9.
[21] Cf. Jr 32, 33.
[22] Sl 77, 39
[23] Cf. Mt 3, 11.
[24] Lc 18, 8.
[25] Jo 16, 12.
[26] Cf. Mt 13, 8.23.
[27] Cf. Mt 3, 12.
[28] Cf. 1 Cor 2, 15.
[29] Cf. Jo 10, 7.11.
[30] Ef 3, 17-18.
[31] Cf. 2Cor 5, 21.
[32] Cf. 1Tm 2, 5.
[33] Rm 13, 8-9.
[34] Cf. Jo 1, 1.
[35] 2Cor 5, 16.
[36] Cf. Jo 1, 3.
[37] Mc 4, 12.
[38] Jo 12, 39-40.
[39] Jo 12, 39-40.
[40] Cf. At 2, 36-41.
[41] Cf. Mc 4, 12.
[42] 1Cor 14, 21-25; Is 28, 11
[43] Is 7, 9 (segundo a LXX).
[44] Jo 12, 39-40.
[45] Cf. Mt 13, 44.
[46] Cf. Ap 1, 16.
[47] Cf. Rm 10, 4.
[48] Cf. Mt 27, 51.
[49] Cf. Mt 10, 26.
[50] Cf. 2Cor 3, 15-16.
[51] Cf. Gn 29, 13-15.
[52] Cf. At 2, 4.
[53] Sb 8, 1.
[54] Sb 7, 27.