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Para entender o Método Materialista Histórico-Dialético[1]

Understanding the Materialist Method Historical-Dialectic

Miguel Alfredo Orth

0000-0002-4516-1815

Miorth2@yahoo.com.br

UFPel – Universidade Federal de Pelotas

Recebido: 01/10/2025

Received: 01/10/2025

Aprovado: 24/11/2025

Approved: 24/11/2025

Publicado: 26/01/2026

Published: 26/01/2026

Resumo

Neste artigo objetivamos apresentar e discutir o método dialético a partir de três teóricos que discutem o Método Dialético de Karl Marx. Metodologicamente trabalhamos com a revisão de literatura da área, bem como buscamos conhecer, discutir e trabalhar com o Método Dialético de Pesquisa. Quanto aos resultados, cabe destacar que os autores estudados (Cheptulin, Kosik e Triviños) revelam utilizar metodologias qualitativas em suas pesquisas, no entanto, cada um apresenta e discute aspectos específicos e ou questões específicas da Metodologia Qualitativa. Triviños, no entanto, buscava pensar e escrever colaborativamente seu caminho metodológico, bem como orienta seus neófitos a desenvolverem suas pesquisas com base no Método Materialista Histórico-Dialético, o qual busca privilegiar os fenômenos materiais e qualitativos do método Materialista Histórico Dialético, bem como busca identificar as categorias principais e as categorias secundárias, bem como, busca vivenciar as ligações entre o que se faz e o que se pesquisa, entre outros aspectos do método dialético.

Palavras-chave: Materialismo Histórico-Dialético; Filosofia da Educação; Sociologia da Educação; Pesquisa qualitativa.

Abstract

In this article, we objectively present and discuss the dialectical method of three theorists who discuss Karl Marx's dialectical method. Methodologically we work with literature review of the field, as well we seek to understand, discuss and work with the Dialectical Search Method. Regarding the results, it is worthy highlight that the authors studied (Cheptulin, Kosik Triviños) revealed to use qualitative research methodologies, however, they all present and discuss specific aspects and issues of Qualitative Methodology. Triviños, however, aimed to collaboratively think and write during his methodological path, as well as he guided his neophytes to develop their search based on the Materialist Method Historical-Dialectic, that seeks to prioritize the study of material and qualitative phenomena of the Materialist Historical-Dialectic, furthermore request to identify the main and secondary categories and experience the connection between what is done and what is researched, among other aspects of the dialectical method.

Keywords: Historical-Dialectical Materialism; Philosophy of Education; Sociology of Education; Qualitative Research.

Algumas considerações iniciais

A Dialética e ou o Método Dialético, em função da atual polarização política, muitas vezes assusta empresários e trabalhadores das diferentes áreas, visto que a direita busca associar constantemente o próprio Método Dialético ao socialismo ou ao marxismo, o que é uma inverdade, já que estamos falando de um método científico que busca descobrir a verdade por meio da tese, da antítese e da síntese. Além disso, a literatura da área, costuma resumir esse método em quatro grandes vertentes, quais sejam: o Método Dialético de Hegel; Dialética do Concreto de Karel Kosik; A Dialética Materialista de Alexandre Cheptulin e o Método Materialista Histórico-Dialético (MMHD) de Karl Marx. Porém, ao individualizarmos a dialética nestas vertentes, não queremos negar a existência de outras vertentes, já que muitos teóricos, ao tentarem buscar aclarar diferentes aspectos da dialética marxista, ou ao buscarem aprofundar alguns pontos do Método Dialético, criam abordagens metodológicas novas na área.

Por este motivo, procuramos discutir neste artigo os quatro métodos de pesquisa acima mencionados, a partir de um conjunto de artigos científicos, escritos sobre o tema e que discutem algumas categorias desse método de pesquisa. Além disso, buscamos reler o método de Hegel, Marx, Kosik, Cheptulin, no intuito de buscar, problematizar e compreender melhor o MMHD de pesquisar que o professor Augusto Nibaldo Silva Triviños (chileno com formação germânica) buscou sistematizar a partir das obras de Karl Marx e seus adeptos[2]. Portanto, é uma pesquisa eminentemente teórica, que ajuda a entender mais e melhor o MMHD de Marx em si, nos auxiliando na compreensão e no uso dessa metodologia de pesquisa na prática educativa diária.

Deste modo, nós nos propusemos a buscar, selecionar, conhecer, discutir, reconstruir, compartilhar e   divulgar este método de ensino e de pesquisa, bem como o de auxiliar os neófitos e os estudiosos da área, a encontrarem um caminho mais plausível e didático para se aproximarem do Método Materialista Histórico-Dialético (MMHD) de ensino e de pesquisa de Karl Marx.

Além disso, realizamos um levantamento bibliográfico que nos levou a diferentes questionamentos sobre o tema desta pesquisa, como o de aprofundar o nosso entendimento e a nossa prática em torno do Método Materialista em si, bem como passamos a problematizar esse método, a partir dos quatro teóricos acima mencionados, no intuito de estudarmos um conjunto de categorias e leis complementares da dialética. Além disso, buscamos privilegiar alguns aspectos e algumas categorias específicas para qualificarmos esta nossa pesquisa. Como aliás, já o afirmamos, consideramos oportuno também pensar e discutir essa metodologia de pesquisa para auxiliar mais educandos e professores em seus Processos Educativos de ensino e de pesquisa.

Para dar conta deste nosso objetivo, procuramos sistematizar o MMHD, enquanto mais um caminho metodológico possível para se introduzir os neófitos no mundo do ensino e da pesquisa. Para tornar esta discussão mais didática, dividimos o presente estudo em cinco subitens. Inicialmente buscamos explicitar o Método Dialético, bem como delimitamos o presente estudo, a partir do método privilegiado, entre outras considerações iniciais. Com base nos objetivos acima explicitados, procuramos aprofundar um conjunto de saberes sobre o método qualitativo de pesquisa. Assim, partimos da leitura base de cada teórico acima mencionado e que se inspiraram na proposta metodológica de Marx. A partir dessa proposta metodológica, procuramos explicitar o caminho a seguir.

Na sequência, definimos o campo teórico que embasa e perpassa a presente pesquisa, a partir da obra de Hegel sobre a Dialética, cuja teoria Marx virou de cabeça para baixo, ao partir do real e do concreto, na busca de uma proposta metodológica própria e que ele denomina de MMHD. Mais tarde, Kosik escreveu um livro (1963) sobre esse método, ao que chamou de Dialético do Concreto; alguns anos mais tarde, Cheptulin escreveu o livro Dialético Materialista (1975). No final do século XX, depois de realizadas muitas pesquisas sobre o método Dialético ou Método Materialista, os pesquisadores da área observaram que há muita confusão sobre este método, motivo pelo qual, Triviños entre outros teóricos materialistas, começaram a pesquisar o método de Marx em todas as suas obras.

Aliás, Marx não sistematizou o seu método de ensino em uma obra específica, mas nos deixou um conjunto de fragmentos de seu método de ensino e de pesquisa nos diferentes livros que foi escrevendo ao longo de sua vida, no intuito de valorizar a realidade e o concreto. Isso porque Marx entendia que os seus adeptos deveriam ser desafiados a lerem e a se apropriarem deste seu método de ensino e de pesquisa, por meio da leitura de grande parte de suas obras, o que dificultava muito o processo de apropriação deste seu método de ensino e de pesquisa.

Com base nessa discussão sobre o método e a dialética, também temos claro que o Método Dialético é uma maneira de analisarmos e entendermos o mundo ao nosso redor, baseados na ideia de que tudo está em constante movimento, em constante mudança, e que a história é fruto de um conjunto de conflitos e de contradições resolvíveis, já que envolvem o ser humano. Assim, o método dialético busca compreender a realidade por meio da pesquisa, da análise, da discussão e da tomada de decisões teóricas e práticas entre as pessoas, no intuito de se gerar mudanças teóricas e práticas, nos diferentes sistemas de ensino e de suas pessoas (Silva, 2019).

E mais, esses processos de mudança que envolvem o método dialético, “[...] tal como, proposto por Hegel e Marx, é justamente uma tentativa de se pensar o mundo integrando as diferentes esferas contraditórias do real” (Zago, 2013, p. 111). Assim, propomos utilizar o Método Dialético como caminho metodológico para pensar, discutir e empreender, por meio de ações e de interações dialéticas, no intuito de gerar novos caminhos para se chegar a um determinado conhecimento e ou, para se construir uma determinada sociedade.

Aliás, esse movimento, segundo Marx e Engels (1818-83), pode ser visto sempre que observarmos o pensamento desses teóricos, que se distinguem dos teóricos de outras correntes filosóficas, por criarem uma abordagem metodológica própria. Sim, Marx, mesmo fundamentando a sua teoria em Hegel, procurou inverter a lógica hegeliana da dialética, motivo pelo qual Marx, ainda no início de seus estudos, criticou o “lado mistificador da dialética hegeliana”. Aliás, ele reconheceu que Hegel foi “[...]o primeiro [estudioso] a apresentar, de modo abrangente e consistente, as formas gerais do movimento”, o que, no entanto, não o impediu de fazer duras críticas à dialética hegeliana (Nakamura, 2022, p. 79).

Como é possível abstrair da discussão acima, tanto Hegel como Marx e Engels têm a sua ancoragem teórica ligada ao Método Dialético, porém Hegel, como um bom idealista, parte da essência e depois busca especificar o caminho que o ser humano precisa percorrer para chegar a essa idealidade. Já Marx parte do real, do concreto e, a partir deste concreto, busca chegar a um caminho alternativo, capaz de distribuir melhor a riqueza entre as pessoas, cujas relações buscam valorizar mais a democracia e a cidadania. Segundo Nakamura:

[...] Marx não apresenta um método dialético completamente próprio, mas sim utiliza elementos da dialética hegeliana em sua crítica à Economia Política. Exemplo disso [é a] sua análise da maquinaria e da grande indústria, no monopólio do capital e das empresas de capital aberto, onde ele aplica conceitos dialéticos para entender e criticar as contradições do modo de produção capitalista (Nakamura, 2022, p. 78).

Assim, Marx não só mudou seu método de pesquisa, como também modificou e criou categorias novas, as quais passaram a gerar a nova dinâmica para se pesquisar, discutir, elaborar e divulgar o conhecimento científico. Categorias e leis essas que se encontram inseridas no método dialético Materialista, o qual começou a gerar um novo processo de pesquisa e de construção do conhecimento. Para Pires (2018, p. 83), o Método Materialista,

[...] se caracteriza pelo movimento do pensamento através da materialidade histórica da vida dos homens em sociedade, isto é, trata-se de descobrir (pelo movimento do pensamento) as leis fundamentais que definem a forma organizativa dos homens em sociedade através da história. Este instrumento de reflexão teórico-prático pode ser colocado para que, a realidade educacional aparente [...dos] educadores, [possa ser] superada, buscando-se então a realidade educacional concreta, pensada, compreendida em seus mais diversos e contraditórios aspectos (Pires, 2018, p. 83 [grifo do autor]).

Além disto, cabe destacar que Marx não se preocupou tanto em escrever um livro específico para explicar o Método de trabalho e de pesquisa, por ele sistematizado no livro intitulado: Introdução à Crítica da Economia Política, originalmente escrito em alemão, em 1859, mas que só chegou ao domínio público em 1902, portanto, depois de sua morte.

E como os russos não tinham um manual sobre o método Materialista até 1902, seus adeptos propuseram-se a sistematizar o método de pesquisa de Marx, no intuito de divulgá-lo e assim, facilitar a sua compreensão, bem como, para auxiliar seus adeptos e seus estudiosos a conhecerem-no, e apreenderem o mesmo e a divulgá-lo. Entre estes estudiosos destacamos Cheptulin, Kosik e Triviños.

Por fim, gostaríamos de destacar que o pensamento de Marx e Engels (1818-83) é distinto de outras correntes filosóficas de sua época, criando assim, uma nova abordagem metodológica. Desse modo, nós nos propusemos a utilizar o MMHD, enquanto caminho para pensarmos, discutirmos e empreendermos diferentes ações e interações dialéticas, no intuito de descobrir os caminhos para se chegar a determinados lugares ou a determinados conhecimentos.

E mais, os pressupostos marxianos são distintos dos pressupostos hegelianos, uma vez que, os primeiros trabalham com o real e Hegel com o ideal. Além disto, também temos claro que existem diferenças entre as propostas metodológicas de Marx, Kosik e Cheptulin, como o explicitaremos nos diferentes subitens que seguem.

A Dialética Materialista de Alexandre Cheptulin

Neste subitem, buscamos discutir algumas categorias qualitativas, com ênfase no Método Materialista e com algumas de suas interconexões. Sim, com base nas definições de método e de dialética, apresentadas na introdução, somos da opinião de que o método dialético é uma maneira própria de analisarmos e entendermos o mundo ao nosso redor, baseados na ideia de que tudo está em constante movimento, em constante mudança, e que a história é fruto dessa forma de se resolver os conflitos e as contradições que envolvem o ser humano.

Aliás, essa compreensão de método, também faz parte da teoria de Marx e Engels (2007), explanada no livro A ideologia alemã. Ou melhor, para eles (Marx e Engels), o pressuposto da não arbitrariedade se evidencia sempre que seus dogmas são vistos enquanto pressupostos reais, (Marx; Engels, 2007).

De fato, o processo de mudança gerado pelo método dialético, “[...] tal como foi proposto por Hegel e Marx, é justamente uma tentativa para se pensar o mundo, integrando as diferentes esferas contraditórias do real” (Zago, 2013, p. 111). Em função disso, gostaríamos de explicitar melhor alguns aspectos teóricos e práticos do Método Dialético que permeiam ou embasam a presente discussão. Mora (2004) ressalta ainda que, a noção de dialética ou o próprio método dialético em si, muitas vezes, também é chamado de “lógica dialética”, uma vez que, existem aspectos que, são centrais ao marxismo, e que, muitas vezes envolvem

[...] formas que a tradição marxista adotou, incluindo nelas correntes consideradas por alguns apenas parcialmente marxistas. Um caráter comum a quase todos os pensadores marxistas, é o fato de fazer da dialética é um método para descrever e entender não o autodesenvolvimento da “ideia” como [o queria] Hegel, mas a realidade enquanto realidade “empírica” (Mora, 2004, p. 722).

Além disso, também gostaríamos de apresentar uma ideia mais plausível do Método Materialista, motivo pelo qual trouxemos para a discussão alguns conceitos básicos do tema e que são caros para os teóricos da área, como o mostra Mora (2004) e com o qual corroboramos, em especial quando ele diz que é comum a todas as doutrinas denominadas de ‘materialistas’ o fato de reconhecerem os corpos materiais como a realidade.

[...] Nesse sentido, a matéria à qual se referem os materialistas é o que se pode chamar de ‘matéria corporal’ (e não simplesmente a matéria como diferente da forma). É típico de quase todos os materialistas entender a matéria a um só tempo como fundamento de toda realidade e como causa de toda transformação. A matéria não é então só ‘o informe’ ou o ‘indeterminado’, mas também ‘o formado’ e o ‘deformado’. O conceito de matéria inclui o conceito de todas as possíveis formas e propriedades da matéria, a tal ponto que o reconhecimento da matéria como a única ‘substância’ [que] não elimina, mas com frequência, [ratifica e ou reitera], o material [com] as notas de força e energia (Mora, 2004, p. 1899 [grifo do autor]).

Melo (2023), por sua vez, discute a dialética materialista a partir de algumas categorias como concreticidade, valor e totalidade, as quais perpassam e captam um conjunto de movimentos abstratos, que, segundo Marx, possibilitam que: “A totalidade social seja constituída pelo trabalho enquanto mediação geral, objetiva, [e de] caráter temporal, no qual o tempo se torna uma necessidade” (Postone, 2014, p. 223).

Já Saad (2016) se valeu da teoria desenvolvida pelo filósofo russo Ilyenkov, o qual busca explicar a dialética materialista por meio da análise da realidade feita por Marx em seu livro O Capital, e que parte da categoria “totalidade”. Mas uma totalidade que olha para um sistema orgânico, a partir das partes que se condicionam mutuamente, e por outro lado, se apropria da totalidade, enquanto um vetor capaz de apropriar-se das partes para o todo, e não ao contrário, do todo para as partes. Além disso, Saad (2016), sintetiza a Dialética Materialista enquanto uma:

[...] abordagem [que] presume fenômenos (particulares que compõem a realidade concreta) que são condicionados por essências comuns, e são geralmente o modo de existência delas. As relações entre essência e fenômeno são determinadas por uma série de mediações, incluindo estruturas sociais, leis, tendências, contratendências e eventos contingentes, em diferentes níveis de complexidade. A compreensão teórica do concreto deve partir da essência e gradualmente revelar as mediações que explicam o significado e o sentido de cada parte no todo […]. Esse procedimento sistemático permite a reprodução da realidade enquanto expressão mental da articulação real dos fenômenos (Saad, 2016, p. 27).

Desse modo, as relações sociais partem dos fatos que ocorrem com ou entre os fenômenos e suas essências. Também as relações sociais que partem das mediações estabelecidas entre os trabalhos abstratos, bem como o valor que elas carregam, as quais, na maioria das vezes, são estabelecidas pela própria prática, já que estas (relações sociais) se fundamentam, e/ou se alimentam de uma compreensão capitalista de movimento, e que, enquanto tal, estabelecem uma nova ‘dominação social’ e/ou, estabelecem novas formas de produção produções alternativas (Melo 2023).

Silva (2019) entende que o Método Materialista em seu primado não pode formular categorias desagregáveis da “ontologia, significando assim que, as categorias marxianas não podem ser  entendidas enquanto meras entidades do pensamento abstrato, e ou, a partir de uma configuração ideal, o que representa um duplo movimento em relação ao pensamento de Georg H. F. Hegel” (1770-1831), qual seja, o de passar a incorporar um pensamento filosófico distinto, daquele que parte do contexto real e não mais a partir da superação dos limites ideais (Silva, 2019, p. 34). Enfim,

[...] Com base naquilo que Marx (2011) sintetizou sobre seus estudos, entende-se o método materialista, [como] o confronto e a relação que permite ao sujeito investigador desnudar as formas fenomênicas de um objeto, [para] apreender o seu movimento, encontrar as determinações constitutivas da dinâmica e do de­senvolvimento do mesmo. Portanto, [este] método é portador de uma lógica e se sustenta em uma dimensão ontológica e epistêmica, esta última pertencendo à ordem do pensamento (Martins, 2018, p. 225).

De fato, o Método Materialista de Cheptulin (1982) passou a ser caracterizado enquanto um movimento do pensamento em direção à materialidade histórica e dialética da vida dos homens em sociedade. Sim, este método buscou descobrir as leis fundamentais da Dialética, definindo-as de tal maneira que elas se apresentassem, enquanto um caminho alternativo para o ser humano se organizar em sociedade ao longo da história (Tozoni-Reis, 2020). Além disso, esse método e esse conjunto de movimentos pessoais e sociais, teóricos e práticos, sinalizam no sentido de que este conjunto de categorias, princípios e contradições que envolvem o método dialético, afastam o ser humano do Método da Lógica Formal, do Método Escolástico, do Método Experimental, entre tantos outros.

Ou seja, diferentemente dos métodos tradicionais, o pensamento dialético materialista de Cheptulin (1982) permite a reprodução do concreto, sem perder-se de vista o real, que é infinitamente mais complexo do que qualquer outra representação teórica. E esse processo é essencial para se transformar a realidade, visto que o movimento dialético possibilita que os indivíduos percebam que são produto histórico e social do ser humano, podendo, assim, abrir novos caminhos teóricos e ou práticos para eles.

Outra questão que os leitores, educadores e pesquisadores levantam quando optam pela pesquisa qualitativa é a de que já se tem o método de pesquisa, denominado de: A Dialética Materialista, livro este escrito por Cheptulin em 1975, e traduzido para o português em 1982. Nesse livro, o autor buscou sistematizar as Categorias e Leis da Dialética, a partir da Dialética Materialista, que serve de base para estudiosos, pesquisadores e professores, entre outros, que buscam colocar em movimento os seus estudos, no intuito de conhecer as principais leis e categorias marxistas e, assim, utilizá-las na prática educativa diária, bem como na pesquisa. Mas esta discussão sobre o método, também leva a outra questão, visto que os marxistas clássicos procuram discutir o Método Materialista a partir da história e da dialética, e Cheptulin (1982) discute essa temática a partir da Dialética Materialista ou de um conjunto de categorias e leis.

Aliás, o próprio Cheptulin (1982), ao intitular este seu livro de: Dialética Materialista: Categorias e leis da dialética, busca explicitar como ele entende este seu conjunto de categorias e leis dialéticas. Motivo este pelo qual também procuramos discutir neste subitem alguns aspectos teóricos e práticos dessa sua metodologia de ensino e de pesquisa. Categorias e leis estas que, aliás, ninguém inventou, e que estão ali, ou emergem de um movimento histórico que se processa diante de nossos olhos todos os dias (Marx e Engels, 1981). Em outras palavras,

O materialismo dialético, estuda as formas gerais do ser, os aspectos e os laços gerais da realidade, as leis do reflexo desta última na consciência dos homens. As formas essenciais da interpretação filosófica, do reflexo das propriedades e das conexões universais da realidade e das leis do funcionamento e do desenvolvimento do conhecimento, [trabalhadas a partir das] categorias e as leis da dialética. Como elementos necessários da teoria filosófica, elas têm uma função ideológica, gnoseológica e metodológica (Cheptulin, 1982, p. 1).

Como podemos observar, Cheptulin (1982) se preocupou em fundamentar este método de ensino e de pesquisa ao redor de um conjunto de categorias marxistas e leis, as quais foram pinçadas e escolhidas por ele. Aliás, Cheptulin, como bom filósofo, estava preocupado em sistematizar, aclarar e aprofundar estas suas categorias. Deste modo, Cheptulin (1982) busca estudar um conjunto de problemas fundamentais da filosofia marxista e que envolvem as categorias e as leis da dialética.

[...] Neste estudo, o autor procura apresentá-las sob a forma de um sistema de conceitos interdependentes, um determinando o outro e um decorrendo do outro. Ele considera essas categorias e leis como reflexos das propriedades e relações reais, como graus e formas de desenvolvimento do conhecimento da sociedade e como princípios do conhecimento dialético e de uma transformação orientada pela realidade (Cheptulin, 1982, p. V).

Como podemos observar na citação acima, Cheptulin (1982), estava preocupado com a teoria filosófica de Marx, bem como estava preocupado com a filosofia que, naquele período histórico, estava perdendo espaço para o método científico, motivo pelo qual ele reconhece a força deste novo pensamento, bem como busca olhar por um outro viés o Método Materialista Histórico-Dialético. Sim, porque Kosik discutia a Dialética a partir do concreto e do real e Cheptulin entende que a proposta de Marx vai para além do Concreto e, além disso, a Dialética do Real e ou do Concreto não contemplava o todo do Método Materialista de Marx.

A Dialética do Concreto de Karel Kosik

A União Soviética, até a década de 1910, era governada por Imperadores (czares), cujo império sucumbiu com a revolução russa de 1917, época em que, ela passou a ser embalada pelos ideais marxistas, passou e a reestruturar-se, inspirada na teoria e nos princípios de Marx. Esse novo modelo de sociedade, de organização econômica, política e ideológica, também obrigou os teóricos da educação Russa a repensarem o tipo de educação a ser oferecida para o povo.

E com essa certeza, alguns teóricos socialistas começaram a escrever livros, com base em alguns princípios teóricos e metodológicos de Marx e de Engels. Assim Kosik (1976)[3], também passou a organizar e publicar livros na área, entre os quais destacamos o da Dialética do Concreto. Nesse livro, ele buscou discutir um método científico de se pesquisar a partir do real, a partir do concreto, como o queria Marx. Com base nesse método de estudo, ele (Kosik) buscou subsidiar a educação formal da antiga União Soviética, bem como buscou estimular o povo russo a dominar a teoria e o método marxistas, com ênfase na Dialética do Concreto.

Esta obra discute o método de Marx a partir de quatro capítulos. No I capítulo – “Dialética da Totalidade Concreta” – o autor discute o mundo da pseudoconcreticidade[4], a questão da reprodução espiritual e racional da realidade, bem como o da totalidade concreta. Categorias essas, também reforçadas por Zago (2013) em seu artigo sobre o tema, em especial, quando problematizou a obra de Kosik. Segundo Zago (2013), a pseudoconcreticidade que permeia o livro do Kosik é uma das categorias problematizadas pelo autor, que também era membro e teórico do partido comunista da União Soviética (URSS).

Além disso, Kosik buscou estudar, pensar e divulgar a teoria de Marx a partir da Dialética do Concreto, bem como passou a explorar o método marxista a partir do real e do concreto, como o propunha Marx. Zago (2013) também reconhece que Kosik (1976) propunha um mundo que possuía dois aspectos (o fenomênico e o essencial), mas que a realidade, muitas vezes, só é constituída por seu aspecto fenomênico, desconsiderando-se a “essência”, a qual, segundo ele, merece mais atenção.

Nakamura (2022) por sua vez, defende a ideia de que o Método Materialista deve buscar estudar um conjunto de relações concretas e efetivas, as quais deveriam operar por de trás dos fenômenos. Sobre isso, também é importante destacar a posição e o pensamento de Kosik (1976), em especial quando este entendia que, de modo geral, para se ler e entender o método marxista era preciso fazer um esforço muito grande para se entender o que Marx queria dizer em seus escritos. Isto por que, segundo Kosik (1976, p. 21), “O marxismo é um esforço para ler, por de trás da pseudo imediaticidade do mundo econômico reificado das relações inter-humanas que o edificaram e se dissimulam por trás de sua obra.” Ou seja, existe uma força contrarrevolucionária que, buscava dissimular a proposta materialista de Marx na reorganização da sociedade, motivo pelo qual, era preciso, um esforço e uma disciplina intelectual e prática muito grande.

Desse modo, Kosik (1976), nos ajuda a entender e/ou a compreender melhor os saberes necessários para que os professores pudessem interagir, de forma civilizada, com os neófitos, e assim, auxiliar, por meio do ensino e da pesquisa, para que, a população Russa seja reeducada com base no MMHD. Em especial, na medida em que nós, como Kosik (1976), buscávamos problematizar a temática, com a ajuda do método Dialético do Concreto, para tentar orientar sinteticamente os leitores de Kosik. Quanto à “Reprodução do espiritual e a racionalidade da realidade”, Kosik (1976) nos desafia a pararmos de reproduzir o espiritual ou de parar de orientar a nossa ação pura e simplesmente para construir um “mundo teocêntrico” (mundo que gira em torno de Deus). Ele nos convida a construir um “mundo mais humano” espelhado nos filósofos gregos e nos filósofos “iluministas”, da “sociedade liberal”, e ou mesmo espelhado nos cidadãos das “sociedade democráticas” a partir do século XX.

Quanto à categoria da totalidade, o terceiro ponto central do método marxista a ser explicitado no capítulo I deste livro do Kosik (1976), cabe destacar que essa categoria leva o ser humano a deixar de se constituir enquanto um ser abstrato, que aprende a conhecer de forma cognoscente e passa a ser alguém que age objetiva e praticamente sobre a natureza, os interesses e as necessidades de cada ser e assim, é capaz de criar ou reformular um conjunto de saberes e de relações sociais.  Uma análise mais acurada desta categoria marxiana, nos leva a entender que:

[...] as partes constituintes do real devem ser apreendidas como unidades, mesmo que a essência seja percebida como diferente e não imediatamente como o fenômeno. Parte-se do observável rumo à essência, o que tornará possível a compreensão do ser social como totalidade e que, se relaciona intimamente com a vida material e concreta dos seres humanos (Zago, 2013, p. 111 [grifo do autor]).

Como é possível abstrair do acima discutido, este método de pesquisa busca trabalhar com uma visão totalizante do real, possibilitando um olhar que parte do particular para o todo, e do todo para o particular, enquanto partes de uma mesma totalidade dinâmica e em constante transformação. Assim,

[...] a totalidade rompe com a pseudoconcreticidade, que, busca ver o todo de forma fetichizada e reificada, e assim, desvela um conjunto de tramas que conectam essências e fenômenos. Ou seja, a dialética materialista busca, deste modo, superar a imediaticidade dos fenômenos, para se alcançar a essência, bem como, promove uma compreensão científica e crítica da realidade (Kosik, 1976, p. 11 [grifo do autor]).

Além disso, Kosik (1976) busca examinar a totalidade a partir das partes, no intuito de garantir o seu caráter dialético materialista e assim, buscar a unidade das contradições e da dialética; dos fenômenos e da essência; da lei e da casualidade; do todo e das partes; da essência e dos aspectos fenomênicos. Desse modo, Kosik busca discutir os elementos contrários à fórmula para se construir a totalidade, mesmo que isso exija, muitas vezes, o uso de outras categorias, variáveis e do uso de aspectos secundários da categoria da totalidade, para se entender o todo da categoria, que é a totalidade. Essa totalidade, por sua vez, abarca todos os fatos da realidade investigada, no intuito de se compreender a realidade, enquanto uma

[...] análise da ‘realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fator qualquer (classes de fatos, conjunto de fatos) podem vir a ser racionalmente compreendidos’ (Kosik, 1976, p. 44). Esse processo é central se pretendemos a destruição da pseudoconcreticidade (Richter, 2012, p. 239 [grifo do autor]).

Zago (2013), por sua vez, entende que, para Kosik (1976), a totalidade não se resume somente às partes que se encontram, mas também às interações e às conexões que são estabelecidas a partir de ambas as partes. Assim, “a compreensão dialética da totalidade significa não só que as partes se encontram em [...] interação e ou em conexão entre si e com o todo, mas também que o todo não pode ser petrificado na abstração situada por cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo na interação das partes” (Kosik, 1976, p. 50).

No segundo capítulo – “Economia e Filosofia” – o autor busca discutir temas como a “Metafísica da vida cotidiana”, a “Metafísica da ciência e da razão” e a “Metafísica da cultura”. É com base neste contexto que, Kosik (1976) busca discutir o cotidiano, a ciência, a razão, a cultura, a religião e a sua relação com a Metafísica, o que traz muitas dificuldades para os teóricos da atualidade, visto que a Rússia, daquela época, ainda vivia sob uma forte cultura filosófica das tradicionais Ciências Sociais e humanas, mas que, buscavam quebrar essa hegemonia, por meio da Revolução de 1917. Assim, a vida cotidiana, a ciência, a razão e a cultura ainda eram consideradas categorias Econômicas que, têm a sua raiz e a sua base na Filosofia, razão pela qual Kosik (1976) intitula o II capítulo de seu livro de Economia e Filosofia e o III capítulo como Filosofia e Economia. Aliás,

[...] o autor enfatiza problemas, quanto à própria legitimidade da investigação, quando, de antemão, se define o que é essencial e o que é secundário sem submetê-la à própria investigação científica. Essa que está fadada à dúvida quanto a sua licitude, pois nesse caminho se deseja chegar à realidade por meio de um salto que coloca a investigação acima das aparências fenomênicas, mesmo sem examinar tais aparências, ou seja, sem o complicado processo regressivo-progressivo (Richter, 2012, p. 239-240).

Como podemos abstrair do acima dito, o autor reconhece o problema de legitimidade da investigação, ao definir o essencial, antes mesmo de submeter a temática à investigação científica. Assim, é profundamente errônea a hipótese de que a realidade no seu aspecto fenomênico seja secundária e desprezível para o conhecimento filosófico e para o conhecimento humano. Assim como, é errônea a ideia de deixar a aparência fenomênica barrar o caminho para o conhecimento real (Kosik, 1976, p. 68).

E mais, foi assim que Kosik (1976) buscou sistematizar o método dialético de Marx em seu livro: Dialética do Concreto, bem como considerou importante destacar também que os professores e os pesquisadores, ao examinarem a totalidade, não devem se limitar a analisar o todo e as partes. Sugere então que, se busque explorar “[...] o caráter dialético, assumindo, assim, a unidade das contradições e a dialética do fenômeno e da essência, da lei e da casualidade, do todo e da parte, da essência e dos aspectos fenomênicos [...]” (Richter, 2012, p. 245).

Já no capítulo III, Kosik (1976), busca fazer uma exaustiva análise do livro O Capital e da própria economia, tendo como foco a análise crítica da metafísica, que dá base para o terceiro capítulo – “Filosofia e Economia” – e, no qual o autor trabalha duas temáticas, quais sejam: “A problemática de O Capital”, do Marx; e a questão do “homem e a coisa ou a natureza da economia”. No primeiro tópico, o tema de reflexão é o significado da obra O Capital, e não os conceitos particulares da mesma, mas sim o significado total da obra de Marx para a humanidade, ao longo da história (Richter, 2012, p. 245). Segundo Kosik (1976), ao se explorar

[...] os problemas que normalmente ocorrem na leitura da obra de Marx, em especial, dos manuais que, com seus limites podem alterar o próprio texto de Marx, pois eliminam, normalmente, a análise dos dados envelhecidos; eliminam trechos que avaliam não estarem diretamente associados à problemática da economia, e as vulgarizam com a justificativa de tornar o texto acessível [...]. Tais questões o levam a uma análise intensa sobre o sentido histórico do texto e como as releituras são influenciadas e ou ocultam concepções (Richter, 2012, p. 245).

Além disso, Kosik (1976), também nos alerta sobre a autêntica interpretação do livro O Capital, o que garante a especificidade desse texto. Ou seja, ele nos alerta sobre os princípios específicos da obra e de sua estrutura argumentativa, entre outras questões. Como podemos observar, Kosik buscou orientar os educadores e pesquisadores da URSS quanto aos problemas que a obra O Capital de Marx tinha naqueles países do oeste europeu e de como Kosik (1976) buscou minimizar tais problemas educacionais, por meio de sua proposta metodológica para a educação, depois da Revolução de 1917. Para entender melhor tudo isso, recorremos a Richter (2012), que em sua resenha nos explica isso da seguinte maneira.

‘Confusão na qual só um ponto era completamente certo: não se trata de uma obra econômica no sentido comum da palavra, nessa obra a economia é concebida de maneira particular, a economia se entrelaça de maneira particular com a sociologia, a filosofia da história e a filosofia em si’ (Kosik, 1976, p.160). Assim, o autor apresenta ao leitor análises sobre a história das interpretações da obra de Marx, com suas diferentes concepções (interpretações logicizantes e metodologicizantes; tomistas [...]) [entre outras análises] (Richter, 2012, p. 246).

Já no capítulo IV, Kosik (1976) retoma a temática do capítulo I, porém, a partir de uma nova perspectiva teórica. Ou seja, ao contrário daquilo que anteriormente era enfatizado pelas diferentes interpretações teóricas da época, a partir do método: platônico, aristotélico, lógico, escolástico, enciclopédico, humanista, renascentista, iluminista, realista, positivista, socialista, nacionalista, democrático, entre tantas outras interpretações, feitas ao longo da história e cujas implicações pragmáticas Marx buscou problematizar e Kosik registrou no capítulo IV “Práxis e Totalidade”. Aliás,

[...] a práxis é o grande conceito da filosofia materialista segundo Kosik, o que soa contraditório para a consciência ingênua, que se sustenta na ilusão da certeza. Tal questão aponta o papel da filosofia em abalar a certeza do mundo comum e da realidade fetichizada. ‘A consciência comum, tomando como óbvio aquilo que a filosofia descobriu, tirando-o da ocultação, do esquecimento e da mistificação e tornando-o evidente’ (Kosik, 1976, p. 218).

Essa compreensão diferenciada que Kosik constata na filosofia e na economia marxista faz com que ele também perceba as diferentes interpretações que Marx faz sobre seu processo de escrita e que, ele explora ao descrever as relações de Marx com O Capital. Richter, por sua vez, entende que,

A existência não é somente “enriquecida” pela obra humana; na obra e na criação do homem, é que se manifesta a realidade e, de certa forma, se realiza o acesso a ela. Portanto, a práxis na sua essência é a determinação da existência humana como elaboração da realidade. Ser que cria a realidade humana-social e compreende a realidade em sua totalidade (humana e não-humana). A práxis é ativa, mas é atividade que se produz historicamente, é unidade do homem e do mundo, da matéria e do espírito, de sujeito e do objeto, do produto e da produtividade (Richter, 2012, p. 247).

Além disso, também cabe destacar que é pela práxis que ocorre o acesso do ser humano à filosofia materialista. Sim, é a filosofia materialista que possibilita ao ser humano viver uma nova práxis. Filosofia essa que se fundamenta na

[...] práxis e ou da práxis como processo ontocriativo, cria também a capacidade de penetrar historicamente por trás de si e em torno de si, e, por conseguinte, de estar aberto para o ser em geral. O homem não está encerrado na sua animalidade ou na sua socialidade porque não é apenas um ser antropológico; ele está aberto à compreensão do ser sobre o fundamento da práxis e é por isso que, ele é um ser antropocósmico (Kosik, 1976, p. 226).

Enfim, observamos que o livro a Dialética do Concreto, de Kosik busca sintetizar o tema em quatro capítulos o que demanda menos tempo para ser lido e interpretado, do que ler todos os escritos de Marx, e essa leitura ajuda a todos os estudiosos de Marx a terem uma visão geral da categoria de totalidade. Desse modo, o estudo permite compreender o todo, que envolve a realidade em si, e a teoria marxista no seu todo, a qual, ele próprio definiu como um todo orgânico. Inicialmente, encontramos uma pequena nota sobre o autor, mas, posteriormente os estudiosos da área passaram a destacar Karel Kosik enquanto “uma das mais eminentes figuras da cultura marxista” (Kosik, 1976).

O MMHD de Marx ensinado por Triviños

O Método Materialista Histórico-Dialético (MMHD) está diretamente relacionado com a teoria marxista, visto que foi Marx quem estudou a teoria dialética de Hegel e inverteu a lógica hegeliana de pensar, já que ele parte do real ou do concreto para desenvolver essa sua teoria epistêmica, bem como para desenvolver suas pesquisas.

De fato, o MMHD é um método de análise da realidade e da história que parte da ideia de que a matéria é a base de tudo e que a história humana é um processo de desenvolvimento dialético. Sim, o MMHD busca entender a sociedade e a história a partir de uma produção material, de relações de produção e de relações sociais, que, também pode ser entendido como um processo que trabalha de tal forma os conflitos e as contradições, que leva à transformação da sociedade como um todo.

Isso ocorreu porque muitos pensadores, de diferentes épocas e lugares, observaram que a lógica formal tinha muitas limitações para a pesquisa científica, principalmente na área das Ciências Humanas e Sociais. Aliás, muitos teóricos da educação buscam outros caminhos metodológicos, para poderem dar conta de suas indagações cientificas e encontrar respostas mais plausíveis e, assim, poderem desencadear novos processos de síntese, sempre que utilizam o MMHD.

Marx e seu parceiro intelectual Engels propuseram este método científico no intuito de procurarem desenvolver e sistematizar um novo método de pesquisa. Deste modo, Marx e Engels criaram e utilizaram um caminho teórico novo para fundamentar, analisar e interpretar a realidade histórica e social, bem como passaram a avaliar e compreender o modo de produção capitalista da época, sob um novo olhar. Aliás, este método exigiu, e ainda exige, um processo de investigação, o qual passou a ser implantado, enquanto um novo método de pesquisa para as Ciências Sociais e Humanas (Tozoni-Reis, 2020, p. 70). Neste novo olhar, o que importava e ainda importa, é o exercício de se olhar o problema a partir do real e descobrir um conjunto de categorias e leis que gerenciavam determinado fenômenos investigados. Ou seja:

[...] o que importa é captar, detalhadamente, as articulações dos problemas em estudo, analisar as evoluções, rastrear as conexões sobre os fenômenos que os envolvem. Isto, para este pensador, só foi possível a partir da reinterpretação do pensamento dialético de Hegel. A separação do sujeito-objeto, promovida pela lógica formal, [e que] não satisfazia estes pensadores que, na busca da superação desta separação, partiram [para] observações acerca do movimento e da contraditoriedade do mundo, dos homens e de suas relações (Pires, 1997, p. 85).

Mas também é importante destacar que Marx se apropriou inicialmente do Método Dialético de Hegel e o colocou de “cabeça para baixo”, principalmente quanto à materialidade e à concreticidade do Método Dialético de Hegel, uma vez que, este tratava a dialética de forma idealista, e no plano do espírito, das ideias, e Marx entendia que o mundo dos homens exigia uma dialética histórica e materialista (Pires 1997). De fato,

O método dialético que Marx desenvolveu [e que, ele denominava de] método materialista histórico-dialético, [o qual era apresentado enquanto] um método de interpretação da realidade, [e de uma] visão de mundo e de uma práxis. A reinterpretação da dialética de Hegel (colocada por Marx de cabeça para baixo), e que, diz respeito, principalmente, à materialidade e à concreticidade [ que vai ser a nova proposta de Marx]. Para Marx, Hegel tratava a dialética idealmente, no plano do espírito, das ideias, enquanto o mundo dos homens exigia [...] a materialização [da realidade] (Tozoni-Reis, 2020, p. 74).

E, para além deste conhecimento da realidade, o MMHD também precisava levar em consideração o processo histórico da humanidade, do pensamento em movimento, ao longo de cada período histórico, ajudando assim a entender o método de Karl Marx, em especial, quando ele considera a historicidade do capitalismo e de seus conflitos a partir do MMHD e de sua concepção de práxis. Ou seja, temos consciência de que a obra de Marx, apesar da especificidade de sua abordagem, desencadeia um fio condutor comum, para se compreender o capitalismo em sua historicidade, em sua concreticidade e, em meio a todos os conflitos e, à toda sua lógica de pensar e de pesquisar, levaram a uma transformação concreta e real de cada modo de produção. Assim,

A percepção desse fio [condutor] permite que, desde já, destrinchemos duas contribuições centrais e interligadas do método que permeia sua análise social: a primeira se referindo ao materialismo histórico e dialético, enquanto a segunda diz respeito à concepção de práxis (Coelho, 2023, p. 01).

Coelho (2023) entende que as diferentes obras escritas por Marx contêm este fio condutor que perpassa todos os seus manuscritos, qual seja, o de compreender o capitalismo em sua historicidade concreta, o qual entra em conflito com a lógica formal de Aristóteles, e assim, nos permite enxergar um conjunto de contribuições deste método de pesquisa para a produção do conhecimento em todas as áreas do conhecimento, mas em especial, na área das ciências sociais.

Além disso, Marx reconheceu que o MMHD é formado por um conjunto de saberes que deveriam tornar-se visível ao longo de todo o movimento real da história, bem como deveriam ser reconhecidos pela “[...] ‘história de todas as sociedades anteriormente’ apresentadas, enquanto uma ‘história da luta de classes’” (Nakamura, 2022, p. 79).

Aliás, o próprio Marx reconhece isso em seu livro O Capital, motivo pelo qual este seu método científico merece um conceito específico, por parte dele, e que perpassa todo o seu método científico. Assim, fica claro para nós que, o MMHD se encontra na base do método científico criado e discutido por Marx, ao longo de sua vida, (1818-1883) e que embasou todo o seu método de pesquisa e de construção do conhecimento.

Deste modo, é nesse contexto que se encontra inserida a obra do professor/pesquisador Triviños, uma vez que, ele era um profundo conhecedor do Método Materialista Histórico-Dialético de Marx e ele, enquanto professor e pesquisador, se preocupava em explicitar, sistematizar, e mesmo, em aprofundar o Método Dialético de Karl Marx. Essa é a razão pela qual o inserimos nesta discussão, visto que, ele ao longo de toda década de 1990 a 2010, se propôs a introduzir os seus alunos e leitores no ensinar e na pesquisa na área. Aliás, ele se preocupou muito, para que, os seus alunos e leitores dominassem o MMHD, motivo pelo qual, passou a produzir seus próprios textos sobre o MMHD, bem como passou a utilizar problematizar o mesmo em seus Seminários de Metodologia da Pesquisa.

Sim, porque Marx, não organizou o seu método de estudo em um livro específico, mas inseriu a sua proposta teórica e metodológica nas diferentes obras que escreveu. Ou seja, Marx foi divulgando o seu método de pesquisa nos livros que ia escrevendo, no intuito de que, os seus alunos e leitores, conhecessem o seu método de pesquisa, na medida em que fossem lendo seus livros, como também fossem dominando, apreendendo e utilizando este seu Método de Pesquisa a partir de sua prática educativa e de pesquisa.

Desse modo, a maioria dos conhecimentos adquiridos pelos entendidos de Marx ocorriam na medida em que estes liam as obras dele. O professor Triviños não concordava muito com isso, visto que, esse processo era muito oneroso, já que demandava muito tempo, além de levar, muitas vezes, a interpretações dissonantes, entre outras disfunções. Aliás, estes são alguns dos motivos pelos quais o Professor Triviños passou a estudar e a estruturar um conjunto de saberes necessários, para que seus alunos, orientandos e os entendidos de Marx, pudessem apropriar-se do Método Materialista Histórico-Dialético em um tempo menor, uma vez que, o material didático do professor Triviños mapeava as principais leituras necessárias para se conhecer as categorias e as leis centrais da teoria de Marx, entre, outros saberes necessários para que, os neófitos do marxismo pudessem dominar o MMHD, enquanto um método científico de se pesquisar e ensinar, num tempo menor.

Barata-Moura (1998), ao ensinar acerca das questões teóricas de Marx, bem como, ao ensinar e pesquisar sobre o caráter inédito desta Epistemologia e desta Ontologia, buscou problematizar, a cientificidade do saber real e/ou concreto, bem como, buscou provar a notável atualidade do MMHD, e do programa comunista. Deste modo, Marx e Engels (2007), buscaram discutir, em seus questionamentos contemporâneos essa nova racionalidade que, emergiu desse debate sobre a dialética, despindo-a de todo misticismo religioso e capitalista, visto que, o MMHD enquanto ciência, era uma “arma revolucionária”, capaz de reforçar o método científico de se fazer ciência, mesmo que este método implicasse em uma tarefa e uma “conquista para a classe operária e para as forças do progresso” (Marx, 1998, p. 124). Deste modo, qualquer programa de transformação no “movimento real da história das sociedades” é intrinsecamente contraditório, e se estrutura em uma determinada realidade material, em uma histórica práxis humana, e não em um mero resultado de uma vontade sonhada. Em outras palavras, é um trabalho realizado sob determinadas condições, no intuito de transformar dialeticamente algo real, e/ou, algo concreto e/ou uma realidade concreta.

Além disso, o professor buscava envolver seus alunos, curiosos e os estudiosos de Marx, nos debates e nas discussões realizadas em aula e em seminários, sempre sob o olhar atento do professor, e suas precisas orientações, e ou, por meio do convívio com ele. Sim, ele nos inseriu no contexto do MMHD, e nos orientou no sentido de nos fazer entender esse método que era e é mais propício para se educar crianças e jovens para a cidadania, em pleno século XXI, bem como nos educou no sentido de sermos sujeitos da educação para a transformação social, política e cultural do país.

Ou seja, Triviños utilizava os seus Seminários de pesquisa para aperfeiçoar teórica e didaticamente os diferentes instrumentos de ensino e de pesquisa, utilizados por ele para que os seus leitores e alunos pudessem apropriar-se do MMHD em seus trabalhos escolares e em suas pesquisas na área educacional. Por fim, podemos afirmar isso por que, já em 1995, quando ingressamos no Mestrado em Educação da UFRGS e, tivemos o primeiro contato com esse material, e que, na época, ainda era um material muito insipiente, bem diferente do texto preliminar de 2006, com o qual trabalhamos neste estudo.

Sim, os estudiosos da metodologia qualitativa em educação, ao se apropriarem deste método científico, ao longo de sua formação e de seu trabalho educativo, também podiam apropriar-se rapidamente desse método, no intuito de usá-lo adequadamente no ensino e na pesquisa. O que é importante, visto que Marx não escreveu um manual para que nós pudéssemos nos apropriar do seu método de pesquisa, motivo pelo qual, vários teóricos passaram a problematizar a teoria e o método, no intuito de que, estes escritos pudessem, ajudar os neófitos, em seus estudos e em suas pesquisas sobre o tema. Também temos consciência de que há outros pesquisadores que estão organizando livros e artigos sobre o tema.

Se formos verificar e analisar o sumário do Documento Preliminar e ou do texto base do professor Triviños (2006), observamos que a sua proposta metodológica é bem mais ampla e completa do que a do Cheptulin (1982) e a do Kosik (1976). Além disso, também temos claro que os propósitos de ambos os autores foram distintos, como também, fica claro para nós que a proposta metodológica do Triviños busca preencher uma lacuna, um vazio metodológico que existe na pesquisa qualitativa. Sim, porque na pesquisa qualitativa ainda não existe um livro específico que apresente um passo a passo que guie os leitores e os pesquisadores no domínio deste método, para que possam desenvolver suas pesquisas por meio de um viés qualitativo, para que possamos chegar a resultados científicos confiáveis e, ao mesmo tempo, adquirir uma visão do todo. Triviños compreendeu tal situação e buscou oferecer, a sua compreensão do MMHD, por meio deste texto base, intitulado de Introdução ao método Dialético na pesquisa em Ciências Sociais.

Enfim, reconhecemos que, muitas vezes, as pesquisas das Ciências Sociais e Humanas precisam desta metodologia de pesquisa para que possamos pesquisar diferentes temas das Ciências Sociais, e que, enfrentam dificuldades por causa dos caminhos metodológicos tradicionais que, muitas vezes, dificultam a pesquisa por meio dos métodos tradicionais. O texto base do Professor Triviños sobre o MMHD, denominado: Introdução ao método dialético na pesquisa em Ciências Sociais, busca sanar parte destas dificuldades que a área da educação enfrenta.

Algumas análises

Ao final deste estudo sobre o Método Dialético e, em especial, sobre o Método Materialista Histórico-Dialético, fica claro para nós que os métodos Materialistas, mesmo que com abordagens específicas, buscam problematizar diferentes aspectos do MMHD de Karl Marx. Aliás, os diferentes autores pesquisados destacaram-se por problematizarem aspectos específicos da metodologia qualitativa, e, nem por isso se anularam mutuamente, mas, pelo contrário, cada um se especializou em abordar um ou mais aspectos do método marxista.

Um desses estudiosos foi Karel Kosik, um russo, nascido em 1926 e que escreveu o livro Dialética do Concreto, em 1963, procurando explicar e aprofundar a teoria marxista a partir da Dialética do Concreto. Nesse seu livro, Kosik (1976) começou discutindo e levando em conta o mundo da pseudoconcreticidade, que envolvia o concreto e o real, enquanto algo que estava aí e que precisava ser superado pelo novo e ou pela essência de cada fenômeno aí posto, de sorte que, ao melhorar cada aspecto deste método e desta teoria, levava consigo a “semente” da superação ou o caminho de superação de cada fenômeno problematizado.

Aliás, Kosik (1976), discutiu a categoria da pseudoconcreticidade, enquanto fenômeno e essência, para que o concreto pudesse emergir em sua totalidade para que, assim, essa pudesse ser rediscutida a partir da Metafísica. Sim, Kosik nos convida a imergir no real, no concreto e na vida cotidiana, na ciência, na razão e na cultura, já que a Metafísica ainda se encontrava na base da maioria das discussões Econômicas e Filosóficas da época. Deste modo, ele entendia que, o real e o concreto emergiriam dos fenômenos, bem como entendia que, também se faria necessário, discutir a categoria da totalidade, o que aliás, Marx já fez em seu livro O Capital.

Motivo esse pelo qual procuramos ler, analisar e explicitar a Dialética do Concreto, a partir de um conjunto de autores que buscavam privilegiar e fundamentar o real e o concreto na teoria e no Método Materialista, uma vez que a realidade só pode ser apreendida a partir de sua essência, a partir de um ponto de convergência entre o real e a sua essência. Ou seja, para que a consciência da realidade e do concreto possa ser transformada em uma unidade objetiva e subjetiva, também se faz necessário que o fenômeno e a essência se encontrassem indissociáveis, e, ao mesmo tempo, permitam que se faça uma reflexão e uma projeção sobre o fenômeno em estudo (Silva, 2019).

Cabe destacar ainda que, Kosik (1976), estava preocupado em estudar os diferentes fenômenos observáveis a partir da Dialética do Concreto, do real, do fato em si, a partir do concreto, de algo oriundo de um conflito real. Assim, ao se ler a Dialética do Concreto, é necessário destacar que,

[...] a obra apresentada pode contribuir significativamente para o entendimento da filosofia marxista; da metodologia materialista-histórico-dialética e das bases de seu desenvolvimento, o que muitas vezes parece tão distante e complexo daqueles que buscam a pesquisa nessa vertente teórica, pois, a mesma colabora com a análise do método de estudo da realidade e da destruição da pseudoconcreticidade, assim como assume o entendimento de que é possível conhecer a “coisa em si” e que a dialética permite-nos conhecê-la (Tichter, 2012, 248).

Aliás, como podemos abstrair do excerto acima apresentado e de toda obra da – Dialética do Concreto – reconhecemos que ela contribui significativamente para o entendimento da filosofia marxista como um todo.

Cheptulin (1982), por sua vez, escreveu o seu livro para os professores e os teóricos russos, com a intenção de ajudá-los na reelaboração de sua base teórica materialista, ao buscar extrair as principais categorias e leis da dialética marxista. Sim, no entendimento dele, os teóricos e os profissionais da educação precisam dominar um conjunto de categorias e leis da dialética para educar o cidadão marxista e, assim, ajudar a repensar a escola e a educação russa de sua época, aspecto este que também impactou positivamente na transição política brasileira da década de 1980 e 1990. De fato, o livro A Dialética Materialista, mesmo tendo sido escrito por um consagrado filósofo russo e, portanto, adepto a um linguajar filosófico, tem ajudado muito os teóricos e professores, ao longo da transição política, social, cultural e educacional brasileira da década de 1980 e 1990.

De fato, o MMHD problematizado neste artigo, ao contrário das concepções Idealistas da Dialética de Hegel, sempre partiu de relações sociais concretas, e não de meras abstrações, como também questiona uma abordagem puramente materialista, visto que os fatos também podem ter outras origens. Sim, elas (as relações) igualmente precisam ser históricas e dialéticas, porque a realidade só existe na medida em que ela se encontra historicamente situada, motivo pelo qual a realidade não pode ser natural e nem imodificável. Como escreveu Zago:

História aqui entendida, não como a sucessão dos fatos, mas como luta cotidiana de homens e mulheres para produzirem as condições materiais de existência na relação com a natureza mediada pelo trabalho, [e pelo] modo como, os seres humanos interpretam essas relações [...] (Zago, 2013, p. 115).

Isso porque, “[...] as relações sociais precisam ser apreendidas, criticadas e reconstruídas” constantemente no mundo, já que, ele (o materialismo histórico-dialético), “[...] além de se constituir [enquanto] um método de compreensão da realidade”, ele também se constitui, enquanto uma metodologia segura de se trabalhar, visto que esse método permite que os sujeitos da ação exponham um conjunto de argumentos materialistas, sempre que, assim o desejarem utilizar, para desencadear algum processo de ensino e de aprendizagem (Coelho, 2023). Aliás,

O pensamento de Karl Marx (1818-83) difere das correntes filosóficas que o antecederam e inaugura uma nova abordagem metodológica. Segundo Netto (2011), [isso ocorre] porque [Marx] assume determinada posição [enquanto] pesquisador em relação ao objeto, numa indissociável correspondência entre a elaboração teórica e a formulação metodológica. [Isso ocorre porque], o método marxiano não possui uma forma autônoma face à teoria (Silva, 2019, p. 35).

Quanto ao Materialismo Histórico-Dialético, cabe destacar ainda que, ao mesmo tempo em que Marx redefine o papel da educação e do educador[5], na sociedade da época, ele questiona a educação de hoje, uma vez que, na tese 03 Marx também passa a educar os cidadãos russos daquela época. Bem como, nos adverte, sobre a necessidade de se transformar a sociedade e a educação, por meio da análise e da discussão desses novos processo que, precisam passar pela escola, uma vez que, essas condições envolvem a escola e a sociedade como um todo, transformando-as. Ou seja:

A doutrina materialista da transformação das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias [tenham que], ser transformadas pelos homens e que o próprio educador, [tem que ser] educado [para isso]. Daí que, ela tenha que dividir à sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima dela. Já a coincidência da mudança de circunstâncias e da atividade humana [passa pela] transformação, [... e ou pela] tomada [de consciência] racional, [que também pode ser] entendida como [uma] práxis revolucionária (Marx, 1984, p. 108).

Sim, o livro do Cheptulin, denominado Método Materialista, escrito em 1975, tinha por objetivo avivar a memória da educação russa quanto ao Método Materialista Histórico-Dialético. No Brasil, esse livro foi traduzido e publicado em 1982. A escrita desse livro tem uma relação direta com Cheptulin, uma vez que o legado de Marx deixou para a Europa oriental e para todo o mundo a clara intenção de que o autor estava preocupado com o MMHD de Marx, mas a sua discussão restringiu-se às categorias e às leis da Dialética Materialista. De fato, o livro Catégoris et lois de ladialectique – A Dialética Materialista: Categorias e leis da dialética – mostra a preocupação do autor em sistematizar e explicitar, mais e melhor, um conjunto de categorias e leis da dialética, para o povo russo daquela época. De fato, o livro do Cheptulin (1982)

[...] procura analisar as principais categorias e leis da dialética materialista, colocando-as em evidência, e expõe ‘a essência do materialismo dialético, enquanto teoria filosófica particular’. Estas categorias e leis, adverte o autor, são apresentadas ‘sob a forma de um sistema de conceitos interdependentes, um determinando o outro e um decorrendo do outro’ e podem ser consideradas ‘como reflexos das propriedades e relações reais, como graus e formas de desenvolvimento do conhecimento da sociedade e como princípios do conhecimento dialético e de uma transformação orientada pela realidade’ (Cheptulin, 1982, contra capa).

Essa citação nos permite abstrair que Cheptulin (1982) escreveu esse seu livro para que os professores e teóricos russos pudessem estudar o pensamento marxista pós-revolução (1917), no intuito de ajudar o povo russo a reelaborar sua base teórica e metodológica, uma vez que eles buscavam reelaborar um conjunto de categorias e leis da dialética marxista para, assim, poderem ajudar a repensar a escola e a educação russa.

Considerações finais

Triviños (2006) procurou ler toda literatura marxista e elaborou um texto base, no intuito de ajudar seus alunos, orientandos e estudiosos de Marx a estudar e usar o MMHD em suas atividades de ensino e de pesquisa. Outra novidade que o professor Triviños implantou neste seu plano de estudo está relacionado com a didática participativa, além, é claro, de utilizar recursos didáticos e pedagógicos ativos em suas aulas. Estamos falando da necessidade de se fazer uma leitura prévia dos textos de cada disciplina, para que seus aprendizes aprendessem a discutir, a partir de temáticas e textos previamente indicados.

Desse modo, com o auxílio de seus textos base, escritos especialmente para o Seminário de Metodologia da Pesquisa, ele buscava propor um caminho metodológico específico, para que seus orientados pudessem estudar o MMHD de Karl Marx, auxiliados por uma didática ativa e interativa. Sim, no Seminário de Metodologia da Pesquisa, Triviños, por meio de um texto base, denominado Introdução ao Método Dialético na Pesquisa em Ciências Sociais, por meio do qual, ele buscava orientar seus alunos e pesquisadores e assim, ajudá-los no entendimento e na compreensão da teoria Materialista Histórico-Dialética no seu todo.

Além disso, ele (Triviños), recorria à didática e as teorias de aprendizagem ativas para desafiá-los a vivenciarem a teoria a partir de uma prática materialista. Assim, o Seminário de Metodologia da Pesquisa, oferecido por Triviños, nos ajudou e muito, para que conhecêssemos os fenômenos, as categorias e as leis da dialética propostos pelos teóricos da área, bem como nos ajudou no estudo dos clássicos marxistas, de forma didática e inovadora.

É por isso que hoje podemos afirmar que o professor Triviños, em seus Seminários de Metodologia da Pesquisa, foi pesquisando e aprimorando seu texto base sobre o Método Dialético de Ensino e de Pesquisa, na área das Ciências Sociais, no intuito de subsidiar e orientar os estudiosos da graduação e pós-graduação, para que estes também pudessem dominar e desenvolver suas pesquisas, a partir do Método Materialista Histórico-Dialético, retomando-o em suas reuniões e orientações de maneira tão didática e pedagógica.

Esse “documento preliminar” do professor Triviños busca problematizar um conjunto de aspectos metodológicos que nos ajudaram a estudar a formação de professores com o auxílio do MMHD de Marx, como também nos ajudou a escolher métodos complementares, capazes de privilegiar aspectos específicos da teoria marxista, como o destaca Zago “[...] a dialética marxista busca o significado do real na atuação histórica, concreta e material das pessoas. É na história que os seres humanos engendram e ressignificam o mundo ao seu redor” (2013, p. 115).

Mais, o MMHD problematizado neste artigo, ao contrário das concepções Idealistas da Dialética de Hegel, sempre partem de relações sociais concretas, e não de meras abstrações ou de meras especulações teóricas. Ou seja, para os teóricos materialistas, não basta uma abordagem puramente idealista, já que o método materialista parte de fatos que têm sua origem ao longo de percursos históricos, o que também precisa ser considerado nesta metodologia. Além disso, precisamos ter claro que essas relações também precisam ser históricas e dialéticas, porque a realidade só existe na medida em que ela se encontra historicamente situada, motivo pelo qual a realidade não pode ser natural e nem imodificável.

Enfim, não há dúvida de que as três abordagens do método dialético aqui problematizadas trazem uma boa contribuição para o ensino e a pesquisa educacional de qualquer país, em especial, quando se usa e se estuda as diferentes metodologias de pesquisa para as Ciências Sociais. O texto base do Seminário de Metodologia da Pesquisa, no entanto, traz algo a mais para a educação, uma vez que ele foi elaborado enquanto um caminho metodológico próprio, para se introduzir os “neófitos” no domínio da Dialética Materialista. Também ajuda a introduzir os neófitos, de forma mais didática, propositiva, dialógica e qualitativa no Método Dialético para se poder aprender a explorar e a utilizar uma proposta metodológica mais dinâmica, participativa, dialógica, interativa, desequilibradora, entre outros atributos, para que os estudantes possam apropriar-se do Método Materialista Histórico-Dialético.

Referências bibliográficas

BARATA-MOURA, José. Materialismo e subjectividade. Lisboa: Avante, 1998.

CHEPTULIN, Alexandre. A dialética Materialista: Categorias e leis da dialética. São Paulo/SP: Ed. Alfa-Omega, Ltda, 1982.

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Agradecimentos

A COMPESQ/Edu da UFRGS – Comissão de Pesquisa da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Miguel Alfredo Orth

Pós-Doutorado em Educação pela UFRGS, Doutor em Educação pela UFRGS, e graduando em filosofia pela UFRGS e Professor Associado 1 da Universidade Federal de Pelotas - RS; Professor e Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Faculdade de Educação (FaE) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e membro do Grupo de pesquisa Formação e Prática de Professores e as Tecnologias da Informação e da Comunicação (FORPRATIC) e do grupo de pesquisa Formação de Professores para o Mercosul Cone/Sul. http://lattes.cnpq.br/9604790118520059; http://orcid.org/0000-0002-4516-1815.

Os textos deste artigo foram revisados por terceiros e submetidos para validação do(s) autor(es) antes da publicação



[1] Este artigo é um dos resultados do Pós-Doutoramento do autor do artigo, sob a orientação da Prof. Dra. Carmen Machado, junto ao Projeto de Pesquisa: “INVENTARIANDO: Diálogos e Trabalhos na Formação Educadora entre PESE (Pedagogia e Ensino na Saúde como Experienciação) e SABES (Saberes, Autoria, Biografia, Escritas, Saúde)”, na UFRGS.

[2] Neste artigo utilizamos o termo – Adeptos – como sinônimo de: aderente, apoiante, comungante, correligionário, cultor, partidário, sectário, defensor, associado, parceiro, coligado, confederado, e não no sentido religioso de seguidor, que não enfrenta o mestre, o que, para o Triviños era impensável, enquanto orientador de qualquer trabalho intelectual como dissertação ou tese.

[3] O autor do livro a Dialética do concreto, Karel Kosik, É um filósofo de origem tcheca que, nasceu em Praga no ano de 1926 e, ao longo da vida, participou como membro do Partido Comunista Tcheco.

[4] Kosik (1976 p. 11) caracteriza a pseudoconcreticidade da seguinte forma: “A o mundo dos fenômenos externos, que se desenvolvem à superfície dos processos realmente essências; o mundo do tráfico e da manipulação, isto é, da práxis fetichizada dos homens (...); o mundo das representações comuns, que são projeções dos fenômenos externos nas consciências dos homens, produto da práxis fetichizada, formas ideológicas de seu movimento; o mundo dos objetos fixados, que dão a impressão de serem condições naturais e não imediatamente reconhecíveis como resultado da atividade social dos homens”.

[5] Ver a tese 3 de Marx.