
Phrónesis e euboulía na gênese fenomenológica da decisão em Heidegger (1924-1925)
Phrónesis and Euboulía in the
Phenomenological Genesis of Decision in Heidegger (1924–1925)
Seção: No horizonte da Ontologia fundamental de Ser e Tempo: os textos de Martin Heidegger de 1925
Autor(a): Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
ORCID: 0000-0002-8572-8302
Contato
principal: kahlmeyermertens@gmail.com
Afiliação: Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNIOESTE,
Campus de Toledo, Universidade Estadual do Oeste do
Paraná, Toledo, PR, Brasil.
Recebido: 27/08/2026
Received: 27/08/2026
Aprovado: 23/09/2026
Approved: 23/09/2026
Publicado: 24/09/2026
Published: 24/09/2026
Resumo
O artigo investiga a apropriação fenomenológica dos conceitos aristotélicos de phrónesis (sabedoria prática) e euboulía (boa deliberação) operada por Martin Heidegger na preleção didática Platão: Sofista (1924-1925). Afastando-se de leituras estritamente morais, formais ou exegéticas tradicionais, defende-se a tese de que a deliberação prática guiada pela sabedoria situacional não constitui um mero sistema rígido de normas abstratas, mas sim um descerramento que permite uma tomada de decisão contra a ambiguidade e o falatório impessoal promovidos pela opinião (dóxa). Por meio de uma reestruturação ontológica dos nexos entre o princípio (arkhé) e a finalidade da ação (télos), o jovem filósofo alemão prefigura o conceito existencial de decisão (Entschlossenheit), consolidando a linguagem prática como um contradiscurso requerido diante da finitude temporal da existência fática.
Palavras-chave: Heidegger; Platão: Sofista; phrónesis; euboulía; dóxa.
Abstract
The article
investigates the phenomenological appropriation of the Aristotelian concepts of
phrónesis (practical wisdom) and euboulía (good deliberation-making) carried
out by Martin Heidegger in his lecture course Plato's Sophist (1924–1925).
Departing from strictly moral, formal, or traditional exegetical
interpretations, this study defends the thesis that practical deliberation
guided by situational wisdom does not constitute a mere rigid system of
abstract norms. Instead, it represents a disclosure that enables a
decision-making process against the ambiguity and idle talk promoted by public
opinion (dóxa). Through an ontological restructuring of the connections between
the principle (arkhé) and the finality of action (télos), the young German
philosopher prefigures the existential concept of resoluteness
(Entschlossenheit), thereby consolidating practical discourse as a necessary
counter-discourse in the face of the temporal finitude of factical existence.
Keywords: Heidegger; Plato's Sophist;
phrónesis; euboulía; dóxa.
Introdução
Uma reconstrução dos caminhos investigativos que culminaram na colação de Ser e Tempo (1927) ainda hoje constitui exigente tarefa interpretativa e de análise para a filosofia hermenêutica e fenomenológica desenvolvida na primeira metade da década de 1920. Longe de empresa sistemática, ainda pretendida pelo turno neokantiano nos anos imediatamente precedentes, a análise fundamental do ser-aí (Dasein) foi gestada em um ambiente fervoroso ao pensamento, no qual Martin Heidegger submeteu a tradição filosófica ocidental a uma desconstrução intrínseca.[1] Com o intento de apropriação interpretativa, a preleção didática ministrada pelo jovem filósofo alemão no inverno de 1924-1925 na Universidade de Marburgo, intitulada Platão: Sofista, figura como um campo de exercícios seminal. Sem se limitar a um comentário dos temas fundacionais da antiguidade clássica, aquele curso operou significativo deslocamento ontológico: ele retira o primado do saber teorético e abstrato, tradicionalmente isolado em sua pretensão de tomar o que sempre-é (Immerseienden),[2] e faz com que o pensamento se volte ao cotidiano fático, âmbito no qual a existência humana se apresenta em toda a sua inquietação, fragilidade e finitude.
Tal como interpretamos, a questão orientadora desta investigação se origina justamente da consideração da estrutura existencial do ser-aí. Indaga-se: de que maneira o ser humano, inteiramente marcado pela temporalidade existencial, pela mortalidade e por uma tendência de ceder às convenções impessoais do cotidiano, pode alcançar a autotransparência quanto ao seu próprio ser e se comportar de forma autêntica nas circunstâncias práticas? Esse questionamento se reveste de urgência quando confrontado com a incapacidade crônica de um saber sumamente contemplativo (sophía) e da racionalidade orientada ao fazer técnico (tekhné) de acolherem e orientarem as flutuações e as demandas do bem humano. Ao longo dos séculos, a tradição metafísica, ao apostar no conhecimento teorético como o auge da dignidade filosófica, silenciou diante das vicissitudes do cotidiano, relegando a esfera da ação a um plano secundário, regido por um pragmatismo instrumental ou por diretrizes formalistas com normas vazias.
Diante de tal quadro, o objetivo geral do presente artigo é analisar a desconstrução e a subsequente ressignificação fenomenológica que Heidegger opera sobre dois conceitos fundamentais da filosofia prática de Aristóteles naquele curso: a phrónesis (sabedoria prática) e a euboulía (boa deliberação). Essa operação desconstrutiva, que redefine os parâmetros da filosofia antiga, constitui o que Hohler (2007) explicita como o fenômeno de uma “phrónesis transformada”. Sob a visada da fenomenologia hermenêutica, a sabedoria prática é destituída de seu antigo estatuto intelectualista e formal, associado por comentadores tradicionais a uma espécie de “farmácia moral” com prescrições de conduta. O comentador atesta que a leitura heideggeriana altera o modo com que se entabula este debate: em vez de interrogar a virtude a partir de sua eficácia pragmática ou de sua subordinação a imperativos universais formalistas, Heidegger a reabilita como uma estrutura de abertura ontológica. Assim, afastar-se da exegese tradicional implica admitir que a prudência aristotélica passa por uma transformação conceitual definitiva, deixando de ser uma instância da alma que delibera sobre objetos para se converter no próprio modo como a existência fática confere clareza ao horizonte circunstancial de seu ser-no-mundo.
Pretende-se indicar que, pela abordagem hermenêutica de Heidegger, esses conceitos de sabedoria prática e boa deliberação deixam de ser compreendidos como virtudes eminentemente intelectuais, racionalidade normativa ou dispositivos morais herdados da tradição. Em vez disso, são reposicionados como os próprios fundamentos existenciais e interpretativos que conferem clareza à ação circunstanciada do ser-no-mundo. Para tanto, defende-se a tese de que a deliberação guiada pela sabedoria situacional ocorre por meio de um descerramento compreensivo e decisório no qual já se prelineia o conceito fenomenológico-existencial de “decisão” (Entschlossenheit). Essa atitude deliberativa unifica dinamicamente as motivações iniciais (arkhé) e os fins últimos (télos) do agir fático, permitindo que o indivíduo goze de sua autonomia em hora favorável (kairós). Ao responder às urgências da existência compartilhada, o ser-aí contrapõe-se ativamente ao ocultamento, ao dogmatismo e ao nivelamento promovidos pela opinião comum (dóxa).
O foco deste artigo recai sobre a dinâmica da euboulía como um comportamento atento e de confrontação ao obscurecimento promovido por esta opinião e pelo falatório impessoal na publicidade do mundo.[3] A pertinência dessa abordagem justifica-se porque a linguagem cotidiana, quando submetida aos ditames da publicidade, opera como uma camada de preconceitos. Ao encobrir o mundo, essa camada transmite a ideia de uma estabilidade apriorística na qual o ser-no-mundo estaria isento do peso de deliberar por si mesmo, gerando uma ambígua impressão de clareza que encobre a contingência do mundo. O resgate da boa deliberação surge, assim, como uma necessidade de romper essa barreira interpretativa, permitindo que o ser-no-mundo reavalie suas escolhas a partir de seu próprio horizonte factual.
Para validar a tese sustentada, o artigo divide-se em quatro eixos temáticos integrados. O primeiro dedica-se à desconstrução dos limites corporais e temporais do comportamento e do saber contemplativo (sophía). Analisa-se como a finitude e a vulnerabilidade da existência do ser-aí inviabilizam uma lida puramente teórica com verdades eternas, abrindo espaço para a reabilitação do comportamento prático. O segundo eixo concentra-se na análise da situacionalidade prática em oposição à racionalidade técnica (tekhné), apontando que a conjuntura da ação exige uma unidade indivisível composta pelo diagnóstico do problema, pelo agenciamento do tempo oportuno (kairós) e pelo trato operativo diante de um horizonte de mundo compartilhado. O terceiro avança em direção à articulação ontológica da decisão (Entschlossenheit) a partir da confrontação hermenêutica entre arkhé (princípio motivador) e télos (finalidade do comportamento), indicando que a deliberação correta (orthótes boulês) se expressa no compromisso existencial que unifica o que move o agente e o que ele busca em um único lance decisivo. Por fim, o quarto eixo investiga o fenômeno da linguagem enquanto discurso (lógos), redefinido como a fala significativa anterior às formalizações lógicas, como um ato de resistência contra a opinião comum e as amarras da cotidianidade impessoal.
1. As limitações da sophía
A investigação acerca da capacidade compreensiva da alma humana estabelece como ponto de partida metodológico uma desconstrução de dois dos principais modos de desocultação legados pelo pensamento clássico: a phrónesis, associada à sabedoria prática, e a sophía, o saber teórico ou contemplativo. Ambas as instâncias constituem desdobramentos da possibilidade discursiva do ser-aí humano, pensadas como vias para extrair os entes do esquecimento rumo à compreensão. Todavia, seus campos de realização direcionam-se a âmbitos distintos da existência, gerando a tensão conceitual que fundamenta a análise da dimensão cotidiana da existência.
Nos limites dessa interpretação fenomenológica, a sabedoria prática é identificada como um modo de saber caracterizado por sua gravidade e implicação direta na condução da existência. Essa distinção recupera a diferença entre as matérias ligadas à urgência do comportamento humano concreto e as coisas dotadas de presença constante e imutabilidade metafísica. Enquanto a tradição filosófica posterior consolidou a primazia absoluta do saber teórico em função da dignidade perene de seu objeto, a abordagem hermenêutica de Heidegger opera uma inversão de prioridades em direção ao cotidiano imediato do ser-no-mundo. Por esse ângulo, a sophía é descrita como o conhecimento que se ocupa daquilo que possui o caráter de permanência, referindo-se a instâncias superiores, necessárias e imutáveis inseridas na ordem das coisas, situadas além das inconstâncias históricas do observador. Em contrapartida, a phrónesis direciona seu foco ao dinamismo da existência humana, capturando-a em sua fragilidade, contingência e mutabilidade histórica (Kahlmeyer-Mertens, Santos, 2020). A felicidade e a realização plena da vida humana não se localizam no plano de abstrações inalcançáveis, mas estão radicadas na esfera prática, convertendo a sabedoria em um caminho necessário para que o ser-aí humano aceda a sua própria autocompreensão.
Essa diferenciação conflui para a separação entre o comportamento contemplativo (teórico) e o prático. Na preleção que tomamos por base, Heidegger (1992) caracteriza a teoria indicando que theorein é o ver à distância, posição que pressupõe isenção frente aos fatores situacionais do mundo circundante. Entretanto, a análise fenomenológica submete esse ver fixador aos limites impostos pela finitude humana. A inviabilidade de um projeto puramente contemplativo do que sempre-é manifesta-se como uma restrição intrínseca de uma existência determinada pela temporalidade:
[...] o ser-aí humano é próprio quando atinge seu sentido mais elevado, quando permanece no mais alto grau, pelo maior tempo possível e sempre, na pura contemplação do que sempre-é (im reinen Betrachten des Immerseienden). Contudo, na medida em que o humano é mortal, na medida em que necessita de repouso e relaxamento (Erholung und Abspannung) no sentido mais amplo, a permanência constante no sempre-ser (ständige Aufenthalt beim Immerseienden) lhe é negada e, da mesma forma, uma relação apropriada com este que sempre-é (Heidegger, 1992, p. 171, tradução nossa).
Como Heidegger (1995) já indicara em outro lugar, entre frágil, inquieto e finito, o ser-aí é incapaz de fixar-se em um comportamento puramente contemplativo. Esse fracasso não resulta de tibieza moral ou indisciplina intelectual, mas expõe um traço incontornável do modo de ser do humano. O comportamento estritamente teorético, ávido pelo imutável, mostra-se incapaz de acompanhar as demandas práticas da existência e o ideal de bem. Essa limitação estrutural da sophía é justamente o que abre espaço para a reabilitação heideggeriana do saber situacional, transformando o que a tradição considerava uma imperfeição no solo ontológico fundamental para a conquista de um sentido existencial próprio.
2. Sobre racionalidade técnica, sabedoria prática e o deliberar em hora favorável
A interpretação fenomenológica desenvolvida em Platão: Sofista revisa a estrutura do comportamento humano ao rejeitar a conversão da phrónesis em um mero dispositivo moral ou faculdade prudencial (Cf. Kahlmeyer-Mertens, 2005). Heidegger aponta que a sabedoria prática atua primordialmente como um descerramento compreensivo. Não se trata de entender uma realidade já representada e isolada de seus laços significativos, mas de alcançar uma abrangência de sentidos que elucida o horizonte do mundo fático aberto ao ser-aí. A partir dessa visada hermenêutica, o cenário em que o ser-aí se descobre ambientado deixa de ser um palco estéril e passa a ser compreendido como o campo existencial no qual o sentido se processa e se intensifica à medida que decisões são demandadas.
Para consolidar essa distinção, é necessário contrastar a sabedoria prática com a racionalidade técnica da produção. Enquanto a técnica opera a partir de um plano exterior predeterminado, visando à confecção de um artefato que se autonomiza de sua causa eficiente, o comportamento prático lida diretamente com a contingência e com a instabilidade do mundo cotidiano. As variáveis da ação não funcionam como elementos conjugados em um pensamento calculador; elas se determinam mútua e simultaneamente em uma unidade integrada e inseparável. Compreender o que está em jogo em determinada situação a partir da práxis requer uma visão circunstanciada das possibilidades contextuais, distanciando-se de uma atividade de cálculo ou de obtenção de eficácia. Essa visada se concretiza por meio de um senso prático que ajusta o comportamento ao modo existencial do ser-no-mundo. A identificação do problema e a realização do comportamento fundem-se em uma atitude compreensiva única: o reto agir decorre de um saber-se em situação. Destarte, se na técnica o erro é uma falha na execução de um projeto, na sabedoria prática ele resulta de uma visão parcial ou deficiente das contingências, ou seja, de uma inconsistência na orientação circunvisiva diante dos contextos do mundo circundante.
A coesão do saber prático é perpassada por uma temporalidade de caráter qualitativo. O momento crucial em que a decisão precisa ser tomada não se submete ao curso ordinário do tempo cronológico; a phrónesis move-se segundo o registro da hora favorável (kairós). Esse instante propício não é um ponto fixo dependente de uma constatação passiva, mas emerge da dinâmica das circunstâncias, demandando atenção para acorrer à urgência antes que a possibilidade de ação se dissipe. Destarte, o retardo por hesitação ou a precipitação não configuram apenas erros de cálculo estratégico, mas apontam o descompasso do comportamento prático com a temporalidade própria do processo decisório.
Essa temporalidade qualitativa encontra fundamentação na leitura de McNeill (1999) acerca do “golpe de vista” (the glance of the eye). Ao reconstruir a apropriação heideggeriana do kairós aristotélico, o comentador indica como o filósofo alemão desconstrói o modelo de tempo linear e sucessivo da física teórica. O instante propício não se reduz a um átimo de tempo quantificável, mas a própria abertura da situação fática. Sob essa visada, a boa hora antecipa ontologicamente o conceito existencial de instante (Augenblick) em Ser e Tempo, figurando como a abertura resolutiva na qual o ser-aí, em um único lance circunvisivo, apreende a urgência das circunstâncias e assume a autoria de sua conduta. A hora favorável é o elemento que atrela a urgência do problema e o tato do procedimento à iminência do momento presente.
Essa dinâmica existencial e temporal não ocorre em um sujeito encapsulado ou determinado endopsiquicamente.[4] A situação na qual o ser-aí delibera é um espaço de coexistência cotidiana. Nenhum comportamento prático realiza-se em um cenário neutro ou solipsista, ele ocorre inserido em uma rede de correlações coletivas e históricas. A prática envolve tanto a ocupação manual com utensílios quanto a preocupação com os outros que compartilham o mundo. Ao integrar a práxis, o tempo qualitativo e a coexistência, a interpretação fenomenológica reconfigura o conjunto situacional: se o arranjo das preocupações se altera (ou se o instante oportuno se dissipa), os meios adotados exigem revisão imediata. A phrónesis, em última análise, consolida-se como a flexibilidade imanente que faculta ao ser-aí acompanhar a instabilidade do mundo fático-histórico, proporcionando autotransparência em meio à própria dinâmica da existência
3. Decisão mediante retidão elaborada
A investigação desenvolvida por Heidegger acerca do comportamento prático atém-se aos nexos intrínsecos ao processo deliberativo (bouleusis). Ao considerar as tomadas de posição no horizonte do mundo, o filósofo evita os vieses crítico-moral, calculista ou utilitarista. Assim, a boa deliberação não é produto de um balanço racional de prós e contras; em termos ontológicos, ela se constitui na tensão entre dois polos que sustentam a projeção do indivíduo na história: o princípio (arkhé) e o fim último (télos). Distanciando-se de leituras formalistas que fragmentam a ação em instantes polarizados de início e término, a interpretação fenomenológica define esses pontos como componentes coesos de uma mesma totalidade intencional.
Nesse panorama, o princípio perde o caráter tradicional de uma causa eficiente que moveria um agente a partir de um passado inerte. Ele passa a denotar o fundamento compreensivo inicial, a motivação primeira que torna inteligível e orienta o comportamento assumido. Toda consideração prática de caráter deliberativo traz consigo uma projeção de possibilidades mediante a qual o ser-aí prefigura a destinação de sua conduta. Já o fim último exibe uma diferença estrutural insuperável em relação à finalidade técnica: enquanto o trabalho técnico atinge seu fim na produção de um artefato que se autonomiza da ação, o fim da práxis é atingido na própria realização do comportamento correto. A principal tarefa da sabedoria prática está em desencobrir essa conexão indissolúvel entre a motivação inicial e o fim último, arrancando o agente de uma postura passiva.
É nesse esforço de investigação fenomenológica que emerge a formulação da “decisão” (Entschlossenheit), conceito relevante na analítica existencial. Com esta, Heidegger (1992) afasta-se de uma recepção lógico-analítica ou normativa que interpretaria a retidão do deliberar como uma dedução acertada entre premissas silogísticas:
Na medida em que o bouleúesthai eû (bem deliberar) deve ser direcionado da maneira correta, o eû (bem) pertence à execução do próprio bouleúesthai (deliberar). Ser direcionado da maneira certa - eû - é a correção, orthótes, da ação, que, em certo sentido, é a direção, que é marcada pelo arkhé e pelo télos da ação [...]. A retidão elaborada (ausgearbeitete Richtigkeit) da ação concreta é o orthótes boulês (deliberação correta), boulês é a decisão, o ser-determinado [...]. A transformação da situação concreta visa disponibilizar a decisão correta (rechte Entschlossenheit) enquanto transparência da ação. E na medida em que essa determinação é de fato apropriada e realizada, na medida em que eu sou, portanto, determinado, a ação está presente em sua potencialidade última. A descoberta dirigida da situação plena finda na decisão própria de tomar a si própria (Heidegger, 1992, p. 150, tradução nossa).
A fundamentação dessa “retidão elaborada” exige compreender que o movimento interpretativo heideggeriano opera o que Sadik (2023) cunhou como a transição da phrónesis ao estatuto de uma verdade ontológica. Ao desvincular a deliberação de um mero acerto de cálculo utilitário, o jovem filósofo alemão a reposiciona como o próprio modo de desocultação pelo qual o ser-aí se torna manifesto para si mesmo. A retidão do deliberar não se resolve na correção formal do juízo, mas no comprometimento que retira a existência de sua dispersão costumeira. Desse modo, a Entschlossenheit prefigurada no curso de 1924-1925 não emerge como um gesto de vontade de uma subjetividade ajuizante, mas sim como a radicalização ontológica dessa virada aristotélica, na qual decidir significa assumir o desvelamento da cena prática como um poder-ser singular e intransferível próprio ao ser-no-mundo.
A retidão elaborada designa o comportamento que se mantém orientado pelo desencobrimento, recusando-se a ceder diante das distrações ou das falsas facilidades promovidas pelo cotidiano público. Adotar uma postura resolutiva não significa aderir de forma cega a um imperativo artificioso; traduz-se no ato de aceder ao circunstancial, empregando a acuidade necessária para fazer com que a cena prática se torne transparente em suas possibilidades. O boulês, ao ser traduzido como decisão, revela que a deliberação correta é o comprometimento existencial[5] em que o agente unifica o que o move (arkhé) e o que ele busca (télos) em um único lance decisivo.
Como a visão da verdade e o ganho de evidência sobre uma situação não oferecem certeza cabal que conferiria garantias de controle, a decisão existencial jamais se resume a um ato isolado no tempo. Todo comportamento prático é absorvido pela lógica de ocupações de um mundo cotidiano, exigindo do ser-no-mundo um empenho contínuo de reconsideração diante de cada nova configuração da realidade. Decidir, assim, é comprometer-se com um enfrentamento contra a tendência de ocultação imposta pelo costumeiro, assegurando que a ação se realize em sua atenção às circunstâncias existenciais. A dispersão fática é confrontada pela constante renovação do ato decisório que situa o ser-aí no sentido de seu mundo circundante.
4. A linguagem da práxis contra a dóxa
Ao progredir em sua tematização, avançando à análise fenomenológica das estruturas do comportamento prático em sua dimensão linguística, Heidegger (1992, p. 160) questiona o sentido tradicional do orthós logos (linguagem correta). A tradução deste conceito como “razão correta”, da qual a posteridade medieval e moderna se apropriou intelectualmente, é contestada pelo filósofo. Ao resgatar o termo da primordialidade grega, ele indica que lógos designa a palavra viva, um discurso significativo e uma fala concreta, distante da ideia de recta ratio vinculada a critérios lógicos formais. Trata-se de uma linguagem integrada ao fluxo da experiência imediata, anterior a abstrações teoréticas. Nesse sentido, a correção (orthós) não se pauta pela conformidade a normas, mas orienta-se pela plausibilidade do direcionamento do comportamento manifesto por meio da deliberação.
Essa necessidade de delimitar uma modalidade prática de linguagem justifica-se pelo modo de ser dos princípios que coordenam a existência. Enquanto o pensamento lógico-proposicional clássico opera por meio da divisão predicativa e do julgamento gramatical, segmentando a realidade entre sujeitos e atributos, o comportamento do ser-aí exige uma compreensão do mundo enquanto campo existencial. A fragmentação promovida por sentenças abstratas mostra-se estruturalmente insuficiente para abarcar a totalidade de um comportamento contextualizado. Por essa razão, o discurso prático acompanha a deliberação. A conduta transparente e decisória dispensa formalizações lógicas posteriores que tentem justificá-la, pois encontra em si mesma o seu desfecho interpretativo imediato.
Para consolidar a autonomia deste modelo prático de desvelamento do real, a análise fenomenológica estabelece uma separação rigorosa em relação a outras modalidades de saber. No que concerne ao contraste com o conhecimento científico (epistéme), por exemplo, a distinção fundamenta-se na estabilidade de seus respectivos objetos. A ciência debruça-se sobre aquilo que já se apresenta como dado de antemão; como saber explicativo, opera sobre domínios em que a busca pela essência cessou, cabendo-lhe identificar ocorrências empíricas, quantificar regularidades e generalizar o deduzido na forma de lei. Em contrapartida, a boa deliberação (euboulía) recusa parâmetros estáticos, voltando-se para um horizonte existencial cujo projeto nunca está concluído. De modo análogo, ela afasta-se de reações cognitivas mecânicas e impulsivas; a realização da boa deliberação requer o amadurecimento ao longo do tempo, demandando constante cuidado frente aos riscos de obscurecimento sempre à espreita na existência diária.
Finalmente, o discurso orientador da práxis contrasta com o modo de ser característico da opinião (dóxa). A opinião atém-se a juízos prontos e dogmáticos, obscurecendo a compreensão de mundo por presumir um julgamento definitivo sobre a realidade. Heidegger indica que:
[...] esse modo de desencobrimento caracteriza o ser-aí em seu endékhetai (admitir): endékhetai kaì pseúdesthai (admitir também errar); na medida em que o ser-aí se move nele, ele pode se enganar. A dóxa não é necessariamente falsa; ela pode ser falsa; ela pode obscurecer o ente, obscurecer-se (Heidegger, 1992, p. 22, tradução nossa).
Na coexistência cotidiana, o comportamento costumeiro é tutelado pela opinião comum, o que propicia a dissolução do indivíduo na dimensão da mediania. Sob esse domínio, a superficialidade do olhar, o falatório comum e a falsa impressão de ter compreendido plenamente uma situação geram o risco de um obscurecimento das possibilidades autênticas do sujeito. É preciso advertir, no entanto, que a aproximação entre a opinião comum e a cotidianidade não implica uma equivalência absoluta de estatutos ontológicos.
Conforme um comentador sublinha ao analisar a apropriação heideggeriana de Aristóteles, a desconstrução da publicidade envolve o que este qualifica como um ato de “ver através do impessoal” (Weidenfeld, 2011, p. 254). Enquanto a dóxa preserva um caráter remissivo e ambivalente (operando ainda como um modo legítimo, embora precário, de desocultação do real que admite o erro), o falatório (Gerede) na cotidianidade mediana reforça esse obscurecimento ao se constituir como um embotamento autorreferencial. A boa deliberação, portanto, atua como o operador que permite suspender essa camada impessoal sedimentada pelo impessoal (das Man). Ao forçar o ser-aí a auscultar a voz das circunstâncias, o lógos prático desestabiliza a pretensão de evidência dogmática da opinião pública, convertendo o contradiscurso em uma fresta hermenêutica que desvela a facticidade em sua contingência.
Com isso, a confrontação linguística da opinião constitui um núcleo prático-existencial do resgate heideggeriano da boa deliberação A opinião comum planifica o mundo, oferecendo respostas-padrão que dispensam o ser-aí do peso de deliberar por si mesmo. A ambiguidade cotidiana cria uma ilusão de clareza que fornece uma aparência de certeza contra a contingência histórica. A boa deliberação, por meio de seu lógos, desmonta essa pretensão sedimentada na opinião pública e impele o ser-aí a orientar-se pelos sinais fornecidos pela própria situação. O silenciamento do alarido público passa a ser, então, precondição para que a linguagem prática emerja não como um discurso diretivo, normativo, mas como a fala que indicia como a existência se desvela na medida em que desencobre sua situação específica.
Considerações finais
O artigo validou a hipótese de que a preleção de Marburgo (1924-1925), dedicada à interpretação da filosofia prática aristotélica, configura-se como o solo-matriz no qual Heidegger formula o conceito de decisão (Entschlossenheit), posteriormente consolidado em Ser e Tempo (1927). Diante do questionamento sobre como o ser-aí poderia conquistar transparência existencial frente à dispersão pública, depreende-se que a resposta heideggeriana não aponta para um retiro contemplativo extratemporal, mas sim para a inserção lúcida e decidida nas próprias coordenadas da contingência do cotidiano. A boa deliberação desvela-se no ato de retirar o comportamento prático do obscurecimento promovido pelas convenções impessoais, transformando a inconstância própria da existência fática no solo da apropriação existencial.
Esses resultados cumprem os objetivos estabelecidos para este estudo. Evidenciou-se que a phrónesis e a euboulía deixam de atuar como faculdades intelectuais acessórias à práxis para se converterem em elementos descerradores da compreensibilidade do mundo. A partir da desconstrução das pretensões perenes da sophia, o estudo mostrou que as limitações humanas – como a vulnerabilidade e a necessidade estrutural de repouso – inviabilizam a fixação ininterrupta do pensamento junto a entes imutáveis. Em decorrência disso, como se viu, o erro prático pôde ser isolado como um fenômeno hermeneuticamente tratado: diferentemente da falha técnica na tekhné, caracterizada por uma deficiência na execução de um plano prévio, o erro na esfera prática apresenta-se como uma inaptidão circunvisiva de acompanhar as variações imprevisíveis do contexto compartilhado.
Para além desses primeiros saldos, este esforço analítico trouxe dois ganhos fenomenológicos adicionais. O primeiro refere-se à reconfiguração da temporalidade da ação por meio do operador do kairós. Ao isolar o instante oportuno como uma dimensão puramente qualitativa, indicou-se que o tempo da decisão rompe com a linearidade quantitativa do tempo cronológico; a hora favorável é um instante de possibilidade fática cuja perda por hesitação ou precipitação inviabiliza a realização. O segundo achado consiste na redefinição do orthós lógos enquanto fala significativa anterior às categorizações formais da lógica predicativa. O discurso prático foi recuperado como uma modalidade viva de linguagem que acompanha e elucida a determinação do comportamento, dispensando justificações teóricas posteriores por trazer em si mesmo o seu desfecho interpretativo imediato. Desorganiza-se, com isso, uma visão puramente instrumentalista da linguagem em favor do acontecimento do desvelamento do real fático.
O ganho mais expressivo desta investigação situa-se no desnudamento do caráter da opinião comum (dóxa) e do falatório (Gerede). A dimensão pública do mundo cotidiano atua como uma capa de preconceitos sedimentados que oferece respostas genéricas e padronizadas, desonerando o ser-aí de deliberar por si mesmo. Frente a essa planificação, a boa deliberação emerge como um contradiscurso destrutivo que corrói as opiniões medianas e silencia o alarido do impessoal, forçando o indivíduo a auscultar rigorosamente a voz das circunstâncias e a assumir a responsabilidade singular e intransferível por seu próprio destino. Sob a lente da fenomenologia heideggeriana, a sabedoria prática e a boa deliberação expõem cruamente o ser-aí à circunstancialidade de um mundo fático-histórico, entregando o ser-aí ao risco e à dignidade de ser existencialmente em seus próprios contextos.
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Metadados Da Submissão
CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA
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responsabilidade por todos os aspectos deste artigo, conforme a taxonomia CRediT (Contributor Roles Taxonomy).
AGRADECIMENTOS
O autor agradece ao Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Espírito Santo pelo suporte institucional e pelo ambiente acadêmico que viabilizou
esta pesquisa.
FINANCIAMENTO
O presente trabalho não recebeu financiamento de
nenhuma agência de fomento.
USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O autor declara que não utilizou ferramentas de Inteligência Artificial
Generativa na preparação deste manuscrito.
CONFLITO DE INTERESSES
O autor declara não
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DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA E OUTROS
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Como citar
KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Phrónesis e euboulía na gênese
fenomenológica da decisão em Heidegger (1924-1925). Sofia, Espírito
Santo, Brasil, v. 15, n. 2, p. e15254101, 2026. DOI: https://doi.org/10.47456/sofia.v15i2.54101
Disponível em : https://periodicos.ufes.br/sofia/article/view/54101 . Acesso em: 24 set. 2026.
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
Professor adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. Doutor em Filosofia formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.
Os textos deste artigo foram revisados por terceiros e submetidos para validação do(s) autor(es) antes da publicação
[1] Sobre o horizonte histórico dessa desconstrução, ver Barbosa (2007). Em seu estudo o comentador mapeia como o jovem Heidegger rompe com as interpretações dominantes da época, herdeiras do neokantismo e da neoescolástica, as quais tendiam a reduzir a filosofia prática de Aristóteles a um mero sistema normativo, formalista e doutrinal de virtudes morais. Apoiado nisso, nosso artigo também pretende indicar que a apropriação fenomenológica afasta-se desse viés tradicional ao resgatar o caráter eminentemente ontológico e fático da phrónesis, convertendo-a em vetor de descerramento da existência, contra a rigidez exegética da tradição.
[2] “Immerseiendes” é usualmente traduzido por “eterno”, embora não seja precisamente a ideia de eternidade a que está em jogo nos contextos da preleção de Heidegger. Em sentido literal, a palavra alemã diz o ente que sempre é ou o que sempre está sendo; perceba que, em ambos os casos, não estamos diante de um quadro no qual há uma ausência temporal, como na concepção cristã na qual o eterno é o sem-tempo, é o tempo de Deus, aquele que não está sujeito ao fluxo cronológico apenas cabido às criaturas. (Augustine, 1997) Na expressão utilizada por Heidegger, atribui-se o caráter de sempre-ser ao ente cuja presença é constante; mais do que isso, o termo ressalta a presença indeterminadamente duradoura que é objeto de consideração da sophía. O vocábulo da língua portuguesa “perene” (do latim perennis), ao significar algo que dura o tempo inteiro, bem se prestaria a traduzir “Immerseiendes”. No entanto, mesmo expostos ao risco da extravagância, optamos por utilizar, no presente artigo, ora a expressão “sempre-ser”, ora a expressão “sempre-é”, com o propósito de acentuar a ideia de um ente que perdura no tempo.
[3] Vale conferir a análise de Xavier (2015) sobre a euboulía em Aristóteles, já que ela elucida a retidão deliberativa servindo de contraponto para compreender o deslocamento ontológico e a desconstrução fenomenológica operados por Heidegger.
[4] De acordo com Souza (2008), a hermenêutica heideggeriana opera uma autêntica ontologização da sabedoria prática aristotélica. Ao deslocar a phrónesis e a euboulía do plano normativo e intelectualista das faculdades dianoéticas tradicionais, Heidegger converte a estrutura do agir no próprio solo da facticidade existencial. Assim, o nexo indissociável entre arkhé e télos unificado na deliberação antecipa a dinâmica estrutural da Entschlossenheit (decisão), compreendida como o compromisso contínuo do ser-aí em sustentar sua autonomia frente às pressões do impessoal.
[5] O vocábulo alemão correspondente à decisão nos permite aqui ensaiar sobre a significação desse comprometimento. Possuindo em sua raiz etimológica o verbo schließen, que pode significar “fechar”, “chavear”, “encerrar” e “obstruir” (assim como o substantivo cognato Schluss, designativo de “chave”), o termo Entschlossenheit nos faculta dizer que alguém decidido fecha com um determinado estado de coisas, preterindo os demais; assim, decidir-se por algo é assumir que o decidido seja o ‘desfecho’ de certa orientação de conduta frente a determinadas possibilidades.