O sinequismo de Peirce e o devir-com em Haraway: uma aliança fenomenológica para (des)invisibilizar espécies companheiras

Peirce's synechism and Haraway's becoming-with: a phenomenological alliance to (de)invisibilize companion species

Autor(a): Bruno Araujo Alencar

ORCID: 0000-0002-1826-0826

Contato principal: araujo_331@hotmail.com

Afiliação: Departamento de Pedagogia, Campus Timon, Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Maranhão, Brasil.

Recebido: 27/10/2025

Received: 27/10/2025

Aprovado: 22/06/2026

Approved: 22/06/2026

Publicado: 15/09/2026

Published: 15/09/2026

Resumo

Este artigo busca mostrar como o entendimento de sinequismo em Charles Sanders Peirce (1839-1914), articulado com a noção de devir-com em Donna Haraway (1944), possibilita (des)invisibilizar animais não humanos por meio de uma percepção fenomenológica. Propomos discutir de que forma as espécies companheiras, na perspectiva de Haraway, contribuem para que os animais humanos desenvolvam sentimentos de simpatia por meio de relações de inclusão mútua com animais não humanos com os quais convivem. Inicialmente, proporemos uma abordagem sinequista de Peirce, mostrando que sua filosofia pragmática gira em torno de um continuum, no qual animais humanos estabelecem semioses, isto é, uma forma de comunicação corporal com animais não humanos, uma interação que suscita experiências e afetos. Em seguida, correlacionaremos como a fenomenologia peirceana está intrinsecamente ligada ao devir-com em Haraway, trazendo exemplos de relações entre humanos e espécies companheiras, interação esta que nos permite observar uma forma de comunicação corporal e fenomênica que trata, através da percepção, da criação de um vínculo afetuoso e estreito entre humano e não humano. A pesquisa indica que, a partir do entendimento de Alteridades Significativas, é possível examinar relações simbólicas de interação corporal que estão para além de signos linguísticos, ou seja, um sinequismo observado pela fenomenologia pragmática que subjaz à criação de sentimentos simpáticos entre humanos e as espécies companheiras que as (des)invisibilizam como espécies detentoras de dignidade.

Palavras-chave: Peirce; Haraway; semiose; sinequismo; espécies companheiras.

Abstract

This article seeks to show how the understanding of synechism in Charles Sanders Peirce (1839–1914), articulated with the notion of becoming-with in Donna Haraway (1944), makes it possible to (de)invisibilize nonhuman animals through a phenomenological perception. We propose to discuss how companion species, from Haraway’s perspective, help human animals develop feelings of sympathy through relations of mutual inclusion with the nonhuman animals with whom they live. Initially, we will propose a synechist approach from Peirce, showing that his pragmatic philosophy revolves around a continuum in which human animals establish semioses, that is, a form of bodily communication with nonhuman animals, an interaction that elicits experiences and affects. Then, we will correlate how Peircean phenomenology is intrinsically linked to becoming-with in Haraway, offering examples of relationships between humans and companion species, an interaction that allows us to observe a form of bodily and phenomenal communication that, through perception, deals with the creation of an affectionate and close bond between human and nonhuman. The research indicates that, based on the understanding of Significant Others, it is possible to examine symbolic relations of bodily interaction that go beyond linguistic signs, that is, a synechism observed through pragmatic phenomenology that underlies the creation of sympathetic feelings between humans and the companion species that (de)invisibilize them as species endowed with dignity.

Keywords: Peirce; Haraway; semiosis; synecdoche; companion species.

Introdução

Nessa discussão traremos algumas considerações entre os pensamentos de Charles Sanders Peirce, acerca da percepção fenomenológica[1]  e de seu sinequismo[2]  que entendemos nos possibilitar nutrir um espaço de inventividade para criarmos relações simpáticas/respeitosas entre animais humanos e animais não humanos, e de Donna Haraway, sobre como a postura do devir-com[3]  permite-nos concatenar uma forma semiótica não-linguística, derivada da ação consciente interespécies e, principalmente em meio a um entendimento do contexto fenomenológico em Peirce que possibilita organizar um vínculo sólido e afetuoso ao convivermos e entendermos os animais não humanos, como por exemplo com as espécies companheiras (cães e cavalos), (des)invisibilizando-os como seres que possuem desejos, vontades e necessidades. Assim, o ínterim suscitará o desenvolvimento da percepção de uma semiótica que não gira somente em torno de signos linguísticos, mas também de interações corporais interespécies, uma semiótica não linguística, que desperta entendimentos mútuos mediante um continumm filosófico, permitindo-os coabitar o mesmo espaço relacional de respeito que pensamos outrora caber somente na esfera dos animais humanos.

Antes de proferimos algumas reflexões sobre o texto, é importante salientarmos que Haraway, contemporânea de Peirce, não foi sua leitora, muito menos é uma filósofa da fenomenologia. O grande salto para compreendermos essa guinada filosófica que estamos propondo a partir de provocações claras e robustas entre os(as) teóricos(as) é a verossimilhança entre as contribuições do devir-com, de Haraway, e do sinequismo, que Peirce advoga a partir de presunções fenomenológicas, uma incursão investigativa sobre o problema da consciência animal, além de incitar a (des)invisibilizar espécies animais detentoras de senciência a partir da ótica das espécies companheiras.

Nesse sentido, é perceptível que a filosofia peirceana contribui sobremaneira para chegarmos a meandros muitas vezes inauditos[4] e que certamente abrem caminho para percorrermos um itinerário pouco ou nunca explorado. A motivação para o delineamento dessa pesquisa versa sobre as provocações filosóficas acerca do animal não humano como um ser dotado de senciência[5] e, ainda, ser uma temática pragmatista, principalmente do ponto de vista da fenomenologia de Charles Sanders Peirce pouco explorada. Atualmente, discussões sobre a crueldade animal vêm sendo motivo de várias inquietações conversacionais. É crescente a quantidade de espécies animais que convivem com os animais humanos em suas residências, sendo trivial uma manifestação dialógica para podermos tratá-los com dignidade, considerando-os moralmente. A fenomenologia discutida nos textos de Peirce certamente evidencia grandes e promissoras tarefas para elucidar e propor um alinhamento diversificado sobre a questão da senciência. Não obstante, dentro da contemporaneidade, a filósofa estadunidense Donna Haraway enumera uma série de apontamentos que desvelam o não-pensar na animalidade para enriquecer a problemática filosófica, deixando cair o véu do escrutínio filosófico que insta em não debater o problema interespécies que merece um relevo discursivo na nossa sociedade contemporânea, o que alargaria as possibilidades de asserções que nos fazem repensar o tratamento com as espécies companheiras, a exemplo.

Desse modo, para dar clareza a nossa proposta, traremos inicialmente a ideia de sinequismo em Peirce. O pragmatista traz, por meio da fenomenologia, uma noção de percepção que vai além da proposta de se pensar uma semiótica como uma mera conotação linguística. Douglas R. Anderson, em Peirce´s Horse: A Sympathetic and Semeiotic Bond (2004), mostra como o debate é frutífero para compreendermos o estabelecimento de relações simpáticas com os animais não humanos com os quais convivemos, sendo perceptível correlacionar como uma categoria fenomenológica da terceiridade em Peirce, pois permite que seja perceptível obter entendimentos conscientes com algumas, das espécies companheiras.

Depois, articularemos essa base peirceana com o pensamento de Donna Haraway, explorando sua noção de devir-com. Este conceito nos permite transcender a mera correlação e imaginar a construção ativa de parentescos interespécies. Haraway propõe a criação de narrativas que forjam alteridades significativas, nas quais o estar-com o outro animal se consolida como uma relação afetiva e eticamente responsável. Consequentemente, essa perspectiva não apenas permite idealizar o animal não humano, mas exige que o pensemos como um outro que importa e que é efetivamente reconhecido em sua singularidade.

Por fim, a conexão entre o sinequismo peirceano e o devir-com de Haraway possibilita dimensionar o debate sobre a gênese da simpatia pelos animais não humanos de modo singular. Essa articulação teórica revela uma rede complexa de relações mútuas, acessível primordialmente por meio de uma semiótica não linguística – fundamentada em interações corporais, hábitos compartilhados e percepções –, que exploraremos na sequência. Dessa forma, o arcabouço conceitual proposto não apenas ilumina os mecanismos de compreensão interespécies, mas também oferece um caminho fértil para repensar nosso lugar no mundo ao lado de outros seres sencientes.

1. A proposta sinequista de Peirce como percepção fenomenológica do despertar de simpatias com os animais não humanos

Embora Charles Sanders Peirce, filósofo norte-americano, pragmatista, seja apontado como detentor de uma filosofia de cunho analítico e lógico, deixa outras conotações filosóficas em aberto para novos debates na contemporaneidade dentro de uma estrutura científico-filosófica para estabelecermos outras contendas, como os problemas de ordem social e estética, por exemplo. O que é fatídico na filosofia peirceana é a clareza de ideias por meio do seu sinequismo[6], que o permite discutir filosoficamente alguns pontos de vista sequer ainda impensados.  Afinal, essa estrutura semiótica[7] à qual Peirce se refere é muito mais rica do que imaginamos, porque além de perceber fenomenologicamente a estrutura de signos linguísticos, é capaz de observar também as sensações e reações conscientes fruto de interação humano-animal com os quais estamos envolvidos. Ambos são capazes de desenvolver semioses à sua maneira, permitindo o entendimento, seja com ruídos e expressões corporais, seja por meio da linguagem.

[...] a Fenomenologia irá anunciar simetrias categoriais que, em verdade, serão genéticas: ela cria de si as condições para o realismo radical de Peirce. Um realismo de início cognominado por ele de escolástico, na esteira do reconhecimento da realidade dos universais, para depois aperfeiçoá-lo para uma realidade dos continua, à luz de sua doutrina do sinequismo, ou teoria do continuum. É sob o sinequismo que será possível afirmar tanto a realidade das leis quanto a dos continua de qualidades, rejeitando de vez toda e qualquer postura nominalista na filosofia (Ibri, 2002, p. 47).

Nesse sentido, para delimitar o problema de pesquisa, nosso percurso analítico partirá do ensaio de Anderson (2004). O autor articula a semiose peirceana – o processo dinâmico de significação – com uma percepção fenomenológica para fundamentar a construção de relações simpáticas com animais de estimação. Essa articulação teórica promove, em última instância, a (des)invisibilização dos animais não humanos, desafiando o paradigma antropocêntrico que os confina a uma posição de alteridade radical, subordinada à linguagem e à experiência humanas. Surge, então, a questão central que este trabalho buscará investigar: em que medida o quadro teórico proposto por Anderson se traduziria em práticas humanas efetivas que não apenas reconheçam, mas também promovam ativamente o bem-estar e cultivem uma relação interespécies mútua e respeitosa?

Meu objetivo aqui é construir, a partir dessa base, um relato de como podemos entender nossas relações com os animais a partir de uma perspectiva peirceana. Não seremos capazes de discernir uma receita específica para lidar com animais, mas deveríamos ser capazes de estabelecer várias afirmações sugestivas gerais que abrem as possibilidades para relacionamentos humano-animal em um mundo peirceano (Anderson, 2004, p. 86, tradução nossa).

Podemos levar ao debate que é durante a percepção fenomenológica que se torna possível perceber a Terceiridade[8] como uma forma de nos tornar conscientes de sermos capazes de proporcionar a aprendizagem como uma função mediadora do despertar do sentimento humano-animal, tal como Anderson (2004) apontou anteriormente: “A experiência de mediação configura-se como uma experiência de síntese, delineando uma consciência sintetizadora [...]” (Ibri, 2011, p. 73). Assim, a noção de que o sinequismo opera dentro da continuidade filosófica e fenomenológica faz acender a percepção de que é possível notar que os sentimentos têm um poder semiótico na natureza “Essa teoria de percepção fenomenológica [...] tomadas em conjunto, sugerem que a terceiridade [generalidade, continuidade] opera na Natureza” (Anderson, 2004, p. 86, tradução nossa).

Para Anderson (2004), o que fica claro é a advertência que Peirce realiza para mostrar como poderíamos construir relações semióticas com animais não humanos, especialmente aqueles com os quais convivemos, as espécies companheiras. Falar resolutamente de um conjunto de signos semióticos linguísticos é o primeiro passo a ser superado para Peirce, já que “[...] dentro da estrutura do sistema semiótico de Peirce, os signos convencionais, símbolos ou palavras são apenas uma pequena característica da semiose” (Anderson, 2004, p. 88, tradução nossa). O passo seguinte a ser dado em prol de uma semiótica além da percepção da linguagem é considerar que, para esquematizar nossas funções mentais, de modo a pensarmos uma nova estrutura de comunicação, temos que considerar alguns critérios que empoderarão a aquisição dessa semiose por meio da percepção, como o sentimento.

As ideias, segundo Peirce, não são átomos mentais primordiais; em vez disso, elas crescem a partir de uma continuidade de sentimento: “Três elementos compõem uma ideia”. O primeiro desses elementos é que as ideias têm “qualidades intrínsecas como sentimento”. Os dois segundos elementos envolvem a continuidade do sentimento e as relações das ideias. Uma ideia também tem uma “energia” com a qual afeta outras ideias e uma tendência “a trazer outras ideias com ela” [...] Assim, as ideias gerais são “sentimentos vivos” que afetam uns aos outros. Desse efeito mútuo, desenvolve-se o que poderíamos chamar de uma história local de ideias que estabelece hábitos e inferências, e o complexo de hábitos e ideias fornece as bases para a realidade da mente e da personalidade (Anderson, 2004, p. 89, tradução nossa).

Nesse sentido, trazer a fenomenologia como um entendimento pragmatista de Peirce para poder pensar além de concepções primordiais que nos rodeiam, faz criar uma percepção que floresce a partir de dados mentais intrínsecos relativos aos sentimentos. A criação de fantasias, por exemplo, exclui a dúvida que paira diante de nós.

[...] posso efectuar concretamente uma percepção e olhar para ela; posso, além disso, representar-me na fantasia ou na recordação uma percepção, mas a percepção está, por assim dizer, diante dos meus olhos como um dado actual, ou como uma fantasia (Husserl, 2008, p. 55).

Assim, o ato da percepção envolve o fenômeno em si para Peirce, isso quer dizer que devemos fazer um apelo à observação da nossa consciência, promovendo dados mentais rodeados por ideias ainda não atribuídas ao que já estava dado, buscando na consciência o hábito que fornecerá o nosso pensar por meio do sentimento.

[...] quando estou consciente de qualquer coisa, estou imediatamente consciente de algo, e é através dessa consciência imediata que eu me torno consciente de tudo o que está em minha consciência. Consequentemente, tudo o que aprendo com a percepção é que tenho um sentimento com o que quer que eu deduza disso como uma premissa (Peirce, 1998, p. 166, tradução nossa).

Desse modo, essa afecção desencadeada por essa premissa permite que se possa pensar que a “A fenomenologia, para Peirce, envolve uma atenção prática ao mundo – o que poderíamos chamar de percepção esteticamente motivada” (Anderson, 2004, p. 86, tradução nossa). Afinal, como a percepção pode ser esteticamente motivada diante da (des)inviabilização de animais não humanos mediante um contexto de valor estritamente antropocêntrico?

Sei muito bem que os sentimentos musicais do meu cão são muito parecidos com os meus, embora o agitem mais do que a mim. Ele tem as mesmas emoções de afeto que eu, embora sejam muito mais comoventes no caso dele. Você nunca me convenceria de que meu cavalo e eu não simpatizamos, ou que o pássaro canário que tem tanto prazer em brincar comigo não sente o que sinto com ele; e esta minha confiança instintiva de que é assim, para mim, evidencia o que realmente é assim (Peirce, 1998, p. 193, tradução nossa).

É precisamente nessa confiança instintiva que Peirce ancora a grandeza de sua perspectiva fenomenológica. Sua experiência pessoal não é um relato anedótico, mas a manifestação concreta do sinequismo. A sintonia afetiva com o cão, a simpatia com o cavalo e a reciprocidade lúdica com o canário são fenômenos relacionais que revelam uma semiose corporal e emocional anterior à linguagem verbal. Essa conexão, percebida de modo estético e prático, demonstra que a capacidade de significar e de sentir não é um monopólio humano, mas uma propriedade contínua na natureza. Portanto, a percepção esteticamente motivada, longe de ser um luxo antropocêntrico, é a via de acesso para reconhecer os animais não humanos como seres sencientes, cujas experiências, ainda que diferentes em complexidade, são igualmente válidas e constitutivas do mundo compartilhado. Como bem sintetiza Santaella (2007), é por meio dessa percepção fenomenológica que se observa a semiose fluindo não apenas por signos linguísticos, mas por via de uma linguagem corporal que interliga de forma inextricável animais humanos e não humanos.

Na visão de Peirce, a interação semiótica entre pessoas e animais é relativamente rica. Podemos discernir os humores dos animais por meio da linguagem corporal, por exemplo: “Posso dizer pela expressão do rosto ou o estado de espírito do meu cavalo tão inconfundivelmente quanto posso dizer o do meu cachorro ou da minha esposa” (Anderson, 2004, p. 88, tradução nossa).

O que pode ser levado em consideração é que a semiótica de Charles Sanders Peirce remonta a uma nova configuração filosófica a partir do pragmatismo, trazendo evidências de que pode contribuir significativamente para o despertar de novos hábitos de ação que proporcionem pensar o animal não humano como um continuum das relações mundanas, tendo a sua devida importância na configuração filosófica, por meio da fenomenologia. Adiante, faremos um debate contemporâneo da aliança filosófica entre os pensamentos de Donna Haraway, que nos traz elementos de suma importância para cuidarmos melhor das espécies companheiras, de acordo com o movimento de Peirce, mostrando paulatinamente como a reflexão sobre a mudança de interações interespécies favorece o bem-estar dos animais não humanos, ressaltando as experiências dessa interação com a fenomenologia.

Pensando Haraway com Peirce: o devir-com e as espécies companheiras

Nessa esteira da discussão filosófica, evidenciaremos agora como a ideia semiótica não-linguística em Peirce enseja uma aproximação com o devir-com de Haraway, possibilitando o despertar de sentimentos que nos ajudam a pensar as espécies animais companheiras. Foi a partir da noção de devir-com, inicialmente esboçada por Vinciane Despret, que Haraway adaptou para sugerir uma forma de altermundialização[9] permissível por meio de uma troca de relações mútuas entre humanos e espécies companheiras, fazendo com que naturalmente pudesse haver uma forma de despertar de relações e combinações empáticas com animais não humanos, corroborando com a suposição de entendimento semiótico de Peirce, que vai muito além de uma simples discussão de signos linguísticos.

A presunção mencionada remete a um episódio histórico no século XIX analisado por Donna Haraway em Cuando las especies se encuentran: introducciones (2019). Nele, lésbicas francesas, em sua luta por reconhecimento social, inserida num debate mais amplo sobre sexualidade moderna e subjetividades marginalizadas, percebiam-se invisibilizadas pela comunidade parisiense. Foi então necessário que esse grupo minoritário reorientasse sua busca por visibilidade a partir do ponto de vista de outros seres igualmente marginalizados: cães da raça buldogue francês. Caracterizados por seus focinhos achatados, considerados fora dos padrões estéticos caninos convencionais, esses cães tornavam-se, eles mesmos, figuras de uma alteridade radical. Ao compartilharem o espaço público com esses animais, também marcados pela diferença, as lésbicas não apenas conquistavam os olhares antes negados, mas criavam uma alteridade significativa, um encontro entre margens que desestabiliza, de forma concreta e relacional, os cânones estéticos e os estereótipos sociais. A junção das duas figuras permitiu criar novas narrativas esteticamente motivadas, a partir de então “[...] o buldogue tornou-se um acessório identificador, uma marca política e de gênero, e um parceiro privilegiado de sobrevivência para mulheres, homens, prostitutas e transgêneros nas cidades em crescimento na Europa” (Haraway, 2019, p. 26, tradução nossa).

Sob a ótica do devir-com de Donna Haraway, a história conjunta do buldogue francês e das lésbicas/queers parisienses do século XIX ilustra um processo de co-constituição em que espécies e identidades marginalizadas se produzem mutuamente. Essa aliança interseccional em que categoria de espécie, classe, gênero e sexualidade se entrelaçam não foi mero paralelo, mas uma simbiose política e estética: a marginalização de ambas as figuras (monstros à luz das normas convencionalistas) forjou um devir-animal e um devir-queer interdependentes. Nas ruas e bordéis, o corpo atípico do cão e a corporeidade lésbica masculina reinventaram juntos uma estética de resistência, transformando-se, através do convívio, em ícones de uma mundanidade alternativa. A relação íntima e pública mostra como foi construída uma história de reconhecimento mútuo, em que a sobrevivência e a afirmação de uma dependiam diretamente da outra, desafiando coletivamente os cânones heterossexuais e especistas[10] da modernidade:

[...] é a possibilidade de se tornar não exatamente o outro por metamorfose, mas com o outro, não no sentido de sentir o que o outro está pensando ou de sentir pelo outro como um empatizador pesado, mas sim de receber e criar a possibilidade de se inscrever numa relação de troca e proximidade que não tem nada a ver com identificação (Despret, 2016, p. 17).

Com o adendo de Haraway, observado no movimento de devir-com, como algo mundano, para se repensar nossas relações com as espécies animais companheiras, é possível pensar as narrativas históricas de lutas políticas como movimentos empáticos que proporcionam aderir à imagem que, se animais caminham conjuntamente com humanos em reivindicações políticas, não seriam eles também seres detentores de direitos? A ideia de Haraway é propor, diante da exacerbada constituição da imagem racional privilegiada do animal humano, narrativas que possibilitem também atribuir valor ético e moral aos animais não humanos que convivem conosco, as espécies companheiras.

Para a filósofa, em uma análise da obra de Derrida, O animal que logo sou (2002), quando um humano está em um banheiro, e é colocado nu diante de um gato, e esse é “seu” animal de estimação, ainda que posto de maneira inadvertida, sabe que está diante de alguém, numa relação íntima. O que importa naquele momento para Haraway, não é perceber que o gato não sabia falar do que era a nudez, mas acender a uma forma de pensar a partir de uma relação de “[...] desenvolvimento do conhecimento da semiótica comportamental gato-gato e gato-humano do encontro interespécies” (Haraway, 2019, p. 47, tradução nossa).

A partir dessa relação íntima entre animal humano e animal não humano, o devir-com atravessa as fronteiras dos devires, possibilitando que os dois viventes mencionados anteriormente possam coabitar o mesmo espaço mundano sem que haja uma nudez propriamente dita, um conhece a nudez por seu logos, mas no encontro com um animal que desconhece a nudez, percebe-a como não tendo mais sentido.

O animal estaria na não-nudez porque nu, e o homem na nudez precisamente lá onde não é mais nu. Eis aí uma diferença, eis aí um tempo ou um contratempo entre duas nudezes sem nudez. Esse contratempo está apenas começando a nos incomodar (Derrida, 2022, p. 18).

Ora, é exatamente essa relação interespecífica que Anderson (2004) menciona para mostrar como a percepção peirceana é capaz de estabelecer uma comunicação que não é meramente concebida por meio da utilização de signos linguísticos que somente os animais humanos são capazes de utilizar. Nesse ponto, existe uma miscelânea de animais entre si.

No esquema de coisas de Peirce, o universo é permeado de atividade significante – ele só ficaria surpreso se animais e pessoas pudessem não se comunicar efetivamente. Pois as vidas cotidianas de humanos e animais, acreditava Peirce, são permeadas por “determinações associativas de crença” nas quais chegamos a crenças sem “o exercício de nosso intelecto consciente”: “Montando um cavalo, eu o entendo e ele entende a mim; mas como nos entendemos, mal sei melhor do que ele” (Anderson, 2004, p. 88, tradução nossa). 

Desse modo, por meio da relação entre humano e não humano, é possível criar relações efetivas de entendimento mútuo que percorrem algo mais do que uma simbologia linguística (Haraway, 1989). A interação interespécies favorece o alcance mais extenso da percepção fenomenológica, da semiótica e da simpatia entre espécies companheiras, criada por meio da comunicação corporal, através da carne e do signo. Em O Manifesto das Espécies Companheiras (2021), Haraway está disposta a mostrar como as relações de humanos e seus cachorros favorecem o despertar de atitudes, ou poderíamos simplesmente chamar de devir-com, para perceber uma alteridade significativa, isto é, para a filósofa, alguém importante para alguém, que ao que parece esclarecer, longe de gêneros ou de uma estrita espécie específica, por exemplo. A ideia aparenta uma relação interespécies que coabitam o mesmo espaço sem preconceitos.

[...] no Manifesto das espécies companheiras, quero contar histórias sobre relações em alteridade significativa, por meio das quais os parceiros se tornam quem são através da carne e do signo [...] Ao longo do Manifesto das espécies companheiras, Haraway aproxima e contrapõe repetidamente carne e figura (ou signo) para tematizar os aspectos materiais e semióticos que compõem as espécies, o mundo e os indivíduos (Haraway, 2021, p. 25).

Nesse ínterim, pensando Haraway com Peirce, sobre a questão da (des)invisibilização das espécies companheiras, a menção que subjaz aqui é uma forma de entendimento de pessoalidade[11] animal que permite que ambas as espécies possam coabitar o mesmo espaço de maneira respeitosa por meio de uma adesão da uma percepção fenomenológica peirceana. É por meio dessa relação que temos a oportunidade de inferir sobre a relação interespécies (Anderson, 2004).

O fluxo de corpos significativos em relação uns aos outros no tempo – sejam eles erráticos e nervosos ou ardentes e fluidos, se eles se movem juntos em harmonia ou dolorosamente fora de sincronia ou de alguma outra forma – comunica sobre um relacionamento, sobre o próprio relacionamento, e os meios para remodelar o relacionamento [...] Uma comunicação é mais como uma dança do que uma palavra (Haraway, 2019, p. 51, tradução nossa).

É perceptível a base de fundamentação semiótica envolvida na relação mencionada por Haraway, que está em acordo com o pensamento fenomenológico de Peirce sobre a aproximação dos animais humanos com os animais não humanos, homens e espécies companheiras, tal como o gato de Derrida que cria relações interespecíficas com o tutor. Para tanto, é somente por meio de um continuum idealizado por Peirce, doravante ao sinequismo, que a possibilidade de perceber o fluxo de consciência permite pensar a pessoalidade não somente ao animal humano, mas também aos demais seres sencientes.

No mundo sinéquico de Peirce, a pessoalidade pode atender a uma variedade de espécies de formas mais ricas ou mais tênues. Mamíferos, por causa de suas ligações com os humanos, são seres com personalidade. Mas no mundo de Peirce, a personalidade aparece onde quer que exista uma associação incipiente de ideias; répteis, anfíbios, pássaros, peixes e assim por diante podem exibir algum nível de personalidade (Anderson, 2004, p. 90, tradução nossa).

Nesse sentido, de acordo com Santaella (2002, p. 105) Peirce entende que “[...] a investigação científica é [...] o meio privilegiado de conversar com a natureza em todas as suas formas: macroscópica e microscópica, inorgânica, biológica, humana [...]”. A noção da percepção fenomenológica de Peirce permite que a consciência possa ser alcançada por algo muito além da noção lógica do conhecimento. A relação que Peirce tinha com os animais adverte a consistência da semiótica corpórea de animais humanos e não humanos, envolvidos em uma relação intrinsecamente valorativa de comunicação, já que um é capaz de observar o outro em uma relação simpática promovida pelos sentimentos que despertam entre si.

Em síntese, podemos evidenciar que a investigação fenomenológica fundamentada no pensamento de Peirce nos leva a uma adesão da percepção de que a relação comunicativa semiótica e sinéquica com os animais com os quais convivemos é, sem sombras de dúvidas, uma atividade consciente. Assim, em meio à articulação de Haraway, dado início com a narrativa histórica das interações com os animais não humanos com os quais coabitamos o mesmo espaço, seja ele político ou estético, é possível criarmos mais ainda um estreitamento de relações interespecíficas a partir das vivências interespécies como possibilidade do florescimento de um devir-com, no qual caímos em uma situacionalidade primeva: se pensarmos que animais não humanos são capazes de atuar como atores de cenários políticos, também seriam eles protagonistas da própria ação. A (des)invizibilização dos animais não humanos é uma questão fenomenológica por detrás da percepção da consciência que faz com que o humano estreite suas relações simpáticas com os animais não humanos e oportunize pensar também novos panoramas políticos.

Considerações Finais

A proposta da nossa pesquisa mostrou como é possível desencadear uma discussão promissora dentro de uma conotação fenomenológica voltada à questão animal que envolve o despertar de devires significativos de simpatia com as espécies companheiras a partir de incursões filosóficas entre os pensamentos de Peirce e Haraway, trazendo reverberações significativas para o despertar de sentimentos empáticos para com os animais não humanos.

Assim, no instante em que o pensamento de Peirce remonta a um sinequismo que permite ampliar a percepção semiótica para além de meras menções linguísticas, por meio da cisão entre primeiridade, secundidade e terceiridade como uma categoria fenomenológica que propõe uma síntese entre o ato inicial de percepção e do conhecimento da experiência em si, é possível considerar seguramente que o quadro de considerações fenomênicas a partir de Peirce nos permite observar que as relações simpáticas com os animais não humanos é viável por meio de uma ação consciente, tanto dos animais humanos, quanto dos não humanos, ao passo em que se evidencia que com as nossas interações corpóreas, por exemplo, conseguimos compreender, pelo menos parcialmente, os animais que convivem conosco diariamente, as espécies companheiras, possibilitando-nos criar/nutrir uma rede defensável de direitos que lhes são inerentes por natureza.

Nesse sentido, Haraway, por sua vez, mostra uma forma de continuidade à ideia inicial de Peirce, mesmo que não fundamentada em impressões fenomenológicas deste. Não estamos mencionando que Haraway leu Peirce e adota sua filosofia, mas sim, mostramos como têm interseccionalidades semelhantes. O modo como explicita o devir-com, mostra que as espécies companheiras com as quais convivemos, mais especificamente cães e cavalos, nos fazem percebê-los como seres que, ao coabitarem o mesmo espaço em que vivemos, possibilita uma alteridade significativa, já que nos permitem (re)pensar a harmonia comunicativa interespécies, corroborando com uma relação que ao mesmo tempo em que proporciona entendimento, gera uma relação de respeito.

Em síntese, desde o percepto de Peirce que desencadeia em seu sinequismo não-linguístico, até o devir-com em Haraway, é possível pensarmos a (des)invisibilização das espécies companheiras com as quais convivemos, e, até mesmo, estender nossas relações respeitosas para outros animais não humanos com os quais, na maioria das vezes, não convivemos, como répteis, por exemplo. A proposta está muito além do que podemos imaginar, aliás, até podemos, ao passo que, se dermos prosseguimento ao debate em questão, podemos ampliar significativamente o respeito com os animais não humanos, é o que faremos em outros momentos.

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PEIRCE, Charles Sanders. The Essential Peirce: Selected Philosophical Writings Volume 2, 1893–1913. Bloomington: Indiana University Press, 1998.

RORTY, Richard. Objetivismo, relativismo e verdade: escritos filosóficos volume I. Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Rulume-Dumará, 1997.

SANTAELLA, Lucia. Os significados pragmáticos da mente e o sinequismo em Peirce. Cognitio. São Paulo, n. 3, p. 97-106, 2002.

SINGER, Peter. Libertação Animal. Trad. Marly Wink. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

Metadados Da Submissão

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA

O/A autor/a assume responsabilidade por todos os aspectos deste artigo, conforme a taxonomia CRediT (Contributor Roles Taxonomy).

AGRADECIMENTOS

1. O autor agradece ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGFIL-UFES), pelo suporte impecável durante a submissão do texto em questão, intercambiando e viabilizando novos questionamentos sobre a matéria em curso, dada a provocação hodierna que urge falar sobre critérios de consideração sobre animais não humanos;

2. O autor agradece ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Piauí (PPGFIL-UFPI), haja vista que o desenvolvimento da arquitetura do tema em questão foi fruto de uma vivência inicial na disciplina de Epistemologia, ainda no ano de 2022;

3. O autor agradece ao grupo de leitura em Filosofia Animal do Núcleo de Estudos do Diversitas (Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos) da Universidade de São Paulo (USP) pela vivência e escuta ativa nos ciclos de leitura proporcionados.

FINANCIAMENTO

O presente trabalho não recebeu financiamento de nenhuma agência de fomento.

USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA (IAG)

Os/as autores/as declararam que não utilizaram ferramentas de Inteligência Artificial Generativa na preparação deste manuscrito.

CONFLITO DE INTERESSES

Declaro que não há conflito de interesses relacionado à publicação deste artigo.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA E OUTROS MATERIAIS

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão integralmente contidos no manuscrito.

LICENÇA DE USO

Copyright (c) 2026 Bruno Araujo Alencar – CC BY Attribution 4.0 International License. This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License

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EDITORA

Universidade Federal do Espírito Santo. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade das pessoas autoras, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade. https://periodicos.ufes.br/index/index

EDITORES

Editor-chefe: Jorge Luiz Viesenteiner 0000-0003-3727-7890

Editoração e revisão: Wellington Alan Soares Marques 0000-0002-6537-7680

Como citar

ARAUJO ALENCAR, Bruno. O sinequismo de Peirce e o devir-com em Haraway: uma aliança fenomenológica para (des)invisibilizar espécies companheiras. Sofia, v. 15, n. 2, p. e15250140 Espírito Santo, Brasil, 2026. DOI: https://doi.org/10.47456/sofia.v15i2.50140 . Disponível em: https://periodicos.ufes.br/sofia/article/view/50140 . Acesso em: 15 set. 2026.

Bruno Araujo Alencar

Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí - UFPI (2025). Professor Substituto do Departamento de Pedagogia (UEMA). Realiza pesquisas que intercambiam nas áreas de Filosofia, Ética, Ética Animal, Filosofia da Educação, Filosofia e Literatura. Atua principalmente com os seguintes temas: Pragmatismo e Neopragmatismo e Filosofia Animal.

Os textos deste artigo foram revisados por terceiros e submetidos para validação do(s) autor(es) antes da publicação



[1] A percepção fenomenológica em Peirce envolve atenção e prática no mundo, já que existe uma percepção que podemos chamar de esteticamente motivada ao nos relacionarmos com o mundo (Peirce, 1998). Assim, “[...] Peirce trabalhou para descrever a prática da fenomenologia como base para toda a investigação” (Anderson, 2004, p. 86, tradução nossa). Para Anderson, a fenomenologia peirceana era semelhante ao empirismo radical em James, no qual o pensamento é ativo e criativo, incentivando-nos a estimular novos pensamentos ao nos relacionarmos com o mundo. Mostraremos aqui, na versão fenomenológica adotada por Anderson, a partir das leituras em Peirce, como será possível pensarmos nossas relações com os animais não humanos em meio a uma proposta robusta e criativa.

[2] Traremos o mote da discussão do sinequismo como um continuum da filosofia peirceana a partir da interpretação de Douglas R. Anderson na obra Animal Pragmatism (2004), uma discussão que permite pensar o pragmatismo como um modo de estar no mundo, aberto à experiência e à alteridade frente a demandas discursivas como a ideia de consciência animal.

[3] A expressão devir-com é central em Vincent Despret, no qual Haraway adapta pois percebe que a ideia de estudar animais não humanos significa mais do que observar pessoalidades neutras de pesquisa. Em vez disso, coloca humanos e animais em um processo mútuo de transformação. Uma narrativa exemplificativa é trazida por Haraway (2019), quando menciona o etólogo Konrad Lorenz se envolvendo com uma comunidade de corvos. Ali, quando Lorenz observa os corvos, aprende a performar a corvidade, se inserindo na dinâmica social do bando. Mas um detalhe interessante é que o corvo não se tornou um agente meramente passivo no processo, ensinou Lorenz a se comportar com tal “[...] Esta é uma nova articulação do “com-ness”, uma articulação indeterminada do “estar com”… Ele aprende a se afetar… Aprender a lidar com as criaturas em estudo, não é o Resultado da compreensão teórica científica” (Haraway, 2019, p. 40, tradução nossa). Para maiores detalhes sobre pessoalidade cf. a antropóloga e etóloga Barbara Smuts em A vida dos animais, de Coetzee (2002, p. 130).

[4]  O filósofo neopragmatista Richard Rorty (1997) sugere que a imaginação humana se amplia continuamente pela introdução de novas opções de crença e de desejo construídas em vocabulários renovados, que deixam de ser sustentadas por marcas e sons herdados do passado. Esses sons que sempre eclodiram pela História devem ser redescritos para podermos enxergar alguns outros sons inauditos, ofuscados por percepções antropocêntricas, por exemplo. Essa noção permite pensar a possibilidade a relação entre humanos e espécies companheiras.

[5] A senciência é a capacidade de seres vivos, dotados de sistema nervoso central, de desfrutarem de prazer ou serem acometidos por dor (Singer, 2010).

[6] Para Peirce, a investigação filosófica deve ser compreendida sob o princípio do sinequismo – a doutrina de que tudo está interligado em um continuum de pensamento e realidade. Dessa forma, ele se opõe a qualquer noção de descoberta filosófica dogmática ou de conceitos universalistas estáticos. Em vez de verdades finais, o conhecimento se constitui em um processo contínuo de devenir, incessantemente refinado e ressignificado pela aplicação do método fenomenológico (ou faneroscopia). Este método, ao categorizar as experiências possíveis (Primeiridade, Secundidade e Terceiridade), opera como um exercício pragmático da mente, no qual o significado de qualquer concepção é determinado por suas consequências práticas habituais, garantindo que a filosofia seja uma empreitada viva, falível e sempre em progresso (Santaella, 2002).

[7] Anderson (2004) menciona que a semiótica de Peirce remete às coisas muito mais frutíferas do que um conjunto estrito de signos linguísticos. Por meio do sinequismo, podemos repensar estruturas de signos nunca antes percebidas, tais como os ruídos que os animais não humanos expressam, e que poderíamos melhor traduzir como vocalizações alternativas.

[8] A fenomenologia de Peirce estrutura-se em três categorias universais: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade. A Primeiridade refere-se à qualidade pura de sentir – a potencialidade, a liberdade e a fugacidade de uma sensação, tal como ela se apresenta na experiência imediata, antes de qualquer reação ou interpretação. A Secundidade constitui o modo de ser do fato bruto, da reação e do conflito. É o domínio da ação e da resistência mútua entre um eu e um não-eu, no qual a consciência se depara com a efetividade de um mundo externo. Por fim, a Terceiridade é a categoria da mediação, do hábito, da lei e da continuidade. Ela sintetiza a qualidade potencial (Primeiridade) e o fato atual (Secundidade) em um continuum de significado, introduzindo a inteligibilidade e a regularidade na experiência (Ibri, 2001).

[9] Podemos explorar a relação entre as espécies companheiras e a altermundialização ou alterglobalização aqui discutida mediante uma narrativa baseada nas teorias queer, mas especificamente sobre o relato de cães, da raça buldogue francês e lésbicas que iremos discutir em seguida no texto. Para Haraway, a coevolução desses corpos marginalizados, que se deslocam juntos da periferia para o centro da cultura, ilustra como a sobrevivência e a ressignificação identitária ocorrem por meio de alianças transversais entre espécies. Essa história de reconhecimento mútuo e afeto queer não apenas desafia os cânones estéticos e sexuais, mas também propõe uma forma de mundialização alternativa (altermundialização), baseada não em lógicas capitalistas e heteronormativas, mas em redes de cuidado, resistência e coprodução de existências entre humanos e animais. Haraway nos convida, assim, a imaginar globalizações outras, alterglobalizações, nas quais as conexões entre espécies companheiras abrem caminhos para modos de vida justos, plurais aquém do antropocentrismo, em contraposição aos projetos globalizantes excludentes. Na narrativa, Haraway mostra que a ideia de devir-com “[...] está fora das regras, se solta nas linhas de fuga dos devires” (Haraway, 2019, p. 53, tradução nossa).

[10] O especismo é um preconceito análogo ao racismo e ao sexismo, no qual humanos se imaginam superiores a outras espécies animais simplesmente por serem detentores de racionalidade e linguagem, enquanto outros animais não humanos não detêm dessas características (Singer, 2010).

[11] Cf. A ideia de pessoalidade é retirada a partir da presunção da antropóloga Barbara Smuts na obra de Coetzee, A vida dos animais (2002, p. 130). A menção de pessoalidade aqui expressa estar em conexão íntima com alguém, independentemente de a que espécie animal pertença o ser.