
Método e Circularidade: o horizonte metafórico-formativo da geometria e da astronomia em Hölderlin e Heráclito
Method and
Circularity: the metaphorical-formative of geometry and astronomy in Hölderlin
and Heraclitus
Autor(a): André Felipe Gonçalves Correia
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3426-0452
Contato principal: felgorreia@hotmail.com
Afiliação: Dep. de Filosofia, Campus Esperança, Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Esperança, PB, Brasil.
Recebido: 25/03/2026
Received: 25/03/2026
Aprovado: 26/08/2026
Approved: 26/08/2026
Publicado: 06/10/2026
Published: 06/10/2026
Resumo
Este artigo se propõe a evidenciar as metáforas geométrica e astronômica presentes na obra Hipérion de Friedrich Hölderlin, as quais se vinculam àquelas de mesma ordem aplicadas nos excertos de Heráclito de Éfeso, autor a que o poeta e pensador alemão atribui a gênese da filosofia, e a partir do qual se deixa ver a maneira com que trabalha a noção de circularidade como método de abordagem filosófica do tema da formação, em termos de conteúdo e de forma.
Palavras-chave: Hölderlin; Heráclito; método; circularidade; formação.
Abstract
This article sets out to highlight
the geometric and astronomical metaphors present in Friedrich Hölderlin's
Hyperion, which are linked to those of the same order applied in the excerpts
from Heraclitus of Ephesus, the author to whom the German poet and thinker
attributes the genesis of philosophy, and from which we can see the way in
which he works with the notion of circularity as a method of philosophical
approach to the theme of formation, in terms of content and form.
Keywords: Hölderlin; Heraclitus; method;
circularity; formation.
I
Como se sabe, a partir de meados do séc. XVIII, de Winckelmann em diante, a alta cultura alemã é tomada por uma grecomania sem precedentes, de acentuações sobretudo filológica, poética e filosófica. Em meio a vários outros autores helênicos e tendências afins, na virada do séc. XVIII para o séc. XIX, a figura de Heráclito, o pensador de Éfeso, inaugura uma nova etapa de sua recepção, desde há muito silenciada. Dessa observação, recorda-se de imediato da famosa declaração de Hegel em suas Preleções sobre a história da filosofia, proferida nos primeiros decênios do séc. XIX: “Aqui avistamos terra; não há nenhuma sentença de Heráclito que não acolhi em minha lógica” (Hegel, 1986, p. 43). Outra ocasião marcante relativamente ao resgate de fragmentos e testemunhos antigos a respeito de Heráclito nesse período se dá no ano de 1808, quando da publicação da obra Heráclito, o Obscuro de Éfeso, da autoria de Schleiermacher (cf. 1998, p. 101-316). Na verdade, toda a redoma do idealismo e do romantismo alemães, direta ou indiretamente, se encontra numa posição de resgate do pensamento de Heráclito, na medida em que regidos pela Grundsatz (proposição fundamental) eminentemente heraclítica: a estrutura de união dos opostos[1], impressa no fr. B51 (DK) sob a fórmula jônica παλίντροπος ἁρμονίη (harmonia dos movimentos contrários) (cf. Diels, 1960, p. 162).
O poeta e pensador suábio Friedrich Hölderlin se insere com algum destaque nesse séquito de recepção heraclítica, de vez que se vale nomeadamente de Heráclito para o estabelecimento de seu leitmotiv filosófico, como se lê na passagem conhecida como discurso de Atenas, última carta do primeiro tomo do romance formativo-epistolar Hipérion ou O eremita da Grécia (1797-99), única obra completa publicada em vida pelo autor, a que dedicou quase dez anos de trabalho, e que serve como chave de acesso à totalidade de sua documentação. Na referida passagem Hölderlin atribui a sentença fundadora da filosofia ao apotegma ἕν διαφέρον ἑαυτῷ (o uno que se diferencia em si mesmo), mescla autoral dos frs. B8, B50 e B51 de Heráclito, e da doxografia platônica d’O Banquete (187a)[2]. Já tratamos disso em outras ocasiões (cf., p. ex., Correia, 2020, p. 11-43). Interessa-nos neste artigo contribuir com algumas observações e interpretações de ordem metódica, a fim de interligar Hölderlin e Heráclito. Para tanto, evidenciar-se-á o conteúdo da παλίντροπος ἁρμονίη sob a estilística metafórica da circularidade, tal qual empreendida por ambos os autores.
II
Sigamos com alguns apontamentos de um importante coetâneo da recepção heraclítica, Friedrich Schlegel, que cita Heráclito no fr. 318 da revista fundadora do Frühromatik, a Athenäum (1798), e que explicita um traço distintivo de sua época no fr. 43: “A filosofia ainda caminha de modo por demais retilíneo, ela ainda não é cíclica [zyklisch] o suficiente” (Schlegel, 2016, p. 25). É possível ler aqui alguma ironia para com as exigências de sistematização do período – ao menos como tentativas de dar cabo às lacunas da cognição humana (cf., p. ex., os frs. 46, 53, 66, 97 e 384 da Athenäum) –, a que o estilo fragmentário, empregado por Schlegel e por outros representantes do Círculo de Iena, é uma espécie de contraproposta apta a conferir à reiterada força de largada, ou ponto de partida, não o marco do que há de se preencher ou se desdobrar, mas a completude de toda efusão criativa da realidade como e enquanto fragmento, isto é, um acabamento inacabado, porquanto, simultaneamente, aberto e fechado, como bem demarca o encontro de ponto de largada e de chegada em uma circunferência. O fragmento insinua, igualmente, uma retomada transfigurada do espólio de grande parte da escritura helênica, como consta no fr. 24: “Várias obras dos antigos tornaram-se fragmentos. Várias obras dos modernos são assim em seu surgimento” (Schlegel, 2016, p. 23).
Nesse nível de transmissão textual, há uma semelhança peculiar entre Heráclito e Hölderlin, pois o material fragmentário do espólio de ambos, diferentemente da proposta romântica do fragmento como gênero literário, não foi algo programado. Ademais, Heráclito não parece ter escrito aforismos (cf. Kahn, 2009, p. 27), ao menos no estilo disperso dos primeiros românticos e de Nietzsche, cuja repercussão e impacto no início do séc. XX levou Hermann Diels a arrolar os fragmentos heraclíticos sem preocupação quanto à coerência temático-sequencial (cf. Burnet, 2006, p. 177, nota 13); ao passo que Hölderlin, em grande parte de seu legado, principalmente naquele de orientação teorética, simplesmente não concluiu sua escritura, por motivos diversos. A estrutura narrativa do Hipérion, entretanto, que é uma obra plenamente acabada, conquanto não assuma a forma habitual dos sistemas, é dotada de grande coesão e concatenação de suas divisões e subdivisões (cf., p. ex., Reitani, 2020, p. 195-213). Um exemplo significativo em termos de simetria conteudístico-formal se encontra nas últimas palavras do livro (segundo tomo [1799]), dispostas, paradoxalmente, como sentença de abertura: “Mais a seguir [Nächstens mehr]” (Hölderlin, StA 3, p. 160). O que se está a dizer com isso?
Em um primeiro momento, parece apenas uma indicação de que o essencial foi adquirido, no caso, a maturação do protagonista, própria aos desfechos dos romances de formação (Bildungsromane) em geral. Subentende-se, assim, que doravante o personagem (o próprio Hipérion) seguirá em linha reta, sem desvios, dado que já conquistou o método da vida. Não rara seria a suposição, por outro lado, de uma possível continuação da estória, conforme ao caso do romance de formação inaugural, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, que viria a se converter em Os anos de errância de Wilhelm Meister. Não foi esse o caso do Hipérion. A continuação em pauta é de outra ordem, pois conduz às primeiras palavras do livro[3]. A sentença Nächstens mehr, na verdade, é um em meio a vários outros adágios da obra, que se articula mediante as memórias do Hipérion maduro sobre a sua formação, em cartas ao amigo Belarmino. A última fala, da última carta – que dá remate ao Hipérion da ação rememorada –, é seguida diretamente pela primeira fala, da primeira carta – que dá largada ao Hipérion da compreensão que rememora. Essas duas camadas do livro são não apenas indissociáveis como também simultâneas, pois se pressupõem mutuamente a cada linha[4]. Não apenas na conclusão propriamente dita, mas na ocasião da obra como um todo opera essa estrutura circular, que não se fecha senão ao se abrir. A circularidade designa, por assim dizer, o método adotado por Hölderlin, consonante ao esquema de enfoque que dela faz Heráclito no fr. B103: “Pois comum [ξυνὸν] (é) princípio e fim [ἀρχὴ καὶ πέρας] em periferia de círculo [κύκλου]” (Heráclito, 2000, p. 42). Cada ponto de um círculo, com efeito, antes de qualquer movimento sobre sua linha, baliza tanto o ponto de partida quanto o ponto de chegada. Já aludimos a isso. Quais seriam as implicações desse método? De que modo ele descreveria a atividade da filosofia?
III
O tema da maturidade enfim alcançada, no caso de Hipérion, é um regresso à poética de sua formação passada a limpo por intermédio da forma poética de compreensão, a filosofia[5]. Revisitar a formação – que aqui, obviamente, não se restringe às peripécias biográficas de um indivíduo, de vez que se estende desde a apreciação histórica da tradição até o domínio ontológico – significa torná-la visível pela primeira vez, ou seja, fazer com que ela surja diante dos olhos sob a forma do não-formado, in statu nascendi, logo, a partir da poética esquecida nos atos finalizados e consumados, da qual os olhos do retorno agora se apercebem e a qual produzem concomitantemente. As ocorrências pretéritas narradas por Hipérion retiram sua vivacidade do modo como ele as revive nas cartas, lugar em que o outrora realmente está vivo, donde consegue não apenas ver de fora, mas, justamente por isso, ser tocado pela força condutora do já formado, silenciada no alvoroço do percurso formativo. A maneira como as duas camadas se entrelaçam, nessa estranha simultaneidade circular, revela que a formação não pode ser abarcada nem no calor da ação nem em fria retrospectiva, mas no ato contínuo e imediato do retorno[6].
A circularidade no Hipérion ensina, em última instância, que seguir adiante é acompanhar aquilo que se adianta a cada passo, mas que só se revela no passo dado, daí a tautocronia e a copenetração de ação e de rememoração no complexo da narrativa. Isso, a bem dizer, se aplica a toda e qualquer obra, o Hipérion apenas a explicita em sua ossatura, numa simbiose de forma e conteúdo. O “princípio” (segundo a imagética metódica do círculo) é a latência do não-formado sob o jaez de patência do formado, do “fim”[7], que a obra toma como o pressuposto de que pode dar início ao seu relato e ensino, pois que seria impossível partir do princípio como pura latência, haja vista que um princípio não pode ser antecedido senão por si próprio, e que, justamente por isso, precisa ser lido como pleno e acabado, de que resulta, com igual necessidade, o reconhecimento da ausência de princípio de um princípio – qualquer que o seja –, como a questão, inquietante, que sempre volta a se colocar (cf. o Fedro (245d) de Platão, obra de grande predileção de Hölderlin). A terceira estrofe da elegia Pão e Vinho, datada de 1800, descreve com exatidão o que foi dito ao tematizar a questão do aberto e do fechado:
O fogo divino impele, dia e noite, a partir.
Então, vem! Que vejamos o aberto,
Que busquemos o que é nosso, por mais longe que esteja.
Uma coisa é certa: seja ao meio-dia seja à meia-noite,
Há sempre uma medida comum a todos,
Mas a que cada um se destina diferenciadamente,
E assim cada qual vai e vem até onde pode (Hölderlin, StA 2.1, p. 91).
A temática do “fogo divino” (Göttliches Feuer) no legado de Hölderlin tornar-se-á emblemática graças à sua correspondência com Böhlendorff (1801-1802), a que a perspectiva helênica do “fogo” se vincula sobremaneira, incluindo a heraclítica (cf. Correia, 2022, p. 15-46). Os versos acima, no mais, podem ser lidos juntamente com o fr. B103 de Heráclito. O adjetivo alemão gemein (“comum”), na elegia, comporta as mesmas diretrizes do adjetivo ξυνός (“comum”), no fragmento, por intermédio do qual se aduz à comunhão entre princípio e fim, aberto e fechado. O que é “comum a todos”, aquilo de que tudo parte e que “impele a partir”, os versos o vinculam a “o aberto” (das Offene), i.e., ao não-formado, à latência da formação. Todavia, só há comunhão sob o pressuposto da diferenciação. A isso os versos atrelam a busca “do que é nosso” e aquilo “a que cada um se destina”, portanto, ao fechado, i.e., à delimitação própria a cada coisa ou referencial. A “medida” (Maas) comum é a diferença, isto é, o aparato de delimitação pelo que se mede o alcance constitutivo de toda e qualquer realidade possível.
IV
No prefácio à versão definitiva do Hipérion, Hölderlin adota a metáfora musical da “dissonância” (Dissonanz) para dar o tom da obra[8], da qual volta a fazer uso em seu desenlace, pouco antes da sentença final, Nächstens mehr. Também aí há outra modulação de circularidade. Em dois prefácios de versões anteriores, ao Fragmento de Hipérion (1794) e à Penúltima Versão (1795), não uma metáfora musical, mas uma metáfora astronômica provê o traço fundamental da narrativa. Como salta à vista, os prefácios, ou “textos prévios” (cf. Henrich, 2004, p. 247), de todas as versões do Hipérion se assemelham quanto à proposta, que é fornecer um esquema filosófico capaz de nortear a leitura. Nas versões mencionadas, a metáfora astronômica mostra outra dimensão da imagética metódica do círculo na expressão Die exzentrische Bahn (A órbita excêntrica). Quem primeiro atentou à sua proveniência do campo da astronomia foi Wolfgang Schadewaldt, que nos primeiros parágrafos de seu texto fornece um apanhado geral do tema desde o séc. II a. C., com o astrônomo grego Hiparco de Nicéia, até o séc. XVIII, com Isaac Newton. O teorema de Hiparco demonstra que há certa desproporção no trajeto anual do sol em torno da Terra, cuja posição estaria, conforme ao sistema geocêntrico de então (de que foi precursor), descentralizada. Daí a expressão grega ἐκ κέντρου (fora do centro) – de que deriva exzentrisch –, utilizada por Hiparco justamente para caracterizar a “órbita solar [Sonnenbahn]”, que passa a ser então “excêntrica, um ἔκκεντρος κύκλος (círculo excêntrico)” (Schadewaldt, 1952, p. 2). A tradição ptolomaica, que dominou a ciência dos astros séculos adentro, dá seguimento a essas coordenadas até aparecer Copérnico, na primeira metade do séc. XVI, com a teoria heliocêntrica, que conserva o princípio da orbitação excêntrica, porém não em relação à orbe solar, mas à translação da Terra e dos demais planetas, como esclarece Schadewaldt na mesma página. Em fins do séc. XVI, com Johannes Kepler, o célebre astrônomo e matemático alemão, a órbita excêntrica (via eccentrica) (cf. 1981, p. 216) adquire outra figuração, qual seja, unir as órbitas concêntricas de Saturno e de Júpiter por intermédio de uma órbita cujo centro se distingue do centro daquelas, mas que alcança e estabelece a ligação entre os trajetos de Saturno e de Júpiter, que Hölderlin identificará à natureza e à arte, respectivamente[9]. É o que deixa claro o título da ode Natureza e Arte ou Saturno e Júpiter (cf. Hölderlin, StA 2.1, p. 37-38), de 1801[10] (Figura 1).
Figura 1

Fonte: Bertaux, 1969, p. 158.
Aqui não é ocasião para se aprofundar a relação entre natureza e arte, ao menos nomeadamente. Retenhamos, contudo, o seguinte: a circunferência da órbita de Saturno, a que Hölderlin atrela a natureza, é muito maior e mais aberta que a de Júpiter, que Hölderlin vincula à arte, por ser menor e mais fechada. Se levarmos em conta que o termo “excêntrico”, em seu emprego usual, designa algo atípico, inusitado ou anômalo, então, curiosamente, a orbe incomum passa a ser a orbe comum, que liga as outras duas. Sem qualquer pretensão de se imiscuir nos meandros da astronomia, assim como Heráclito em termos de geometria no fr. B103, Hölderlin se vale da expressão Exzentrische Bahn como metáfora. O seu papel é transpor (μεταφέρω) essas coordenadas macrocósmicas à concepção da estrutura microcósmica, ou seja, à via formativa do homem, concebida, igualmente e à sua maneira, como essa estranha ligação entre o aberto e o fechado, o não formado e o já formado, ou ainda, entre largada e chegada, que, diz Heráclito, se confundem “em periferia de círculo”, embora se distingam, de vez que o ponto comum, para o sê-lo, supõe tanto o encontro quanto o desencontro, logo, o incomum, sem o que não há comunhão, mas diluição[11].
V
O escopo de ambas as metáforas, a geométrica e a astronômica, é atar, por meio da semiótica do círculo, aquilo que sob a perspectiva usual se encontra em absoluta separação – porém, originariamente, em infinita aproximação –: 1) o princípio e o fim, que, quando lidos em linha reta, pontuam e demarcam distância máxima, tal qual a representação imediata que se faz dessa relação; 2) e as órbitas concêntricas de Saturno e de Júpiter, do aberto e do fechado, a que apenas uma circularidade deslocada, à margem do habitual (i.e., das orbitações planetárias do sistema heliocêntrico), poderia proporcionar contato. No campo da formação do homem, de que Hipérion é uma figuração, essa aproximação infinita, sobretudo em função da forma literária adotada por Hölderlin, se manifesta no trânsito de tensões percorrido a todo tempo pelo personagem, cujo propósito é espelhar a poética (ou produção) de união entre totalidade e particularidade, vivenciada sob o influxo da necessidade, conquanto excêntrica, de vez que exige uma tecitura histórico-ontológica distinta e própria a cada coisa. O enredo do romance – que não apenas espelha, mas realiza um ato poético de fundação – expõe o elemento polêmico da união sob os contornos de encontro e desencontro do todo e do particular, mediante os picos de júbilo e de pesar de Hipérion, em sua dupla camada: “Amiúde, a nós, é como se o mundo fosse tudo e nós, nada; mas também amiúde como se fôssemos tudo e o mundo, nada. Também Hipérion se divide entre esses extremos” (Hölderlin, StA 3, p. 236), segundo o prefácio à Penúltima Versão. Delimitação e vastidão inabarcável se compõem mutuamente. E essa composição, por sua vez, traça todo o arco formativo da humanidade: “Todos nós percorremos uma órbita excêntrica, e não há nenhum outro caminho possível da infância ao amadurecimento” (Hölderlin, StA 3, p. 236), como se lê no parágrafo anterior.
A órbita excêntrica é trilhada por Hipérion ao longo das cartas enviadas a Belarmino, por intermédio das quais se apercebe da aproximação infinita (ou estrutura metódica do círculo), portanto, em meio ao relato poético de sua poética de formação, que aloca em si todo um aparato de dinamicidade, a que a forma epistolar bem se qualifica e que define, também metaforicamente, o câmbio ou nexo relacional de que se plasma um percurso formativo. “Os dias poéticos” (Hölderlin, StA 3, p. 149) de Hipérion, anunciados por sua amada, Diotima, como o pontapé inicial e efetivo de seu amadurecimento, direcionam o leitor à marca e ao destino particular do personagem, que é ensinar poeticamente a realização poética do real, sua produção. E nesse nível, o poeta precisa estar imbuído do elemento propriamente filosófico, e vice-versa. A missão da escritura hölderliniana é explicitar isso. Os mesmos dias poéticos assinalam, por outro lado e de acordo com as respectivas direções da cultura e dos indivíduos, o urdimento comum a qualquer fundação de sentido ou encaminhamento de vida, pois tece e unifica o universal e aberto ao particular e fechado, feitas as devidas ressalvas quanto à capacidade humana de abarcar essas configurações. A isso está intimamente atrelada a órbita excêntrica, como escreve Hölderlin no prefácio ao Fragmento de Hipérion: “A órbita excêntrica que o homem percorre universal e particularmente, de um ponto (da mais ou menos pura simplicidade) a outro (da mais ou menos plena formação), parece ser sempre a mesma em suas direções essenciais” (Hölderlin, StA 3, p. 163).
O que há de mais decisivo no trecho é a expressão “mais ou menos” (mehr oder weniger), que aparece duas vezes. Uma pura latência ou um começo puro (que a passagem denomina “pura simplicidade”) e uma plena patência ou um fim pleno (que a passagem denomina “plena formação”) nunca são o caso: em primeiro lugar, ambos os domínios não têm que ver com pureza alguma, haja vista que um requer o outro, logo, pressupõem um câmbio estrutural; em segundo lugar, esse câmbio é percorrido “de um ponto a outro” (von einem Punkte zum andern) tão somente na medida em que há ligação entre eles, e a isso se presta a órbita excêntrica, que, no entanto, lhes retira o ponto de apoio ou centro comum (i.e., o sustentáculo da pura separação entre os domínios, o mesmo que, na esfera astronômica, impossibilita o contato entre as vias de Saturno e de Júpiter), o que significa dizer que o incomum ou descentralizado passa a valer como a única via apta a guiar em comunhão e em concomitante direção a diferença (e, por extensão, a multiplicidade, a história, o particular etc.). Essa via una, contudo, não pode ser lida em acepção teleológico-linear, pois πέρας não é τέλος, ou seja, a demarcação de limite e de alcance só implica finalidade quanto à sua prontidão para se pôr em marcha, para dar início, e isso requer necessariamente um referencial “mais ou menos” acabado e definido, pois ex nihilo nihil fit; não obstante, requeira igualmente a falta de referencial, sem o que não pode haver genuíno empuxo formador ou movimento de delimitação, que condiz, assim, ao que se poderia chamar de “mais ou menos” inacabado e indefinido[12].
Um dos papeis da órbita excêntrica é impedir que o menor seja tragado pelo maior. Todavia, não se pretende com isso assegurar ao particular, mediante inversão, o posto comumente associado ao universal. Trata-se antes de reconhecer o estatuto relacional do ato de realização em geral, que só pode admitir a exclusiva, tanto quanto a inclusiva, na medida em que se conserva a unidade polêmica de todo e qualquer sentido ou direção, portanto, “em tudo e além de tudo”, de vez que o encadeamento formador da totalidade entitativa pressupõe um sobressalto sobre si próprio no mesmo instante da atividade que o constitui, com o que o campo de referencialidade em geral adquire forma. Ainda no prefácio ao Fragmento de Hipérion, dois parágrafos após a definição de Exzentrische Bahn, escreve Hölderlin:
O homem gostaria de ser em tudo e além de tudo, e a sentença no túmulo de Loyola: non coerceri maximo, contineri tamen a minimo [não ser coagido pelo maior, mas contido pelo menor], pode descrever, assim, a perigosa face do homem, que tudo cobiça e subjuga, como o mais elevado e mais belo [schönsten] estado nele alcançado (Hölderlin, StA 3, p. 163).
Heráclito, no fr. B8, diz que a convergência dos contrários atesta “a mais bela harmonia [καλλίστην ἁρμονίαν]” (Heráclito, 2012, p. 129) e Hölderlin, aqui, o “mais belo estado alcançado” pelo homem. Esse estado, porém, é descrito igualmente como um perigo. Ele é ambíguo. Os versos iniciais do hino Patmos (1803) bem atestam esse limiar: “Onde está o perigo, cresce também o que salva” (Hölderlin, StA 2.1, p. 165). O perigo cresce quando se confunde a falta de coação do maior com a falta de contenção do menor, que acaba por se achar no direito de se converter no maior e, desta feita, passar a coagir, ou seja, pôr-se a si mesmo como centro. “Ser em tudo e além de tudo” descreve tanto “o homem (ou a cultura) que gostaria” de tudo se apossar, assolado pela desmedida, quanto o homem (ou a cultura) “elevado”, dotado de comedimento, por intermédio do qual aquilo que o acomete e o ultrapassa, de que participa e dá testemunho, se põe e é posto em proximidade. Dito de outra maneira, o maior ou universal (o real) se revela a partir do menor ou particular (o homem) no mesmo passo em que o homem se revela a partir do real, pois o campo de delimitação é o campo de realização propriamente dito, sem o que nada há e com o que tampouco se esgota ou se subjuga o que há. A sentença de Loyola servirá ainda de epígrafe ao primeiro tomo do Hipérion final, porém com a parte retirada de sua primeira aparição no Fragmento de Hipérion: “Non coerceri maximo, contineri a minimo, divinum est [Não ser restringido pelo maior, {mas} cingido pelo menor, é divino]” (Hölderlin, StA 3, p. 13). A máxima – agora noutra tradução possível, a fim de clareá-la um pouco mais – é uma espécie de leitmotiv filosófico de Hölderlin[13], além de concatenar o mais alto estado de formação, se levarmos em conta que Inácio de Loyola foi o fundador da Societas Jesu, que aqui, em função de seu vasto alcance mundo afora, desempenha não mais que um valor ilustrativo, de vez que Hölderlin recebeu, desde o berço, formação de pastor e desenvolveu uma piedade pagã, portanto, de modo algum como símbolo de inclinação católica ou de aderência a seu método pedagógico.
VI
Se a conquista da maturidade coincide com a apercepção da órbita excêntrica, de que tudo – enquanto aplicação histórico-ontológica – toma parte, então, a cada qual, por mais encaminhado e configurado que esteja, cabe um “repouso no exílio [ἀνάπαυλα ἐν τῆι φυγῆι]” (Heráclito, 2013, p. 51), como diz Heráclito[14]. A perda de centro ou de fim último, “mais ou menos” tragados pelo inacabado e indefinido, demanda um esforço de fundação inexorável, seja em maior, seja em menor escala. E a isso a poesia finita do homem, mesmo em meio às mais firmes e admiráveis conquistas da cultura, precisa aceder. Como diz Hipérion, num misto de perfilhamento e de pesar (tomo II, livro I): “Em todo caso, nasci para ser sem-lar [heimathlos] e sem lugar de repouso [ohne Ruhestätte]” (Hölderlin, StA 3, p. 120).
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METADADOS DA SUBMISSÃO
CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA
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Como citar
GONÇALVES CORREIA, A. F. Método e Circularidade: o horizonte metafórico-formativo da geometria e da astronomia em Hölderlin e Heráclito. Sofia, Espírito Santo, Brasil, v. 15, n. 2, p. e15252190, 2026. DOI: https://doi.org/10.47456/sofia.v15i2.52190 Disponível em: https://periodicos.ufes.br/sofia/pt_BR/article/view/52190 . Acesso em: 06 out. 2026.
André Felipe Gonçalves Correia
Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio deJaneiro (UFRJ), com temporada de Doutorado Sanduíche na Albert-Ludwigs-Universität Freiburg (Alemanha). Possui Bacharelado, Licenciatura Plena e Mestrado em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Professor Efetivo do Instituto Federal da Paraíba (IFPB). Foi Professor Substituto do Departamento de Filosofia (DFIL) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Professor Efetivo da SEE-PE e Professor Temporário da SEE-PB. Dedica-se ao estudo das seguintes áreas: pensamento grego arcaico, mito e filosofia, romantismo e idealismo alemães, história da filosofia, crítica à metafísica, ontologia e estética filosófica. Vem desenvolvendo pesquisas e traduções no entorno dos discursos filosóficos de língua alemã, sobretudo nas obras de Hölderlin e do romantismo alemão em geral. Foi editor associado da “Revista Trágica - Estudos de Filosofia da Imanência” (UFRJ) de 2019 a 2024. Membro fundador do GFGG (Grupo de Filosofia Greco-Germânica), cujo trabalho central consiste na publicação anual (desde 2019, em livro) da coleção “Entre oalvorecer antigo e o crepúsculo moderno”. Idealizador, organizador e autor da obra “Apalavra de Hölderlin” (Editora Giostri, 2022, 306 p), o primeiro material em formato livro-coletânea dedicado a Hölderlin no Brasil, contando ao todo com 15 capítulos depesquisadores/professores de universidades do Brasil, da Alemanha, da Suécia e dos EUA.
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[1] Veja-se, p. ex., os casos indiretos de Fichte e de Schiller, com o conceito de ação recíproca (Wechselwirkung), ou mesmo da Querela do Panteísmo (Pantheismusstreit), com Jacobi e Mendelssohn em torno da filosofia de Spinoza, sob a chave conceitual do ἕν καί πᾶν heraclítico (cf. frs. B10 e B50).
[2] Cf. Hölderlin, 1961 [Bd. 3], p. 81. Daqui em diante StA e respectivo volume da edição crítica.
[3] A esse respeito, anota Michael Knaupp: “Esse esquema aparentemente circular dá ao romance, apesar do desfecho em aberto, uma espécie de encerramento, e a especulação sobre uma possível sequência que se vincula a esse final é, portanto, desnecessária” (Knaupp, 2013, p. 184. Grifo nosso). O porquê da ressalva em relação a essa “forma circular” (Kreisform) será esclarecido na sequência.
[4] Assim como remetem, à semelhança de uma teia, a distintas passagens ao longo das páginas, indentificadas principalmente mediante repetições de fórmulas, a que os lugares em que aparecem fornecem o critério de ligação. A fórmula So dacht’ ich (Assim pensei), que reaparece imediatamente antes da sentença Nächstens mehr, p. ex., finaliza o livro II (tomo II) valendo-se da mesma forma de finalização do livro I (tomo I), como se depreende, por sinal, da estrutura do parágrafo. Há, nesse sentido, variadas modulações de retorno e circularidade.
[5] Na mesma página em que Heráclito é nomeado no Hipérion como aquele a quem a filosofia deve sua origem, é dito que “a poesia é o princípio e o fim [Anfang und Ende] dessa ciência [a filosofia]” (Hölderlin, StA 3, p. 81). Note-se a correspondência entre as expressões alemã (Anfang und Ende), de Hölderlin, e grega (ἀρχή καί πέρας), de Heráclito. “Poesia”, aqui, não se limita à produção poemática ou ao recorte historiográfico de que surge a filosofia, a Grécia arcaica, em que não havia uma nítida separação entre o poeta e o pensador; ela designa, antes, o elã de constituição da realidade, a que Schleiermacher, no fr. 350 da Athenäum, dá expressão lapidar: “Sem poesia não há realidade alguma [Keine Poesie, keine Wirklichkeit]” (Schleiermacher apud Schlegel, 2016, p. 226).
[6] Esse recurso metódico não foi inventado por Hölderlin, haja vista que já está presente, muito antes, na Odisseia, entre os Cantos IX e XII, em que Odisseu relata as suas aventuras e os seus percalços, desde a partida de Troia até então, quando de sua chegada à ilha dos feácios. Os cantos mais emblemáticos da epopeia surgem aos olhos do leitor não como atos pretéritos, mas sob um viço de presença incomparável, que sobrepuja em muito qualquer outra passagem sua, principalmente em termos de atualização do pressuposto narrativo: os feitos e as perdas do herói, que Odisseu narra ao rei Alcínoo num misto de grandiloquência e pesar, tal qual Hipérion a Belarmino. O lirismo de ambos, de incidência elegíaca, é o elemento literário decisivo para que a lembrança não se reduza a mera lembrança, assim como a ação, a mera ação. A pertinência da Odisseia para se pensar o Hipérion, como observa Michael Knaupp (2013, p. 184), também se verifica na própria Telemaquia, vista como uma espécie de Bildungsroman grego, de conquista da maturidade via partida do torrão natal (caso de Telêmaco, filho de Odisseu).
[7] A fórmula ἀρχή καί πέρας (“princípio e fim”) requer alguns esclarecimentos. À época de Heráclito, o vocábulo ἀρχή não era utilizado à maneira do cânone filosófico, que é posterior (aristotélico), como bem se infere do fr. B103, que o emprega no sentido de “começo”. Já o termo πέρας, traduzido no mesmo fragmento por “fim”, não pode ser confundido com τέλος (finalidade), palavra recorrente em textos do período sobre o nexo entre princípio e fim, a exemplo do fr. B2 de Alcman de Crotona: “ἀρχὴν τῷ τέλει” (Diels, 1960, p. 215). Πέρας significa “limite”, “borda”, “delimitação”. Seu emprego, nesse contexto, parece ser característico de Heráclito (cf. Kahn, 2009, p. 366, nota 317), além de também constar no fr. B45, sob o enfoque da noção de ψυχή (alma). Ἀρχή καί πέρας, diríamos, “aberto e fechado”.
[8] Numa clara alusão a Heráclito, como se lê, p. ex., no já mencionado fr. B51: “Ignoram como o divergente consigo mesmo concorda [οὐ ξυνιᾶσιν ὅκως διαφερόμενον ἑωυτῷ ὁμολογέε]: harmonia de movimentos contrários, como do arco e da lira” (Heráclito, 2012, p. 73); a que a doxografia d’O Banquete (187a) muito se assemelha.
[9] Pierre Bertaux, que atribui a Kepler a fonte da metáfora hölderliniana, expõe um gráfico bem ilustrativo dessas três orbitações, como consta na sequência. Cf. Bertaux, 1969, p. 158.
[10] Já em 1789, na ode intitulada precisamente de Kepler, há alusões a essa “órbita” (Bahn), como se lê nos versos 4 e 24 (cf. Hölderlin, StA 1.1, p. 81-82). Ambos, a propósito, Hölderlin e Kepler, partilham da mesma alma mater. Motivos astronômicos, diga-se ainda, são constantes na poesia de Hölderlin, que teve por professores os matemáticos e astrônomos Karl Felix Seyffer e Christoph Friedrich Pfleiderer. Para um aprofundamento desse entorno, cf. Honold, 2001, p. 309-33.
[11] No fr. B120, Heráclito apresenta um mapeamento astronômico, advindo, na verdade, de Homero (cf. Ilíada, Canto XVIII, vv. 487-89): “Limites da aurora e do ocaso, a Ursa [ἄρκτος] e, face à Ursa, o marco do radiante Zeus [i.e., a estrela Αρκτούρος, o ‘guardião da Ursa’]” (Heráclito, 2012, p. 119). A escola de Mileto, a que Heráclito faz menção no fr. B38 (a Tales, seu fundador), como se sabe, era famosa pelos seus estudos dos astros, e sua proximidade em relação a Éfeso – não apenas geográfica, mas sobretudo quanto à sua constelação temática, incluindo aquilo que se chamará posteriormente de filosofia – justifica o interesse não apenas prático, mas também teórico para com a observação da abóbada celeste, “embora Heráclito não estivesse, provavelmente, tão preocupado com a exactidão dos pormenores astronômicos, como tinham estado os Milesios” (Kirk, Raven e Schofield, 2010, p. 208). O registro do fr. B120, assim, cuja fonte homérica jamais poderia passar batida à época, não revela qualquer pretensão de descoberta ou de demonstração. Se se atrela a isso o estilo simbólico de Heráclito, então nada poderia impedir uma leitura metafórica do fragmento (algo que também se aplica aos demais excertos de temática astronômica, a exemplo dos frs. A1, B3, B6, B94, B99, B100, B105). “A Ursa”, como escreve Kahn, “é o ponto ou região em torno do qual o sol gira no seu caminho diário” (Kahn, 2009, p. 246). O “guardião da Ursa”, chancelado pela justiça de Zeus, é aquele que protege o ciclo cósmico do nascer e do pôr do sol, cujos limites, se lidos em paralelo com o fr. B103, conduzem precisamente à conversão de um no outro: tanto o começo (o amanhecer) quanto o fim (o anoitecer) do dia testemunham uma virada solar de mútua pressuposição, donde, aliás, o fr. B57: “Pois dia e noite é [ἔστι] um [ἕν]” (Heráclito apud Diels, 1960, p. 163).
[12] De resto, na expressão “mais ou menos”, contrariando o uso frequente da conjunção nas línguas românicas, o conectivo “ou” não acusa disjunção, o que nos remete ao alcance do latim aut (de que provém “ou”), que ora pode indicar inclusão (“ou então”), ora exclusão (“ou...ou”). O título Hipérion ou O eremita na Grécia é um exemplo do emprego inclusivo. Se se transfere o “mais” e o “menos” à relação entre “universal” e “particular”, obter-se-á, com isso, a associação que fizemos entre as órbitas de Saturno e de Júpiter, ou seja, a “maior” e a “menor”.
[13] E voltará a aparecer em vários outros textos e contextos, mediante formulação própria: “Em todo caso, o erro seria se o homem preferisse se contentar com um determinado limite individual, ou renegar, de modo geral, o limite em que estava, mas no qual não deveria estar” [der Irrtum wäre, in jedem Falle, er mochte sich bei einer individuell bestimmten Gränze begnügen, oder die Gränze überhaupt verläugnen, wo sie doch war, aber nicht seyn sollte] (cf. Hermócrates a Céfalo, StA 4.1, p. 213); “O maior se revela no menor”[Im Kleinsten offenbart das Gröste sich] (cf. A juventude de Hipérion, StA 3, p. 201); “O que pode agradar de modo particular, não pode, pois, agradar como um todo, e vice-versa” [Was vereinzelt gefallen kann, kann nicht wohl als Ganzes gefallen und umgekehrt] (cf. prefácio à Penúltima Versão do Hipérion, StA 3, p. 236); “Frequentemente, o maior se revela no menor” [Oft offenbart sich im Kleinsten das Gröste] (cf. Projeto em prosa para a versão métrica do Hipérion, StA 3, p. 190); “Mas também em uma vida limitada pode o homem viver infinitamente” [Aber auch in einem beschränkten Leben kann der Mensch unendlich leben] (cf. Sobre religião, StA 4.1, p. 279); “Tudo o que é original aparece não na força originária, mas sim em sua fraqueza” [Denn alles Ursprüngliche erscheint zwar nicht in ursprünglicher Stärke, sondern eigentlich in seiner Schwäche] (cf. O significado das tragédias, StA 4.1, p. 274); “Oh, os poetas têm razão, não há nada tão pequeno e insignificante pelo qual não se possa despertar o entusiasmo” [O die Poëten haben recht, es ist nichts so klein und wenig, woran man sich nicht begeistern könnte] (cf. Hipérion [tomo I, livro I, última carta], StA 3, p. 46) etc.
[14] O excerto, que se encontra na Enéada (IV, 5) de Plotino, é comumente interpretado como uma paráfrase do fr. B84: “Mudando, repousa [μεταβάλλον ἀναπαύεται]”, mencionado um pouco antes (IV, 1). Diels o toma como espúrio.