As pulsões sexuais objetais e a agressividade na segunda dualidade pulsional freudiana
The Objectal Sexual
Drives and Aggressiveness in Freud's Second Drive Duality
Autor(a): Fabrício Gonçalves
ORCID: 0000-0002-2999-9466
Contato principal: fabriciosg87@yahoo.com.br
Afiliação: Departamento de Psicologia, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG, Brasil.
Recebido: 29/03/2026
Received: 29/03/2026
Aprovado: 26/08/2026
Approved: 26/08/2026
Publicado: 15/09/2026
Published:
15/09/2026
Resumo
Este artigo investiga as relações entre as pulsões sexuais objetais, a agressividade
e a pulsão de morte no contexto da segunda dualidade pulsional freudiana. A
partir de uma análise crítica dos escritos de Freud a partir de 1920, são
identificadas incoerências em suas explicações sobre a atuação da pulsão de
morte na fase oral. Argumenta-se, ainda, que no complexo de Édipo é possível
observar tanto a agressividade resultante da não efetivação da amálgama
pulsional quanto à agressividade motivada pelo narcisismo infantil. Examina-se
também o papel do masoquismo como formação pulsional complexa. O estudo conclui
que, embora Freud proponha uma ligação entre a pulsão de morte e a sexualidade,
sua teoria apresenta lacunas que abrem espaço para problematizações acerca da
gênese da agressividade.
Palavras-chave: pulsões sexuais objetais; agressividade; pulsão de
morte; segunda dualidade pulsional.
Abstract
This article
investigates the relationships between the objectal sexual drives,
aggressiveness, and the death drive within the framework of Freud’s second
drive duality. Based on a critical analysis of Freud’s writings from 1920
onwards, inconsistencies are identified in his explanations concerning the role
of the death drive during the oral phase. It is further argued that, within the
Oedipus complex, one can observe both the aggressiveness resulting from the
failure of drive amalgamation and the aggressiveness motivated by infantile
narcissism. The role of masochism as a complex drive formation is also
examined. The study concludes that, although Freud proposes a link between the
death drive and sexuality, his theory contains gaps that open room for further
questioning about the genesis of aggressiveness.
Keywords: objectal sexual drives;
aggressiveness; death drive; second drive duality.
Introdução
Ao analisar alguns fenômenos que não encontravam explicação na primeira dualidade pulsional, Freud vê a necessidade de alterar essa teoria em “Além do princípio do prazer” (1920/2017a). Entre esses fenômenos, que impulsionaram essa alteração, destacam-se a compulsão à repetição, a emergência de formas intensas e irracionais de agressividade, os comportamentos autodestrutivos e a revivência de experiências traumáticas. Tais manifestações, que parecem contrariar o princípio do prazer, conduzem Freud à hipótese da existência de uma nova força fundamental atuando no somático e no psíquico: a pulsão de morte.
Antes de 1920, a teoria freudiana estava estruturada na oposição entre as pulsões sexuais e as pulsões do Eu[1]. Com a introdução do texto “Além do princípio do prazer” (1920/2020c), essa dualidade é substituída por uma formulação mais ampla: de um lado, as pulsões de vida, ou Eros, que englobam tanto as pulsões sexuais quanto as pulsões do Eu, visam à união e a ligação; de outro, as pulsões de morte, caracterizadas por sua tendência à redução das tensões e ao retorno ao estado inorgânico. Quando esta pulsão é direcionada ao mundo externo, ela manifesta-se sob a forma de agressividade.
A hipótese da presença da pulsão de morte na constituição do psiquismo leva Freud a reavaliar sua compreensão das manifestações agressivas e autoagressivas presentes na sexualidade. Ele propõe, então, que tais manifestações derivam da fusão entre as pulsões de morte e as pulsões sexuais, sendo essa amálgama responsável pelas características agressivas, autoagressivas, masoquistas e sádicas das pulsões sexuais objetais.
Ao analisar a bibliografia secundária, observa-se um número considerável de estudos que abordam o sadismo ou o masoquismo na segunda dualidade pulsional.[2] No entanto, esses trabalhos não esgotam a complexidade do tema, seja por se concentrarem em aspectos específicos do sadismo ou do masoquismo, seja por retomarem características desses conceitos em Freud e proporem hipóteses próprias acerca de seus componentes.
Ao examinarmos a agressividade nas fases oral, sádico-oral e fálica, constata-se uma notável escassez de estudos dedicados a esse tema. Exemplos pontuais são os trabalhos de Brunswick (1940), Schalin (1995), Loewald (2000), Lax (2007), Holtzman e Kulish (2003) e Schmidt-Hellerau (2009, 2010), que mencionam a agressividade em alguma dessas fases do desenvolvimento sexual. Nenhum desses autores analisa diretamente a agressividade nessas fases a partir da teoria freudiana.
Portanto, este artigo tem como objetivo examinar, à luz da segunda dualidade pulsional, a articulação entre as pulsões sexuais objetais, a pulsão de morte e a agressividade, propondo uma problematização crítica desse vínculo. Para isso, serão analisadas a fase oral, a fase sádico-anal, a fase fálica, o masoquismo e o sadismo. Busca-se, assim, contribuir para o aprofundamento da compreensão dessas complexas relações, discutindo os alcances e os limites da segunda dualidade pulsional na explicação da sexualidade humana.
As formulações de Freud não serão tomadas neste artigo como dados clínicos autoevidentes, nem se pretende apenas descrever a evolução histórica de seus conceitos. Busca-se, antes, examinar a capacidade explicativa, a coerência interna, os deslocamentos conceituais e os limites da segunda dualidade pulsional no que concerne, estritamente, à relação entre pulsões sexuais objetais, pulsão de morte e agressividade. A questão que orienta o artigo pode ser assim formulada: em que medida a articulação entre pulsões sexuais objetais e pulsão de morte explica de modo consistente a agressividade presente na fase oral, na fase sádico-anal e na fase fálica, bem como no sadismo e no masoquismo, e quais limites emergem dessa explicação?
A hipótese que se pretende examinar é a de que a segunda dualidade pulsional amplia o poder explicativo da psicanálise ao relacionar a agressividade presente na sexualidade — nas três fases e nas duas perversões referidas — a diferentes graus de fusão e desfusão pulsional entre pulsões sexuais objetais e pulsão de morte. Contudo, essa hipótese produz duas dificuldades que percorrerão toda a análise. A primeira é que a pulsão de morte, definida como conservadora, regressiva e tendente ao retorno ao estado inorgânico, não se identifica sem tensão com a agressividade ativa dirigida ao objeto sexual, como o apoderamento e a incorporação. A segunda é que Freud nem sempre esclarece em que grau e sob quais condições a fusão pulsional se estabelece em cada fase, de tal maneira que a própria noção corre o risco de operar como uma inferência retroativa, aplicada a posteriori para justificar a intensidade da agressividade já observada.
A tese que se defende é a de que o ganho explicativo da segunda dualidade — situar a agressividade sexual não como propriedade intrínseca da pulsão sexual, mas como efeito de sua fusão com a pulsão de morte — vem acompanhado de um custo teórico. Esse custo se revela na variação qualitativa da agressividade entre as fases (incorporação oral, apoderamento sádico-anal, rivalidade fálica) e na reversibilidade entre sadismo e masoquismo, que tensionam a suposição de uma dualidade pulsional estável e homogeneamente distribuída. O percurso consistirá, portanto, em reconstruir a posição de Freud em cada fase e, a partir dela, examinar os problemas que dela decorrem, distinguindo sempre a pulsão de morte, a agressividade, a destrutividade, o sadismo e o masoquismo, sem tratá-los como sinônimos.
Fase oral
A concepção freudiana da fase oral foi influenciada pelas ideias de Karl Abraham sobre sua possível divisão em dois estágios. No primeiro estágio, há apenas incorporação oral, sem qualquer nível de ambivalência com o objeto. Essa ausência parece ser causada pela impossibilidade da criança se diferenciar do objeto. Já no segundo, chamado de sádico-oral, surge a ação de morder, com o aparecimento dos dentes (Freud, 1931/2020b). Ademais, o autor acredita que, neste estágio, ela “exibe pela primeira vez os fenômenos da ambivalência” (Freud, 1931/2020b, p. 247). É importante observar que, embora Freud já houvesse comentado as características desses dois momentos na primeira dualidade pulsional, ele não havia estabelecido tal distinção.
Freud (1923/2019a; 1931/2020b; 1933/2020f) aponta que, no início da fase oral, ao se alimentar, a criança destrói o alimento e incorpora características dos objetos que lhe proporcionam prazer, ampliando, assim, seu Eu. Essa destruição, segundo o autor, está subordinada à pulsão de morte (Freud, 1920/2020c; 1923/2019c; 1925/2019f). No entanto, ao analisarmos os estágios pré-ambivalente e sádico-oral dessa fase, observa-se que a atuação da pulsão de morte parece se manifestar no Eu a partir da diferenciação entre essa instância e o mundo externo, processo que começa a ocorrer apenas no segundo estágio — mediado por dois mecanismos: a introjeção, motivada pela pulsão de vida, e a projeção, impulsionada pela pulsão de morte.
Cabe extrair daqui uma consequência que o texto freudiano deixa implícita. Se a destruição do alimento e a incorporação do objeto são atribuídas à pulsão de morte, mas o primeiro estágio é caracterizado como pré-ambivalente — sem hostilidade dirigida ao objeto —, então a agressividade oral inicial não pode ser lida como manifestação de uma pulsão de morte já voltada para o objeto sexual. O que a fase oral revela, nesse estágio, não é a fusão da pulsão sexual objetal com uma destrutividade dirigida ao outro, mas uma incorporação a serviço da autopreservação e da ampliação do Eu. Impõe-se, assim, um primeiro limite à hipótese geral, visto que a amálgama entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte não é homogênea desde a origem, pois pressupõe a diferenciação entre Eu e mundo externo, que só se estabelece no segundo estágio, quando a projeção (impulsionada pela pulsão de morte) e a introjeção (impulsionada pela pulsão de vida) passam a operar. A agressividade oral não conserva, portanto, sem mais, o caráter regressivo e conservador da pulsão de morte: para tornar-se ataque ao objeto — o morder sádico-oral —, ela exige uma reorientação de sua meta original, o que sugere que a própria noção de agressividade sexual já supõe uma transformação da pulsão de morte, e não a sua simples presença.
Além disso, Freud (1925/2020b) comenta que, nesse segundo estágio da fase oral, emerge um “Eu de prazer original” (p. 278)[3], responsável por introjetar tudo aquilo que é fonte de prazer e projetar no mundo externo tudo o que causa desprazer. Esse funcionamento contribui para a expansão das fronteiras do Eu e para sua diferenciação gradual em relação ao objeto. Pode-se considerar, portanto, que o desenvolvimento desses mecanismos exige certo grau de maturação do Eu, alcançado com o auxílio do processo de incorporação característico do primeiro estágio da fase oral. Assim, é possível inferir que, no início da vida do bebê, a manifestação da agressividade tem uma natureza secundária, estando relacionada, sobretudo, à autopreservação.
Um dos processos que ocorre no segundo estágio da fase oral é a identificação, comentada em “Psicologia das massas e análise do Eu” (1921/2018b). Sobre ela, Freud (1921/2018b) diz que:
desde o início a identificação é ambivalente, pode tornar-se tanto expressão de ternura como desejo de eliminação. Comporta-se como um derivado da primeira fase, a fase oral da organização da libido, na qual o indivíduo incorporou, comendo, o objeto desejado e estimado, e assim o aniquilou enquanto objeto. É sabido que o canibal permanece nesse ponto; tem uma afeição devoradora por seus inimigos, e não devora aqueles de quem não pode gostar de algum modo (Freud, 1921/2018b, p. 61).
É importante destacar que um dos motivos pelos quais o ser humano desenvolve o processo de identificação se deve à sua condição de vir ao mundo de forma prematura, em total desamparo, necessitando dos cuidados exclusivos de outro para garantir sua sobrevivência. No entanto, a criança desenvolve o medo de perder o amor do cuidador (Freud, 1926/2020; 1940 [1938]/2019a). Dessa necessidade de manter o outro por perto, surgem os vínculos libidinais inibidos com ele, responsáveis pela identificação e, consequentemente, pelos laços afetivos. Assim, uma das principais funções da identificação, para Freud, é que “o indivíduo limita a agressividade frente à pessoa com a qual se identificou, poupa esta e lhe dá ajuda” (Freud, 1923/2018a, p. 69).
Fase sádico-anal
A segunda fase do desenvolvimento libidinal é a sádico-anal, conforme descrita por Freud (1933/2020e), que adere à divisão proposta por Karl Abraham. Essa fase compreende dois estágios. No primeiro, predominam tendências destrutivas, com impulsos de aniquilação e perda do objeto, bem como o alívio da excitação e da tensão anal por meio da expulsão ou separação do conteúdo intestinal. No segundo estágio, predominam as disposições para a manutenção e posse amigável do objeto, com o desejo de controlá-lo, preservando-o até que o aumento da pressão torne o desligamento inevitável e, assim, intensifique a satisfação obtida pela estimulação da zona anal.
Entre o primeiro e o segundo estágios da fase anal, emerge a consideração pelo objeto — precursora do investimento amoroso ao longo da vida (Freud, 1933/2020e). Abraham (1994) sustenta que, nesse período, começa a prevalecer a tendência à preservação do objeto.
A passagem da fase oral à sádico-anal introduz uma modalidade distinta de agressividade sexual, já não a incorporação do objeto, mas o apoderamento e o controle sobre ele, articulados à retenção e à expulsão. Se a agressividade oral é incorporação e a sádico-anal é domínio do objeto, então a distância entre elas não parece redutível a uma variação de grau na fusão pulsional, indicando antes uma mudança qualitativa na relação entre sexualidade e destrutividade. A emergência da consideração pelo objeto — precursora do investimento amoroso — no interior de uma fase nomeada sádica torna esse ponto ainda mais claro, uma vez que a destrutividade sádico-anal coexiste com o primeiro cuidado pelo objeto, de modo que a mesma organização pulsional abriga, simultaneamente, apoderamento e ternura. Isso sugere que a fusão pulsional altera a forma da relação objetal, e não apenas a proporção de seus componentes.
Em Sobre a sexualidade feminina, Freud (1931/2020b) menciona alguns achados de Brunswick (1940)[4] sobre a fase sádico-anal, descritos com maior profundidade no artigo “A fase pré-edípica de desenvolvimento da libido” elaborado em colaboração com o psicanalista. Nesse trabalho, a autora observa que o despertar da zona anal corresponde, em certo momento, à produção de intensos impulsos agressivos, que a criança se torna mais capaz de expressar do que durante a fase oral. Segundo Brunswick, no berçário, nota-se que qualquer estimulação da zona anal (ou, em uma análise de adultos, qualquer evocação de conteúdos anais) pode provocar uma violenta explosão de raiva. Existe, portanto, uma conexão etiológica entre essa excitação e o sentimento de cólera. Ela acrescenta ainda que os enemas, tão frequentes na infância, têm toda a aparência de um estupro, provocando uma reação explosiva de raiva, que, embora impotente, só pode ser comparada ao orgasmo genital.
A importância da fase sádico-anal é sintetizada por Freud (1933/2020e) na “Conferência 32: Angústia e pulsões”. Em suas palavras:
Pudemos estudar as transformações das pulsões e processos similares no erotismo anal particularmente, nas excitações vindas das fontes da zona erógena anal, e ficamos surpresos com a variedade de utilizações dadas a esses impulsos. Provavelmente não é fácil livrar-se do menosprezo que, no curso da evolução, atingiu precisamente esta zona. Por isso, deixemos que Abraham nos recorde que o ânus corresponde embriologicamente à boca primitiva, que migrou para o final do intestino. Então aprendemos que, com a desvalorização das próprias fezes, do excremento, esse interesse pulsional de fonte anal passa para objetos que podem ser dados como presente. E com razão, pois as fezes foram o primeiro presente que o bebê pôde dar, do qual se desprendeu por amor a quem dele cuidava. Depois, de modo inteiramente análogo à mudança de significado durante a evolução da linguagem, esse antigo interesse em fezes se converte na apreciação de ouro e dinheiro [Gold und Geld], mas também contribui para o investimento afetivo de criança e pênis. As crianças, que por muito tempo se apegam à teoria da cloaca, estão convencidas de que o bebê nasce do intestino, como um excremento; a defecação é o modelo para o ato do nascimento. Mas o pênis também tem como precursor a coluna de fezes que preenche e estimula a membrana mucosa do intestino. Quando a criança, muito a contragosto, toma conhecimento de que há seres humanos que não possuem este membro, passa a ver o pênis como algo destacável do corpo, em clara analogia com o excremento, que foi o primeiro pedaço de matéria corpórea a que teve de renunciar. Um bocado de erotismo anal é, assim, carreado para investimento no pênis; mas o interesse nessa parte do corpo tem, além da raiz erótico-anal, uma raiz oral talvez mais forte ainda, pois o pênis torna-se também o herdeiro do bico do seio materno, após o fim do aleitamento (Freud 1933/2020e, pp. 248-249).
Após discutir o desenvolvimento da libido na fase pré-edípica, torna-se relevante comparar a ambivalência presente nas fases oral e sádico-anal, a fim de observar como o sadismo se manifesta nos primórdios da vida do infante. Freud (1940 [1938]/2019a) comenta:
Já durante essa fase oral ocorrem impulsos sádicos de forma isolada, com o aparecimento dos dentes. Surgem em medida bem maior na segunda fase, que chamamos sádico-anal porque nela se busca satisfação na agressividade e na função excretória. Nossa justificativa para incluir os impulsos agressivos na libido se baseia na concepção de que o sadismo é uma mescla instintual de impulsos puramente libidinais e puramente destrutivos, uma mistura que a partir de então não cessa de ocorrer (p. 202).
Todavia, Eissler (1971) argumenta que a teoria freudiana sugere uma fusão progressiva entre a agressão e a libido, o que implicaria que a fase oral fosse, necessariamente, mais ambivalente do que a fase seguinte. Essa maior fusão pulsional resultaria em uma diminuição da ambivalência. Tal interpretação pode ser compreendida se se analisarem exclusivamente a fase oral e a fase fálica, sem considerar os argumentos de Freud sobre a fase sádico-anal. Acredita-se que essa leitura de Eissler (1971) decorre do fato de Freud não ter esclarecido como a mescla pulsional opera no infante desde os primórdios do desenvolvimento do Eu. Freud limitou-se a mencionar o surgimento de impulsos sádicos, agressivos e de ódio direcionados ao objeto a partir do segundo estágio da fase oral, como vimos anteriormente.
A dificuldade assinalada a propósito de Eissler (1971) revela um problema mais amplo. Se a teoria admite uma fusão progressiva entre agressão e libido, o grau de amálgama deveria ser, ao menos qualitativamente, uma variável determinável em cada fase; contudo, Freud não fornece elementos que permitam decidir se a fase oral é mais ou menos amalgamada do que a sádico-anal. O que se observa é antes uma diferença na forma da agressividade — incorporação na oral, apoderamento na sádico-anal — do que uma diferença mensurável no grau de fusão. Aparece aqui um risco de circularidade que atravessa toda a hipótese, haja vista que sempre que a agressividade se intensifica ou muda de feição, pode-se invocar uma variação no grau de fusão ou desfusão pulsional, sem que haja um critério independente para atestá-la. Nesse ponto, o conceito de fusão pulsional corre o perigo de explicar qualquer resultado, o que enfraquece seu valor explicativo no mesmo movimento em que parece ampliá-lo.
Fase fálica
Após passar pela fase pré-edípica, a criança ingressa na fase fálica. Nesse período, ocorre a unificação das pulsões parciais sob o primado dos órgãos genitais (Freud, 1923/2019c, 1925/2019e, 1925/2019g). Freud observa que, nessa fase, o infante reconhece apenas um órgão sexual: o masculino. É também nesse momento que se inicia a diferenciação entre os sexos, estruturada em torno da oposição fálico-castrado. Durante a fase fálica, emerge o complexo de Édipo, no qual a agressividade e a hostilidade se manifestam com grande intensidade. Essa etapa é de fundamental importância para a determinação dos caminhos que a pulsão sexual seguirá na vida adulta. No entanto, o complexo de Édipo adquire particularidades distintas conforme o sexo da criança. Com o objetivo de tornar mais clara a exposição deste período da existência do indivíduo, será analisado primeiramente o desenvolvimento do complexo de Édipo no menino e, em seguida, na menina.
A fase fálica introduz uma terceira modalidade de agressividade sexual, distinta das anteriores, que não é nem a incorporação oral nem o apoderamento sádico-anal, mas sim a rivalidade organizadas em torno do primado genital. O problema próprio desta fase é que a agressividade dirigida ao rival não parece derivar diretamente de uma pulsão de morte orientada ao retorno ao inorgânico, mas de um conflito entre o investimento libidinal do objeto e o investimento narcísico no próprio órgão. Cumpre, portanto, distinguir essa agressividade — enquanto componente da relação com o objeto sexual — daquelas manifestações que Freud vincula a outras determinações e que permanecem fora do escopo aqui delimitado. A questão que se anuncia, e que será retomada adiante, é a de saber se, nesta fase, a destrutividade dirigida ao objeto decorre da amálgama entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte ou de uma agressividade mobilizada pela libido narcísica.
O complexo de Édipo no sexo masculino
Freud (1940 [1938]/2019a) considera que o primeiro objeto de investimento libidinal do menino é o seio materno. Com o desenvolvimento do Eu e a percepção de sua totalidade corporal, o investimento libidinal volta-se para a mãe enquanto objeto total. O autor ressalta que, ao cuidar do bem-estar da criança, alimentá-la, protegê-la e higienizá-la, a cuidadora torna-se sua primeira sedutora e o mais intenso objeto de amor na vida de qualquer indivíduo. Desse modo, ela se configura como o protótipo de todas as futuras relações amorosas, tanto no sexo masculino quanto no feminino.
Ao ingressar no complexo de Édipo, o menino experimenta impulsos libidinais genitais direcionados à mãe, com o intuito de obter satisfação (Freud, 1923/2019a). Brunswick (1940) observa que, durante essa fase, o menino se depara com a tarefa quase igualmente árdua de modificar não apenas os objetos de amor ou os órgãos sexuais, mas a própria atitude em relação à mãe.
No complexo de Édipo, o garoto percebe que seu pai é um obstáculo à concretização de seus desejos libidinais por sua mãe. Devido a essa situação, sua relação com ele adquire um tom hostil, carregada do desejo de eliminá-lo, por atrapalhar a sua privacidade e sua intimidade com sua genitora (Freud, 1923/2019a). Assim, Freud (1923/2019a) aponta que essa relação é atravessada por ambivalência: o menino ama e admira o pai, mas também o odeia e o hostiliza. O autor comenta que é como se “a ambivalência desde o início presente na identificação se tornasse manifesta. Essa postura ante o pai e a relação objetal exclusivamente terna com a mãe formam, para o menino, o conteúdo do complexo de Édipo simples e positivo” (Freud 1923/2019a, p. 40). Além disso, o autor relata que a identificação, do garoto com seu genitor, manifesta-se desde a fase pré-edípica, tendo em vista que há uma aproximação com ele com o objetivo de introjetar suas características fálicas. Porém, no complexo de Édipo, surge o desejo do garoto de introjetar os atributos sexuais de seu pai que chamam atenção de sua mãe.
De acordo com Freud (1925/2019e), o menino acaba admitindo a possibilidade de sofrer a castração, ao avistar o órgão genital de uma irmã ou de uma coleguinha de brincadeiras. Lembra-se das inúmeras ameaças de perder seu pênis, por causa da masturbação, e passa a temer essa prática. Porém, o autor considera que não é a atitude passiva ou feminina que é repudiada pelo sexo masculino, mas a passividade em relação a outro homem, o que a prenuncia (Freud, 1937/2019).
Em “A dissolução do complexo de Édipo”, Freud (1925/2019e) afirma que esse complexo é duplo — tanto no menino quanto na menina — apresentando traços positivos e negativos, conforme a intensidade das correntes bissexuais do indivíduo e os fatores ambientais, que favorecem a predominância dos impulsos ativos ou passivos. No complexo de Édipo positivo, o menino adota uma postura heterossexual: vê o pai como rival, sente ódio e medo de ser punido por ele com a perda do pênis. No negativo, desenvolve uma atitude feminina diante do pai, desejando ocupar o lugar da mãe e ser tomado como objeto sexual. Ambas as posições devem ser abandonadas, pois podem acarretar a castração: no primeiro caso, como punição; no segundo, como pressuposto (Freud, 1928/2020).
A dissolução do complexo de Édipo ocorre principalmente por causa da angústia de castração. Freud afirma que “se a satisfação amorosa no terreno do complexo de Édipo deve custar o pênis, tem de haver um conflito entre o interesse narcísico nessa parte do corpo e o investimento libidinal dos objetos parentais”[5] (Freud, 1925/2019e, p. 208). Geralmente, o menino opta por preservar seu órgão genital e afasta-se de sua mãe. Em relação a essa afirmação de Freud, Kohut (1972) ressalta que a estima desse órgão é determinada pelo fato de que, neste período, ele constitui temporariamente a zona principal do narcisismo (corporal) do menino. Ele não é apenas o instrumento de intensas (fantasias) e interações objeto-libidinais, mas também carrega grande quantidade de investimento narcísico.
A formulação freudiana segundo a qual a dissolução do complexo de Édipo supõe um conflito entre o interesse narcísico no órgão e o investimento libidinal dos objetos parentais é decisiva para a hipótese aqui examinada. Ela mostra que a agressividade e a hostilidade da fase fálica não se reduzem inteiramente à amálgama entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte, pois parte da dinâmica agressiva desta fase se organiza em torno de um investimento narcísico no genital, e não apenas em torno de uma destrutividade dirigida ao objeto. Isso indica que, precisamente na fase em que a agressividade sexual atinge maior intensidade, o vínculo entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte deixa de ser suficiente para explicá-la, exigindo o recurso a uma segunda fonte, narcísica, cuja articulação com a fusão pulsional Freud não determina com precisão.
Sobre o investimento narcísico no genital masculino, Freud (1925/2019g) comenta uma passagem de Ferenczi que mostra sua importância. Ferenczi (nd) como citado por Freud considera que:
o pênis — [...] — deve seu investimento narcísico excepcionalmente elevado à sua importância para a propagação da espécie, a catástrofe do complexo de Édipo — o abandono do incesto, a instauração de consciência e moralidade — pode ser vista como um triunfo da geração sobre o indivíduo (Freud, 1925/2019g, p. 297).
Além disso, Freud (1940 [1938]/2019a) especula que o intenso temor da castração no menino talvez decorra de um traço filogenético, oriundo da família primeva. Ele levanta a hipótese de que o pai primevo, por ciúme, teria castrado os filhos adolescentes, ao perceber que se tornavam rivais na disputa pelas fêmeas. Assim, a circuncisão, presente em algumas culturas, seria um vestígio simbólico desse ato.
De acordo com Freud (1925/2019e), com a dissolução do complexo de Édipo no sexo masculino, os investimentos objetais são abandonados e substituídos por identificações com as figuras parentais. A autoridade dos genitores é introjetada, e a proibição do incesto é internalizada, formando o núcleo do Supereu. As tendências libidinais são dessexualizadas e, em parte, sublimadas, originando sentimentos ternos. Essa dissolução evita a castração, preserva o genital e paralisa temporariamente o desenvolvimento da função sexual. Idealmente, leva à completa abolição desse complexo. No entanto, se essa abolição não se concretiza, pode haver repressão de seus conteúdos, que permanecem no Id e manifestam-se por meio de sintomas.
O temor da castração, para Freud (1926/2020), pode desencadear psicopatologias, dependendo de predisposições constitucionais e fatores ambientais. Uma dessas patologias é a neurose de angústia. Em “Inibição, sintoma e angústia” (1926/2020), Freud retoma os casos clínicos descritos em “Análise da fobia de um garoto de cinco anos” (1909/2018a) e “História de uma neurose infantil” (1918 [1914]/2017) para ilustrar essa neurose. No período edípico, Hans manifesta desejos hostis e homicidas em relação ao pai e libidinais em relação à mãe. Por temer a castração decorrente desses desejos, desloca-os para o cavalo. O Homem dos Lobos, por sua vez, demonstra impulsos libidinais passivos e agressivos em relação ao pai, mas os transfere para o lobo. Freud (1926/2020) afirma que, em ambos os casos, o Eu percebe o perigo da castração, manifesta angústia e inibe os investimentos libidinais e agressivos presentes no Id “através da instância prazer-desprazer” (p. 64). Esses conteúdos são então projetados sobre o animal, que passa a ser temido — e a fobia se instala.
Outro quadro clínico que a angústia de castração pode acarretar é a neurose obsessiva. Freud (1926/2020) retrata essa possibilidade da seguinte maneira: com a dissolução do complexo de Édipo, a organização genital da libido se mostra pouco resistente, quando o Eu tenta se defender dos conteúdos libidinais desse complexo, reprimindo-os, a libido é recuada à fase sádico-anal (Freud, 1926/2020). Essa regressão, para o autor, provoca o afastamento dos componentes eróticos e, consequentemente, uma desjunção pulsional. Dessa forma, sua libido passa a se manifestar como se tivesse, nessa fase, munida de impulsos sádicos e de impulsos anais. Além disso, com o fim desse complexo, há a consolidação do Supereu, no entanto, devido a essa desunião pulsional, esta instância se apodera da agressividade gerada pela pulsão de morte e a descarrega sobre o Eu. Assim, nessa neurose, o Eu sente angústia diante de seu Supereu, teme o castigo deste.
O complexo de Édipo no sexo feminino
Freud considera que, no sexo feminino, durante a fase pré-edípica, o objeto libidinal da menina é o mesmo que o do menino: sua genitora. Isso ocorre porque, nos primórdios do desenvolvimento humano, a libido se apoia nas satisfações das necessidades vitais, como já foi mencionado anteriormente (Freud, 1925/2019e; 1931/2020b; 1933/2020f). Caso haja uma fixação nesse período — mais especificamente no segundo estágio da fase oral —, essa fixação pode levar a mulher a manifestar, na vida adulta, o temor de ser envenenada. Esse sintoma pode compor o núcleo da paranoia no sexo feminino (Freud, 1931/2020b). Para Freud, talvez esse medo “corresponda a uma hostilidade que na criança se desenvolve em relação à mãe, em consequência das muitas restrições envolvidas na educação e no cuidado corporal, e que o mecanismo da projeção seja favorecido pela pouca idade da organização psíquica” (Freud, 1931/2020b, p. 375). Ou seja, nesse período, a agressividade é percebida como tão ameaçadora que precisa ser rejeitada, o que ocorre por meio de um mecanismo de defesa do Eu voltado à sua expulsão.
Até o início da fase fálica, a menina vive de forma predominantemente masculina. Ela obtém prazer através da excitação do clitóris, acredita que este crescerá e se tornará um órgão semelhante ao pênis do menino, e associa a masturbação aos seus desejos libidinais voltados para a mãe (Freud, 1931/2020b; 1933/2020f). Ao perceber que seu clitóris não crescerá como o pênis, ela desenvolve a inveja desse órgão e altera sua vivência da sexualidade fálica. A menina sente-se magoada, renuncia à satisfação masturbatória via clitóris e abandona sua genitora como objeto libidinal. Além disso, boa parte de seus impulsos sexuais ativos é reprimida, o que contribui para o desenvolvimento da feminilidade.
Freud (1931/2020b; 1933/2020f) sustenta que, inicialmente, a menina interpreta sua castração como uma desgraça pessoal, estendendo-a gradualmente a outras mulheres e, por fim, à própria mãe. Para ele, a garota busca transferir sua libido para o pai, num processo atormentado por dificuldades decorrentes da tenacidade do apego materno pré-edípico, tanto ativo quanto passivo. Além disso, ele comenta que a menina considera que sua genitora tem uma preferência pelo sexo masculino, por causa do pênis, o que a magoa e a leva a projetar sentimentos hostis sobre a mãe. Durante esse período, tais sentimentos frequentemente se manifestam em acessos de raiva violentos.
Todavia, Freud (1933/2020f) aponta que a menina demonstra, desde o nascimento, maior hostilidade por sua mãe do que o menino por seu pai. No entanto, no complexo de Édipo, a principal motivação dessa hostilidade no sexo feminino decorre do complexo de castração e da queixa de que a mãe não lhe deu um órgão sexual “verdadeiro”. Esse afeto pode ser ainda acentuado por acontecimentos da primeira infância, pelos quais a cuidadora é considerada a principal responsável — como o desmame, o nascimento de irmãos, as relações entre os pais ou a suposta depreciação decorrente da ausência do órgão fálico. A partir dessas lesões, emerge um conflito que exige a repressão da agressividade dirigida à mãe. O autor afirma que esse complexo de castração leva a menina a trocar seu objeto libidinal — da mãe para o pai — e a se afastar da primeira, o que pode resultar num ódio duradouro que interfere em suas relações íntimas na vida adulta.
É importante retomar a fase pré-edípica para destacar sua influência ao longo da vida da mulher, conforme as observações de Freud (1931/2020b). O autor comenta que muitas mulheres escolhem seus maridos com base no modelo paterno, ou colocam o pai no lugar do ideal de homem que gostariam de ter se tornado. Entretanto, frequentemente repetem, com o cônjuge, o vínculo hostil que mantinham com a mãe, o que denota uma regressão à fase pré-edípica. Esses achados dialogam com as observações clínicas de Holtzman & Kulish (2003), que relataram que a primeira experiência sexual de uma mulher frequentemente envolve fantasias relacionadas à mãe — incluindo temores de retaliação, sentimentos de competição e rivalidade na incursão pelo campo da sexualidade adulta.
Brunswick (1940), por sua vez, sustenta que o grau de sucesso com que a menina abandona seu primeiro objeto de amor e transfere sua libido ao pai determina toda a sua existência posterior. Entre o apego exclusivo à mãe e a transferência completa para o pai, há inúmeras gradações entre o desenvolvimento normal e o patológico. Para a autora, o sucesso parcial parece ser a regra, dada a alta proporção de mulheres cuja libido permanece fixada na mãe.
Pode-se inferir que Freud (1931/2020b; 1933/2020f) postula uma predisposição filogenética no sexo feminino à hostilidade em relação à mãe, ao longo das diferentes fases do desenvolvimento libidinal. Entretanto, o autor não aprofunda a origem desse vínculo. É possível que essa ausência decorra da carência de hipóteses sobre a relação mãe-filha na horda primeva, uma vez que suas especulações sobre esse período concentram-se na relação entre pai e filho. Assim, pode-se abordar as manifestações hostis no sexo feminino ao longo da vida, mas não suas raízes. Nesse sentido, só é possível associar essas expressões à fixação na fase pré-edípica, dado que a menina atravessa o complexo de Édipo positivo após superar o negativo. Durante esta primeira fase, o pai é percebido como um rival incômodo; contudo, os sentimentos hostis por ele não alcançam a intensidade observada no menino. O autor comenta que “a fatal conjunção de amor a um genitor e ódio simultâneo ao outro, como rival, existe apenas no garoto” (Freud, 1931/2020b, p. 377).
Na infância, a menina pode desenvolver uma série de reclamações dirigidas à mãe, como tentativa de justificar os sentimentos hostis por ela, os quais persistem ao longo da vida. Entre essas queixas, incluem-se a de que a mãe não a amamentou pelo tempo necessário ou que sempre demonstrou preferência por um irmão. Essas queixas podem ser compreendidas como expressões de demandas amorosas insatisfeitas (Freud, 1933/2020f). Para Freud, essas reivindicações funcionam como o motor da angústia no sexo feminino, pois carregam o medo da perda do amor — continuidade da ausência sentida pela menina em relação aos cuidados e à atenção maternos.
Ao aceitar sua castração, a hostilidade da menina em relação à mãe se intensifica, pois esta é responsabilizada tanto pela ausência do pênis quanto por ter se tornado uma rival frente ao pai. Nessa fase, a menina desenvolve o desejo de ter um filho do sexo masculino como substituto do desejo fálico, acreditando que o pai a ajudará a realizá-lo (Freud, 1933/2020f). No entanto, Lax (2007) observa que, nas descrições de Freud após 1920, o papel sedutor do pai, abordado em “Batem numa criança” (1919), desaparece. Em seu lugar, Freud postula a inveja do pênis como o fator responsável pela mudança de objeto de amor da menina. Assim, nas discussões psicanalíticas sobre as relações edípicas, o papel ativo do genitor tende a ser negligenciado.
Freud (1931/2020b) comenta que a garota admite a castração “e, com isso, a superioridade do homem e sua própria inferioridade, mas também se revolta contra esse desagradável estado de coisas” (p. 378). Ao abandonar a masturbação clitoriana, ela renuncia grande parte das manifestações ativas de sua libido. Com isso, a passividade predomina e a ajuda a se voltar para o pai (Freud, 1931/2020b, 1933/2020f). Ao se voltar para o genitor, como objeto de amor, ela carrega o desejo de que ele lhe dê o membro que a mãe não pode lhe dar. Contudo, a feminilidade se estabelece quando a menina o substitui pelo desejo de ter uma criança do sexo masculino. Entretanto, o psicanalista afirma que “o velho desejo masculino de possuir o pênis ainda transparece na feminilidade consumada. Mas deveríamos talvez reconhecer tal desejo de pênis como um desejo apuradamente feminino” (Freud, 1933/2020f, p. 285).
Com a dissolução do complexo de Édipo, ocorre a identificação com as figuras parentais. As disposições bissexuais da menina se refletem tanto nesse processo quanto no investimento objetal na vida adulta (Freud, 1923/2019a). Geralmente, prevalece a identificação com a mãe, o que contribui para o estabelecimento da feminilidade. Porém, a identificação com o pai também pode ocorrer e , em alguns casos, resultar em homossexualidade.
Todavia, na menina, a ausência do medo da castração deixa de ser um forte motivo para a constituição do Supereu e para a demolição de sua estrutura sexual infantil. Freud diz que ela “escapa às fortes influências hostis que no homem atuam de forma destruidora sobre ele e, de fato, com muita frequência não é superado pela mulher” (Freud, 1931/2020b, p. 379). Loewald (2000) aprofunda essa questão abordada por Freud. Segundo ele, a falta de resolução do complexo de Édipo na mulher significa que as identificações primárias, derivadas diretamente do narcisismo primário, não foram suficientemente transformadas e substituídas por identificações no Supereu. Isso ocorre porque tais identificações surgem por meio da renúncia às escolhas de objeto edipianas e da transformação de uma parte significativa do narcisismo infantil.
Para Freud (1925/2019g), a dissolução do complexo de Édipo e o estabelecimento do Supereu no sexo feminino parecem ser consequência da educação e da intimidação externa, que ameaçam com a perda de amor. Ele argumenta que tem a impressão de que esse complexo é aos poucos abandonado por causa desse temor e pela frustração dos desejos de possuir um pênis e de gerar um filho. No entanto, considera que tais desejos continuam investidos no inconsciente, preparando o caminho para o papel sexual final da mulher. O autor acredita que “a intensidade menor da contribuição sádica à pulsão sexual, que bem podemos relacionar ao definhamento do pênis, facilita a transformação das tendências diretamente sexuais em afetuosas, inibidas na meta” (Freud, 1925 /2019b, p. 213).
Em geral, um dos principais motivos para a dissolução do complexo de Édipo no sexo feminino é a angústia ocasionada pelo medo da perda de amor. No entanto, se houver uma predisposição à histeria, somada a fatores ambientais, pode-se desencadear uma neurose histérica, segundo Freud (1926/2020).
Segundo Freud (1926/2020; 1933/2020d), a angústia causada pelo medo da perda de amor, a angústia motivada pelo medo da castração e a angústia fomentada pela culpa diante do Supereu estão presentes em todos os tipos de neurose, em ambos os sexos. No entanto, para o autor, uma dessas angústias desempenhará o papel principal, dependendo do tipo de neurose. Além disso, frequentemente, essas formas de angústia estão interrelacionadas.
Agressividade no complexo de Édipo no sexo feminino e no sexo masculino
Após analisar o complexo de Édipo no sexo masculino e no feminino, é preciso abordar a agressividade, em ambos os sexos, nesse período.
Freud afirma que “os dois sexos parecem atravessar da mesma forma as primeiras fases de desenvolvimento da libido. Seria de esperar que na fase sádico-anal já houvesse um arrefecimento da agressividade na menina, mas isto não se verifica” (Freud, 1933/2020f, p. 271). Segundo o autor, a agressividade só se diferencia entre os sexos na fase fálica, quando a agressividade da menina diminui consideravelmente e começa a se distinguir da do menino. No entanto, no mesmo texto, ele observa que, desde a infância, a menina é menos agressiva, mais dócil, dependente e parece apresentar uma maior necessidade de demonstrações de afeto. Freud acrescenta que é “provável que o fato de ela aprender mais fácil e rapidamente o controle das excreções seja apenas uma consequência dessa docilidade; pois urina e fezes são os primeiros presentes que a criança dá as pessoas que dela cuidam” (Freud, 1933/2020f, p. 270). Essa aparente contradição pode ser resolvida se considerarmos que Freud distingue dois tipos de agressividade: a presente na amálgama pulsional — resultante da fusão entre pulsão de morte e libido, e que confere características sádicas à libido— e a agressividade mobilizada pelo investimento libidinal narcísico no Eu. Apenas a primeira se manifestaria de forma semelhante em ambos os sexos.
A distinção entre uma agressividade proveniente da amálgama pulsional e uma agressividade mobilizada pelo investimento narcísico no Eu tem consequências que merecem ser explicitadas. Se apenas a primeira se manifesta de modo semelhante em ambos os sexos, e se é ela que confere caráter sádico à libido, então a articulação entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte não esgota o fenômeno da agressividade infantil, uma vez que parte dele permanece atribuível a uma dinâmica narcísica que não se reduz inteiramente à fusão pulsional. Este é um ponto decisivo para a avaliação da hipótese central. A segunda dualidade pulsional ganha em poder explicativo ao desvincular o sadismo de uma pulsão sexual originariamente cruel, remetendo-o à mistura entre libido e destrutividade; contudo, esse ganho é limitado pela necessidade de admitir uma segunda fonte de agressividade que se explica não pela amálgama, mas pelo narcisismo. A consistência da hipótese depende, assim, de que essas duas fontes não sejam confundidas nem reduzidas uma à outra, sob pena de a fusão pulsional voltar a absorver indistintamente toda forma de agressividade e perder, com isso, seu valor explicativo.
Pode-se ver, na segunda dualidade pulsional formulada por Freud, que a agressividade decorrente da amálgama pulsional só se diferencia entre os sexos na fase fálica. Isso ocorre porque, com o desenvolvimento da sexualidade, a menina tende a inibi-la em razão de fatores constitucionais e ambientais. Os fatores constitucionais se revelam nas expressões de sua libido após a aceitação da castração. Como consequência do reconhecimento da ausência do pênis, a menina renuncia a uma parte significativa de sua libido ativa — responsável por uma parcela considerável de sua agressividade —, abandona a masturbação clitoridiana e identifica-se com sua genitora. Surge, assim, uma preferência por metas passivas, o que intensifica sua feminilidade. Além disso, com a dissolução do complexo de Édipo, há uma intensificação da amálgama pulsional, provocada pelo acréscimo do componente erótico nessa fusão pulsional. Os fatores ambientais também desempenham papel relevante, já que a sociedade impõe à mulher um ideal de menor expressão da agressividade. Pais, educadores, instituições e outros agentes sociais induzem a menina a renunciar a parte de sua agressividade. Esses fatores, atuando conjuntamente, contribuem para que o Supereu feminino a domine mais severamente, direcionando essa agressividade para o próprio Eu.
No caso do menino, a agressividade se manifesta de modo constante, desde a fase pré-edípica. Ademais, a civilização é mais permissiva com os homens, permitindo-lhes descarregar sua agressividade no mundo exterior por meio de formas socialmente aceitas. Vale ressaltar que a agressividade proveniente da amálgama pulsional, presente nas fases fálica e genital, diminui consideravelmente com a dissolução do complexo de Édipo. Contudo, o sexo masculino tende a conservar ao menos uma parcela dessa agressividade, especialmente para auxiliá-lo no intercurso sexual.
A agressividade durante a primeira infância, no contexto da segunda dualidade pulsional, também pode ser compreendida como mobilizada pela libido narcísica. Talvez se possa afirmar que, por fatores constitucionais, essa agressividade manifesta-se mais intensamente na menina desde os primórdios da vida, em comparação com o menino. Por um lado, seu narcisismo a impulsiona a adotar comportamentos que agradem seus cuidadores, buscando sentir-se amada. Por outro, seu narcisismo a instiga a reagir com maior hostilidade e agressividade quando se sente frustrada, especialmente pelos genitores. Essa agressividade é intensificada de forma significativa quando ela toma consciência de sua castração, o que acarreta uma ferida narcísica e um aumento da hostilidade dirigida à mãe, a quem atribui a responsabilidade por essa ausência. Essa agressividade pode se manifestar ao longo da vida sob a forma de ciúmes e inveja. No entanto, no menino, a agressividade motivada pelo narcisismo na primeira infância é pouco explorada nos escritos de Freud, parecendo tornar-se mais evidente durante o complexo de Édipo, especialmente em razão de a figura paterna representar uma ameaça à satisfação de suas pulsões sexuais genitais.
Masoquismo e sadismo
Com o desenvolvimento da hipótese de uma pulsão de morte atuando no indivíduo, Freud (1925/2019d) vê a necessidade de modificar suas considerações sobre o masoquismo e o sadismo.
Para Freud (1920/2020c, 1925/2019d), a meta da pulsão de morte seria eliminar completamente as excitações presentes no organismo. Essa pulsão seria regida pelo princípio de nirvana, isto é, a tendência a reduzir a zero — ou, ao menos, manter no nível mais baixo possível — qualquer quantidade de excitação que atinja a psique. Entretanto, a libido parece interferir no funcionamento do aparelho psíquico, governado por esse princípio, dando origem ao princípio do prazer, cuja finalidade é buscar o prazer e evitar o desprazer. Agora a alteração desse último princípio, graças à influência do mundo externo sobre ele, fez surgir o princípio de realidade. A articulação entre o princípio de Nirvana, o princípio do prazer e o princípio da realidade contribui para a compreensão do masoquismo no ser humano. No indivíduo, o masoquismo manifesta-se sob três formas: erógeno, feminino e moral[6].
O masoquismo erógeno é considerado primário, com base biológica e constitucional, e serve de fundamento para os outros dois tipos — o feminino e o moral. Nele, a pulsão de morte torna-se componente da libido e tem o próprio corpo como objeto (Freud, 1925/2019d). Trata-se, portanto, da capacidade da mente humana de aceitar procedimentos dolorosos em busca de prazer.
Freud (1925/2019d) sugere duas origens complementares para o masoquismo erógeno. A primeira está relacionada à infância. Em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905/2018), o autor observa que, ao ultrapassar determinado grau de intensidade, os processos internos podem gerar tensão sexual, o que também pode ocorrer com estímulos dolorosos ou desprazerosos. Embora esse fenômeno desapareça com o fim da fase em questão, parece deixar como legado uma base fisiológica sobre a qual o masoquismo erógeno se constitui psiquicamente. No entanto, talvez essa suposição carregue implicitamente a ideia de que a pulsão de morte passa a atuar sobre o psíquico tardiamente. Pode ser por esse motivo que o autor viu a necessidade de supor outra procedência para ele. Nesta origem, a pulsão de morte atua em cada célula do ser humano, buscando sua desintegração. Entretanto, a libido tem a função de torná-la inoperante, desviando-a para o mundo externo. Só que uma parte dela permaneceria no organismo e com o auxílio da excitação sexual se ligaria a libido, dando origem ao masoquismo erógeno.
O masoquismo erógeno constitui o ponto em que a fusão entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte se torna, ao mesmo tempo, mais visível e mais problemática. Ao defini-lo como primário e como aquele em que a pulsão de morte se torna componente da libido tendo o próprio corpo como objeto, Freud parece afirmar uma amálgama originária, anterior mesmo à plena constituição do Eu e à diferenciação entre sujeito e objeto. Contudo, as duas origens que o próprio autor propõe tensionam essa leitura. A primeira, ao supor que a base do masoquismo se constitui a partir de um legado fisiológico da infância, sugere que a pulsão de morte só atuaria sobre o psíquico tardiamente; a segunda, ao situá-la em cada célula desde o início, restabelece o caráter originário da fusão. A oscilação entre essas duas origens não é um detalhe, tendo em vista que ela decide se a amálgama pulsional é um dado primeiro do vivo ou um resultado de operações posteriores. Se for originária, a agressividade sexual não pode ser explicada como transformação secundária da pulsão de morte; se for tardia, a definição da pulsão de morte como força conservadora presente desde a origem entra em tensão com sua efetiva atuação psíquica. O masoquismo erógeno expõe, assim, a indeterminação da hipótese quanto ao momento e ao grau em que a fusão se estabelece.
Segundo Freud (1925/2019d), o masoquismo erógeno está presente desde o início da vida do indivíduo e participa das diferentes fases de desenvolvimento da libido. Em suas palavras:
O medo de ser devorado pelo animal totêmico (o pai) procede da organização oral primitiva; o desejo de ser surrado pelo pai, da fase sádico-anal que a ela sucede; a castração, embora depois negada, introduz-se no conteúdo das fantasias masoquistas como um precipitado do estágio fálico de organização; as situações em que o indivíduo é possuído ou dá à luz, caracteristicamente femininas, derivam naturalmente da organização genital final (p. 193).
Young-Bruehl (1991) observa que a participação do masoquismo erógeno na fase oral não é abordada por Freud ao longo de seus escritos sobre a segunda dualidade pulsional, diferentemente do que ocorre nas demais fases do desenvolvimento da libido. Pode-se ir além dessa observação e sugerir que Freud, em seus trabalhos, não oferece fundamentos para supor que o infante, na fase oral, tema ser devorado pelo animal totêmico. O exemplo fornecido pelo psicanalista sobre tal ocorrência nesse período parece estar mais relacionado à formação do Supereu, cuja constituição se dá com a dissolução do complexo de Édipo. Isso se deve ao fato de o Supereu ser um dos resquícios do vínculo entre o pai primevo e seus filhos — uma herança arcaica, de natureza filogenética, presente em todo ser humano e que pode se manifestar ao final desse complexo. A esse respeito, Freud comenta que os filhos viam no pai uma figura extremamente poderosa e ameaçadora, “ante a qual só se podia ter uma atitude passiva-masoquista, à qual a vontade tinha que se render, parecendo uma arriscada empresa estar a sós com ela, “cair-lhe sob os olhos”” (Freud, 1921/2018b, p. 91).
Segundo Freud (1925/2019d), o masoquismo feminino é responsável pelo prazer na dor, pode se apresentar tanto na mulher quanto no homem e é o mais acessível à observação. Além disso, ele baseia-se no masoquismo erógeno. O autor fala que o masoquismo feminino coloca o sujeito numa posição feminina, ou seja, “ser castrado, ser possuído ou dar a luz” (Freud, 1925/2019d, p. 189). Além disso, ele diz que as fantasias desenvolvidas por essas pessoas têm a função de elevar a ereção, o ato sexual e levar ao orgasmo. Elas carregam também o desejo e a vontade de sofrer humilhação, maus tratos, obediência incondicional e raramente mutilações. Esses indivíduos buscam ainda ser tratados como uma criança pequena, malcomportada, desamparada e dependente.
A partir de “Além do princípio do prazer” (1920/2020c), Freud sustenta que todos os sujeitos carregam vestígios do masoquismo feminino em sua constituição psíquica, em virtude das tendências bissexuais do ser humano, que podem ser intensificadas pela ameaça da castração. Tal consideração decorre do fato de que as formas de obter prazer desse masoquismo são parecidas com as metas buscadas pela libido passiva. Assim, Freud (1933/2020f) fala que ele “é, como se diz, realmente feminino. No entanto, se vocês encontrarem o masoquismo em homens, como é frequente, não lhes resta senão dizer que esses homens mostram nítidos traços femininos” (p. 268). Grossman (1986) observa que essa concepção é, provavelmente, um desdobramento das ideias de Krafft-Ebing, segundo as quais o masoquismo em homens envolveria uma herança feminina, podendo ser interpretado como um impulso homossexual.
No sexo feminino, a presença desse tipo de masoquismo tende a ser mais nítida, em razão da repressão das manifestações da libido ativa com a dissolução do complexo de Édipo, ao mesmo tempo em que se acentuam as expressões da libido passiva, sustentadas por fantasias masoquistas e pela identificação com a figura materna (Freud, 1925/2019d, 1931/2020b, 1933/2020f).
O masoquismo, enquanto perversão, não é abordado de forma explícita por Freud nos trabalhos que tratam da segunda dualidade pulsional. A única exceção é uma passagem em “O problema econômico do masoquismo” (1925/2019d), já mencionada, em que se sugere que a perversão seria ocasionada por uma intensificação do masoquismo feminino. Porém, comentadores freudianos divergem quanto à constituição dessa perversão com base nesse texto de 1924. Um exemplo ilustrativo é a oposição entre Loewenstein (1957) e Brenner (1959): enquanto o primeiro entende que Freud concebe essa perversão como decorrente do agravamento do masoquismo feminino, o segundo interpreta que ela se origina da intensificação do masoquismo erógeno. Grossman (1986) esclarece essa ambiguidade, afirmando que a introdução, por Freud, de três tipos de masoquismo sem uma descrição precisa da perversão em si gerou confusão sobre a relação entre o masoquismo erógeno e o feminino, levando alguns autores a atribuírem a origem da perversão a um ou a outro.
O masoquismo moral apresenta uma ligação atenuada com a sexualidade, sendo seu aspecto central o sofrimento em si, independentemente de quem o provoca (seja ou não uma figura amada) ou das circunstâncias em que ele se origina (Freud, 1925/2019d). Contudo, Freud deixa implícito que, no núcleo desse tipo de masoquismo, sempre persiste alguma forma de vínculo com o objeto. Em outras palavras, mesmo quando o masoquista busca situações aparentemente triviais que lhe causem sofrimento, esse desejo é, em última instância, uma expressão do anseio pelo amor parental.
Freud (1925/2019d) afirma que, no masoquismo moral, a pulsão de morte anteriormente dirigida ao mundo exterior se volta para dentro e se enfurece contra o próprio sujeito. Uma das razões dessa reversão reside na relação entre o indivíduo e a civilização, que exige a renúncia de boa parte da agressividade dirigida ao outro ou ao mundo externo. Como resultado, impedido de descarregar essa agressividade, seja por barreiras reais ou imaginárias, o sujeito se vê compelido a direcioná-la contra si mesmo. Assim, a agressividade é introjetada no Eu (caracterizando o masoquismo secundário) e intensifica o sadismo do Supereu (Freud, 1925/2019d).
Ao refletir sobre o caráter inconsciente do masoquismo moral, Freud (1925/2019d) supõe que ele possa ser um derivado da dissolução do complexo de Édipo, uma vez que o sentimento de culpa inconsciente parece conter o desejo de ser punido por uma figura parental. Tal desejo remete à fantasia de ser surrado pelo genitor, uma deformação regressiva do desejo de manter uma relação passiva (feminina) com ele. Esse tipo de masoquismo pode levar o sujeito a adotar comportamentos que suscitem reprovação do Supereu. Freud observa que, com o objetivo de provocar “o castigo por este representante dos pais, o masoquista tem de fazer coisas inadequadas, de agir contra seus próprios interesses, arruinando as perspectivas que para ele se abrem no mundo real e, eventualmente, destruindo a sua própria existência real” (p. 200).
Quanto à sua manifestação, Novick & Novick (1987) apontam para uma conexão entre o masoquismo erótico e o moral, a qual ocorre por meio da fantasia de espancamento. Todavia, acredita-se que existe uma associação também com o feminino, por essa fantasia carregar implicitamente esse desejo incestuoso. Freud (1925/2019d) atesta ainda que esse sentimento está presente nessa fantasia, pois a pessoa acredita que fez algo, sem saber o que, e então deve receber penitência, através de condutas penosas e torturantes. Essas condutas parecem ser racionalizações superficiais dos conteúdos masoquistas, mas, por trás, escondem o nexo com a masturbação infantil.
Para compreender plenamente o desejo de punição do Eu, Freud (1925/2019d) propõe distinguir entre uma moral inconsciente e o masoquismo moral. A primeira é uma expressão do sadismo do Supereu, que impõe sofrimento ao Eu. Já o masoquismo moral refere-se ao comportamento do Eu que anseia pelo castigo, seja imposto pelo Supereu, seja decorrente de causas externas ou internas, o que dá origem ao sentimento de culpa. Essa necessidade de punição permanece inconsciente e só pode ser inferida a partir das condutas do sujeito. Um exemplo de sua intensificação é visto em “Inibição, sintoma e angústia” (Freud, 1926/2020), em que o autor descreve angústias excessivas, inadequadas e paralisantes, como nas fobias de altura (relacionadas a janelas, torres ou abismos). Nessas situações, as expectativas de punição são levadas quase ao extremo, remetendo à destruição do próprio Eu, o que naturalmente o apavora.
Segundo Freud (1925/2019d), a exacerbação do masoquismo moral se deve à mescla pulsional, em suas palavras:
o masoquismo moral vem a ser testemunha clássica da existência da mistura de pulsões. Seu caráter perigoso se deve ao fato de proceder da pulsão de morte, correspondendo à parte desta que escapou de ser voltada para fora como pulsão de destruição (p. 202).
Antes de concluir a discussão sobre o masoquismo moral, vale mencionar as observações de Grossman (1986). Segundo o autor, a elaboração freudiana desse tipo de masoquismo alterou profundamente o conceito herdado de Krafft-Ebing, segundo o qual o masoquismo era concebido como uma perversão essencialmente vinculada à polaridade atividade-passividade e aos pares masculinidade-feminilidade.
Por fim, antes de concluir a análise sobre o masoquismo, é necessário abordar o sadismo, uma vez que Freud frequentemente descreve ambos os fenômenos de forma conjunta. O sadismo é pouco explorado em suas obras sobre a segunda dualidade pulsional. Sua primeira menção aparece em “Além do princípio do prazer” (1920/2020c), em que o autor sugere que o sadismo poderia representar a pulsão de morte expulsa do Eu sob a influência da libido narcísica. Todavia, em “O Eu e o Id” (1923/2019a), ele defende que no “componente sádico da pulsão sexual teríamos o exemplo clássico de uma mescla pulsional adequada a um fim; no sadismo que se tornou independente como perversão, o modelo de uma disjunção, embora não levada ao extremos” (pp. 51-52).
A principal elaboração freudiana sobre o sadismo, a partir de 1920, encontra-se em “O problema econômico do masoquismo” (1925/2019d). Nessa obra, Freud recorda que a pulsão de morte visa reconduzir o ser vivo ao estado inorgânico. No entanto, esse impulso é inibido ao se mesclar com a libido. Quando ocorre a disjunção pulsional, a libido narcísica tenta tornar a pulsão de morte inoperante no sujeito, desviando-a para o mundo externo, com o auxílio da musculatura (Freud, 1925/2019d). Para realizar essa tarefa, ela conta com a ajuda dessa parte do corpo humano. Esse tipo de expressão da pulsão, para o autor, é chamado de “pulsão de destruição, pulsão de apoderamento, vontade de poder” (p. 191). Ademais, uma parte da pulsão de morte, direcionada para o exterior, pode ser posta a serviço da sexualidade masculina, sendo, então, chamada de sadismo. A função desse sadismo é auxiliar o homem nos intercursos sexuais (Freud, 1923/2019a). Dessa forma, ele mantém íntima relação com a masculinidade, enquanto o masoquismo com a feminilidade. Embora eles possam constituir uma perversão, ao assumirem autonomia nas metas sexuais, colocando seus próprios objetivos no lugar destas.
A comparação entre as formulações de 1920, 1923 e 1924 permite explicitar o problema mais grave que o sadismo impõe à hipótese de uma articulação estável entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte. Em “Além do princípio do prazer” (1920/2020c), o sadismo aparece como pulsão de morte expulsa do Eu sob a influência da libido narcísica; em “O Eu e o Id” (1923/2019a), como exemplo de mescla pulsional adequada a um fim, degradando-se em desfusão quando se torna perversão; em “O problema econômico do masoquismo” (1925/2019d), como desvio da pulsão de morte para o exterior com o auxílio da musculatura. Ora, se o mesmo fenômeno pode ser descrito ora como projeção da destrutividade para fora, ora como fusão bem-sucedida com a libido, ora como sua desfusão, então operações opostas — fusão e desfusão — são convocadas para explicar o mesmo resultado. A isso se soma a reversibilidade entre sadismo e masoquismo: se a pulsão de morte pode ser voltada para fora (sadismo) e reintrojetada (masoquismo secundário), e se persiste um masoquismo primário anterior a essa exteriorização, então a direção da destrutividade — para o objeto ou para o próprio sujeito — não é fixada pela natureza da pulsão, mas por vicissitudes econômicas que a teoria não determina de antemão. Essa reversibilidade, longe de confirmar uma dualidade pulsional bem delimitada, fragiliza a suposição de uma articulação unívoca entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte, reforçando a suspeita de circularidade do par fusão e desfusão pulsional.
Reunidos os problemas identificados nas fases oral, sádico-anal e fálica, bem como no sadismo e no masoquismo, é possível situar a hipótese central da segunda dualidade pulsional no que concerne, estritamente, ao vínculo entre pulsões sexuais objetais, pulsão de morte e agressividade. Trata-se de uma hipótese metapsicológica, pois a amálgama pulsional não é um dado observável, mas um construto teórico introduzido para tornar inteligíveis manifestações — sádicas, masoquistas, agressivas — que a primeira dualidade não explicava. Seu poder explicativo é inegável: ao deslocar a agressividade da esfera de uma pulsão sexual intrinsecamente cruel para o efeito de uma fusão entre libido e pulsão de morte, Freud unifica sob um mesmo princípio fenômenos antes dispersos e articula, num único quadro, a incorporação oral, o apoderamento sádico-anal e a rivalidade fálica.
Esse ganho é limitado, porém, por três dificuldades que atravessaram a análise. A primeira é a heterogeneidade da agressividade entre as fases: incorporação, apoderamento e rivalidade fálica não parecem diferir apenas em grau de fusão pulsional, mas em modo de relação com o objeto. A segunda é a indeterminação do momento e do grau da fusão, pois, como se viu no masoquismo erógeno, Freud oscila entre uma amálgama originária e uma amálgama tardia, sem oferecer critério que permita decidir a questão. A terceira, e mais grave, é o risco de circularidade: quando toda variação na intensidade ou na direção da agressividade sexual é atribuída a variações no grau de fusão e desfusão pulsional, o conceito passa a explicar qualquer resultado e deixa de discriminar entre casos, perdendo parte de seu valor explicativo justamente no ponto em que parece mais poderoso.
Avaliada por sua coerência interna, por seu poder explicativo e por sua delimitação conceitual, a hipótese de amálgama mostra-se, portanto, fecunda e frágil ao mesmo tempo. É fecunda porque permite pensar a agressividade sexual sem naturalizá-la como crueldade originária da libido; é frágil porque a solidez dessa explicação depende de uma distribuição da pulsão de morte pelas fases que Freud afirma mais do que demonstra. Manter separadas as noções de pulsão de morte, agressividade, destrutividade, sadismo e masoquismo — em vez de tratá-las como sinônimos — é condição para que a hipótese conserve seu valor, visto que a pulsão de morte nomeia uma tendência conservadora e regressiva; a destrutividade, sua orientação para fora; a agressividade, sua expressão na relação com o objeto; e o sadismo e o masoquismo, configurações específicas em que essa expressão se liga à libido e à satisfação. É a tensão entre a definição conservadora da pulsão de morte e o caráter ativo da agressividade dirigida ao objeto que constitui, em última análise, o limite central da articulação examinada neste artigo.
Considerações finais
Retomada a questão de pesquisa — em que medida a articulação entre pulsões sexuais objetais e pulsão de morte explica de modo consistente a agressividade nas fases oral, sádico-anal e fálica, no sadismo e no masoquismo, e quais limites aí emergem —, a resposta pode ser formulada em dois tempos. Em termos de ganho explicativo, a segunda dualidade pulsional representa um avanço inequívoco, haja vista que ao remeter a agressividade sexual não a uma crueldade intrínseca da libido, mas ao efeito de sua fusão com a pulsão de morte, Freud desvinculou a origem do sadismo das pulsões sexuais objetais e reuniu sob um mesmo princípio fenômenos antes dispersos, articulando num quadro único a incorporação oral, o apoderamento sádico-anal e a rivalidade fálica. Confirma-se, nesse sentido, a hipótese que abriu este artigo: a noção de amálgama amplia efetivamente o poder explicativo da psicanálise sobre a agressividade presente na sexualidade.
Em termos de consistência conceitual, contudo, esse ganho vem acompanhado de três limites que o próprio percurso deixou expostos. O primeiro é a heterogeneidade da agressividade entre as fases: incorporação, apoderamento e rivalidade fálica não parecem diferir apenas em grau de fusão pulsional, mas em modo de relação com o objeto, o que resiste à ideia de uma mesma amálgama presente em doses variáveis. O segundo é a indeterminação do momento e do grau da fusão, particularmente clara no masoquismo erógeno, em que Freud oscila entre uma amálgama originária, presente em cada célula desde o início, e uma amálgama tardia, herdada de um legado fisiológico da infância — oscilação que decide se a agressividade sexual é a presença da pulsão de morte ou já a sua transformação, e que permanece sem resposta. O terceiro, e mais grave, é o risco de circularidade: quando toda variação na intensidade ou na direção da agressividade sexual é atribuída a uma variação no grau de fusão ou desfusão pulsional, sem critério independente que a ateste, o conceito passa a explicar qualquer resultado e perde valor discriminativo justamente onde parece mais poderoso. Esse último limite se agrava à luz do sadismo e do masoquismo: a reversibilidade entre ambos — a pulsão de morte que se volta para fora como sadismo e se reintrojeta como masoquismo secundário, sobre um fundo de masoquismo primário — e as descrições oscilantes do próprio sadismo (ora projeção da destrutividade, ora mescla bem-sucedida, ora disjunção) mostram que a direção da destrutividade não é fixada pela natureza da pulsão, mas por vicissitudes econômicas que a teoria não determina de antemão, o que fragiliza a suposição de uma articulação estável e unívoca entre pulsão sexual objetal e pulsão de morte.
Sustenta esses resultados uma exigência que os atravessa: manter distintas as noções de pulsão de morte, agressividade, destrutividade, sadismo e masoquismo, em vez de tratá-las como sinônimos. A pulsão de morte nomeia uma tendência conservadora e regressiva; a destrutividade, sua orientação para fora; a agressividade, sua expressão na relação com o objeto; e o sadismo e o masoquismo, configurações específicas em que essa expressão se liga à libido e à satisfação. É precisamente a tensão entre a definição conservadora da pulsão de morte e o caráter ativo da agressividade dirigida ao objeto sexual que constitui o limite central da articulação aqui examinada. Conclui-se, assim, que a segunda dualidade pulsional oferece um ganho explicativo real, porém condicionado, pois ela torna pensável a agressividade sexual sem naturalizá-la, mas a solidez dessa explicação depende de uma distribuição da pulsão de morte pelas fases que Freud afirma mais do que demonstra, de modo que o vínculo entre pulsões sexuais objetais, pulsão de morte e agressividade permanece, a um só tempo, teoricamente fecundo e aberto à problematização.
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Como citar
GONÇALVES, F. As pulsões sexuais objetais e a agressividade na segunda dualidade pulsional freudiana. Sofia, Espírito Santo, Brasil, v. 15, n. 2, p. e15252214, 2026. DOI: https://doi.org/10.47456/sofia.v15i2.52214 Disponível em : https://periodicos.ufes.br/sofia/pt_BR/article/view/52214 . Acesso em: 15 set. 2026.
Fabrício Gonçalves
Mestrado e Doutorado em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), na linha de História e Filosofia da Psicologia. Realiza estágio de Pós-doutoramento no Departamento de Psicologia da UFJF.
Os textos deste artigo foram revisados por terceiros e submetidos para validação do(s) autor(es) antes da publicação
[1] As pulsões do Eu também são denominadas pulsões de autoconservação ou egoicas.
[2] Como é o caso de Loewenstein (1957), Brenner (1959), Gero (1962), Holder (1970), Laufer (1970), Sternbach (1975), Grossman (1986), Novick & Novick (1987), Blum (1991), Rosenberg (1998), Horney (2013), Henry (2014), Kaplinsky & Geller (2015) e Bourdin (2022).
[3] O Eu de prazer original foi inserido em “As pulsões e seus destinos” (1915/2010) e retomado em “A negação” (1925/2020b), para explicar os fenômenos que ocorrem no psíquico do bebê, no início de sua vida.
[4] Recorrer-se-á várias vezes às considerações de Brunswick sobre a sexualidade infantil, ao longo desse artigo, pois, ela elaborou o artigo “The preoadipal phase of the libido development”, iniciado no verão de 1930, em colaboração com Freud.
[5] Como observa Eissler (1971), se na primeira dualidade pulsional, Freud considera que a ambivalência é de fundamental importância para a dissolução do complexo de Édipo. Já na segunda dualidade pulsional, o psicanalista enfatiza o valor narcísico do pênis, como determinante para seu fim.
[6] Como recorda Blum (2011), o masoquismo passa a ser concebido como universal no homem, com determinantes filogenéticos e neurobiológicos. Já Gero (1962) lembra que, com esse artigo de 1924, esse conceito perdeu seu significado estrito de perversão e adquiriu um novo, de importância muito maior e sentido mais profundo.