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Novo Arcabou�o Fiscal: regime fiscal sustent‡vel para o capital e destrutivo para o trabalho

 

New Fiscal Framework: a tax regime that sustains capital and destroys labour

 

Osmar Gomes de ALENCAR JòNIOR*

Descri�‹o: êcone

Descri�‹o gerada automaticamente https://orcid.org/0000-0001-9389-2949

 

INTRODU‚ÌO

 

V

ivenciamos um per’odo hist—rico de crise profunda no modo de produ�‹o capitalista, em que a lei de tend�ncia decrescente da taxa de lucro se faz presente e com mais vigor nos pa’ses do centro, acirrando as disputas intercapitalistas e imperialistas em escala planet‡ria.

 

A rea�‹o do capital imperialista ˆ queda tendencial da taxa de lucro se expressa, nessa conjuntura, nas guerras atualmente em curso por territ—rios e controle de insumos e matŽrias-primas estratŽgicas para a acumula�‹o capitalista; na superexplora�‹o do trabalho por meio da amplia�‹o da jornada de trabalho, intensifica�‹o do trabalho e rebaixamento dos sal‡rios, nos moldes de Marini (2000); no incremento do exŽrcito industrial de reserva; e, principalmente, na acelera�‹o da rota�‹o do capital, isto Ž, na redu�‹o do prazo de produ�‹o e circula�‹o do capital, promovida pelo Estado.

 

Esse movimento de contratend�ncia ˆ lei busca aumentar a massa de lucro e reduzir os efeitos das crises sobre o capital, isto Ž, as possibilidades de os capitalistas n‹o obterem lucro. Nesse sentido, o Estado, atravŽs do fundo pœblico, tem cumprido papel fundamental para acelerar a rota�‹o do capital e garantir a realiza�‹o da produ�‹o e acumula�‹o de forma ininterrupta. Dentre os v‡rios instrumentos de captura privada do fundo pœblico, a d’vida pœblica Ž um dos principais mecanismos dessa din‰mica.

 

Sendo assim, na atual fase do modo de produ�‹o capitalista, a d’vida pœblica Ž um dos principais instrumentos de acumula�‹o privada e respons‡vel para compensar a queda da taxa de lucro capitalista. Qualquer altera�‹o positiva ou negativa na rota�‹o do capital provoca efeito contr‡rio sobre a taxa de lucro, afetando diretamente os interesses da burguesia e de suas fra�›es detentoras dos crŽditos oriundos desse endividamento.

 

Como o Estado n‹o Ž imparcial e utiliza o fundo pœblico para reproduzir o capital e a for�a de trabalho, buscando regular o equil’brio inst‡vel entre as classes, mas mantendo a domina�‹o de classe, a estabilidade macroecon™mica da d’vida pœblica proposta pelo Regime Fiscal Sustent‡vel (RFS) ou, como popularmente conhecido, Novo Arcabou�o Fiscal (NAF) serve, prioritariamente, aos interesses de quais classes e fra�›es de classe no Brasil? A sustentabilidade da d’vida pœblica baseada apenas no controle da despesa prim‡ria beneficiar‡ a fra�‹o da burguesia financeira ou a classe trabalhadora no terceiro governo Lula?

 

Para responder aos questionamentos e dialogar com o artigo intitulado O arcabou�o fiscal e as implica�›es no financiamento das pol’ticas sociais, apresentado por Evilasio Salvador nessa edi�‹o da Revista Argumentum, o texto tem como objetivo identificar as classes sociais e fra�›es de classe que ser‹o priorizadas pela pol’tica fiscal da Uni‹o expressa no NAF/RFS.

 

AlŽm da introdu�‹o e das considera�›es finais, o artigo apresentar‡ o papel do Estado, do fundo pœblico e da pol’tica fiscal na atual fase da mundializa�‹o imperialista neoliberal, para em seguida demonstrar como a pol’tica fiscal, atravŽs do NAF/RFS, pode promover uma invers‹o na sua fun�‹o redistributiva em favor da classe burguesa e de suas fra�›es.

 

ESTADO, FUNDO PòBLICO E POLêTICA FISCAL SOB A ƒGIDE DA IDEOLOGIA NEOLIBERAL

 

Na etapa atual do capitalismo, da mundializa�‹o imperialista[1], em que o capital portador de juros ou capital financeiro[2] Ž dominante em todo o planeta, Ž imprescind’vel conformar um tipo de Estado que assegure a acumula�‹o financeira, em que o fundo pœblico[3] priorize os interesses de acumula�‹o da burguesia financeira, principalmente sob a forma de pagamento da d’vida pœblica, em detrimento da classe trabalhadora, em meio a uma longa crise de superprodu�‹o e superacumula�‹o.

 

A forma de assegurar a acumula�‹o financeira em meio ˆ tend�ncia decrescente da taxa de lucro[4], passa tambŽm pela contrarreforma do Estado, principalmente por altera�›es na estrutura tribut‡ria e na composi�‹o da despesa pœblica; portanto, na forma�‹o e aloca�‹o dos recursos do fundo pœblico, com impacto direto nos interesses da burguesia e da classe trabalhadora, e isso foi alcan�ado pelo protagonismo das ideias neoliberais.

 

O neoliberalismo foi uma rea�‹o Ò[...] te—rica e pol’tica veemente contra o Estado intervencionista e de Bem-Estar. [...]. Seu prop—sito era combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de outro tipo de capitalismo, duro e livre de regras para o futuroÓ (Anderson, 1995, p. 10).

 

Do ponto de vista ideol—gico, promoveu a mundializa�‹o da concorr�ncia e a diminui�‹o da participa�‹o do Estado na economia, por meio de pol’ticas macroecon™micas fiscal e monet‡ria restritivas, em busca da estabilidade econ™mica e n‹o mais do crescimento e do pleno emprego keynesianos.

 

Mas, na pr‡tica, a busca neoliberal pela estabilidade, ao utilizar os juros elevados e o super‡vit fiscal como principais instrumentos de pol’tica macroecon™mica, alŽm do c‰mbio flex’vel, produziu uma desacelera�‹o e, em alguns momentos, queda no crescimento, com repercuss‹o negativa na arrecada�‹o tribut‡ria.

 

O decrŽscimo na receita pœblica n‹o foi acompanhado, na mesma velocidade, pela diminui�‹o da despesa pœblica, o que provocou dŽficit pœblico e a necessidade de financiamento; portanto, resultou na eleva�‹o da d’vida pœblica e da participa�‹o do Estado na economia, ou seja, no inverso do prometido pela ideologia neoliberal.

 

Tal pol’tica macroecon™mica neoliberal gerou crescimento econ™mico p’fio nas œltimas dŽcadas, e em muitas vezes, recess‹o econ™mica prolongada e crise econ™mica; assim, provocou maiores riscos para a acumula�‹o capitalista e a necessidade de maior interven�‹o do Estado para minimiz‡-los, tornando o fundo pœblico um mecanismo estratŽgico para reduzir o tempo de rota�‹o do capital[5] e aumentar a taxa de lucro, principalmente nos pa’ses perifŽricos, como o Brasil.

 

A estabilidade econ™mica, isto Ž, a estabilidade monet‡ria e a disciplina or�ament‡ria passaram a ser prioridade de qualquer governo neoliberal em busca do crescimento econ™mico voltado para assegurar, prioritariamente, os interesses da burguesia, em especial da sua fra�‹o financeira. Na AmŽrica Latina, combinou Ò[...] a aboli�‹o da democracia [...], com um programa de governo que promovia a desregula�‹o, o desemprego massivo, a repress‹o sindical, a redistribui�‹o de renda em favor dos ricos e a privatiza�‹o de bens pœblicosÓ (Alencar Jœnior, 2021, p. 83).

 

A condu�‹o para a estabilidade econ™mica neoliberal, por meio do protagonismo da pol’tica monet‡ria, aprisionou a pol’tica fiscal, retirou sua finalidade redistributiva e assegurou-lhe o papel coadjuvante de priorizar os recursos pœblicos, via super‡vit prim‡rio, para a acumula�‹o financeira.

 

Para garantir esse mecanismo de apropria�‹o privada do fundo pœblico cada vez maior, o Estado instituiu uma legisla�‹o que assegurou o equil’brio fiscal do governo, punindo aqueles que n‹o cumprissem as metas fiscais estabelecidas na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) institucionalizada no Brasil (Brasil, 2020).

 

A LRF expressa a obrigatoriedade de os governos produzirem super‡vits prim‡rios Ð receitas prim‡rias superiores ˆs despesas prim‡rias Ð isto Ž, os governos passaram a poupar compulsoriamente os recursos arrecadados da popula�‹o, nas suas mais diversas atividades produtivas ou improdutivas, para efetuarem o pagamento de juros, encargos e amortiza�‹o da d’vida pœblica, e n‹o para o financiamento de pol’ticas pœblicas enquanto pol’ticas sociais capazes de mitigar as contradi�›es promovidas pelo modo de produ�‹o capitalista.

 

A partir de ent‹o, uma ordem na disputa pelos recursos do fundo pœblico no pa’s foi institucionalizada: a prioridade para o pagamento das despesas financeiras em detrimento das n‹o financeiras ou prim‡rias. Assim, os governos passaram a privilegiar os interesses da burguesia e sua fra�‹o financeira nacional e internacional e retirar direitos da classe trabalhadora.

 

Desde a aprova�‹o da LRF em 2020, todos os governos, nas esferas federal, estadual ou municipal, independentemente de seus matizes ideol—gicos, perseguiram e/ou cumpriram a determina�‹o fiscal legal da institucionalidade neoliberal, o super‡vit prim‡rio. No entanto, o alcan�aram quase sempre pela via do controle da despesa, e muito pouco pelo caminho da progressividade na arrecada�‹o da receita. Mesmo ao priorizar os limites para a despesa, o regime fiscal, desde ent‹o, n‹o previu limites para o gasto financeiro, mas o fez para o gasto prim‡rio ou n‹o-financeiro.

 

A pr‡tica dessa regra fiscal, ao comprimir apenas a despesa prim‡ria, uma das partes da despesa pœblica, mudou a composi�‹o da despesa or�ament‡ria governamental em favor daquela que nunca foi limitada, a despesa financeira. Portanto, todas as regras fiscais que sucederam, modificando ou n‹o o regime fiscal brasileiro, a partir da LRF, n‹o se contrapuseram a essa din‰mica fiscal.

 

Mais recentemente, o Novo Regime Fiscal (Emenda Constitucional 95) e o NAF/RFS, aprovados em 2016 e 2022, respectivamente, seguiram a mesma l—gica de busca do super‡vit prim‡rio por meio da imposi�‹o de limites exclusivamente para a despesa prim‡ria e n‹o para a despesa financeira, desacelerando o crescimento da primeira e impulsionando o incremento da segunda.

 

Para evidenciar essa din‰mica fiscal, o recente estudo sobre o efeito do NRF na composi�‹o da despesa federal no per’odo de 2015 a 2022, realizado pelo Observat—rio do Fundo Pœblico[6], verificou que a Despesa Financeira (DF) cresceu de forma real 9,72%, enquanto a despesa prim‡ria ou Despesa N‹o Financeira (DNF) incrementou 6,28% no per’odo analisado. A DNF desacelerou e teve reduzido o crescimento atŽ 2019, enquanto a DF comportou-se no sentido inverso: acelerou o crescimento atŽ 2018 e registrou redu�‹o em 2019 (Brito, 2023).

 

O estudo ainda mostrou que, em rela�‹o ˆ participa�‹o da DNF e da DF no gasto or�ament‡rio total federal no per’odo anterior ˆ pandemia, houve um Ò[...] decrŽscimo de 0,74% na participa�‹o da DNF e um crescimento de 2,47% na DF de 2015 a 2019Ó (Brito, 2023, p. 39). Deste modo, enquanto a DNF desacelerou e teve reduzida sua participa�‹o, a DF cresceu gradativamente.

 

Outra evid�ncia do impacto dessa din‰mica fiscal nas despesas pœblicas da Uni‹o, nos per’odos anterior e posterior ˆ implementa�‹o do NRF, foi o comportamento dos gastos social[7] e financeiro[8], representados pelos somat—rios das despesas nas ‡reas da educa�‹o, seguridade social, ci�ncia e tecnologia, direitos da cidadania, comunica�›es, gest‹o ambiental, desporto e lazer, e cultura; e nos servi�os da d’vida interna e externa, respectivamente.

 

O gasto social cresceu a taxas anuais Ò[...] de 3,89% e 8,69% nos intervalos de 2015-2016 e 2016-2017, porŽm passou a ter redu�›es sucessivas de 5,88% e 1,95% nos per’odos 2017-2018 e 2018-2019 [...]Ó (Brito, 2023, p. 41), acumulando um crescimento de 4,21% no per’odo 2015-2019.

 

Enquanto o gasto financeiro federal decresceu 8,88% em 2015-2016, cresceu 5,41% e 25,04% nos intervalos de 2016-2017 e 2017-2018, respectivamente, e tornou a decrescer em 8,64% em 2018-2019. Essa din‰mica mostrou a expans‹o da DF a partir de 2016, acelerando nos dois primeiros anos da implementa�‹o da EC 95, para em seguida apresentar crescimento negativo, no primeiro ano do governo Bolsonaro. Mesmo com tal oscila�‹o no comportamento, o gasto financeiro cresceu 6,45%, acima do gasto social, no per’odo 2015-2019 (Brito, 2023).

 

Os dados apresentados corroboram a tese de que o regime fiscal neoliberal brasileiro, a partir da LRF e aprofundado com o NRF, vem alterando a composi�‹o da despesa or�ament‡ria pœblica brasileira em favor da despesa financeira, atendendo cada vez mais os interesses da burguesia, em especial aos da sua fra�‹o financeira, em detrimento da classe trabalhadora, independentemente dos diferentes matizes ideol—gicos dos governos.

 

DêVIDA PòBLICA SUSTENTçVEL: O FALSEAMENTO IDEOLîGICO DA APROPRIA‚ÌO PRIVADA DO FUNDO PòBLICO NO TERCEIRO GOVERNO LULA

 

A transi�‹o do governo Bolsonaro para o governo Lula 3 no Brasil foi marcada por um debate sobre a mudan�a no regime fiscal vigente, pois o NRF estabelecido pelo governo Temer n‹o atingiu seu objetivo de reduzir ou estabilizar a d’vida pœblica.

 

A sa’da novamente conciliadora do governo Lula foi a institucionaliza�‹o do NAF/RFS no primeiro semestre de 2023. Assim como no governo Temer, o NAF/RFS instituiu uma nova regra fiscal nacional, constitu’da de mecanismos limitadores quantitativos da despesa prim‡ria para combater o dŽficit fiscal e estabilizar a rela�‹o entre a D’vida Bruta do Governo Geral (DBGG) e o Produto Interno Bruto (PIB); isto Ž, uma pol’tica fiscal para manter a d’vida pœblica sustent‡vel (Brasil, 2023).

 

No entanto, para obter sucesso na implementa�‹o de uma regra fiscal Ž preciso definir bem as vari‡veis a serem limitadas. No caso brasileiro do NAF/RFS, a vari‡vel selecionada foi somente a despesa prim‡ria. Essa estratŽgia tem como vantagem o fornecimento de uma dire�‹o no curto prazo para a pol’tica fiscal, simplicidade e transpar�ncia; e como desvantagem, uma Ò[...] menor liga�‹o com o objetivo de sustentabilidade fiscal, pois ela controla a despesa, mas n‹o leva em conta a receita [...]. Outra desvantagem Ž que ela pode afetar negativamente a qualidade do gastoÓ (Giambiagi, 2021, p. 219).

 

Do ponto de vista do ajuste fiscal pelo lado da receita, o NAF/RFS praticamente o desconsiderou, pois somente no final do texto do ¤3¼ do Art. 1¼ da Lei Complementar n¡ 200/2023 foi sinalizada a possibilidade de recupera�‹o e gest‹o de receitas pœblicas (Brasil, 2023).

 

Corroborando com Giambiagi (2021), uma regra fiscal, como Ž o caso do NAF/RFS, que busca controlar apenas a despesa Ð e de forma mais grave, somente parte dela Ð e despreocupando-se com a receita, n‹o tem como objetivo central a sustentabilidade fiscal.

 

Um exemplo disso pode ser visto na contradi�‹o entre o esfor�o fiscal dos governos em atingir a meta de super‡vit fiscal, via redu�‹o das despesas prim‡rias, imposta pelas regras fiscais e a expans‹o das renœncias tribut‡rias, que promovem ao mesmo tempo, a redu�‹o de receita arrecadada e o aumento do gasto tribut‡rio do governo federal, refor�ando a insustentabilidade fiscal. 

 

Segundo Saiki (2023), R$ 5,42 trilh›es de receitas pœblicas foram renunciados pela Uni‹o em 12 anos, significando uma mŽdia anual de R$ 442 bilh›es no per’odo 2008-2019, e apresentando uma trajet—ria de crescimento, conforme apresentado no Gr‡fico 1.

 

Gr‡fico 1 - Evolu�‹o dos gastos tribut‡rios da Uni‹o, de 2008-2019 (em R$ milh›es, valores deflacionados pelo IGP-DI, jun. 2022)

   Fonte: Saiki (2023).

 

Na compara�‹o entre os anos inicial e final do per’odo analisado, as renœncias, alŽm de promoverem o rebaixamento da receita or�ament‡ria, incrementaram em 49% o gasto tribut‡rio federal. Tal medida Ž incoerente com o contingenciamento de despesas e com a sustentabilidade fiscal pretendida pelo regime fiscal neoliberal.

 

Ainda segundo a autora, o resultado das raz›es entre os indicadores do gasto tribut‡rio federal/receita tribut‡ria federal e do gasto tribut‡rio federal/PIB cresceu no per’odo analisado, de acordo com o Gr‡fico 2.

 

Gr‡fico 2 - Evolu�‹o da participa�‹o dos gastos tribut‡rios do governo federal em rela�‹o ˆ receita tribut‡ria e ao PIB, no per’odo de 2008-2019 (em %)

Fonte: Saiki (2023).

O montante do gasto tribut‡rio correspondia a 17,38% da receita tribut‡ria federal em 2008 e passou para 22,02% em 2019, registrando um crescimento de 26,68% no per’odo 2008-2019 (Saiki, 2023). Isso representou que a renœncia de receita geradora do gasto tribut‡rio cresceu numa velocidade superior ao incremento da receita tribut‡ria, aumentando sua influ�ncia na tend�ncia de desacelera�‹o e rebaixamento das receitas pœblicas federais, e portanto, no desequil’brio fiscal, isto Ž, no crescimento do dŽficit e da d’vida pœblica.

 

Em rela�‹o ao produto interno bruto, o montante do gasto tribut‡rio correspondia a 3,82% em 2008 e alcan�ou 4,30% em 2019, acumulando um crescimento de 12,53% no per’odo 2008-2019 (Saiki, 2023). As mŽdias nacional e mundial do gasto tribut‡rio em rela�‹o ao PIB eram de 4,07% e 3,8% respectivamente, no per’odo 2008-2019 (Redonda; Haldenwang; Aliu, 2021; Brasil, 2022). Assim, o gasto tribut‡rio federal cresceu numa propor�‹o maior que o PIB, e em uma mŽdia superior ˆ mundial; ou seja, um indicativo de que cada vez mais o governo federal compromete a apropria�‹o da riqueza produzida na forma de arrecada�‹o tribut‡ria, com impacto negativo no dinamismo econ™mico, no incremento de receita e na sustentabilidade fiscal, agravando a situa�‹o fiscal.

 

O governo federal, ao expandir sua pol’tica de renœncia fiscal em contraposi�‹o ao aprofundamento do ajuste fiscal sobre a despesa prim‡ria, comprometeu, em mŽdia, 20% da arrecada�‹o tribut‡ria e 4,07% do PIB no per’odo 2008-2019, instituindo uma verdadeira trava na receita pœblica, conforme os dados do Gr‡fico 2.

 

Essa pol’tica renœncia fiscal travou a receita or�ament‡ria, para de forma disfar�ada exigir a compress‹o da despesa prim‡ria via desfinanciamento das pol’ticas sociais e dos investimentos pœblicos, ao mesmo tempo em que invisibilizou esse mecanismo de trava na receita e de expans‹o do gasto tribut‡rio. Ao realizar esse movimento, a pol’tica fiscal Ž usada ideologicamente para escamotear os verdadeiros fatores determinantes do desequil’brio fiscal e convencer a sociedade, principalmente a classe trabalhadora, de que a œnica alternativa para o equil’brio fiscal Ž o controle da despesa prim‡ria, por meio do discurso de que o governo Ž perdul‡rio e ineficiente no gasto pœblico, principalmente naqueles diretamente relacionados aos direitos dos trabalhadores.

 

A utiliza�‹o ideol—gica da pol’tica fiscal pelos neoliberais imp›e a necessidade permanente de conter a despesa para promover o equil’brio fiscal, e o faz por meio de ajustes fiscais permanentes.

 

PorŽm, os ajustes fiscais que imp›em limites apenas na despesa prim‡ria, excluindo as renœncias tribut‡rias, as despesas financeiras e a promo�‹o da progressividade na arrecada�‹o tribut‡ria, n‹o buscam garantir o equil’brio sustent‡vel das contas pœblicas, mas promover continuamente o desequil’brio sustent‡vel, isto Ž, propiciar as condi�›es necess‡rias para a reprodu�‹o da trava na receita e da conten�‹o na despesa prim‡ria, determinantes para a manuten�‹o do super‡vit prim‡rio e a transfer�ncia crescente de recursos or�ament‡rios para o pagamento do servi�o da d’vida pœblica federal.

 

Essa pr‡tica equivocada de ajuste fiscal pela via da despesa, institu’da pelo NAF/RFS, repete o mesmo erro da EC 95, Ž pr—-c’clica e potencializar‡, por um lado, o prolongamento da recess‹o econ™mica, da tend�ncia ˆ redu�‹o da receita e do dŽficit fiscal, e, por outro, a necessidade de financiamento do dŽficit pœblico, mais contrata�‹o de d’vida e amplia�‹o pagamento do seu servi�o junto aos credores nacionais e internacionais. Nesse sentido corroboro com os argumentos de que

 

o NAF/NRF n‹o Ž antic’clico em um momento de desacelera�‹o da economia, mas apenas modera a redu�‹o da taxa de crescimento do gasto pœblico quando a economia freia e perde velocidade. Como veremos, isso Ž problem‡tico na conjuntura atual de desacelera�‹o da economia, o que pode gerar uma espiral de baixo crescimento e, com o tempo, impor um teto n‹o s— ao crescimento econ™mico, mas ˆ popularidade do presidente, alŽm de enfraquecer a unidade da coaliz‹o social que elegeu Lula (Bastos, 2023, p. 4).

 

E, tambŽm, de que o regime fiscal sustent‡vel

 

[...] teria efeito pol’tico semelhante ˆ Lei do Teto de Gastos: conter o investimento pœblico, e induzir novas leis e emendas constitucionais de corte neoliberal que atacam a promessa social desenvolvimentista da Constitui�‹o Federal de 1988 e dos programas do Partido dos Trabalhadores, como a pol’tica de valoriza�‹o real do sal‡rio-m’nimo, o piso m’nimo de remunera�‹o da Previd�ncia Social ou os pisos constitucionais da saœde e da educa�‹o (Bastos; Deccache; Alves Jœnior, 2023, p. 27).

 

Esses argumentos s‹o reafirmados pela tese defendida por Evilasio Salvador no artigo O arcabou�o fiscal e as implica�›es no financiamento das pol’ticas sociais, publicado nessa edi�‹o da Revista Argumentum, de que o NAF/RFS est‡ inserido em um cen‡rio de ajuste fiscal permanente imposto ˆ economia brasileira desde os anos 1990. E de que,

 

[...] ainda que mais flex’vel no ajuste fiscal quando comparado ˆ EC 95, segue a pol’tica de austeridade ao impor entraves permanentes para o crescimento dos gastos pœblicos sociais no ‰mbito da Uni‹o, como o impedimento de acompanhar a varia�‹o das receitas governamentais. Tudo isso, para viabilizar a retomada de resultados prim‡rios positivos, a fim de garantir a sustentabilidade da d’vida pœblica e a captura do fundo pœblico para o pagamento de juros e encargos para os rentistas (Salvador, 2024, p. 16).

 

Em s’ntese, trata-se de um regime que n‹o visa a sustentabilidade fiscal, isto Ž, a estabiliza�‹o da d’vida bruta do governo em rela�‹o ao PIB, mas controlar a parte maior da despesa, fazendo com que ela cres�a numa propor�‹o menor que o incremento da receita, poupando recursos para transferir o maior volume de receitas para o pagamento do servi�o da d’vida pœblica.

 

Esta situa�‹o reflete a ordem de prioridade institucionalizada desde a LRF, e continuamente reafirmada pelos governos posteriores, inclusive nos governos Lula: a de que a despesa financeira Ž intoc‡vel, mesmo que a austeridade fiscal custe milhares de vidas, conforme ocorrido no per’odo da pandemia de COVID-19.

           

CONSIDERA‚ÍES FINAIS

 

Na atual fase do capitalismo, da mundializa�‹o imperialista, o fundo pœblico neoliberal cumpre uma fun�‹o estratŽgica em tempo de crise: ao mesmo tempo, acelera a rota�‹o do capital por meio do incremento das despesas pœblicas com o setor privado e desacelera ou trava a receita pœblica por meio das renœncias tribut‡rias.

 

Esse movimento duplo se expressa no RFS/NAF, nos limites impostos ˆ despesa prim‡ria e n‹o ˆ despesa financeira e ˆ renœncia de receita, tendo como consequ�ncia a produ�‹o do desequil’brio sustent‡vel para a manuten�‹o do super‡vit prim‡rio, desviando cada vez mais recursos pœblicos para o pagamento do servi�o da d’vida pœblica federal.

 

Assim, a busca pela sustentabilidade da d’vida pœblica baseada no controle da despesa prim‡ria conduz ao falseamento ideol—gico da apropria�‹o privada do fundo pœblico, a prioridade no atendimento dos interesses da burguesia, em especial a sua fra�‹o financeira, tornando o regime fiscal (RFS/NAF) sustent‡vel para o capital e destrutivo para o trabalho, no terceiro governo Lula.

 

REFERæNCIAS

 

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Osmar Gomes de ALENCAR JòNIOR

Graduado em Ci�ncias Econ™micas e Doutor em Pol’ticas Pœblicas. Professor Associado do curso de Ci�ncias Econ™micas da Universidade Federal do Delta do Parna’ba (UFDPar) e do Programa de P—s-Gradua�‹o em Pol’ticas Pœblicas da UFPI. Coordenador do Observat—rio do Fundo Pœblico na UFDPar e do GT Estado e Pol’ticas Pœblicas da Sociedade Brasileira de Economia Pol’tica (SEP); l’der do Grupo de Pesquisa Observat—rio do Fundo Pœblico e pesquisador do Grupo de Estudos de Hegemonia e Lutas na AmŽrica Latina (GEHLAL) e do FOHPS nœcleo de estudos e pesquisas sobre Fundo Pœblico, Or�amento, Hegemonia e Pol’tica Social. Atualmente Pr—-Reitor de Planejamento da UFDPar.

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* Economista. Doutor em Pol’ticas Pœblicas. Professor Associado do curso de Ci�ncias Econ™micas da Universidade Federal do Delta do Parna’ba (UFDPar, Parna’ba, Brasil). Av. S‹o Sebasti‹o, n¡ 2819, Nossa Sra. de F‡tima, Parna’ba (PI), CEP. 64202-020. Professor do Programa de P—s-Gradua�‹o em Pol’ticas Pœblicas da Universidade Federal do Piau’. (UFPI, Teresina, Brasil). Campus Universit‡rio Ministro Petr™nio Portella, Ininga, Teresina (PI), CEP. 64049-550. E-mail: jrosmar@ufdpar.edu.br.

 

 © A(s) Autora(s)/O(s) Autor(es). 2024 Acesso Aberto Esta obra est‡ licenciada sob os termos da Licen�a Creative Commons Atribui�‹o 4.0 Internacional (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR), que permite copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato, bem como adaptar, transformar e criar a partir deste material para qualquer fim, mesmo que comercial.  O licenciante n‹o pode revogar estes direitos desde que voc� respeite os termos da licen�a.

[1] Para mais detalhes, ver Alencar Jœnior (2021).

[2] Quando o dinheiro efetua de forma aut™noma movimentos puramente tŽcnicos no processo de circula�‹o de um capital em particular e nada mais faz alŽm disso, ou quando ˆs suas demais fun�›es se associam as de emprestar, de tomar emprestado e de negociar com crŽdito, essa forma capital transforma-se em capital financeiro (Marx, 2008).

[3] Toda a capacidade do Estado de arrecadar ou n‹o recursos para o financiamento das pol’ticas pœblicas (Alencar Jœnior, 2021).

[4] A busca por aumento de lucro via aumento do capital constante em rela�‹o ao capital vari‡vel, por meio do crescimento na composi�‹o org‰nica do capital, tem por consequ�ncia a Ò[...] queda gradual na taxa geral de lucro, desde que n‹o varie a taxa de mais-valia ou o grau de explora�‹o do trabalho pelo capitalÓ (Marx, 2008, p. 282).

[5] ƒ o tempo de produ�‹o e circula�‹o do capital; este varia na raz‹o inversa da taxa de lucro desde que a taxa de mais valia, jornada de trabalho e a composi�‹o do capital n‹o se altere (Marx, 2008).

[6] Nœcleo de estudo, pesquisa e extens‹o do curso de Ci�ncias Econ™micas da Universidade Federal do Delta do Parna’ba (UFDPar) e grupo de pesquisa vinculado ao CNPQ.

[7] Gastos que representam os interesses da classe trabalhadora na forma de pol’ticas sociais.

[8] Despesas que representam os interesses da classe burguesa, especialmente os da fra�‹o financeira.