v. 56 n. 1 (2027): Estados Novos em perspectiva global: autoritarismos, fascismos e circulações intelectuais
Poucos fenômenos históricos do século XX geraram uma historiografia simultaneamente tão extensa e tão fragmentada em tradições nacionais quanto os regimes que se autodenominaram "Estado Novo" em Portugal (1933–1974) e no Brasil (1937–1945). Embora essas experiências compartilhassem a designação, uma matriz corporativa e um horizonte antiliberal, a investigação histórica continua, em larga medida, a analisá-las em circuitos nacionais relativamente autônomos. Em contrapartida, sobretudo desde a década de 1990, consolidou-se uma historiografia comparada e transnacional dos fascismos e dos autoritarismos, que tem procurado compreender os regimes do entreguerras em perspectiva internacional, valorizando as circulações de ideias, de atores e de modelos políticos. É precisamente nesse espaço de diálogo entre a densidade das historiografias nacionais e os debates internacionais sobre fascismo, autoritarismo e corporativismo que este dossiê pretende intervir, propondo uma reflexão sobre os Estados Novos em perspectiva global.
A oportunidade deste dossiê é reforçada, ainda, por uma dupla efeméride que atravessa o calendário dos dois países. Em Portugal, completaram-se, em maio de 2026, cem anos do golpe militar de 28 de maio de 1926, que pôs fim à Primeira República e abriu caminho à Ditadura Militar e, posteriormente, ao Estado Novo, institucionalizado pela Constituição de 1933. No Brasil, aproximam-se os noventa anos da instauração do Estado Novo varguista, decretado em novembro de 1937 por um golpe que suspendeu a Constituição de 1934 e inaugurou um regime que perduraria até 1945. Essa quase coincidência de marcos constitui um ponto de partida simbólico para revisitar duas experiências que, apesar de emergirem de conjunturas distintas e de terem conhecido durações e desfechos diversos, continuam a interpelar, um século depois, o modo como as sociedades portuguesa e brasileira pensam sua própria relação com o autoritarismo, a memória e os limites da democracia.
O dossiê acolhe tanto artigos centrados exclusivamente no Estado Novo português ou no Estado Novo brasileiro quanto contribuições que os articulem explicitamente, entendendo que a justaposição cuidadosa de estudos de caso singulares, quando iluminados por um horizonte compartilhado de questões, pode, por si só, gerar efeitos comparativos e dialógicos. Pretende-se, assim, fomentar uma agenda de investigação que coloque em diálogo estudos nacionais com abordagens comparadas e transnacionais, privilegiando análises sobre as circulações de pessoas, ideias, publicações e modelos institucionais entre Portugal, Brasil e outros espaços da Europa, da América Latina e do mundo atlântico. Ao mesmo tempo, o dossiê pretende acolher a controvérsia historiográfica como parte constitutiva da investigação, e não como um obstáculo a ser superado. Da mesma forma, são bem-vindas contribuições que discutam aspectos conceituais relativos à caracterização e à interpretação dos Estados Novos, assim como ensaios dedicados à historiografia e à história da historiografia desses temas.
Eixos temáticos sugeridos
- Fascismo genérico, autoritarismo e tipologias comparadas dos regimes do entreguerras;
- História transnacional, história conectada e circulação de modelos políticos;
- Integralismo, salazarismo e outras direitas radicais ibero-americanas;
- Política e Estado: constituição, centralização do poder e aparelho repressivo;
- Intervencionismo estatal, corporativismo e políticas de desenvolvimento;
- Propaganda, doutrinação e construção da identidade nacional;
- Redes intelectuais e circulações transatlânticas entre Brasil, Portugal e Europa;
- Colonialismo, império e circulação de saberes;
- Imprensa, cultura visual e produção cultural;
- Gênero, masculinidades, família e políticas sociais;
- Infância, juventude e disciplinarização;
- Historiografia, memória e usos políticos do passado autoritário;
- Legados do autoritarismo do século XX e extremas direitas contemporâneas;
- Review Essays.
Normas de submissão
Os artigos devem seguir as diretrizes para autores da revista Dimensões – Revista de História da UFES (https://periodicos.ufes.br/dimensoes/en/about/submissions), sendo submetidos através do portal eletrônico da revista.
PRAZO PARA ENVIO DE SUBMISSÃO: 15 de janeiro de 2027.
Organizadores:
Joana Brites — Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e CEIS20;
Leandro Pereira Gonçalves — Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora;
Odilon Caldeira Neto — Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora.




