Como criar crianças gays

a guerra contra os meninos afeminados

Autori

DOI:

https://doi.org/10.47456/sofia.v15i2.52558

Parole chiave:

crianças, meninos, gays

Abstract

O texto a seguir apresenta a tradução do capítulo How to Bring Your Kids Up Gay, publicado no livro Tendencies, de Eve Kosofsky Sedgwick (1950–2009), autora central para a constituição da teoria queer e uma das figuras mais influentes dos estudos literários e culturais nas últimas décadas do século XX. No capítulo, Sedgwick examina criticamente a atuação de profissionais da saúde mental nos Estados Unidos ao fim do século XX, sobretudo a partir de relatórios e formulações teóricas produzidos por psicanalistas e psiquiatras comprometidos em “prevenir” a homossexualidade embrionária em comportamentos tidos como afeminados em meninos. Sua análise evidencia como tais discursos clínicos contribuíram para naturalizar comportamentos heterossexuais e instituí-los como horizonte normativo e paradigma de de saúde e normalidade, particularmente no que diz respeito à infância, ao mesmo tempo em que configuraram a homossexualidade como um desvio a ser diagnosticado, prevenido ou corrigido.
Tendo por objeto privilegiado os comportamentos de meninos afeminados, a reflexão conduz, contudo, a um ponto mais amplo para os debates contemporâneos sobre gênero e sexualidade. Sedgwick diagnostica que, na cultura pós-moderna, a oposição tradicional entre natureza e cultura sofre uma inflexão significativa: aquilo que antes era atribuído à cultura, concebida como domínio maleável e passível de intervenção social, tende a ser percebido como relativamente resistente a transformação, enquanto a biologia, outrora entendida como fundamento fixo e imutável, torna-se cada vez mais objeto de intervenção técnica e de imaginação manipulativa. Nesse deslocamento, enquanto o apelo à explicação biológica deixa de operar como garantia de estabilidade ou de “destino natural”, e passa a alimentar projetos de gestão e modulação da vida, nos moldes, pode-se dizer, da biopolítica foucaultiana, a dimensão social da cultura acaba por fixar as identidades sexuais (como é o caso de Friedman, para quem a autoidentificação masculina depende da validação, exclusivamente, de outros homens). A inversão dessas funções entre biologia e cultura constitui, assim, um dos eixos centrais do debate aberto por Sedgwick, ao indicar que, na pós-modernidade, a polarização natureza/cultura tende a ocultar o papel desempenhado pelos discursos médico-biológicos na produção e regulação das identidades sexuais.

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Biografie autore

  • Juliana Aggio, Universidade Federal da Bahia

    Pesquisadora de produtividade do CNPq. Possui graduação, mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, tendo realizado doutorado sanduíche na École Normale Supérieure - Paris (2009-2010). Professora associada do departamento de filosofia, membra do Programa de pós-graduação em Filosofia da UFBA (PPGF) e da UFRRJ (PPGFIL) e em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA). Realizou pós-doutoramento na UFRJ (2022-2023) e foi professora visitante na Universidade Paris 8 (2023). É líder do grupo de pesquisa em raça, gênero, sexualidade, classe e feminismos “Coletivo Filosofia da Terceira Margem” (COFITEM), desde 2025. Foi coordenadora do GT Filosofia e Gênero (2021-2022), é atualmente membra do núcleo de sustentação do GT Raça, gênero e classe (desde 2024), administradora da Rede brasileira de Mulheres Filósofas (desde 2019), membra permanente da Comissão de Organização do Encontro de Filosofia da Bahia (desde 2015) e membra da Réseau d'études décoloniales (RED, desde 2025). Publicou diversos artigos, capítulos de livro e os livros “Prazer e desejo em Aristóteles” (Edufba), “Filósofas” (Kotter), “Dispositivo cisheterocolonial: práticas críticas de si e alianças feministas anticapitalistas” (no prelo, Col. Filósofas, ed. PUC-Rio/Autêntica). Faz uso de ferramentas conceituais para pesquisar questões relativas à constituição da subjetividade contemporânea a partir do pensamento de Foucault, Butler, Wittig, Lugones, Anzaldúa, Gonzalez, Carneiro, dentre outras feministas, bem como de temas relativos a outros modos de se fazer filosofia, a epistemologias não hegemônicas, sexualidades dissidentes, multiplicidades de gênero, raça, feminismos e suas intersecções.

  • Camila Carpen, Universidade Federal de Santa Catarina

    Licenciada/Bacharel, Mestra e atualmente Doutoranda em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalho com Filosofia Francesa Contemporânea, especialmente com a filosofia de Michel Foucault, com ênfase nos temas do sujeito de desejo/subjetividade, vontade de saber e experiência da sexualidade. Membro do "GT Filosofia Francesa", atuo como pesquisadora também pelo GEFRAN/UFSC (Grupo de pesquisa em Filosofia Francesa Contemporânea), pelo NIM/UFSC (Núcleo de Investigações Metafísicas) e pelo COFITEM (Coletivo Filosofia da Terceira Margem). Possuo interesse na áreas de Ontologia, Psicanálise e Filosofia Francesa Contemporânea.

Riferimenti bibliografici

SEDGWICK, Eve Kosofsky. How to Bring Your Kids Up Gay. In: SEDGWICK, Eve Kosofsky. Tendencies. Durham: Duke University Press, 1993. p. 154-164.

Pubblicato

2026-11-03

Come citare

AGGIO, J.; CARPEN, C. (TRAD.). Como criar crianças gays: a guerra contra os meninos afeminados. Sofia, v. 15, n. 2, p. e15252558, 3 nov.2026.