Autenticidade e inovação da “voz do morro”:

as bem escritas linhas da Carta do Samba (1962).

Autores

  • Wilton Silva UNESP, Campus de Assis

DOI:

https://doi.org/10.47456/dim.v54i2.47296

Palavras-chave:

Carta do Samba, Carnaval, Edison Carneiro, Indústria cultural, Escola de samba

Resumo

Em finais de 1962, no Rio de Janeiro, realizou-se o I Congresso Nacional do Samba, evento que a partir da presença de artistas, estudiosos e lideranças ligadas à música popular buscava discutir de que maneira o samba, o ritmo urbano, popular e de origem africana, que se tornara um símbolo nacional, deveria ter defendida sua “tradição” frente aos interesses e transformações da sociedade brasileira os quais agenciavam sua “modernização”. Os debates realizados em tal evento culminaram com a edição de um documento, a “Carta do Samba”, que elencava iniciativas que foram deliberadas e propostas por representantes do Estado e de diversos setores da sociedade civil, visando “coordenar medidas práticas e de fácil execução para preservar as características tradicionais do samba sem, entretanto, lhe negar ou tirar espontaneidade e perspectivas de progresso.” O documento problematiza o gênero musical enquanto manifestação cultural popular e símbolo de identidade nacional, mas também enquanto objeto de consumo e discute de que maneira a questão mercadológica poderia afetar sua transformação ou “evolução”. Uma releitura do documento, mais de cinquenta anos depois, permite mapear algumas das tensões e propostas que se fizeram presentes em sua redação e identificar as bases e os limites das ideias apresentadas.

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Publicado

02-03-2026