Chamada de trabalhos. Farol n. 35. Contracultura na América Latina
O dossiê Contracultura na América Latina: dissenso e experimentação dos anos 1960 ao presente propõe uma reflexão sobre as transformações históricas do conceito de contracultura e seus desdobramentos no campo da arte. Longe de constituir uma categoria fixa, a contracultura assumiu sentidos distintos em diferentes contextos sociais, políticos e culturais, o que exige uma abordagem histórica capaz de considerar suas formas de emergência, circulação e permanência. Esse dossiê parte do entendimento de que a relação entre arte e contracultura não se limita aos movimentos que marcaram os anos 1960, mas inclui experiências posteriores que redefiniram os modos de contestação, dissenso e experimentação em diferentes regiões do mundo. Do movimento hippie ao ecologismo atual, observamos a Tropicália, a Nueva Canción, o punk, o hip-hop, os movimento de libertação homossexual, as últimas ondas feministas, o queer, o rastafarianismo, o rock alternativo africâner, o DIY japonês, o riot grrrl, bongo flava, underground de Beirute, a cena queer libanesa, hiplife ganês, Mahraganat egípcio e tantos outros. Em cada caso, tratamos com múltiplas formas de expressão, meios e confrontos institucionais.
As discussões reunidas neste número poderão examinar práticas artísticas, coletivos, instituições, sistemas de circulação, publicações, exposições e debates teóricos que contribuíram para a formação de repertórios contraculturais ao longo das últimas seis décadas. Interessa-nos compreender de que modo cada momento histórico atribuiu sentidos específicos à ideia de contracultura, quais disputas envolveram essa denominação e quais relações se estabeleceram entre produção artística, transformações sociais, tecnologias, formas de comunicação e regimes políticos. Também são bem-vindos estudos que discutam a circulação internacional de ideias e práticas contraculturais, bem como suas traduções locais e suas tensões com instituições culturais, políticas públicas e mercados da arte.
Esse dossiê acolhe contribuições que estabeleçam interlocuções com autores cujas obras constituíram referências para o estudo da contracultura, entre eles Theodore Roszak, responsável por uma das primeiras formulações do conceito, Luiz Carlos Maciel, cuja produção conferiu centralidade ao debate sobre a contracultura no Brasil, Dick Hebdige, que ampliou a discussão por meio dos estudos sobre subculturas, e Stuart Hall, que situou as disputas culturais no interior das relações de poder. Também interessam pesquisas que ampliem esse repertório a partir de perspectivas produzidas em diferentes comunidades e nações da América Latina, sem perder de vista os diálogos possíveis com teorizações que extrapolam nossas fronteiras, com nomes como Achille Mbembe no contexto africano e de Homi K. Bhabha e Gayatri Chakravorty Spivak no campo dos estudos pós-coloniais de origem asiática. O dossiê também recebe estudos que examinem outras tradições intelectuais e historiográficas, desde que contribuam para compreender as transformações históricas da contracultura e seus vínculos com a arte contemporânea em diferentes contextos.
O título Contracultura na América Latina: dissenso e experimentação dos anos 1960 ao presente convida à revisão de narrativas consolidadas e à investigação de experiências que escapam às cronologias convencionais. Entre as questões propostas para debate, destacam-se as mudanças no significado da contracultura após o fim da Guerra Fria, os efeitos da expansão das redes digitais sobre formas de crítica cultural, a incorporação de linguagens contraculturais por instituições e mercados, a emergência de novas formas de organização coletiva e os desafios impostos pela crise ambiental, pelas transformações do trabalho, pelos deslocamentos migratórios e pelas disputas em torno da memória. Nesse horizonte, interessa-nos perguntar quais práticas podem ser compreendidas como contraculturais na última década e quais critérios permitem sustentar essa definição em diferentes contextos históricos e geográficos.
Serão recebidos artigos inéditos de pessoas com titulação de doutorado que apresentem resultados ou discussões teóricas relacionadas ao tema do dossiê. Esperam-se contribuições oriundas da teoria, da história, da crítica e da historiografia da arte, bem como de áreas afins que estabeleçam diálogo consistente com a produção artística contemporânea. Ao reunir perspectivas provenientes de diferentes tradições intelectuais e experiências de pesquisa, esse dossiê pretende ampliar o debate sobre os sentidos históricos da contracultura e sobre sua permanência como categoria de análise para a compreensão da arte produzida entre a década de 1960 e os dias atuais.
Período de envios: 13/08/2026 – 25/10/2026
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