CENSURA, INFÂNCIA E REPRESENTATIVIDADE NEGRA NA LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA: DISPUTAS IDEOLÓGICAS EM TORNO DA OBRA AMORAS, DE EMICIDA

Autores/as

  • Marissol Ferreira Batista Cavalcanti Universidade Federal de Uberlândia - MG

Palabras clave:

Censura, Literatura infantil, Educação antirracista

Resumen

Este artigo analisa, à luz da Análise do Discurso de filiação pecheutiana, os sentidos produzidos em discursos de censura direcionados à obra de literatura infantil Amoras, de Emicida, focalizando episódios de cerceamento ocorridos no contexto educacional brasileiro. O corpus é constituído por postagens e materiais circulados em ambientes digitais, incluindo redes sociais e veículos jornalísticos, que, desde 2023, têm repercutido em debates escolares, especialmente quando a obra é indicada para compor acervos literários voltados à promoção da representatividade étnico-racial e à abordagem de temáticas africanas e afro-brasileiras, em consonância com a Lei nº 10.639/2003. A pesquisa adota abordagem qualitativa e mobiliza pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso pecheutiana, dialogando com contribuições de Orlandi, Althusser, Zilberman, Matos, Jorge, Juca, Menezes de Souza e Hashiguti, entre outros autores. A análise evidencia que os discursos de censura se articulam a formações discursivas de matriz conservadora, operando estratégias de deslegitimação de narrativas antirracistas e de apagamento simbólico da cultura afro-brasileira no espaço escolar. Discute-se, portanto, como tais processos produzem efeitos sobre as políticas de leitura, a liberdade de expressão e a formação de leitores críticos, ao tensionarem o acesso a obras literárias que problematizam questões étnico-raciais. Conclui-se que esses embates revelam disputas ideológicas mais amplas no campo educacional, contribuindo para a manutenção de barreiras sociais e para a reprodução de práticas de silenciamento no âmbito da literatura infantil.

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Publicado

12-02-2026