Da lâmpada à alavanca
por um inferencialismo e expressivismo periféricos
DOI:
https://doi.org/10.47456/sofia.v15i1.51834Palavras-chave:
expressivismo, inferencialismo, neopragmatismo, Wittgenstein, BrandomResumo
Este artigo propõe uma reformulação crítica do inferencialismo semântico e do expressivismo lógico a partir de uma perspectiva periférica. Argumenta-se que, para grupos submetidos a regimes de dominação racial, colonial e de gênero, a linguagem não deve ser concebida nem como espelho da realidade nem apenas como lâmpada que explicita normas já operantes nos jogos de linguagem. Tais regimes de dominação são analisados como formas de violência gramatical, entendidas como imposição de redes de inferências materiais que não só fixam o significado dos conceitos operantes em nossos jogos de linguagem, mas predam a gramática de uma forma de vida autóctone, porque redistribuem autoridade, valor, reconhecimento e exclusão. Conceitos como “raça” e “gênero” funcionam como eixos conceituais com grande densidade inferencial que naturalizam hierarquias sob aparência de neutralidade normativa. Distingue-se, então, o bootstrapping inferencial das alavancas gramaticais. O primeiro designa o processo de explicitação de regras enquanto se participa das práticas que lhes conferem significado. As alavancas gramaticais nomeiam intervenções situadas que identificam fulcros conceituais nessas redes inferenciais, e além de explicitá-los, mobilizam ação coletiva para deslocá-los. Discute-se ainda o aquilombamento normativo como forma histórica de consolidação coletiva de gramáticas alternativas. Exemplos como o Quilombo dos Palmares, a atuação de Malcolm X e dos Panteras Negras são analisados como disputas por soberania gramatical e autodeterminação normativa de grupos minorizados em jogos de linguagem supremacistas, e não como demandas de mera assimilação, integração ou ampliação de direitos civis.
Referências
ABRAMS, M. H. The mirror and the lamp: romantic theory and the critical tradition. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 12, n. 4, p. 527, 1953.
BRANDOM, Robert. Articulating reasons: an introduction to inferentialism. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2000.
BRANDOM, Robert. Between saying and doing: towards an analytic pragmatism. Oxford: Oxford University Press, 2008.
BRANDOM, Robert. Making it explicit: reasoning, representing, and discursive commitment. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1994.
FOGELIN, R. J. The logic of deep disagreements. Informal Logic, v. 7, 1985.
FISHER, Cynthia; JIN, Kyong-sun; SCOTT, Rose M. The developmental origins of syntactic bootstrapping. Topics in Cognitive Science, v. 12, n. 1, p. 48–77, 2020.
FULOP, Sean A. Semantic bootstrapping of type-logical grammar. Journal of Logic, Language and Information, v. 14, n. 1, p. 49–86, 2004.
LIDZ, Jeffrey. Learning, memory, and syntactic bootstrapping: a meditation. Topics in Cognitive Science, v. 12, n. 1, p. 78–90, 2020.
MOURA, Clóvis. Sociologia do Negro Brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 2019.
MOURA, Clóvis. Os quilombos e a rebelião negra. São Paulo: Editora Dandara, 2022.
NASCIMENTO, Beatriz. Uma história feita por mãos negras. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
PEREGRIN, Jaroslav. Inferentialism: why rules matter. London and New York: Routledge, 2014.
PRAXEDES, Fábio; SILVA, Marcos. Gaslighting como violência gramatical: uma leitura baseada na epistemologia Wittgensteiniana. Prometeus, v. 17, n. 47, 2025.
Rorty, Richard. Philosophy and the Mirror of Nature. Princeton University Press, 1979.
RORTY, Richard. Pragmatism as anti-authoritarianism. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2021.
SANTANA, Jefferson; SILVA, Marcos. Sobre democracia racial, violência gramatical e certezas fulcrais: como um mito se torna regra no imaginário brasileiro. ethic@, Florianópolis, v. 24, p. 1–32, ago. 2025.
SCHROEDER-HEISTER, Peter. Proof-theoretic semantics. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2024. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/proof-theoretic-semantics/. Acesso em: 10 jul. 2025.
SELLARS, Wilfrid. Empiricism and the philosophy of mind. Ed. Richard Rorty e Robert Brandom. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1997.
SILVA, M. Negación, incompatibilidades materiales y densidad inferencial: una lectura brandomiana del Wittgenstein mediano. Disputatio, v. 8, n. 9, p. 541–562, 2019. DOI: https://doi.org/10.63413/disputatio.150.
SILVA, Marcos. Satz als Bild und Satz als Maßstab: Sobre o desenvolvimento normativo de uma metáfora. Analytica - Revista de Filosofia, [S. l.], v. 25, n. 2, p. 84–102, 2023. DOI: 10.35920/1414-3004.2021v25n2-2p84-102.
SILVA, Marcos. Um Modelo Neopragmatista de Alavancagem Gramatical. Trans/Form/Ação: revista de filosofia da Unesp, Marília, v. 49, n. 1, e026003, 2026a.
SILVA, Marcos. A Espiral Normativa: Neopragmatismo na revisão da Lógica. Editora CLE Unicamp: Campinas, 2026b.
WITTGENSTEIN, L. Philosophical investigations. Oxford: Blackwell, 1953.
WITTGENSTEIN, Ludwig. On certainty. Ed. G. E. M. Anscombe e G. H. von Wright. San Francisco: Harper Torchbooks, 1969.
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Marcos Silva

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Dada a política de acesso público da revista, o uso dos textos publicados é gratuito, com a obrigação de reconhecer a autoria original e a primeira publicação nesta revista. Os autores das contribuições publicadas são inteiramente e exclusivamente responsáveis por seus conteúdos.
I Os autores autorizam a publicação do artigo nesta revista.
II Os autores garantem que a contribuição é original e assumem total responsabilidade pelo seu conteúdo em caso de impugnação por terceiros.
III Os autores garantem que a contribuição não está sob avaliação em outra revista.
IV Os autores mantêm os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, sendo o trabalho licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-BY.
V Os autores são autorizados e incentivados a divulgar e distribuir seu trabalho on-line após a publicação na revista.
VI Os autores dos trabalhos aprovados autorizam a revista a distribuir seu conteúdo, após a publicação, para reprodução em índices de conteúdo, bibliotecas virtuais e similares.
VII Os editores reservam o direito de fazer ajustes no texto e adequar o artigo às normas editoriais da revista.














