Chamada Dossiê A cultura material na Antiguidade: entre artefatos, monumentos e imagens
A cultura material, entendida como “um segmento do meio físico socialmente apropriado pelo homem” (Meneses, 1983, p. 112), constitui uma via privilegiada para compreender as formas de organização, os valores e as experiências das sociedades antigas. Objetos, construções e imagens participaram ativamente da vida social, mediando práticas cotidianas, relações de poder e modos de representação do mundo. No campo da psicologia social, destacou-se que a cultura material participa da formação do indivíduo e contribui para estabilizar sua identidade. Como os objetos possuem certa permanência física, funcionam como pontos de referência nas relações sociais e na construção do eu, por meio de sua posse, uso e exibição. Assim, analisar as interações entre indivíduos e objetos permite compreender aspectos da vida social frequentemente negligenciados pelas ciências sociais (Rede, 2012, p. 139).
De modo análogo, processos de monumentalização, expressos em construções fixas e duradouras, materializam projetos coletivos de memória e poder (Lefebvre, 1999, p. 46). As imagens, por sua vez, presentes tanto em pequenos objetos quanto em monumentos, aparecem em diferentes suportes, como mosaicos, esculturas, moedas ou pinturas, e devem ser compreendidas como artefatos visuais inseridos em contextos materiais de produção, circulação, apropriação e consumo. Sua interpretação exige considerar não apenas o que representam, mas também sua vida pregressa, os usos e recontextualizações que marcam suas trajetórias, bem como o suporte, o ângulo de observação e os programas visuais em que se inserem. Essa perspectiva evita reduzir a imagem à condição de documento ou representação, destacando seu papel como elemento ativo no cotidiano antigo, capaz de produzir efeitos, orientar percepções e participar da interação entre indivíduos e grupos (Meneses, 2012, p. 254-259; Elsner, 1997).
Diante dessas questões, este dossiê da Romanitas – Revista de Estudos Grecolatinos propõe reunir estudos que enfatizem a dimensão material das sociedades antigas, considerando diferentes suportes, usos e contextos, como artefatos, monumentos e imagens. Serão bem-vindas contribuições que explorem arquiteturas, paisagens construídas e representações visuais, bem como as abordagens teóricas e metodológicas mobilizadas em sua análise. O objetivo é promover o diálogo interdisciplinar e ampliar as reflexões sobre o papel da cultura material na vida cotidiana das sociedades antigas.
Referências
ELSNER, J. Art and the roman viewer: the transformation of art from the pagan world to christianity. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
LEFEBVRE, H. A revolução urbana. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.
MENESES, U. T. B D. História e imagem: iconografia/iconologia e além. In: CARDOSO, C. F.; VAINFAS, R. (org.). Novos domínios da história. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 143-162.
REDE, M. História e cultura material. In: CARDOSO, C. F.; VAINFAS, R. (org.). Novos domínios da história. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 133-150.
Prazo de envio dos originais: 31 de outubro de 2026.
Organizador: Edjalma Nepomoceno Pina






















