A história vista de baixo: o vanguardismo branco nas origens do SUS
DOI:
https://doi.org/10.22422/temporalis.2025v25n49p188-206Palavras-chave:
Dispositivo de racialidade, Movimento de Reforma Sanitária, SUS, BranquitudeResumo
O artigo discute a influência do dispositivo de racialidade na conformação do Movimento da Reforma Sanitária Brasileira (MRSB), embrião do SUS, analisando-o sob o prisma da “história vista de baixo”. Confluindo raça e classe, a pesquisa bibliográfica revisita os “sujeitos coletivos” nucleados ao MRSB, no contexto da distensão democrática, quando as falácias da democracia racial e da meritocracia não eram contestadas. Os achados revelam que o discurso de universalização da saúde foi conduzido por uma vanguarda branca, formada por entidades médicas e acadêmicas, cujos interesses corporativos, manifestos e implícitos, limitaram a participação de setores populares, especialmente da população negra. A compreensão das entranhas do SUS é relevante porque influenciou o desenho da política de saúde, um dos principais espaços socio-ocupacionais dos assistentes sociais, além de ser reconhecidamente racista pelo próprio Ministério da Saúde. Esses elementos oferecem subsídios para o combate ao racismo institucional, atualizando reflexões que podem potencializar um exercício profissional antirracista.
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