Chamada Dossiê A morte no mundo Antigo: ritos, narrativas e monumentos

05-05-2026

Ritualizada e dotada de profundo simbolismo, a morte operava, na Antiguidade, como um eixo central na construção da memória e na definição da identidade dos indivíduos e das coletividades. Desse modo, os rituais funerários, assim como os monumentos, inscrições e imagens associadas ao universo mortuário, atuavam como meios pelos quais a comunidade acompanhava e regulava a mudança de condição dos indivíduos (Júnior, 2005, p. 14). Nesse contexto, os ritos funerários, as narrativas míticas, os monumentos e edifícios dedicados aos mortos não apenas expressavam atitudes diante da finitude da existência, mas também evidenciavam valores, hierarquias e formas de pertencimento que estruturavam a maneira pela qual se compreendia e experienciava o cotidiano.

As imagens e inscrições reunidas nos espaços funerários, como, por exemplo, necrópoles e sepulturas, constituíam áreas densamente carregadas de laços culturais que uniam os falecidos à família e à comunidade política (Omena, 2018, p. 201-207). Além disso, os monumentos funerários desempenhavam um papel significativo na consagração do ambiente.

É importante salientar que as cerimônias funerárias constituíam manifestações de práticas culturais e religiosas diversas. Nesse sentido, o discurso fúnebre era ao mesmo tempo um instrumento de construção cívica e política (Loraux, 1986). A veneração aos mortos era interpretada, em primeiro lugar, como uma obrigação doméstica, sendo os rituais fúnebres uma expressão de refinamento social e de deferência aos ancestrais com o propósito de que estes assegurassem à família um estado de equilíbrio e de integridade moral (Macedo, 2009, p. 163). Contudo, ao observarmos as forças sobrenaturais atuantes nas cidades gregas, a exemplo dos heróis, percebe-se que as honras direcionadas aos falecidos não raro extrapolavam a esfera privada, de modo que, por meio de construções dedicadas a tais figuras, estruturavam-se relações socioculturais e políticas fundamentais para a compreensão do significado do sagrado no espaço cívico.

Tendo em vista estas considerações, o presente dossiê da Romanitas – Revista de Estudos Grecolatinos tem como objetivo congregar pesquisas dedicadas à análise da morte no mundo antigo com base em suas diversas manifestações, com especial atenção aos ritos, às narrativas e às expressões da cultura material. Pretende-se, assim, acolher estudos que abordem práticas funerárias, produções literárias e imagéticas, configurações dos espaços funerários, dinâmicas de monumentalização, bem como como reflexões teóricas acerca da experiência da morte nas sociedades antigas.

Referências:

GIACOIA J., O. A visão da morte ao longo do tempo. Medicina, n. 1, v. 38, p. 13-19, 2005.

MACEDO, K. A. Os gregos e a morte: instituições funerárias e práticas sociais na pólis ateniense. In: CERQUEIRA, F. V.; SELVATICI, M. (org.). Religião e poder do mundo antigo ao moderno: ensaios acadêmicos. Pelotas: LEPAARQ/UFPel, 2009, p. 161-180.

OMENA, L. M. de. As tessituras da morte: reflexões sobre a necrópole de ‘Isola Sacra’. In: SILVA, G. V.; SILVA, E. C. M.; LIMA NETO, B. M. (org.). Usos do espaço no mundo antigo. Vitória: GM Editora, 2018, p. 190-218.

LORAUX, N. L’invention d’Athènes: histoire de l’oraison funèbre dans la “cité classique”. Paris: EHESS, 1986.

 

 

Prazo de envio dos originais: 01 abril de 2027

Organizadora: Camila Sartório Sfalsin