Entre o claustro e a ágora: tensões estruturais e a potência política da extensão universitária em História Antiga na disputa dos usos do passado
DOI:
https://doi.org/10.30712/41887b87Palavras-chave:
Extensão universitária, Ensino de História Antiga, História Pública, Recepção dos Clássicos, Usos do passadoResumo
A universidade brasileira contemporânea opera sob a égide constitucional da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Contudo, a materialidade cotidiana das instituições de ensino superior revela uma assimetria persistente nesse tripé. Este artigo analisa criticamente a posição periférica da extensão universitária no campo da História no Brasil, com foco específico na História Antiga. A partir de uma análise sociológica do campo acadêmico, sustenta-se que a baixa institucionalização de práticas extensionistas não decorre de meras carências operacionais, mas de fatores estruturais: um sistema de distinção acadêmica centrado na produtividade bibliográfica, uma cultura disciplinar que historicamente divorciou a erudição da mediação pública e mecanismos de avaliação que penalizam o trabalho extensionista. Em contrapartida, argumenta-se que a extensão – compreendida não como divulgação segundo o "modelo do déficit", mas como interação dialógica e autoridade compartilhada – é condição de responsabilidade social e renovação epistemológica da disciplina. Fundamentado na teoria da consciência histórica, na História Pública e nos estudos de recepção, o trabalho propõe uma tipologia de práticas extensionistas e indicações programáticas para a História Antiga, visando disputar os usos públicos do passado e ampliar o letramento histórico em contextos de crise democrática e instrumentalização política da Antiguidade.
Downloads
Referências
ALMEIDA, F. A. A. Práticas extensionistas no Laboratório de História: saberes culturais e aprendizagem. Multitemas, n. 41, p. 7-17, 2012.
ALMEIDA, J. R.; RODRIGUES, R. R. (org.). História Pública em Movimento. São Paulo: Letra e Voz, 2021.
AMORIM, E. O. Ensino de História: como a extensão universitária potencializa a formação profissional. Revista História Hoje, v. 6, n. 12, p. 172-190, 2017.
ASSIS, A. A. A teoria da história de Jörn Rüsen: uma introdução. Goiânia: Ed. UFG, 2010.
BARROS, J. D’A. História digital: a historiografia diante dos recursos e demandas de um novo tempo. São Paulo: Editora Vozes, 2022.
BOSHER, K. et al. (ed.). Oxford Handbook of Greek Drama in the Americas. Oxford: Oxford University Press, 2015.
BOURDIEU, P. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. Tradução de Denice Barbara Catani. São Paulo: Ed. UNESP, 2004.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 2018. Estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 dez. 2018.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 jun. 2014.
BRIDGES, E. Public engagement with Classics research in the UK: a survey. Council of University Classical Departments Bulletin, v. 48, p. 1-25, 2019.
CAIMI, F. E. Geração Homo zappiens na escola: os novos suportes de informação e a aprendizagem histórica. In: MAGALHÃES, M.; ROCHA, H.; RIBEIRO, J. F.; CIAMBARELLA, A. (org.). O ensino de história em questão: cultura histórica, usos do passado. Rio de Janeiro: FGV, 2015.
CERRI, L. F. Didática da História: uma leitura teórica sobre a História na prática. Revista de História Regional, v. 15, n. 2, p. 264-278, 2010.
CERTEAU, M. de. A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
CLASSICS FOR ALL. Impact Report 2024. London: Classics for All, 2024.
COELHO, G. C. Revistas acadêmicas de extensão universitária no Brasil. Revista Brasileira de Extensão Universitária, v. 5, n. 2, p. 69-75, 2014.
COSTA, A. L. A extensão na formação de profissionais de história. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 30, n. 60, p. 35-53, 2010.
CUNHA, M. D. R.; SUBTIL, B. M.; POLIDORO, F. C. Educação popular e consciência histórica: a crítica ao eurocentrismo como estratégia de ensino no ambiente escolar capixaba. Revista Maracanan, n. 39, p. 1-32, 2025.
FERREIRA DA SILVA, D. A História Pública e seus quatro pilares em perspectivas aos novos historiadores: combates e narrativas sobre o profissionalismo e a prática de se fazer história. Faces da História, v. 11, n. 2, p. 241-260, 2024.
FERREIRA, R. O cinema na história pública: balanço do cenário brasileiro (2011-2015). In: GOBBI, M. C.; KERBAUY, M. (org.). Televisão Digital: informação e conhecimento. São Paulo: Editora UNESP; Cultura Acadêmica, 2010.
FREIRE, P. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.
FRISCH, M. A história pública não é uma via de mão única. In: MAUAD, A. M.; ALMEIDA, J. R.; SANTHIAGO, R. (org.). História pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo: Letra e Voz, 2016. p. 57-69.
FRONZA, M. Consciência histórica, consciência moral em relação com a natureza para uma didática humanista da História em Jörn Rüsen. MÉTIS – história & cultura, v. 19, n. 38, p. 81-97, 2020.
GOULART, R. S. Questões e caminhos para uma história pública no Brasil. Esboços, v. 27, n. 45, p. 338-345, 2020.
GRANADO, H. R.; FRANÇA, C. S. (org.). Quando o passado grita e a História chama: a História Pública em foco. São Paulo: Pedro & João Editores, 2025.
HARDWICK, L. Reception studies. Oxford: Oxford University Press, 2003.
HARTOG, F. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
IMPERATORE, S. L. B.; PEDDE, V.; IMPERATORE, J. L. R. Curricularizar a extensão ou extensionalizar o currículo? aportes teóricos e práticas de integração curricular da extensão ante a estratégia 12.7 do PNE. In: Colóquio Internacional de Gestão Universitária – CIGU, 15., 2015. Anais... Florianópolis: UFSC, 2015.
JEZINE, E. M. Multiversidade e Extensão Universitária. Participação, v. 5, n. 10, p. 13-21, 2001.
KOGLIN, T. S. S.; KOGLIN, J. C. O. A Importância da Extensão nas Universidades Brasileiras e a Transição do Reconhecimento ao Descaso. Revista Brasileira de Extensão Universitária, v. 10, n. 2, p. 71-78, 2019.
KORMIKIARI, M. C. et al. Ancient history, the Brazilian way. Pesquisa FAPESP, v. 171, 2010.
LAIRD, A.; MILLER, N. (ed.). Antiquities and Classical Traditions in Latin America. Oxford: Wiley-Blackwell, 2018.
LOPES, L. C. Cavalos que choram: cantos XVI e XVII da Ilíada e(m) registros de João Guimarães Rosa. Nuntius Antiquus, v. 15, n. 2, p. 103-122, 2019.
MALERBA, J. Os historiadores e seus públicos: desafios ao conhecimento histórico na era digital. Revista Brasileira de História, v. 37, p. 135-154, 2017.
MARTINDALE, C. Introduction: Thinking Through Reception. In: MARTINDALE, C.; THOMAS, R. F. (ed.). Classics and the Uses of Reception. Malden: Blackwell, 2006, p. 1-13.
MARTINDALE, C. Redeeming the text: Latin poetry and the hermeneutics of reception. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
MAUAD, A. M.; ALMEIDA, J. R. de; SANTHIAGO, R. (org.). História pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo: Letra e Voz, 2016.
MOERBECK, G. G. Em defesa do ensino da História Antiga nas escolas contemporâneas: Base Nacional Curricular Comum, usos do passado e pedagogia decolonial. Brathair, v. 1, n. 21, p. 50-91, 2021.
MONTEIRO, A. M. Professores de História: entre saberes e práticas. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009.
MORAIS, M. R.; SADDI, R. A teoria da história de Jörn Rüsen no Brasil e seus principais comentadores. Revista História Hoje, v. 4, n. 8, p. 224-246, 2015.
MORALES, F. Os limites de Global Classics. Fronteiras: Revista Catarinense de História, n. 40, p. 240-249, 2022.
MORLEY, N. Classics and the Modern World. Oxford: Oxford University Press, 2009.
NIKOLOUTSOS, K.; GONÇALVES, R. T. Classical tradition in Brazil: translation, rewriting, and reception. Caletroscópio, v. 6, n. 1, p. 11-20, 2018.
PAPATHANASOPOULOU, N. Ancient Worlds, Modern Communities: Making Personal Experiences Part of the Study of the Ancient World. Society for Classical Studies, 9 apr. 2020.
PAPPA, E. Tropicalismo in classics. Contemporary Brazilian approaches to the value of classical antiquity in research and education. Journal of Critical Education Policy Studies, v. 18, n. 2, p. 358-408, 2020.
REIS, A. S. C.; SILVA, J. P. Consciência histórica e representações sociais: um estudo acerca das percepções de jovens estudantes sobre o Brasil. Educação e Pesquisa, v. 47, e226702, 2021.
ROSENSTONE, R. A. A história nos filmes, os filmes na história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
ROVAI, M. Publicizar sem simplificar: o historiador como mediador ético. In: ALMEIDA, J. R.; MENESES, S. (org.). História Pública em debate: patrimônio, educação e mediações do passado. São Paulo: Letra e Voz, 2018.
RÜSEN, J. Jörn Rüsen e o ensino de História. Organizado por Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca e Estevão de Rezende Martins. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.
RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da História: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Ed. UnB, 2001.
RÜSEN, Jörn. El libro de texto ideal: reflexiones en torno a los medios para guiar les clases de historia. Revista Nuevas Fronteras de la Historia, año IV, n. 12, p. 79-93, 1997.
SANO, L. Recepção clássica no Brasil: entre o local, o universal e o global. Nuntius Antiquus, v. 20, n. 1, p. 1-35, 2024.
SANTHIAGO, R. Duas palavras, muitos significados: alguns comentários sobre a história pública no Brasil. In: MAUAD, A. M.; ALMEIDA, J. R.; SANTHIAGO, R. (org.). História pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo: Letra e Voz, 2016, p. 23-35.
SILVA, E. P.; GRIPA, S.; SANTOS, J. D. S. Extensão universitária: análise histórica a partir da legislação educacional. Ponto de Vista Jurídico, v. 11, n. 2, p. 162-169, 2022.
SILVA, G. J. Historicidade, memória e escrita da História: Augusto e o ’culto della romanità’ durante o ’ventennio’ fascista. Romanitas - Revista de Estudos Grecolatinos, n. 12, p. 142-163, 2018.
UNIVERSITY OF WARWICK. Public Engagement in Classics. Coventry: University of Warwick, 2021.
WINKLER, M. M. (org.). Classical myth and culture in the cinema. Oxford: Oxford University Press, 2001.
ZUCKERBERG, D. Not All Dead White Men: Classics and Misogyny in the Digital Age. Cambridge: Harvard University Press, 2018.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Revista Guará

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
A Revista Guará adota a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), segundo a qual os autores mantêm os direitos autorais sobre seus trabalhos submetidos e publicados na revista.
Os autores são responsáveis por declarar que o manuscrito submetido é original, que não foi publicado anteriormente e que não está em processo de avaliação simultânea em outro periódico. Após a submissão, os manuscritos passam por processo de avaliação por pares.
Ao submeter o manuscrito, os autores concedem à Revista Guará o direito de primeira publicação, permanecendo livres para estabelecer acordos adicionais de distribuição não exclusiva da versão publicada (por exemplo, em repositórios institucionais, páginas pessoais ou como parte de obras futuras), desde que seja devidamente reconhecida a autoria e a publicação original na revista.
A Revista Guará incentiva a disseminação ampla dos trabalhos publicados, incluindo sua disponibilização em repositórios institucionais e outras plataformas, como forma de ampliar a visibilidade e o impacto da produção científica.
De acordo com a licença CC BY 4.0, os usuários têm o direito de:
- Compartilhar — copiar e redistribuir o material em qualquer meio ou formato;
- Adaptar — remixar, transformar e criar a partir do material para qualquer finalidade, inclusive comercial.
Esses direitos são irrevogáveis, desde que sejam respeitados os seguintes termos:
- Atribuição — deve ser concedido o devido crédito aos autores, fornecido o link para a licença e indicada a realização de eventuais modificações. A atribuição deve ser feita de maneira razoável, sem sugerir apoio ou endosso por parte dos autores ou da revista ao uso realizado.
A licença não impõe restrições adicionais ao uso do material, não sendo permitido aplicar termos legais ou medidas tecnológicas que limitem os direitos concedidos pela licença.