Silvia Neves SALAZAR
Universidade Federal do
Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas,
Departamento de Serviço
Social e Programa de Pós-Graduação em Política Social, Vitória, ES, Brasil
e-mail: silvia.salazar@ufes.br
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Argumentum inovou ao
longo de 2025 e apresenta o volume 17 em fluxo contínuo. Essa mudança é parte
de um conjunto de outras adequações realizadas ao longo de seus 16 anos de
existência. Além do fluxo contínuo, a revista também alterou sua comissão
editorial e editora gerente. Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e
Inovação do Espírito Santo (FAPES), agregamos uma profissional para cuidar das
mídias sociais da Argumentum. Assim, esse conjunto de
ações resultou em crescimento no acesso de leitores/as – alcançando mais de 27
mil acessos em setembro do corrente ano. E isso foi resultado de um trabalho
coletivo e de qualificação da Argumentum.
Nesta direção, o volume
17 reúne um conjunto de 22 artigos originais, e 2 resenhas que tratam, de forma
crítica, o atual contexto da sociabilidade do capital, temas diversos
relacionados aos eixos Política Social, Estado e Sociedade. Cada artigo, a seu
modo, explora os desafios e contradições impostos pelas relações sociais
capitalistas, e as lutas sociais por direitos, na perspectiva da consolidação
das políticas sociais.
Ao articular reflexões
que perpassam discussões sobre política de saúde, assistência social, processo
de envelhecimento, direitos humanos e direitos da criança e do adolescente,
luta antirracista, combate a tortura, assim como reflexões que atravessam o debate
sobre os fundamentos teórico-metodológicos e éticos do Serviço Social
brasileiro, os textos oferecem um mosaico de análises críticas sobre como
diferentes autores trazem importantes reflexões importantes sobre os dilemas da
sociedade contemporânea. Em A universalidade na saúde digital: digitalização
e dataficação no SUS, as
autoras analisam como a universalidade é tratada na Estratégia de Saúde
Digital (ESD28) do Brasil, demonstrando como a desigualdade digital, as
fragilidades da infraestrutura e da interoperabilidade no Sistema Único de
Saúde no Brasil constrangem a universalidade do sistema público de saúde. O
artigo: A condição dos benefícios
eventuais na Política de Assistência Social: alguns apontamentos, demonstra como os
benefícios eventuais na
Política de Assistência
Social apresentam uma série de
entraves relacionados à
definição, regulamentação e
ao financiamento na concretização
do direito socioassistencial. Ambos os artigos apontam como o neoliberalismo
consolidou um ideário político-econômico que preconiza a redução do papel do
Estado, com graves implicações no campo da garantia dos direitos sociais. O
artigo Samba: símbolo da cultura
nacional?
traz reflexões sobre o samba, desmistificando-o como gênero musical símbolo da
cultura nacional, e não como cultura afro-brasileira. Nesta direção, o texto
problematiza como tal processo colabora para o apagamento das referências da
cultura africana reinventada no Brasil, contribuindo dessa forma, para o mito
da democracia racial no país. Ainda nesta linha, o artigo Determinações de
classe, raça e sexo no sistema prisional sergipano reflete sobre o
crescimento de mulheres aprisionadas no estado, com encarceramento em massa e superlotação no presídio feminino.
No artigo, Imigração brasileira em
Portugal: Estado e relações de poder, fruto de pesquisa do doutorado,
encontramos uma analisa da relação entre imigração e os mecanismos do poder
estatal. Nesse mesmo eixo de análise, o artigo Direitos humanos e dependência
no período Pós-Independência em Moçambique, descreve a dialética do
desenvolvimento de direitos humanos em países periféricos, com base na Teoria
do Sistema-Mundo, e demarca os direitos humanos em Moçambique no período
pós-independência (1975). Outra temática relevante no atual contexto, está expressa
no artigo: Processo de envelhecimento e
desafios para o mercado de trabalho no Brasil. Aqui a/o
leitor/a encontra reflexões sobre os índices de inserção de pessoas idosas no
mercado de trabalho brasileiro, e os desafios de envelhecer nesta sociedade
capitalista.
No debate sobre os
fundamentos do Serviço Social brasileiro encontramos importantes contribuições
nos artigos: Fundamentos do Serviço Social:
análise do debate presente no XVII ENPESS, que situa três tendências principais
presentes no debate dos fundamentos, problematizando a pouca produção
sobre o tema, situando a necessidade do avanço das pesquisas nesta temática, e
seus desafios. No artigo: Ética profissional e os
labirintos da precarização: desafios e resistências no trabalho de assistentes
sociais,
analisa
a ética profissional de assistentes sociais frente à precarização do trabalho,
com base em pesquisa realizada com 168 profissionais no Rio Grande do Sul. O
texto traz reflexões importantes na relação entre o atual contexto de
precarização do trabalho e a materialização do projeto ético-político do
Serviço Social brasileiro. No artigo, Aspectos epistemológicos e
históricos da luta antirracista na educação brasileira, busca analisar o
processo histórico-normativo de resistência do movimento negro pela luta
antirracista, por meio das disputas epistemológicas e das tensões existentes na
elaboração e implementação das políticas educacionais. Onde são
apontadas estratégias no campo da educação para o enfrentamento do racismo.
Já com debates que
trazem como pano de fundo o governo Bolsonaro, temos dois artigos. Um
intitulado Polarização política nas
eleições presidenciáveis (2018 e 2022): o Nordeste e os “outros”, com reflexões de narrativas que
analisam os discursos sobre a migração nordestina durante as eleições
presidenciais de 2018 e 2022. O artigo revela que a percepção do Nordeste é
simbólica, marcada por estereótipos que reforçam desigualdades e preconceitos. O outro artigo,
sobre Pacote anticrime e política de
drogas no Brasil no governo Bolsonaro, a autora discute as medidas tomadas pelo governo Bolsonaro, a partir do
Pacote Anticrime e
da Lei nº
13.840, de 5
de junho de
2019, que institui
a Nova Política
Nacional sobre Drogas. O artigo reflete sobre os
desdobramentos destas medidas, que irão justificar a flexibilização de direitos
fundamentais. Já no artigo, Combate à tortura e Serviço Social:
aproximações ao debate as/os autores
problematizam a relação do Serviço Social brasileiro com a política de
prevenção e combate à tortura no Brasil, abordando o papel relevante que o
Serviço Social desenvolve, em diversas instituições de privação de liberdade.
O artigo: Gramsci e Serviço Social: a
filologia como método de estudos busca resgatar
as diversas propostas
metodológicas de estudo
e interpretação dos Cadernos do Cárcere, e a relação com os
estudos do Serviço Social brasileiro, onde o autor aponta importantes e novas
pesquisas nesta direção. No artigo, Foucauldian contributions
on racism: parallels between Indigenous soldiers from the
United States and Brazil, as autoras buscam
analisar a participação de indígenas nas Forças Armadas (FA) estadunidense e
brasileira, na qualidade de profissional militar, a partir da perceptiva
foucaultiana sobre o racismo. Como resultado central da pesquisa o estudo traz
reflexões sobre o racismo biológico.
Outro artigo sobre o
financiamento das políticas públicas, particularmente na área do esporte
intitulando-se: A nova matriz de financiamento
público federal do esporte no Brasil pós-Jogos Rio 2016, traz reflexões de como
o fundo público tem papel relevante para a manutenção do capitalismo, inclusive
através das políticas esportivas. No artigo, Direitos da criança e do
adolescente na interface do racismo, o/a leitor/a encontra reflexões sobre o
racismo e o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes. O texto
aponta possibilidades de resistência diante de um sistema protetivo,
desenvolvido em uma sociabilidade racista. No artigo: PEC das domésticas 10 anos
depois (2013-2023) aborda
como a Emenda Constitucional 72/2013 criada para equiparar os direitos
trabalhistas das empregadas domésticas, indicam entretanto, que a taxa
de informalidade cresceu, havendo
aumento expressivo das trabalhadoras sem
carteira de trabalho assinada e sem proteção previdenciária. Outro
artigo que trata sobre o envelhecimento e velhice, intitulado: Envelhecimento e dependência no
Brasil: os imbricamentos de classe, “raça”/etnia e gênero, traz contribuições
para o debate de como a produção social da velhice se encontra na materialidade
da vida de
homens e mulheres, e problematiza como tal processo,
na sociedade capitalista, ganha complexas determinações.
Como um periódico que
sistematicamente vem publicando produções da área da saúde mental este número
mantém a tradição, ofertando 2 textos. Um se propõe a Revisão do estado da arte do
financiamento em saúde mental no Brasil, se debruçando sobre o
estado atual da produção científica do financiamento da saúde mental no Brasil,
no período de 2002 a 2024. E o artigo: As Comunidades Terapêuticas na
V Conferência Nacional de Saúde Mental traz reflexões sobre as
deliberações na V CNSM quanto ao fechamento e extinção do financiamento público
para as Comunidades Terapêuticas, revelando a importância do fortalecimento e
resgate das lutas sociais na defesa da saúde pública brasileira. Estes são
debates que reafirmam a luta antimanicomial e a luta contra o subfinanciamento
da saúde mental.
Por fim, este número
fecha os artigos originais com o texto Formas do capital, riqueza fictícia e
exteriorização das crises capitalistas recentes, que identifica, a
partir das formas funcionais do capital e de seus processos de autonomização,
em especial do capital fictício de Marx (1985), as características e
particularidades da riqueza e das crises capitalistas recentes. Além de expor a
constituição das formas do capital, os autores dialogam com alguns indicadores
que sinalizam para as expressões das crises capitalistas verificadas em fins do
século XX e início do século XXI.
A seção resenha
apresenta duas contribuições. Uma resenha do livro de João Cezar de Castro
Rocha, de 2023, intitulado Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo
doméstico: retórica do ódio e dissonância cognitiva coletiva, que trata
sobre os perigos dessa guerra cultural e do terrorismo doméstico,
consolidando a face desumana e de ódio no cenário político brasileiro
pós-Bolsonaro. A outra resenha, é referente ao livro de Domênico De Masi,
intitulado: O mundo ainda é jovem: conversa
sobre o futuro próximo com Maria Serena Palieri. Apesar de tratar que
este é o melhor dos mundos até hoje, De Masi ao final do livro ressalta sobre
os riscos do neofascismo, e da existência de novas ameaças da extrema-direita e
dos autoritarismos espalhados pelo mundo. Nestes termos, a resenha enseja
pertinentes reflexões sobre a realidade contemporânea com seus limites e
possibilidades.
Neste rico processo de
produção do conhecimento, através da leitura de diversos artigos que expressam
a perspectiva crítica na análise dos fenômenos concretos da realidade
contemporânea, os artigos nesta edição de 2025 proporcionam diversas interações
no campo das Ciências Humanas e das Ciências Sociais Aplicadas. Neste sentido,
convidamos você a percorrer essas reflexões que articulam com direcionamento
ético e análise crítica, um quadro instigante sobre pesquisas e reflexões sobre
as políticas sociais, os direitos e as lutas sociais no contexto da
sociabilidade capitalista.
Ao concluirmos este
ciclo, expressamos nossos sinceros votos de um feliz e próspero Ano
Novo a todas/os as/os nossas/os leitoras/es, colaboradoras/es, autores
e revisoras/es. Que o ano de 2026 seja de inspirações potentes, na
direção da produção de conhecimento que contribua para mitigar as
desigualdades sociais e construir relações mais justas e
democráticas na sociedade contemporânea. Que as pesquisas se transformem em
ferramentas de transformação social em sintonia com as demandas da
classe trabalhadora!
Um abraço afetuoso! E
esperamos tê-las/os conosco em nossas próximas edições!
Silvia Neves
Salazar – Editora Chefe
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